Domínio Público


Tem coisas que é bom a gente nunca esquecer

O Fantástico Mundo de Marco Aurélio Cunha
17 Março, 2008, 8:45 pm
Arquivado em: Campeonato Paulista, Choro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Ouvindo neste fim de semana o superintendente de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, reclamar pela enésima vez da arbitragem e das supostas perseguições sofridas pelo seu clube, me veio imediatamente à cabeça uma imagem da minha infância: o desenho animado “O Fantástico Mundo de Bobby”.

Imediatamente imaginei a figura barbuda e de baixa estatura de Marco Aurélio Cunha pedalando um triciclo enlouquecidamente pelos corredores do Morumbi, enquanto imagina conspirações de arbitragens e compila dados sobre há quantos jogos sua equipe não tem um pênalti marcado a seu favor.

Justo o São Paulo, que sempre se vangloriou da alta rotatividade da sua direção, da maneira profissional e serena que seus cartolas administram o clube. Justo o Marco Aurélio Cunha, que foi a imagem da seriedade e do planejamento no futebol. Os dois, o São Paulo e o Marco Aurélio, estão deixando a peteca cair e, em vez de correr para evitar que ela toque o chão, ficam esperneando e falando mais que a boca, o que não ajuda em nada o time do Morumbi.

O Marco Aurélio Cunha, que já foi considerado um cara ponderado, deve ter se assustado em cima de seu triciclo quando soube que, enquanto ele esperneava sem nenhuma razão contra a arbitragem após a goleada sofrida diante do Palmeiras, um indignado Deva Pascovicci, narrador da CBN, afirmava que “o que esse senhor fala não é mais relevante para mim” no ar.

Marco Aurélio Cunha chora, como Bobby choraria se lhe tirassem o triciclo. Um homem barbado, médico e parece o mais ignorante dos torcedores de arquibancada ao analisar uma partida. Não importa o que aconteceu, para ele todas as derrotas são-paulinas foram injustas.

Chegou a evocar a “moralidade no futebol” ao pedir a cabeça de Sálvio Spíndola após o empate com o Corinthians e a anulação de um gol de Adriano. O lance, em que o “imperador” disputa bola com William, foi tão difícil e discutível que chegou-se a recorrer às leis da física para embasar argumentos tanto para um lado quanto para outro. Mas não para Marco Aurélio Cunha, que imediatamente acusou o árbitro de perseguir sua equipe e questionou a honestidade do homem de preto.

Questionou sim. Ora, se ele “persegue” o Tricolor, ele tem que, para executar essa perseguição, prejudicar deliberadamente o time do Morumbi. Se ele o faz, então é desonesto. Eu não sou Sálvio Spinola, mas se fosse processaria o cartola.

Faltou ao outrora ponderado supervisor tricolor dizer que a partida foi igual, que seu time não esmagou o Corinthians como a lógica, se ela existisse no futebol, exigiria, já que estamos falando de um time recém-consagrado bicampeão brasileiro diante de uma equipe recém-rebaixada à segunda divisão.

No clássico de domingo, a mesma coisa. Marco Aurélio pedalou para valer em seu triciclo e esqueceu-se de olhar a partida. Três pênaltis escandalosos cometidos por seus jogadores, um deles absolutamente infantil cometido por Junior e um árbitro que teve coragem de aplicar a regra e anotar três penalidades máximas existentes contra uma equipe.

O resumo da goleada para Marco Aurélio? O São Paulo prejudicado mais uma vez, afinal, onde já se viu marcar três pênaltis em tão curto espaço de tempo! Além disso, um suposto pênalti em Adriano que, na hora, só ele viu (eu confesso que ainda estou procurando) e uma agressão do atacante Kleber contra o zagueiro André Dias, que na hora nem a TV mostrou e só a imagem mais tarde recuperada deu a idéia da deslealdade do jogador alviverde.

Esquece-se convenientemente o Marco Aurélio Cunha que o Santos também reclamou de erros da arbitragem na derrota para o São Paulo.

