Domínio Público


Da esperança ao ceticismo
31 Outubro, 2006, 1:16 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., eleições

Luiz Inácio se reelegeu com quase 61% dos votos válidos sobre o tucano Geraldo Alckmin, resultado muito próximo daquele obtido há quatro anos, quando o petista derrubou o também tucano José Serra do ninho do poder. Em termos absolutos, Lula teve mais votos, mais de 58 milhões. Os números dizem, portanto, que o presidente acabou de obter uma vitória tão grande ou, quem sabe, maior da que o levou ao Planalto em 2002. Eles dizem, mas mentem.  Os números mentem. São uns tremendos mentirosos.

Pode ser percepção meramente pessoal, que o leitor deste Domínio vai me permitir compartilhar. O ano de 2002 reservava um sentimento diferente, uma grandeza de momento e de espírito “jamais vista na história deste país”, como gosta de repetir nosso mandatário. Lula representava a esperança, a paixão e o idealismo comuns não apenas a uma geração mais antiga, que lutara pela democracia e pelo sonho de um governo popular, mas também a outra mais nova, da qual fiz parte, recém apresentada ao processo democrático. Como é uma experiência pessoal, conto apenas sobre os últimos.

A eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva resumia a inocente esperança de mudança, e não apenas de um governo pouco melhor, mais eficiente ou competente que os anteriores. Era a esperança de justiça social, transformação e uma nova política que levou 150 mil brasileiros de todo o país à festa que ganhou as páginas dos jornais em todo o mundo naquele 1º de janeiro de 2003. A invasão popular ao centro do poder, que, contam, fez Eduardo Simões chorar como um menino, era a vitória de um símbolo, mais que de um homem ou um partido. Era, como fizeram crer a história e um certo Duda Mendonça, a vitória da esperança sobre o medo.

De lá para cá, foram-se quatro anos que, dia após dia, fato pós fato, ensinaram algo sobre amadurecimento. O amadurecimento nada mais é do que um processo de esgotamento da esperança. O idealismo de se viver o sonho alheio, da conquista de todos, fica na juventude e dá lugar às ambições pragmáticas e individualistas que são, afinal, o que parece restar. Ganhamos dinheiro, assinamos contratos, compramos ternos, trocamos o carro e, nos lembra Herbert, desaprendemos a caminhar no espaço.

Na política, fazem alianças, composições e concessões, jogam o jogo, mudam o discurso, pagam propinas, acobertam crimes e rasgam biografias. Tudo pela tal governabilidade, pela conservação de tudo da forma como sempre foi. Lula reeleito representa o ceticismo dos que não mais acreditam em mudança, o que também é sinal de amadurecimento.

Há quatro anos, a esperança vencia o medo. Hoje, não há mais medo. Tampouco resta esperança.



Não existe almoço grátis
30 Outubro, 2006, 11:20 am
Arquivado em: Vinícius Cherobino, comércio, economia, internet, sociedade

Um cara passa por uma perda na família. Está se sentindo terrivelmente mal, sozinho, abandonado. Na sua Austrália natal, resolve ir para uma área comercial bastante agitada para… oferecer abraços. Munido de um cartaz na mão -escrito Free Hugs-, Juan Mann se embrenha na selva de gente, numa aventura corajosa em tirar as pessoas de suas defesas urbanas em troca de abraços. Vai fazendo isso por alguns anos.

De repente, aparece no You Tube (aquele famoso site de vídeos online). Um músico da banda sick puppies vê o vídeo e faz uma música. Na era da produção coletiva, não sei direito como, aparece um vídeo: música sobre as cenas, jogo de p&b e cor, textos explicativos e tal; um videoclipe sem tirar nem por. O resultado é bem bonito

O negócio pegou… Como toda a onda na internet, o pessoal começou a sair com os seus cartazes nas mãos. Aconteceu em todos os cantos, com os orientais receosos da Coréia do Sul, em Tel Aviv e na polonesa Cracóvia. Assistindo, meu primeiro pensamento foi: “anos e anos de grades e abstração forçada do mundo enlouquecedor em que se vive nas grandes cidades ainda não foram suficientes para cortar essa tentativa desesperada de contato”. Mas aí…

Aí chegou a bagaça no Brasil. E o negócio foi diferente. Primeiro, trocaram o Free Hugs -que seria algo como Abraços Grátis- por “Me dá um abraço?”. Isso já tira boa parte da genialidade da idéia, por que o outro pode se esconder atrás da pena ao babaca de terno que corre com um cartaz na mão. E não foi só isso. Aproveitando que era um dos primeiros a tentar a idéia em terras tupiniquins, tascou uma propaganda no cartaz… Um empreendedor nato.

