Ele não foi. Na última hora, a assessoria alegou o blablabla de sempre: que ele ia ser atacado, desrespeitado, etc.
E o último debate ficou com cara de último horário eleitoral gratuito, morno, respeitoso, sem grandes indagações e com muitas críticas à Lula.
As perguntas não importavam muito. Elas eram veículos para que o questionador falasse de suas propostas e para que o candidato que respondesse também pudesse repetir tudo que já vinha dizendo desde janeiro.
Lula não estava lá, mas os candidatos ainda assim podiam questioná-lo. Ficava uma situação meio maluca, de perguntas a uma cadeira vazia, mas serviu para que Alckmin, Cristóvam e Heloísa pudessem bater bastante, ainda de que forma elegante.
Na primeira pergunta, Cristóvam Buarque já supôs uma cassação, caso as denúncias sejam comprovadas, e perguntou se o voto era no atual presidente ou em José Alencar. Para o senador, não comparecer ao debate mostra mais uma forma de corrupção, já que “roubar a chance da população escolher seu candidato, é uma corrupção contra a democracia.”
Alckmin disse que Lula não foi porque não podia explicar as denúncias e nem os problemas na saúde, educação, saneamento, etc, etc, etc.
Heloísa acreditou mesmo que botava medo no presidente e preferiu acreditar que ele não foi por medo de enfrentá-la. Ela ainda não conseguiu superar o rompimento com o PT e não pára de falar da expulsão e da “arrogância do sapo barbudo em seu trono de corrupção”.
De resto, um pouco mais do mesmo. Cristóvam abre um sorrisinho e a gente já sabe o que vem: “a doce revolução pela educação”. É impressionante! Não importa o tema, ele sempre consegue chegar nesse assunto. O mantra é repetido a todo instante: Segurança? Educação! Saúde? Educação! Corrupção? Educação!
O senador acha que é a solução para todos os problemas do mundo, porque pessoas bem-educadas são automaticamente honestas…É uma visão bem Poliana, já que os maiores corruptos e fraudadores têm alto nível cultural. São juízes, diretores de grandes companhias, senadores…Uma coisa não exclui a outra.
Alckmin, o da embalagem de grande administrador, sempre repete que a solução é o ajuste fiscal, fazer o país crescer, fazer um governo que tenha princípios…E claro, não deixa de pegar uma carona na imagem de Covas, seu grande mestre.
Heloísa, a boxeadora, está lá para bater. Seu sorriso, a tentativa de ser ponderada e o charminho com o Bonner não enganam. Sobra porrada para o FMI, para o Alckmin, para o FHC, para o Lula…Se for eleita, também vai governar na base do muque. Vai cortar os juros por decreto, varrer os políticos sujos do país e passar quatro anos combatendo a tal “política neoliberal” dos governos anteriores.
A única novidade nesse debate foi o apelo desesperado para que haja o segundo turno. Cristóvam clama para que os eleitores dêem mais tempo ao processo democrático. Já reconhecendo a derrota, diz que está feliz por enfiar o tema Educação na cabeça das pessoas e diz que a população deve votar em quem vai permitir que haja segundo turno.
Heloísa Helena também começa a entregar os pontos. Prevendo o nocaute, já faz o discurso para sair por cima. Depois dos agradecimentos com a voz embargada, diz que se for presidente irá “acolher os brasileiros como uma mãe acalenta seus filhos. Mas se estiver na sala de aula, continuo militante da esquerda.”
Alckmin, já mais confortável com o apoio implícito dos adversários, finalmente mostra algum vigor: “Como não veio, Lula mandou um recado para você, telespectador – pausa para uma observação: vocês repararam como ele melhorou na TV? Está quase um showman! Será que teve aulas com o Silvio Santos? Olhar direto para a câmera, como se estivesse olhando e falando com você – que não se importa com a sua opinião e não precisa prestar contas. Mande um recado para ele nas urnas e mude de presidente!”
Enfim, nada que tenha me feito mudar de idéia. Neste ano, vou para o colégio em que voto sem o mesmo tesão da minha primeira eleição para presidente. Vou desiludida e sentindo que os partidos não acreditam que eu mereço opções melhores.
Mas não dá para fugir da obrigação. Vamos lá, ânimo! Aperte as teclas, escolha quem vai comandar o picadeiro nos próximos quatro anos e abrace uma religião, porque vamos precisar de muita reza para que este país não perca o rumo de vez.