Falta memória a esse senhor, que certamente fará campanha por severa punição a Kleber, para lembrar que Adriano tentou sim agredir Domingos no clássico San-São e que só não acertou uma cabeçada em cheio no zagueiro santista porque esse último desviou. E o que aconteceu no tribunal, hein Marco Aurélio? Dois joguinhos só de suspensão para “a principal contratação do futebol brasileiro nesta temporada”.

Esquece no alto de seu triciclo o “perseguido pelas arbitragens” que na partida entre São Paulo e Paraná Clube no Brasileiro do ano passado, a equipe curitibana teve negada uma vitória após ver anulado um gol legítimo em que seu ataque “enganou” a linha de impedimento tricolor. Basta lembrar, Marco Aurélio, que, se tivesse conseguido esses três pontos, o Paraná poderia ter evitado o rebaixamento, por exemplo.

Mas o “x” da questão não é só Marco Aurélio Cunha e seu mundo particular onde, se o São Paulo perde, há injustiça. Basta ver as mil razões que a própria imprensa arrumou para justificar a derrota tricolor diante da Portuguesa, jogo em que os atuais campeões nacionais não viram a cor da bola.

Disseram que o time estava cansado e esqueceram-se de lembrar que a temporada só está em seu segundo mês e que a longa viagem que o São Paulo fez no meio de semana pré-clássico foi ao seu Morumbi para receber o frágil e vulnerável Audax Italiano.

Alegaram o alto número de desfalques, mas esqueceram que Rogério Ceni, Miranda, Jorge Wágner, Adriano, Hernanes e companhia estavam em campo. Carlos Alberto estava à disposição e somente Richarlyson (suspenso) e Dagoberto (machucado) de fato desfalcavam o time. Esse argumento, aliás, é tão frágil e ridículo que, se verdadeiro, significa que a Lusa tem elenco melhor que o Tricolor.

Significa, senhoras e senhores, que Christian é melhor que Adriano, que Rogério é mais atacante que Borges, que Carlos Alberto é melhor volante que Hernanes e que Preto é melhor meio-campista que Jorge Wágner. Esqueceram de dizer que a Lusa estava sem seu melhor jogador, o jovem Diogo, machucado desde o início da competição, e sem poder atuar em seu estádio, o Canindé, onde os adversários sempre reconhecem ser difícil bater a rubro-verde.

Portanto, senhor Marco Aurélio Cunha, desça do alto de seu triciclo e admita que o planejamento, palavra da qual o São Paulo tanto usa e se gaba de ter, foi mal feito. Um monte de apostas incertas que vão embora no meio do ano e a crença que o Reffis –sigla para Reabilitação Esportiva Fisioterápica e Fisiológica—era na verdade o Reformatório de Ex-Craques Desajustados.

O primeiro passo você mesmo já deu, Marco Aurélio, quando disse à ESPN Brasil que “não creio que vamos ganhar” a Libertadores. Foi um bom primeiro passo, mas ainda falta muita humildade para descer desse triciclo e cair na real.



E tudo acabou em calorosos abraços
11 Março, 2008, 11:33 pm
Arquivado em: América Latina, Chávez, Eduardo Simões, Farc, guerra, internacional

Por Eduardo Simões 

Palhaçada. É o mínimo que dá para dizer sobre o pastelão mexicano de uma semana armado por Chávez, Uribe, Correa e Ortega. Começaram a quebrar o pau verbalmente no sábado. Acusações aparentemente duras como “terrorista”, “mentiroso” e “boneco do imperialismo”, que não se espera num diálogo entre chefes de Estado, ganharam contornos infantis, como se aqueles marmanjos tivessem se xingado de “feio”, “bobo”, “chato” e “cara de fuinha”.

Que fique claro que este que vos escreve não estava animado com o cheiro de “sangre hermano” que ameaçava começar a pairar no ar. Basta ver meu post anterior, eu nunca achei que “as trombetas da guerra”, como disse Fidel, fossem soar por estas bandas. Mas venhamos e convenhamos que o desfecho desta crise mostra bem o caráter do típico líder latino-americano. Verborrágico, canastrão e viciado em holofotes e frases de efeito.