Depois de ler algumas manifestações de ódio dos internautas -xingando até cansar o jeitinho brasileiro- e de ultrapassar a minha própria, fui pensar direito. A despeito de me incomodar com a esperteza e com esse lance desesperado de “todas-as-chances-estão-por-aí-só-precisa-saber-aproveitar”, entendi o papel desse cara.

Era uma questão de tempo até isso acontecer. Se for analisar tranqüilamente, isso acontece com toda forma de manifestação cultural. É o processo de digestão do capitalismo… Ou o punk não fazia disquinhos bonitinhos para serem vendidos nas lojinhas? O Blues, de matéria de expressão negra, passa a ser alterado (adulterado?) para figurar como gênero easy listening! O rap (rythim and poetry) não vira a base o Hip-Hop que deriva em RB e que faz milionários e mais milionários na capa e por trás dos discos? No final, editoras não garantem algum com tomos e mais tomos da obra do Karl Marx?

E é por isso que não existe almoço grátis. Se ainda não cobraram, é só questão de terminarem de elaborar a nota fiscal.



Os idiotas
27 Outubro, 2006, 3:01 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Daniela Moreira, internet, sociedade

O mundo está cada vez mais cheio de idiotas. Nelson Rodrigues já o dizia há alguns anos, sem nem ter presenciado o boom de idiotice que essa coisa chamada internet nos proporcionou. Não é que a internet tenha parido idiotas, como defendeu o Tutty Vasques, no seu próprio manifesto contra os “ciberidiotas”.

O fato é que a internet lhes deu voz. É a democracia digital… Todo mundo diz o que bem entende, inclusive – se não principalmente – os idiotas. Não se trata só, como disse o Tutty, de uma geração de adolescentes que cresceu achando que sabe tudo só porque pode procurar no Google ou na Wikipedia. Essa pode até ser uma variação da espécie, mas tem idiota “bem grandinho” na rede expressando sua idiotice a torto e a direito.

O “ciberidiota” é, na verdade, uma espécie de idiota com superpoderes. A internet deu ao idiota, por exemplo, o poder do anonimato. Na grande rede, você pode ser idiota à vontade sem sofrer nenhum constrangimento social. Basta criar um apelido – idiota – e sair falando todas as barbaridades que você quiser. Ninguém precisa saber quem é você na vida real. No Brasil, provedor nem precisa guardar registro de acesso, então, fique à vontade pra ser um idiota! Ninguém vai te pegar.

Mas não pára por aí. A internet é também um excelente ponto de encontro para os idiotas. E quando um idiota encontra outro idiota na rede, dá-se o milagre: nasce uma comunidade pedófila ou neonazista no Orkut! Aí tem gente que nem se dá mais ao trabalho de usufruir do poder do anonimato. A união faz a força dos idiotas em rede.

Mas tudo isso são meios. O que defendo aqui é que a essência da idiotice é mais ou menos a mesma. O cara que na mesa do jantar defende a “Rota na Rua” é o mesmo que vai criar a comunidade “Rouba, mas faz” na web. E mais, o “modus operandis” também é o mesmo. Se você não tem argumentos para questionar a opinião alheia, cuspa na cara, ofenda, deboche, chame o blogueiro de veado, qualquer coisa que o permita dar vazão à fúria de ser contrariado. Debater, contestar e quem sabe até (aí está o impensável para o idiota) mudar de posição, jamais.

Se há solução para o problema dos idiotas, não sei. Se na “Revolução dos Idiotas” do Nelson eles estavam cada vez mais em saídinhos, hoje em dia pode-se dizer que eles escancaram de vez – seja na capa de Caras ou na Casa Branca. Para os idiotas comuns, a internet funciona como uma grande vitrine, documentando as idiotices que antes ficavam no ar, em comentários no ponto de ônibus, na sala de estar ou na mesa do bar.

Acho, no entanto, que há algumas medidas úteis e necessárias para conter a idiotice, ao menos no mundo virtual. O Pedro Dória baixou um regulamento no weblog do No Mínimo que pode soar fascista, mas me pareceu bastante acertado. Em linhas gerais, está proibido ser idiota no blog dele. Começou com idiotice, vai ser sumariamente deletado e pronto, acabou.