Era uma vez um país que sonhava em sediar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. Era uma vez.
Não é possível que ainda queira. O país organiza em menos de um ano os Jogos Pan-Americanos e todas as obras estão atrasadas. São Paulo sediou até o último fim de semana um Mundial feminino de basquete –que deveria ser acontecido no Rio, mas foi transferido por causa dos atrasos nos canteiros—um fiasco.
Todos os confrontos da Copa Davis devem durar de sexta-feira a domingo. O duelo entre Brasil e Suécia, pela repescagem do torneio, terminou na segunda-feira, porque a organização do evento em Belo Horizonte protegeu a quadra da chuva com um dia de atraso. Isso mesmo, quando foram colocar a lona protetora, a chuva já havia transformado saibro em lama. Resultado, não houve jogo na sexta e o confronto terminou –com derrota brasileira—na segunda e sem a disputa das cinco partidas programadas.
No Mundial de basquete, levado às pressas para São Paulo, as jogadoras tinham que driblar, além das defesas adversárias, as poças d’água que davam o ar da graça em pleno Ginásio do Ibirapuera. Tudo por conta de uma goteira na cobertura do ginásio e por causa das fortes chuvas que caíram sobre a capital paulista em alguns dias de competição.
Puxando a sardinha para os meus ancestrais lusos, olhem só que bela piada de brasileiro esse conjunto de histórias pode dar. Trapalhadas como essas até fazem a gente esquecer as pedras de gelo nas piscinas do conjunto aquático de Santo Domingo, no Pan de 2003.
Mas deixemos o pessimismo de lado e olhemos para o futuro, afinal é errando que se aprende. O país tem um Pan-Americano pela frente, é o grande favorito para sediar a Copa do Mundo de 2014 e o Rio de Janeiro já anuncia sua candidatura, de novo, para a Olimpíada de 2016. Somos praticamente uma potência do esporte!! Queremos sediar uma Copa do Mundo e, dois anos depois, uma Olimpíada. Corrijam-me se estiver errado, mas acho que isso seria inédito.
E qual a razão de acharmos que somos capazes de tal proeza? É verdade, qual a razão? Eu, no alto da minha visão pessimista sobre as coisas, não consigo enxergá-la.
O Brasil, país do futebol, não tem sequer um estádio que atenda as exigências de uma Copa do Mundo, nossas metrópoles são verdadeiros caos, a experiência das obras do Pan do ano que vem têm se mostrado um fracasso com notícias frequentes de atrasos nos jornais, embora o presidente do Comitê Organizador insista que tudo está sob controle. O país e seus dirigentes dão frequentes exemplos de como não organizar um evento esportivo de porte internacional. Então o que faz esses mesmos dirigentes acreditarem que podemos assumir tamanha responsabilidade e ainda fazer bonito?
As diversas esferas de governo também não parecem demonstrar ter o fôlego necessário para os investimentos que seriam capazes de mudar esse panorama. Não há nenhum sinal, ao menos por ora e diante do descrédito vivido pelas autoridades, que a iniciativa privada terá disposição para substituir o Estado nessa tarefa.
Ainda assim, deixemos de lado esses problemas menores e apelemos, mais uma vez, para a hospitalidade e a alegria do povo brasileiro. Vamos receber os gringos nos aeroportos com mulatas e passistas, eles vão enlouquecer. Já até consigo imaginar o diálogo:
“O Brasil é um paraíso. O que é que ia acontecer aqui que nos fez atravessar o oceano mesmo, John?”
“Ora Steve, quem se importa? Vamos beber outra caipirinha!!”
Em um de seus lapsos messiânicos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recorreu à bíblia para explicar a confusão em que a suposta compra de um dossiê contra tucanos por membros do PT o colocou. “Numa mesa com 12, um traiu”, disse Lula em um comício, referindo-se aos “companheiros” pegos com a boca na botija. O presidente, mais uma vez, se diz enganado por gente próxima, da maior confiança e a quem atribuiu grandes responsabilidades.