Basta dizer que, minutos antes do gesto quase bipolar de Correa de dar a questão por encerrada, ele e seu colega colombiano usaram palavras duras e ironias durante uma aparentemente pesada sessão de ataques pessoais. O presidente equatoriano, em tom de chacota, chegou a alertar o anfitrião da reunião do Grupo do Rio, o presidente dominicano Leonel Fernández, que se, por um acaso, Uribe suspeitasse que há membros das Farc em terras dominicanas, ele não hesitaria em bombardear o país.

Uribe respondeu dizendo que contaria com o apoio de Santo Domingo na caça aos guerrilheiros, o que não ocorreu com o governo de Correa em mais uma acusação de que o Equador apóia as Farc.

Todo esse duelo verbal, ameaça de processos internacionais, rompimento de relações diplomáticas e expulsão de embaixador para quê? Para tudo acabar na sexta-feira? Se um cara me chama de mentiroso e de assassino, ainda mais publicamente, eu vou querer que ele prove o que disse ou se retrate da mesma forma que fez a acusação: publicamente. Não esperar cinco minutos até que ele mude de idéia para então abraçá-lo e apertar sua mão.

Mas parece que no caso desses líderes latino-americanos o bacana é aparecer nos jornais, é ter a foto estampada no New York Times e no El Pais adornada por manchetes alarmistas prenunciando um conflito armado do lado de baixo da linha do Equador.

É por isso que eu concordo com quem fez o título da análise publicada no dia 11 de março pela Reuters: Chávez, o cão que ladra mas não morde. Correa, Uribe e Ortega podem se juntar a ele tranquilos.



Guerra sul-americana. Será?
3 Março, 2008, 11:38 pm
Arquivado em: Chávez, Eduardo Simões, Farc, guerra, internacional, política externa

Por Eduardo Simões 

Eu duvido. Duvido mesmo que o Chávez vá levar adiante essa história de briga com a Colômbia ao lado do Equador e duvido também que uma guerra nos países vizinhos seja iminente. Até agora, em se tratando de ameaças na seara da política externa, o homem de vermelho mais falou do que agiu efetivamente.

Quantas vezes já não o ouvimos prometer que não venderá seu precioso petróleo para o Império do Norte? Várias. E quantas vezes ele foi até o fim com a ameaça? Nenhuma.  Parece-me que o lance de Chávez aí é outro. Para ele é bacana dar uma desestabilizada na já instável Colômbia. Ele não gosta do Uribe e o Uribe não gosta dele, mas daí a falar em ações militares, guerra continental, é ir um pouco além da conta.

Na verdade a incursão de militares colombianos em território equatoriano –vejam bem, equatoriano, não venezuelano– deve ter sido comemorada com fogos de artifício por Chávez. Esse fato lhe deu a chance de apontar publicamente o dedo na cara do desafeto e dizer que seu governo violou uma lei internacional. E de fato violou. Não se entra com o Exército em território de outro país sem a devida autorização.

O incidente também lhe dá a chance de fazer barulho. Anunciar a retirada de embaixador, a expulsão de diplomatas, o deslocamento de tropas. Tudo jogo de cena. Quantas vezes o ex-pára-quedista já chamou seu embaixador de volta de algum lugar? Da Colômbia não é a primeira vez e me lembro bem de um entrevero com o Peru quando Chávez chamou o então candidato e hoje presidente Alan García, que tinha o apoio do governo vigente, de “ladrón, corrupto, sin verguenza”.

Chávez já brigou até com o Senado brasileiro. Se tivesse que apostar diria que sua retórica é mais destrutiva do que as aeronaves militares russas Sukhoi que adquiriu recentemente.

Além do mais, pensem nas conseqüências. O combate à guerrilha por parte do governo colombiano tem o apoio aberto e expressivo dos Estados Unidos. Mexer com a Colômbia seria mexer com o homem que, por enquanto, ainda dá as cartas em Washington.  Para um lado ou para o outro, a França também é parte interessada nessa história, afinal, a principal refém nas mãos das Farc tem cidadania francesa e o presidente deste país já veio para a América do Sul tratar do assunto pessoalmente. Basta dizer que o homem morto pelas forças colombianas na incursão ilegal ao Equador era o contato do governo francês nas negociações para a libertação da ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt.

