Domínio Público


Luto by Daniela Moreira
31 agosto, 2006, 8:00 am
Arquivado em: Daniela Moreira, escrever

Já faz coisa de uma semana, Clarice vem me assombrando. A culpa, a bem da verdade, não é só dela, mas também do Zuenir, e sua Inveja, Mal Secreto, que andam me acompanhando nas andanças de condução pela cidade depois que meu carro foi roubado. No livro, ele conta que Nelson Rodrigues, invejoso confesso e canalha declarado, respirou aliviado no dia em que Guimarães Rosa morreu. O motivo: para ele, era demais conviver com a genialidade do outro.

Salvo o óbvio abismo entre o talento do Nelson e o meu, me identifiquei de imediato. Havia poucos dias, tinha lido uns contos que Clarice escreveu aos 14 anos – época em que eu ainda rabiscava redações pros concursos da escola, no papel almaço frente e verso.

No meu preferido, Clarice promove um encontro entre aquilo que para mim são duas versões de si própria: uma jovem que sente a angústia daqueles que percebem que há algo na vida além do dia-a-dia, do cotidiano, das coisas aparentes (o tal mundo do espírito, como bem definem os pensadores alemães), e uma psicóloga, que procurada pela jovem, tenta convencê-la – mesmo sem acreditar -, de que essa urgência de querer entender, essa inquietação, vai passar, que essa coisa indizível que a garota sente será aplacada pelo tempo ou pelo amor.

Enfim, qualquer coisa que eu diga aqui sobre o conto, será banal. Clarice fala à minha alma. Difícil explicar esse mergulho dentro de mim que é ler Clarice. Talvez por isso, quando leio Clarice, eu me sinta assim, como Nelson tendo que conviver com Guimarães. Simplesmente não dá.

Tenho um amigo, amante dos provérbios, que costuma dizer (se valendo de um ditado, como não poderia deixar de ser): “Não há nada que você queira dizer que alguém já não tenha dito melhor”. Clarice me bota neste ânimo, achando que depois de tudo que ela disse – puta que o pariu! – o que mais há pra se falar?

Por isso essa semana, fiquei lutando pra escrever meu post. Pensei até em publicar um antipost, algo como aquelas plaquinhas de luto, que se põem na porta da venda quando um ente querido falece. “Fechado por motivo de Clarice”.

Achei que poderia soar como falta de zelo aos leitores e desculpa esfarrapada aos colegas do Domínio, que, no mais, iam me retaliar pela quinta-feira vazia. Preferi este relato, um tanto piegas, mas não menos conveniente. Se vierem com represálias pro meu lado, sustento até o fim que sou inocente. A culpa, meus caros, a culpa é de Clarice.


6 Comentários so far
Deixe um comentário

Pois eu, Dani, achei esse seu texto o mais inspirado de todos! Falar da “realidade” simplesmente me cansa… Pode até ser que todos os assuntos tenham sido abordados… mas cada um tem o seu olhar particular e é por isso que a gente continua a escrever, escrever, escrever. Não é??

Comentário por Silvia

Dani, achei genial… Valia só pela chamada. Eu li e pensei: Que raios ela quer dizer com isso… Aí tive que clicar para ler e adorei. Clarice é exatamente tudo isso, é simplesmente indizível.
O último que eu li foi um que o seu marido me emprestou…
O meu conto preferido é o da mocinha, que morre com a cabeça na pedra.
Ah… boas férias garota e aproveita mto!
bjos

Comentário por Fabi

Eu tb fui atraída pela chamada do e-mail. E tb achei genial seu post. É exatamente com textos como este que entendemos porque faz sentido escrever, escrever e escrever, por mais que tudo já tenha sido escrito.
beijos e parabens pelo blog!

Comentário por Thais

Dani,

sim, entendo…Clarice realmente é sem comentários…na Hora da Estrela, ela diz:”porque sofrer é encontrar-se um pouco com si mesma…”, não é demais?

boa viagem! aproveita, faça como os antropólogos, que só entendem melhor o seu país quando vivem a realidade de outro lugar…então aproveita!

bjs
Cintia

Comentário por Cintia

Olá Dani,
Sou fã de vocês e confesso que quando abri a página agora, achei até que alguém de sua família tivesse morrido, ainda bem que não.
Assim como Nelson, eu também tenho inveja…sim inveja, inveja do ótimo trabalho que vocês estão fazendo.
Um grande abraço

Comentário por Flavius Deliberalli

Concordo com a Silvia…
Esse foi o mais insprado dos textos não só seu, mas de todo o Dominio…
Realmente falar da realidade cansa, acho meio triste dizer isso, mas é verdade.
A ideia da chamada foi genial!
Enfim, nada do que eu diga será novo, (droga, me deparei com 5 Clarices aí em cima…rs!) pois já foi dito em todos os comentários.
Bjo Dani!
Sei que você nem vai ler isso agora, vai demorar um tempinho, espero que estejam aproveitando a Lua-de-mel!
Bjs primos!

Comentário por Pri




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