A metáfora, embora ofensiva aos cristãos, é emblemática. Opõe, de um lado, Cristo, o salvador da humanidade e a personificação do bem, a Judas, o traidor que trocou a identidade do filho de Deus por 30 moedas de prata. Na versão petista do evangelho, Lula é o Cristo bom, preocupado com os pobres, com os valores universais e a reputação ilibada. Judas, coitado, é José Dirceu, Ricardo Berzoini, Luis Gushiken, Humberto Costa, José Genoíno, Antônio Palocci, Freud Godoy…
Até que se prove o contrário, Lula, tal como Jesus, pode mesmo ter sido traído por um daqueles que o cercavam. Faz-se uma ressalva mais ou menos importante para a história das duas figuras traídas. Jesus sabia. Lula não. Pelo menos, diz que não. O que importa é que, em ambos os casos, os traidores colocaram os traídos diante do julgamento público.
Lula vive sua via cruxis, que vai durar até o próximo dia 1º. Ele pode sobreviver, mas estará esfacelado. Seu partido junta os cacos dos erros que cometeu. O núcleo que formou para governar o país foi derrubado. Seus apoiadores históricos se afastaram e o que tem de mais precioso, seu mandato, pode ser cassado pela justiça. Justa ou injustamente, Lula já está derrotado, ainda que saia vencedor do pleito. O veredicto das urnas é, aliás, o que lhe resta. O povo, a maioria pobre, vai decidir se mantém “um dos seus” no poder.
Confiar no juízo do povo é sempre um risco, ainda que as pesquisas indiquem o contrário no caso de Lula. Para retomar a comparação, o judeu Jesus foi julgado, primeiro, por Roma, e depois, pelos seus, os mesmos que pouco antes o haviam recebido como rei em Jerusalém. O Evangelho de Mateus conta que, diante das acusações que caíam sobre Jesus, o governador romano, Pilatos, consternado, perguntou ao povo judeu: “Que farei então de Jesus, que se chama Cristo?” Disseram todos: “Seja crucificado”.
Produção agrícola cresce, indústria da moda brilha sob os holofotes e trabalhadores permanecem sob as condições da época do Império
Em 2005, a safra de algodão herbáceo em caroço atingiu mais de três milhões de toneladas. A de soja ficou em 51 milhões. Em todo o mundo, missões brasileiras divulgam o crescimento do agronegócio brasileiro, cada vez mais produtivo e modernizado.
Aí vem a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e acaba com o discurso bonito…
Estudo divulgado esta semana mostra que o número de trabalhadores em condições análogas à escravidão pode chegar a 25 mil.
O que o agronegócio tem a ver com isso? Ele “emprega” 10% destas pessoas nas plantações de soja e algodão e 80% na pecuária, para o desmatamento de áreas de pasto.
E é justamente na nova fronteira agrícola, entre o Pará e o Mato Grosso, que se registram a maioria dos casos, embora o pensamento lógico nos fizesse acreditar que, se é novo, a modernidade seria incorporada.
No mesmo país que exporta moda, milhares de bolivianos ficam presos o dia todo em porões, com péssimas condições de higiene e alimentação, vivendo como escravos e cortando tecidos, pregando botões e costurando para satisfazer os desejos de consumo dessas pessoas bonitas que vão trabalhar todos os dias em empresas com benefícios, planos de carreira e salário fixo.
Aqui pertinho da megalópole, na região de Bauru, 31 trabalhadores foram libertados da escravidão num canavial, agora em agosto.
E o que o país faz para inibir esta prática arcaica na época dos Direitos Humanos? De acordo com a OIT, muito pouco.
Nossa legislação nem mesmo foi capaz de definir se o julgamento dos acusados (são poucos, apenas 25 entre março de 2003 e junho de 2004) deve correr em esfera federal ou estadual.
A iniciativa não-governamental, recomendada pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), que propunha uma “lista suja” para que os empregadores de mão-de-obra escrava não pudessem receber empréstimos nos bancos, também não pegou.
Enquanto se discute o sexo dos anjos e nós fingimos o que não vemos o que está embaixo do nosso nariz, estas pessoas vivem a seguinte situação: começam a trabalhar já devendo, com a famosa caderneta, em que são marcados os alimentos, roupas e ferramentas, com valores a ser descontados no próximo salário, vão para cidades que nem sabem onde ficam e sujeitam-se a condições desumanas de trabalho e sobrevivência.
O pior é que a falta de informações faz isso tudo parecer muito normal. Não é raro ouvir dos empregadores pegos que os trabalhadores “morderam a mão que os alimentou”.