Mas alguém pode dizer: “Pera lá, a coisa é séria. O Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia. É caso sério”. Ora, Bolívia e Chile também não mantêm relações diplomáticas formais entre si por causa da briga por uma saída para o mar no século retrasado. Isso não impediu encontros bastante amistosos entre o presidente boliviano Evo Morales e sua colega chilena Michelle Bachelet.

A única coisa que vejo nessa história toda que pode azedar o caldo e fazer a coisa ir além da retórica é esse documento que a Colômbia diz ter comprovando que Chávez mandou 300 milhões de dólares para as Farc. Isso pode tornar as coisas um pouco mais graves caso esse documento realmente exista. Se for fato não será a primeira rasteira que Chávez toma de Uribe. Basta lembrar o caso do menino Emanuel, filho concebido e parido pela política Clara Rojas quando era mantida refém pelas Farc. A guerrilha disse que tinha o garoto em seu poder, Chávez disse que conseguiria sua libertação e batizou a operação de resgate com o nome da criança. Mico total. A entrega não aconteceu na data combinada e Emanuel apareceu em um orfanato do governo colombiano.

Agora, essa é a briga do lobo contra o lobo ao quadrado. Uribe invadiu um país vizinho para caçar guerrilheiros que lutam contra o governo chefiado por ele. A pergunta difícil que vi pouca gente fazer é: o que guerrilheiros contrários ao governo colombiano estavam fazendo no Equador? Por que o governo equatoriano não demonstrou a mesma indignação com a presença de rebeldes que querem derrubar o governo de um país vizinho, com o qual tinha relações diplomáticas, em seu território? Por que não enviou os mesmos militares que agora vão fortalecer essa fronteira para combater essa presença?

E Chávez? Será que financiou mesmo um movimento armado em um país vizinho? O que ele fez para ser tão próximo das lideranças das Farc a ponto de fazer apelos públicos ao chefe da guerrilha? Por que se apressou em uma votação no Congresso venezuelano, comandado por ele, para retirar o status de “terrorista” de um grupo que seqüestra civis e os mantém sem tratamento médico adequado e acorrentados?



Mais uma…
3 Março, 2008, 10:55 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, Eleição norte-americana

…incontestável prova de que a eleição presidencial norte-americana é muito mais divertida que a brasileira.

http://br.youtube.com/watch?v=7iZ0Ae3gODk



Crédito fácil
21 Fevereiro, 2008, 2:52 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., economia

Por Gerson Freitas Jr. 

“Você pode estar me dando um segundinho da sua atenção?”, perguntou a menina que calças laranjas e colete verde limão em frente a uma financeira. Fugi, confesso, empurrado não apenas pela pressa de quem está sempre lutando por três minutos que reduzam o atraso, mas pelo medo de aliciamento. Alguns metros à frente outro guri colorido, mais direto, pergunta: “Crédito pessoal, moço?”

Fiquei com a sensação que há algo muito errado com tanta oferta de dinheiro “fácil”, nas calçadas, nos outdoors do metrô, nas páginas dos jornais e horários pagos da TV. Os números também deixam uma pulga atrás da orelha. O Banco Central divulgou há algumas semanas que, só no passado, os empréstimos pessoais cresceram 33%.

Alguém pode argumentar, com alguma dose de razão, que esse aumento se explica pela queda na taxa de juros (que obriga os bancos a procurarem outros clientes tão bons quanto o governo) e o aumento do emprego e da renda que resultam do “espetáculo do crescimento”. E concluir que nenhuma economia se desenvolve sem boa oferta de crédito.

Também é verdade que, no Brasil, ainda falta dinheiro para financiar seja a compra de um carro, seja o aumento da produção de uma fábrica. Ao todo, a oferta de crédito respondeu por 34,7% de todas as nossas riquezas em 2007. Apesar de ser o melhor resultado em 12 anos, ainda está longe da média mundial, que gira em torno de 100%.