A mesma regra passa a valer pra este Domínio, que me parece imune a este risco, já que nossa audiência é pequena, mas muito qualificada. Mas nunca se sabe. Outro dia um blogueiro amigo publicou um post descendo a lenha nos idiotas que infectam o computador com vírus ao abrir e-mails com supostas fotos dos corpos das vítimas do acidente da Gol. Adivinha o que aconteceu? Uma enxurrada de acessos ao blog dele trazidos pela maravilha das buscas. De idiotas procurando imagens do acidente da Gol.

Por via das dúvidas, está proibido ser idiota no Domínio Público, e pronto, acabou.



Quero ser Lula
26 Outubro, 2006, 5:13 pm
Arquivado em: Fernando Tangi

Por Fernando Tangi 

Se pudesse fazer um pedido, diria para ser o Lula. Tá, tá bom. Fico com meus 10 dedos, minhas orelhas e sem a barba. Fico também com a minha namorada. Mas, mesmo assim, queria ser Lula.

A fase da infância pobre foi até a adolescência. Depois, foi blindado pela estabilidade empregatícia dos cargos que ocupou nos sindicatos.Foi preso pela ditadura por promover greves. Não houve comprovações de que tenha sido torturado durante a sua… digamos… estadia. E até hoje recebe uma gorda pensão paga desde os tempos da redemocratização.

Criou um partido que o alimentou até chegar ao ponto de conseguir ser, ele próprio, o partido. Hoje, o presidente tem poderes para eliminar qualquer filiado petista, seja ele diretor, co-fundador, gerente, afiliado, associado ou que passou por perto e decidiu vestir uma camiseta vermelha.

Com o seu carisma, construiu o que chamo de “técnica Maluf” de influência. É uma capacidade de invencibilidade eleitoral que só acontece de tempos em tempos, como naqueles contos medievais. Com esse poder, o candidato pode mentir, pode ser acusado de roubo… pode até falar que rouba. Mesmo assim, consegue uma boa fatia de votos, chegando até mesmo a vencer as eleições. Impressionante.

O Lula é o nosso Gozilla. O Bicho podia ser feito, pisar em todos que atrapalhavam o seu caminho, destruir prédios em Tóquio… mas sem o monstro verde, o Ultraman não teria sentido de existir. Não saberia com quem lutar e ajudar a destruir a capital nipônica.

O presidente é o nosso Dhomini ex-BBB. Trai companheiros na frente de milhões de pessoas, é odiado por todos que estão perto dele… mas o povo adora vê-lo atuar!

Cara… quero ser Lula.



Adeus Dick Vigarista
25 Outubro, 2006, 2:17 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, Fórmula 1, automobilismo, esportes

Sou daqueles que briga com os números. Não me importa que o cidadão seja o recordista de vitórias, de poles, de pontos, de títulos, etc, etc, etc. Gosto de olhar o contexto, de levar em conta o fator caráter, de saber de que jeito o cara chegou a números tão espetaculares.

Sou daqueles que briga com os números e que não os aceita como argumento definitivo para dizer que o alemão Michael Schumacher é disparado o melhor piloto da história a ter estado ao volante de um Fórmula 1.

Teimoso! Podem me chamar de teimoso, não me importo. Todos os jornalistas que acompanham o esporte e certamente entendem muito mais dele do que eu, dizem que Schumacher é o melhor da história, discordo. Teimoso! Teimoso! Sou mesmo, tenho a minha opinião e não abro mão dela.

Se um fanático torcedor argentino pode decretar que Maradona foi melhor que Pelé, se a torcida do Flamengo grita nas arquibancadas que “Obina é melhor que o Eto’o”, por que eu não posso falar que, apesar dos recordes, Schumacher não é o melhor da história? Até hoje insisto em torcer pela Portuguesa, não vai ser um monte de números que vai me fazer acreditar que o alemão é o melhor da história.

E eu explico a razão. Basta olhar o título deste artigo. Quem não se lembra do Dick Vigarista da Corrida Maluca. O alemão é parecido, só que muito mais bem-sucedido e, reconheço, competente do que o dono do Rabugento. Ah sim, para não mencionar sortudo.

Ok, também não vou diminuir o cara. Ele é, sem dúvida, um dos grandes do esporte. Mostrou isso na última corrida da sua carreira. Mas ele é um deles, não o maior deles.

Lançando mão de um clichê, digo que Michael Schumacher é sinônimo de controvérsia. Quem não se lembra o que ele fez com o pouco brilhante Damon Hill na decisão do campeonato de 1994 aquele mesmo que ele só ganhou porque seu principal adversário, um dos monstros sagrados da categoria, fez a última curva de sua vida na terceira prova do mundial.