Um prato de comida de péssima qualidade, um barraco, sem as mínimas condições de higiene, para dormir e umas parcas e perigosas ferramentas para labutar em uma jornada interminável têm um preço alto por aqui: a submissão sem fim ou até mesmo a vida.
Quem não abaixa a cabeça, corre o risco de ser assassinado: das 10 cidades que mais registraram assassinatos no campo, sete estão na lista das que utilizam trabalho escravo.
O país do futuro ainda possui um ranço forte de passado e, ao que parece, o paradoxo não anda incomodando muito…
Talvez tenha havido um tempo (suponho, sou muito novo para saber) em que os apoiadores de Paulo Maluf tenham defendido com unhas e dentes sua honra e honestidade. Depois, abandonada a difícil tarefa, teriam assumido seus defeitos e qualidades e os condensado no slogan que já havia consagrado Adhemar de Barros nos anos 30: o “rouba, mas faz”.
O lema servia muito bem a Paulo Maluf. Assim como Barros, o ex-governador e prefeito de São Paulo se caracterizou por ser um tocador de grandes obras (muitas sob suspeita de superfaturamento) e mentor de projetos sociais com forte aperto de marketing – além de também ser tratado por “doutor”, como o era Adhemar.
Paulo Maluf tinha um adversário, Mário Covas, e um inimigo, o Partido dos Trabalhadores (PT). Ambos, mas em especial o último, condenavam a velha política herdada pelo “doutor Paulo”, populista, conservadora e corrupta. O PT pregava uma nova política, democrática, transformadora e limpa.
O maior representante da esquerda no Brasil fazia crer ser possível governar sem sujar as mãos. Parecia ser tão diferente dos demais que quaisquer acusações contra um de seus integrantes só poderiam ser obra de uma tal “orquestração da direita”. Os quase quatro anos que sucederam a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 1º de janeiro de 2003 foram mais do que suficientes para que esse discurso ruísse.
Em vez de defender sua honra ilibada, os petistas assumem ter descido alguns degraus “necessários” na escada da política e, agora, praticar o que “todo mundo sempre praticou”. Logo, não é justo que justamente eles, por serem de esquerda, paguem o pato.
A população, pelo menos é o que indicam as pesquisas, concorda com a linha de defesa e parece dar carta branca para que Lula siga mais quatro anos à frente da presidência. O voto de confiança é baseado na percepção que, embora corrupto, o atual governo fez algo de bom para as pessoas, mais do que o governo passado, também suspeitíssimo, teria feito.
Assim, guardadas as devidas diferenças, Lula e o PT nunca estiveram tão próximos de Paulo Maluf, Adhemar de Barros e outros tantos que marcaram a velha política brasileira. Pelo menos, é o se ouve nas ruas: “ele rouba, mas faz”.
***
“O combate à corrupção e a defesa da ética no trato da coisa pública serão objetivos centrais e permanentes do meu Governo. É preciso enfrentar com determinação e derrotar a verdadeira cultura da impunidade que prevalece em certos setores da vida pública. Não permitiremos que a corrupção, a sonegação e o desperdício continuem privando a população de recursos que são seus e que tanto poderiam ajudar na sua dura luta pela sobrevivência. Ser honesto é mais do que apenas não roubar e não deixar roubar”. Luiz Inácio Lula da Silva, 1º de janeiro de 2003, em seu discurso de posse.
Resolvi, nesta quarta-feira, surpreender todos aqueles que esperavam uma sacola de ironias como, por exemplo, a pergunta. “O que está acontecendo com o Brasil? Só Freud explica”. Ok, confesso que ri muito com a infâmia da minha piada, que apesar de certamente ter sido criada por milhares de brasileiros, eu declaro de minha propriedade e ponto. Apesar disso, no melhor estilo “enganei todo mundo” vou inventar uma historinha e contá-la para o leitor.
Mas antes de começar –eu não consigo evitar—deixo uma sugestão para psicanalistas especializados. Que tipo de evidências o fato da pessoa ter um segurança –que depois vira assessor especial– chamado Freud, traz sobre o perfil do cidadão? Enfim, vamos à história.