Portanto, o crescimento dos empréstimos é, a princípio, uma notícia positiva. Os problemas surgem quando a destrinchamos em pelo menos dois aspectos. O primeiro: o salário do trabalhador, que é baixo, não cresce no mesmo passo de seu endividamento. Pelo contrário, sua renda média caiu, descontada a inflação, 4,9% entre o segundo semestre de 2002 e os últimos seis meses do ano passado, segundo o IBGE. O segundo e mais importante: de acordo com a Anefac, a taxa de juros média para a pessoa física em dezembro foi de inescrupulosos 129,81% ao ano. No limite, portanto, o consumidor chega a pagar duas vezes o produto adquirido – diferença que fica com o sistema financeiro.

Logo, a expansão do consumo – principal responsável pelo crescimento do PIB no ano passado – está se dando à custa de uma brutal transferência de renda das famílias e do governo (via desconto para o pagamento de crédito consignado para funcionários públicos e aposentados) para o cofre dos bancos – o que ajuda a explicar seus lucros recordes no ano passado. É dinheiro migrando do consumo e do investimento para o pagamento de juros, o que resume a anemia econômica brasileira.

Por isso, quando uma menina sorridente em trajes coloridos de alguma financeira lhe pedir “um segundinho da sua atenção”, lembre-se: elas sempre querem algo mais.



Como calar a “garganta profunda” virtual
19 Fevereiro, 2008, 1:51 am
Arquivado em: Daniela Moreira, Uncategorized | Etiquetas: , , ,

Por Daniela Moreira

O título não se refere a um site pornográfico censurado. Trata-se do Wikileaks.org, onde, até esta segunda-feira, era possível publicar anonimamente documentos sigilosos - ou seja, bancar o “garganta profunda por um dia” sem deixar rastros virtuais.Um tribunal da Califórnia acabou com a folia, determinando o fechamento do site nos Estados Unidos. O motivo: o site foi responsável por vazar documentos que denunciavam supostas operações de lavagem de dinheiro e evasão de impostos praticadas pelo banco suíço Julius Baer via Ilhas Cayman.

Antes da pendenga legal, o site foi responsável, entre outras coisas, pela publicação de documentos que embasaram denúncias de operações do exército norte-americano para perseguir terroristas iraquianos atravessando as fronteiras com a Síria e o Irã e revelaram políticas da prisão de Guantanamo que impediam o contato dos prisioneiros com representantes da Cruz Vermelha – ambos casos reportados pelo New York Times.

A Wikileaks se define como “uma Wikipedia sem censura para vazamento e análise de documentos”. O objetivo principal, segundo o próprio site, é denunciar “regimes opressivos na Ásia, ex-bloco soviético, África Subsahariana e Oriente Médio”, mas o Wikileaks também se presta a revelar “comportamento antiético de governos e corporações” localizadas em qualquer região.

O real objetivo por trás do site já foi questionado por detratores, assim como sua real capacidade de garantir a segurança e a privacidade dos informantes anônimos. Críticos apontaram ainda que o site poderia sim ser usado para o bem, mas também estaria à disposição do mal – poderia, por exemplo, ser usado para divulgar informações falsas ou de interesse próprio (parênteses para um argumento complicado: não seria essa a natureza ambígua da própria internet???).

Enfim, o banco reclamou, a Justiça acatou e o site saiu do ar. Bem, não exatamente.

Sem entrar no mérito pra lá de questionável do processo que decidiu calar a “garganta profunda virtual” (em plena terra da primeira emenda), na prática, a decisão será difícil de vingar.

Além das versões belga e alemã do site, que continuam no ar, o Wikileaks já tem espelhos e backup em arquivo torrent, informou John Paczkowski – que classificou o processo como uma tentativa de “tirar o xixi da piscina” –, no blog All Things Digital.

O recado é claro: não dá para fechar a web.



Costela de Adão
13 Fevereiro, 2008, 1:33 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, crime, machismo, sexo

Por Eduardo Simões

Já conhecia Simone há uns quatro meses, tinham um amigo em comum e começaram a conversar. Otávio logo se interessou e rapidamente trocou telefones, endereços de Messenger e essas coisas todas com a moça. Conversavam bastante, mas ele achava que ela nunca dava a deixa para que ele tentasse uma aproximação final.

Foi quando Simone decidiu chamá-lo para uma festa de formatura de um conhecido, amigo ou coisa que o valha. Topou na hora. Ficou de encontrá-la já dentro do salão da festa. Colocou um terno, arrumou uma gravata nova que, segundo o vendedor, “parlava italiano”. Chegou confiante e garboso. Tinha que ser ali, afinal ela não o teria convidado se não esperasse dele uma atitude ali.