Em 1997 ele repetiu a dose. Tentou jogar o espevitado canadense Jacques Villeneuve para fora da pista e fracassou. Dessa vez foi punido. Perdeu o vice-campeonato mundial, tão valorizado em todo o mundo.

Depois, por anos e anos, usou seus companheiros de equipe e a subserviência da Ferrari como degraus para atingir o topo. Nunca reconheceu o apoio dado por Rubens Barrichello, um piloto talentoso, mas, para mim, pouco ambicioso.

“Schumi” esqueceu-se subitamente do Grande Prêmio da Áustria de 2002 quando, na última curva, Barrichello lhe deu a vitória em uma bandeja enfeitada com marmeladas. Esqueceu-se que, ao lado de Rubinho, é o recordista de dobradinhas na categoria. Não tenho o dado correto, mas acredito que seja possível contar nos dedos as vezes que o alemão olhou o brasileiro de baixo para cima no pódio. Em seu último gesto para o ex-colega, zombaria em vez de gratidão.

Por fim, Schumacher, um dos grandes do esporte, nunca teve outro gigante do automobilismo para lhe fazer frente nos vários anos que esteve na principal categoria do esporte. Não se pode afirmar que Mika Hakkinen, Damon Hill, Jacques Villeneuve serão lembrados ao lado de nomes como Ayrton Senna, Niki Lauda, Nelson Piquet, Alain Prost, Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, Juan Manuel Fangio, etc, etc, etc. Fernando Alonso tem potencial, mas ainda não chegou lá.

Enfim, adeus Dick Vigarista, apesar dos pesares –que não são poucos—você foi um piloto brilhante, mas não o melhor deles.



O debate alienante
24 Outubro, 2006, 3:04 pm
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., Uncategorized

Que falta faz um partido de oposição no Brasil. Não a oposição que os tucanos fazem ao governo Lula que, no frigir dos ovos, não é lá coisa muito diferente do que foram. Falta oposição ideológica, com suas virtudes e defeitos, como aquela feita pelo PT quando ainda era PT. Não à toa, o debate entre Geraldo Alckmin e Lula consegue fazer dormir até o mais politizado e crente dos eleitores.

O que realmente importa nesse pleito fica longe, bem longe das câmeras de TV. Em parte porque não é compreendido pela grande maioria do eleitorado, mas também e, principalmente, porque os dois postulantes ocupam o mesmo lado quanto às questões que realmente valeriam discussão. E mais, concordam que tais pontos ficam devem convenientemente ser escondidos. Assim, o que era para conscientizar, acaba por alienar.

Um exemplo claro é a questão dos gastos públicos, bola levantada pelo tucano. Seu raciocínio é coerente: o Governo Federal gasta mais do arrecada e, por isso, precisa tomar dinheiro emprestado no mercado financeiro, pelo qual paga as altas taxas de juros que freiam o crescimento econômico. Se cortasse gastos até que o ponto em que eles se igualassem à arrecadação, não tomaria dinheiro emprestado, os juros cairiam, os investimentos privados cresceriam e o Brasil avançaria.

Até aí, tudo bem. O problema começa com a pergunta que Alckmin ainda não respondeu de modo convincente: onde cortar? O cafezinho pode ser um bom começo, mas não resolve. O tamanho do buraco é de R$ 60 bilhões, ou 3% de todas as riquezas do país. Para fechá-lo, é, sim, necessário cortar gastos sociais, da educação das criancinhas à aposentadoria dos velhinhos, além dos já escassos investimentos em infra-estrutura. O remédio é amargo, mas ainda é remédio.

Uma certa dose, aliás, já é aplicada desde o início do segundo mandato de FHC, quando o governo começou a fazer o chamado superávit primário. É o quanto se deixa de gastar com investimentos, educação, saúde, previdência, transporte e segurança. Esse montante, que vai somar R$ 70 bilhões este ano, é destinado ao pagamento de juros da dívida, que somam perto de R$ 130 bilhões. Ou seja, no balanço entre o que o governo arrecada e devolve para a população em serviços, já há superávit.

Mas essa economia é insuficiente e precisa ser aumentada, concordam os dois candidatos. O staff de Alckmin falta em mexer na previdência. Lula já pensa em mexer na educação e na saúde. Mas nenhum deles sequer cogita renegociar a dívida, por exemplo, ou mesmo assumir a imensa contradição que é cortar os já sucateados serviços públicos e direitos de toda uma população, pobre em sua imensa maioria, para proteger o lucro de uma minoria que ganha dinheiro com a maior taxa de juros do mundo. Aí temos um debate que realmente importa.