Mas antes de começar a história, vocês viram essa história do churrasqueiro do Lula? Que coisa hein? O cara tinha até assado costela para o Fidel e agora corre o risco de parar ele próprio na grelha… Ah, essa foi boa vai! E essa eu duvido que mais alguém tenha inventado.
Ah é! A história. Só um ultimo parênteses antes de começar a contá-la. Pelo menos dessa vez o dinheiro não estava na cueca né? Imagina comer a costela assada por um churrasqueiro que manda um funcionário colocar o dinheiro na cueca? Se o cara faz isso, imagina onde ele manda o cidadão guardar a costela? Aliás, até hoje ninguém descobriu qual a origem do dinheiro da cueca. Melhor não perguntar, acho que tenho medo da resposta.
“O fato concreto”, como diz o barbudo lá de Brasília, é que eu já passo da metade do texto e nada de história. Ora, companheiros, como um candidato que promete a construção de quatro presídios federais em quatro anos, a criação de 10 milhões de empregos e não cumpre, acabei de decidir não cumprir minha promessa de contar uma historinha.
Primeiro porque não resisti à tentação de me esbaldar nesta enorme piada pronta que anda a política brasileira (alguém se lembra que o tesoureiro do PL, legenda envolvida no esquema do mensalão, chamava-se Jacinto LAMAS?).
Segundo, se você está a fim de historinha, vá a um comício eleitoral ou assista ao programa na TV. Nele, por exemplo, o barbudo lá de Brasília diz que construiu uma refinaria no Nordeste que ainda não saiu do papel e conta vantagem em ter criado universidades que ainda não foram erguidas em cima de suas pedras fundamentais.
Eu sou um cara sério. “Eu não sou igual a eles!!!” Não conto historinhas, pelo menos não nesta quarta. A tentação foi mais forte.
Mas embora eu faça as piadas, quem deve rir mesmo é o presidente-candidato lá na capital e seus seguranças, churrasqueiros e companheiros que ele colocou em cargos na administração federal.
Apesar das anedotas, das chacotas e das tiradas ora fantásticas, ora infames, ele continua liderando as pesquisas, como mostrou o Datafolha de terça-feira e, certamente, com um sorriso de orelha a orelha.
Arquivado em: Análise da Mídia, Fernando Tangi, eleições, política, sociedade
Por Fernando Tangi*
1. Do Aurélio Miguel, Ademar da Guia e o Timóteo falando: Tá na dúvida? Vota 22 …e confirma! – Assim, de maneira simples, descomprometida… quase como: Ei, você… é… você mesmo! Se um dia sair de manhã para comprar pão e ver um monte de gente na porta de uma escola em pleno domingo… vá lá na fila, diga que quer apertar uns botões numa caixinha branca… e pronto! Esse comercial me conquistou. Me deixou com a consciência limpa. Nunca me senti tão confortável por não saber em quem votar na esfera legislativa.
2. Da Anaí Caproni, do PCO, que usou o tempo do partido na TV para informar sobre uma Assembléia do Sindicato dos Correios que aconteceu no dia 14 deste mês. - Claro, afinal, se o tempo é gratuito e vai aparecer em todos os canais, então vamos utilizar para algo realmente útil.
3. Da camiseta dançante nº28 - Em meio a tanta discussão, promessas de partido… lá está ela, com seu amarelo desbotado… dançando e pedindo a sua atenção… é impossível não notar que ela existe. Aliás, é impossível acreditar que você chegou a ver isso. É tão rápido… quase uma aparição de um OVNI. Daqueles que você chama um parente para ver e, quando ele chega, o objeto já vou embora e então você fica no descrédito.
4. De uma das frases mais sinceras que eu ouvi na TV, bem no final do comercial do canditado Valdemar Costa Neto, do PL. É quando um trabalhador rural sorri para a câmera e diz: “… Ah, o Valdemar é uma pessoa sem limites”. – Já sabemos disso, já sabemos disso…
5. Da propaganda do Maluf, do PP… senti falta de ver o Maluf na tela. Acho que é (depois daquele quadro vermelho do PCO pedindo a cantidatura de Rui Costa) um dos poucos em que o candidato não fala. O que aparece é uma voz de um locutor, que passa quase 90% do tempo justificando e defendendo o candidato… pede justiça, literalmente. – Sinceramente… ver o Maluf na TV pedindo voto (mesmo que indiretamente) é um exemplo de vida para mim. Um exemplo de persistência… se um dia você, que tinha tudo mas agora a maioria te detesta, se gela a barriga toda vez que passa na frente da sede da PF e se percebe que até o cachorro não confia na comida que você oferece… pense na propaganda do Maluf e verá que sempre haverá energia para sorrir!