Cumprimentou um monte de gente. Tias, tios, amigos, conhecidos e tudo o mais. Quando finalmente se desvencilhou das formalidades, foi logo tentando puxar assunto com Simone, esperando um sinal, um sorriso. Se não tivesse ia para o tudo-ou-nada.

Mas de repente chega um outro cara, mais forte, mais alto e mais bonito que Otávio, Ele cumprimenta Simone com um beijo no rosto e um longo abraço. Na expectativa, Otávio fica de lado, esperando o cara ir embora para que pudesse continuar de onde parou. Simone o apresenta. É seu primo Ernesto do interior, que ela não via “há o quê? Uns seis anos?”.  E sorri largamente para, em seguida, se engajar em um longo papo com o primo.

Otávio certamente não esperava esse contratempo. O melhor que tem a fazer é ir tomar um drinque enquanto espera esse papo chato sobre bobagens da infância acabar. Vai até o balcão e apanha um copo de uísque. Só que alguns minutos depois, copo já vazio, a conversa entre Simone e Ernesto segue animada, e adornada por carinhos mútuos, ora no braço, ora no rosto.

“Ora, que maldição!” Se lamenta Otávio, o jeito é pedir outra bebida. O copo já é o quarto e nada da conversa terminar. A cólera já começa a tomar conta de Otávio, que sequer tira os olhos dos dois primos para pedir outra dose de uísque, que já começava a se contar na casa das dezenas.

De súbito ele não se agüenta mais de raiva, toma o décimo-quinto copo de uísque num gole só, o coloca no balcão com força, limpa a boca com a manga da camisa e parte decidido em direção à mesa de Simone. Antes que ela ou Ernesto pudessem dizer algo, Otávio empurra o primo e lhe desfere um potente soco no rosto. Ainda enfurecido, ele aproveita que o adversário está no chão e pisa em seu tronco com ódio. Arma-se o escândalo e os seguranças expulsam o cambaleante Otávio do salão.

Horas depois, Otávio escuta a campainha do telefone, faz um enorme esforço para levantar, mas a ressaca e a dor de cabeça são insuportáveis. Percebe que já amanheceu e, com dificuldade atende ao telefone. A voz do outro lado, a do amigo em comum com Simone, lhe conta com ar sombrio.

- Cara, o primo da Simone morreu. Uma das três costelas quebradas perfurou o pulmão e ele não resistiu ao sangramento interno. É melhor você arrumar um advogado.

Desliga o telefone, mal digere a informação que acabara de receber e a campainha toca. Abre a porta e vê Simone com um semblante enfurecido. Sem pedir licença nem nada ela adentra em seu apartamento. Otávio fecha a porta e tenta se desculpar.

- Olha, me desculpa. Eu não devia ter feito aquilo, eu tava com umas a mais, mas nunca que eu querer machucá-lo e…

Foi interrompido por uma sonora bofetada na face direita.

- Cala essa boca! – diz Simone ao mesmo tempo em que o empurra no sofá, monta em cima dele e lhe dá um libidinoso beijo na boca.

- Finalmente você tomou uma atitude de homem, honrou as calças que veste.

E copularam ali mesmo, enquanto não muito distante dali tias, tios, amigos e conhecidos choravam a morte precoce do jovem Ernesto.



E não é que o Chuck está mesmo nas propagandas
8 Fevereiro, 2008, 1:49 am
Arquivado em: Eduardo Simões, Eleição norte-americana

Essa é boa. Eu juro que não sabia desse anúncio do Huckabee antes de escrever o post anterior.

http://www.youtube.com/watch?v=MDUQW8LUMs8

Pena que não sei colocar aquela imagem do Youtube para vocês clicarem direto.