O tempo é relativo
23 Outubro, 2006, 11:26 am
Arquivado em: Vinícius Cherobino, sociedade

Tempos atrás, li um artigo que falava sobre o funcionamento do cérebro. Dizia que temos um processo interessante de armazenamento: como o montante diário de informações é algo incalculável, a nossa mente acaba condensando experiências similares dentro de silos, vamos chamá-los de “dia comum”. Assim, cada dia em que você acorda na hora de sempre, faz o caminho de sempre, cumprimenta seus colegas da mesma forma e trabalha do mesmo jeitinho, todas as informações vão para esse lugar. Resultado? O dia nem parece que passou.

Esse é um dos pontos que explica por que o tempo é relativo. A percepção, nesse aspecto, é a grande mandante da história. Ninguém poderia contra-argumentar comigo, criança, de que a Dona Esmeralda, uma das primeiras professoras de matemática, tinha esse poder supremo de transformar minutos em horas, segundos em minutos. Assim, os quarenta e tantos minutos do relógio rodavam, regorjeavam e refestelavam, satisfeitos da gordura recebida e do novo poder. Tal qual lutadores de sumo invisíveis, embaleiados, colocavam todo esse peso sobre mim. E eu me encolhia na carteira.

Da outra forma, meu recente mês de férias me pareceu um recorte no tempo absurdo, alguns anos na memória, trinta dias no calendário e a percepção com fritas. De volta, a rotina de dias comuns fizeram essa sensação se destacar ainda mais, com o inferno de dias comuns cobrando seu preço e eu passando repetido como trens de Metrô. Lembro das dicas do tal artigo e me sinto ridículo. “Tente quebrar a rotina onde ela pode ser quebrada, escove os dentes com a outra mão, ouça uma música enquanto canta outra, andar em casa de olhos fechados” e nem sei mais o resto. Tudo isso para maximizar o aproveitamento da capacidade de armazenamento do cérebro.

Isso tudo não é ridículo? Como colocar esse tipo experiência se passamos, vá lá, 9 horas no trabalho e mais duas para ir ou voltar. Tira aí o seu sono, que varia conforme demanda do seu emprego, e o que sobra? De maneira prática, se eu não zoei o cálculo, algo próximo a 4 horas. Alguém te disse isso? Quando falaram da vida de trabalho, das coisas que você pode comprar e tal, já tinham te dito isso? Nem para mim.

Por isso vou aproveitar o macete cerebral e sentar a pua nos exercícios. Escovar os dentes, cantar músicas e ouvir outras, botar uma faixa negra nos olhos. Tudo o possível para fugir da vida que escorre. Aí, quem sabe, naquela cena final, não me fique um vazio. Seja no leito de morte com as pessoas próximas, ou o metal do veículo sobre o peito, ou os instantes antes do corpo desacordar e retornar ao chão, sei lá; sempre com uma luz no fim do túnel (eu preciso acreditar em algo). Nessa hora tudo, menos a vida nem parece que passou.



Está fazendo o que aí parado? Pensando na vida?
19 Outubro, 2006, 4:56 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Daniela Moreira, escrever

Há muito tempo, muito antes da “era da razão”, trabalhar era coisa de escravo. Pensar é que era coisa de gente importante. Lá atrás, na antiguidade clássica, os pensadores – aqueles mesmo da coleção da estante – dedicavam todo o seu tempo ocioso a desvendar as coisas relevantes da vida. “Trabalhar, que é bom, nada?” Nada.

Aí veio a tal da “idade das trevas” e pensar ficou perigoso. Quem tinha idéias demais acabava tostado, portanto era bom mesmo pensar pra si e olhe lá. Trabalhavam então os servos, os criados, os pobres. Gente de estirpe era da corte, da vida boa. E vida boa era ter alguém pra trabalhar pra você.

Mas mesmo quem trabalhava, o fazia por pura necessidade e na medida da sua necessidade. Trabalhava-se para comer, para alimentar a família, pra pagar os tributos. Se trabalhava-se muito ou pouco, não sei. Antes que venha algum engraçadinho metido a historiador deturpar o argumento, este não é o ponto.

A questão é que vieram os iluministas, veio a “razão”, o mundo se desencantou e o tal espírito do capitalismo de Max Weber baixou geral.