* Fernando Tangi colabora com este Domínio pelo menos até a volta de Vinícius Cherobino e Daniela Moreira. A charge aí em cima também é de autoria do rapaz.
Para acabar com a hegemonia de Schumacher, Alonso. E na corrida presidencial de 2010, o PMDB pode trazer surpresas para o PT e o PSDB.
Quando já perdemos as esperanças de mudanças na Fórmula 1 e Schumacher novamente parece ser o único candidato ao primeiro lugar do pódio, um novo piloto surge para trazer um pouco mais de emoção aos Grandes Prêmios.
Assim como Alonso tem dado trabalho ao alemão, o PMDB pode aparecer com um elemento surpresa na corrida presidencial de 2010.
O elemento atende pelo nome de Aécio Neves. Na quarta-feira, o Estadão trouxe uma reportagem mostrando que o governador de Minas Gerais anda insatisfeito com seu atual partido, o PSDB, e sinaliza a intenção de sair.
Para não causar mais uma crise na já frágil campanha de Alckmin, Aécio desconversa e diz que seu caminho é continuar no partido, mas “tudo pode acontecer”. Sua permanência no partido está vinculada a mudanças estruturais. “Enquanto eu achar que é possível o partido desconcentrar-se e, por mais forte que seja em São Paulo, continuar sendo a melhor alternativa partidária do País, é nele que eu tenho que militar”.
O governador mineiro nunca escondeu a vontade de ser presidente, mas já vê seus planos ameaçados pelo provável bom desempenho de Serra frente ao governo do Estado de São Paulo. Serra e seus aliados devem ser mais fortes do que o discurso pela descentralização e a força de vontade do mineiro.
Aí, a única saída vai ser a troca de partido e o PMDB, partido pelo qual o avô de Aécio tornou-se o primeiro presidente civil após mais de 20 anos de ditadura militar, também tem muito a ganhar se decidir abraçar o projeto de conquista da presidência.
Hoje rachados, os peemedebistas dividem-se entre os opositores ao governo e os oportunistas, que criaram a imagem do partido que vota com quem oferecer mais “benefícios”.
Se decidir assumir um projeto de país, o PMDB passará obrigatoriamente por uma reformulação e poderá novamente posicionar-se como elemento político realmente significante. O partido não lança candidatos à presidência desde 1994, ano em que Quércia ficou em terceiro lugar.
O PSDB ainda deve fazer uma série de mimos e promessas para que o mineiro se acalme e permaneça onde está, mas caso o PMDB consiga realmente seduzi-lo, assistiremos a uma corrida emocionante, disputada palmo a palmo, e possivelmente com mais surpresas, quem sabe até com um apoio de certo partido historicamente de esquerda…
Arquivado em: Eduardo Simões, comércio, economia, internacional, política
No último fim de semana o comércio mundial ganhou novas esperanças. Reunidos no Rio de Janeiro, os principais atores das negociações comerciais globais decidiram retomar a Rodada Doha, ou Agenda Doha de Desenvolvimento, como é chamada no site da Organização Mundial do Comércio.
Ótima notícia, já que a Rodada Doha, lançada em novembro de 2001, reconhece que “o comércio internacional pode desempenhar um importante papel na promoção do desenvolvimento econômico e alívio [redução] da pobreza” . Em suma, o comércio mundial seria quase um Robin Hood do Século 21.
Tudo muito lindo, muito maravilhoso, se não fosse a repetição do mesmo filme pela enésima vez. Desde a reunião na capital do Catar em 2001, outras reuniões já foram realizadas. Na mais famosa delas, em Cancún, a revista The Economist trouxe uma capa que sintetiza bem a preocupação que as potências comerciais (entre elas o Brasil) têm com a pobreza alheia.
Para alguns, como o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, a Rodada ficou “moribunda”, depois do fracasso nas negociações neste ano em Genebra. Para o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, ela foi para a UTI, mas após a reunião no Rio ela foi para a enfermaria.