Chuck Norris para presidente do Mundo Livre
1 Fevereiro, 2008, 2:00 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, Eleição norte-americana, democracia, eleições

Por Eduardo Simões

Seria um bom slogan: “Chuck Norris para presidente do Mundo Livre”. Sem sombra de dúvida uma candidatura à qual somente Macgyver ou Rambo poderiam fazer frente. Mas em vez disso, Chuck preferiu a modéstia e resolveu apoiar para presidente dos Estados Unidos, ou líder do Mundo Livre, um republicano sem chances de receber a indicação do –vejam só– partido vermelho norte-americano.

Com essa decisão, Chuck colocou no limbo os sonhos do “Prefeito da América” Rudy Giuliani de chegar à Casa Branca. Imaginem uma propaganda na TV com Chuck e Rudy saindo triunfantes dos escombros do World Trade Center carregando em conjunto a cabeça decepada de Osama Bin Laden. Seria o golpe final em qualquer sonho democrata de chefiar a maior potência do mundo.

Mas Chuck Norris não é mais o mesmo. Em vez disso escolheu o ultra-religioso ex-governador do Arkansas Mike Huckabee para apoiar. Resultado: nem Rudy nem Mike, o partido vermelho dos EUA caminha para indicar como seu candidato um ex-prisioneiro de guerra do Vietnã, o septuagenário John McCain, que já recebeu o apoio do Prefeito da América, mas ainda espera pelo apoio de Chuck.

Enquanto aguarda ansiosamente a oportunidade de levar as lembranças das torturas sofridas nas mãos dos “porcos comunistas” ao Salão Oval, McCain, que aparentemente não é o dono da marca de batatas fritas, já coloca no bolso o apoio de outro “Durão da América”. Sim, senhoras e senhores, Arnold “O Exterminador” Schwarzenegger vem aí. Com um apoio desses McCain pode até dispensar Chuck Norris e já tem até mesmo seu discurso preparado para uma eventual derrota: “I’ll be back!”

Enquanto McCain tem pelo seu caminho somente o ex-governador de Massachusetts Mitt “eu só tenho apoio da minha fortuna pessoal” Romney, a briga democrata é bem mais divertida, principalmente depois da desistência do ex-senador norte-carolino John Edwards. De um lado do ringue, senhoras e senhores, a ex-primeira-dama que entende as necessidades carnais de seu marido Hillary Rodham Clinton. De outro, o senador filho de queniano com sobrenome de ditador do Oriente Médio Barack Hussein Obama.

Isso significa que, em se confirmando a vitória de McCain pelo lado do partido vermelho, a eleição de novembro para presidente do mundo terá um resultado histórico. Se Hillary vencer, será a primeira mulher a comandar o planeta. Festa feminista. Sutiãs às fogueiras! Se McCain vencer, será o homem mais velho a ser eleito para um primeiro mandato na Casa Branca. Festa nas clínicas geriátricas de todo o mundo. No caso de uma vitória de Obama, pela primeira vez na história um negro estará à frente da maior potência mundial. No além Martin Luther King Jr e Malcom X certamente celebrarão.

Enquanto isso, nós aqui no quintal deles, na parte debaixo do continente, tentamos entender uma eleição como nunca antes se viu na história daquele país. Tentamos entender por que o partido mais à direita, o republicano, é o vermelho, enquanto por aqui a cor é (ou era) mais identificada com os canhotos. Tentamos entender porque os liberais e os democratas de lá são considerados os mais esquerdistas, enquanto aqui a Frente Liberal, agora Democratas, é vista como conservadora. Mas espera aí. Não são os vermelhos de lá -os republicanos- que vivem brigando para saber qual deles tem mais “credenciais conservadoras”?

Ficamos aqui, no Terceiro Mundo, agora mundo em desenvolvimento, tentando entender que tanto esses gringos falam de “founding fathers” nas eleições, enquanto em terras brasileiras o que mais influencia os pleitos são os “funding fathers”, que, apesar de sua inquestionável importância, são sempre jogados para debaixo do tapete do caixa dois e dos recursos não-contabilizados.

E que história é essa de disputa Estado a Estado pela indicação partidária? Por que eles não fazem como aqui, onde meia dúzia de caciques partidários se reúnem e simplesmente apontam os candidatos de cada legenda?

Mas deixemos as esquisitices desses gringos de lado, afinal, meus amigos, o Carnaval vem aí. E o que importa agora é ziriguidum e esquindô.