Metáforas médicas à parte, não vou ficar chovendo no molhado aqui, dizendo que a negociação é um jogo de empurra. Os EUA dizem que a culpa é do protecionismo agrícola europeu e da relutância dos países em desenvolvimento em abrirem seus mercados industriais e de serviços. A Europa diz que, além da teimosia do mundo em desenvolvimento, os responsáveis são os EUA com seus subsídios distorcivos. Já o terceiro mundo esperneia que só pode avançar para outras áreas quando a questão agrícola estiver resolvida.
Quero me ater a outro ponto mais pitoresco. Vejamos os cargos dos protagonistas das conversações. De um lado a representante comercial dos EUA, de outro o comissário de Comércio da UE. Temos também os ministros de Comércio da Índia, e o do Japão, país que leva também o ministro da Agricultura para as conversas.
E o Brasil? Ora, o Brasil leva o ministro das Relações Exteriores. Mas por quê? Não temos um Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterioir (Mdic)? Não temos um Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)?
Temos. E por que raios eles estão alheios a negociações que dizem respeito exatamente às suas áreas de atuação? Por que os titulares dessas pastas não se sentam à mesa com os responsáveis pelos comércios norte-anericano e europeu? Por que não dialogam com os chefes de agricultura de EUA e UE?
Não sei. Por alguma razão a face brasileira da negociação é o Itamaraty. Alguém pode me responder: “ora, mas o Itamaraty é o responsável pela política externa do país, nada mais normal do que ser responsável pelas negociações”. Então qual a razão da secretária de Estado dos EUA e do representante da política externa européia não se meterem na história?
Não teriam os técnicos do Mapa e do Mdic mais competência que os do Itamaraty para tais negociações? Por que os ministros do Comércio e da Agricultura não aparecem?
Já sei! Por orientação do chefe, o presidente da República. Mas espera aí, qual a razão dessa orientação? Não sei, de novo. Se alguém souber me explique, por favor.
Fazia não mais que sete graus, suficientes para fazer o paulistano tirar de seus armários blusas de lã, casacos, cachecóis, sobretudos, botas mais altas e calças mais grossas. A mocinha do tempo havia dito que aquela seria a madrugada mais fria do ano. Ela tinha de estar certa. O vento soprava e o ar gelado e seco já fazia arder as narinas congestionadas e trincar os lábios secos. As mãos, desprotegidas, doíam e buscavam instintivamente por proteção.
Ainda eram sete horas da noite, e as pessoas lotavam as calçadas, apressadas, urgentes, indo e vindo de todos os lugares e cuidando de seus mundos. Nada contra. Também lá estava eu caminhando pela cultuada Avenida Paulista, à espera do relógio que insistia em se arrastar até a hora esperada.
Paro em uma banca e compro uma revista ilustrada com a foto de uma importante figura da esquerda e do jornalismo no Brasil. Sempre me identifiquei com a esquerda! Politizado, preocupado com o país e com as grandes questões do mundo, com as eleições, a corrução, a guerra, as políticas econômicas ortodoxas, os juros altos e a concentração de renda e terra, eu, intelectualóide que sou, tiro o cartão de crédito do bolso e peço para o rapaz cobrar os 11 reais daquela informação. Informação! As pessoas estão cada vez mais interessadas nessa palavra, que tão bem qualifica a nossa Era.
Saio dali e vejo, cinco metros à frente, por trás da vitrine daquele café chique, logo abaixo da faculdade de comunicação que forma jornalistas de esquerda como eu, um apanhado de pessoas bem vestidas tomando champagne, umas duas câmeras de televisão e uns outros repórteres em volta de um senhor de cabelos (poucos) brancos e óculos redondos na ponta do nariz. Devia ser algum autor lançando seu livro, possivelmente sobre questões sociopolíticas que tanto me intrigam. É normal que autores da esquerda escrevam com indignação sobre as desigualdades humanas e lance seus livros em eventos regados a bebidas finas.
Mais 10 metros e me deparo com uma mulher, trinta e poucos anos, e seu bebê, não mais que um ano, sentados na calçada gelada, atrás da caixa com balas de goma que vendia. Passei indiferente, como as centenas de pessoas que ali cruzavam e as milhares que por mães com crianças pequenas passavam nas muitas calçadas de São Paulo. Fazia sete graus! Duplamente chocado, pensei: há realmente algo muito errado com o mundo. Há algo muito errado comigo.