De repente, trabalhar passou a ser uma virtude, e mais que uma virtude um dever. “Não se trata de uma técnica pra ganhar a vida, trata-se de uma ética de vida”, explicaria o professor de sociologia.

Máximas que nos parecem tão atemporais, quase universais, como o famoso “tempo é dinheiro”, têm data de nascimento. Nasceram bem ali, entre puritanos e empreendedores, que acabaram por emplacar esta “ética de vida” mesquinha.

Faça render o seu dinheiro, não perca nenhum momento bebendo na taberna, preserve a sua imagem de bom pagador. Viva uma vida econômica nos prazeres e abundante no trabalho e viverá a boa vida. Se você passa um minuto com dez reais no bolso, sem fazer nada, mesmo que você não os gaste, está perdendo dinheiro.

E o objetivo já não é satisfazer suas necessidades. Não importa se dez reais lhe bastem para tomar sua cerveja gelada assistindo um bom jogo de futebol. O objetivo não é a cerveja, mas os reais, mais e mais.

Mais que isso, já não pega bem trabalhar o suficiente, como antigamente. É preciso trabalhar muito para ser alguém nesta vida moderna, tão racional. É preciso fazer algumas horas extras – de preferência muitas – para “subir na vida” profissional. Se um empregador lhe pergunta na entrevista de trabalho qual é o seu maior defeito, responda: sou um workaholic, um amante incansável do trabalho! Está contratado. Ou você já viu aquele cara que sai todo dia à 5h00 em ponto do escritório receber uma promoção?

Nosso objetivo não é ser Sócrates ou Aristóteles. Queremos ser Henry Ford! Os heróis do nosso tempo trabalham no mínimo 12 horas por dia e, nas folgas, estão sempre disponíveis ao celular pra resolver aquele problema do escritório.

Até mesmo nós, “trabalhadores do conhecimento”, “intelectuais”, “jornalistas” viramos operários fabris. Temos prazo, metas e métricas. Por falar nisso, como anda a sua produtividade? Quantas notas você produziu hoje? Está fazendo o que aí parado? Pensando na vida? Você tem exatamente 15 minutos para refletir sobre a importância desta notícia antes de colocá-la no ar.

Na idade da razão, pensar também é coisa de escravo.



Viva os pontos corridos
18 Outubro, 2006, 2:25 pm
Arquivado em: Campeonato Brasileiro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Lembro daquele ano de 2003. Pela primeira vez em sua história o Campeonato Brasileiro era realizado no sistema de pontos corridos. Cronistas esportivos da velha guarda se levantavam contra a idéia ferozmente. Diziam que a fórmula resultaria no esvaziamento das arquibancadas e em desinteresse pelo torneio. Alguns, adotando uma abordagem um pouco mais ideológica bradavam que a “cultura do torcedor brasileiro” não permitia tal formato.

Os anos passaram e estamos na quarta edição seguida de Brasileirão em pontos corridos. Ao término da primeira edição com a nova fórmula, aqueles mesmos críticos decretavam triunfantes sua vitória. Afinal, em 2003 o Cruzeiro foi infinitamente superior aos adversários, chegou aos 100 pontos, levou o título com rodadas e rodadas de antecedência e fechou anos-luz (13 pontos) à frente do vice-campeão Santos.

Mas nada como o tempo para abaixar o topete dos detratores dos pontos corridos. Os anos seguintes tiveram disputas emocionantes, decididas apenas na última rodada e, como um castelo de cartas, todos os mitos negativos sobre a disputa em turno e returno caíram, um a um.

Ficou provado que toda partida vale e os primeiros a entender isso foram os torcedores. Ficou provado que o campeonato em pontos corridos dá a chance de recuperação na tabela ao longo da competição. Atestou-se que, apesar do futebol ser uma “caixinha de surpresa”, organização e planejamento de longo prazo são capazes de levar uma equipe ao topo da tabela. Caiu o tabu de que equipes consideradas tradicionais têm de ser protegidas da segunda divisão.

E a maturidade parece ter sido atingida agora, na quarta vez em que o Nacional é disputado na mais justa das fórmulas de competição. Embora o que se avizinhe seja uma conquista tranqüila do São Paulo, ainda antes da última rodada do torneio, as disputas por vagas em torneios continentais e para escapar do fantasma da Série B ganham contornos cada vez mais dramáticos o que, apesar do desconforto e da violência, têm levado os torcedores ao estádio.

Com pelo menos duas vitórias de folga em relação aos adversários mais próximos, o São Paulo conseguiu o recorde de público do Brasileirão no fim de semana. Cinqüenta e cinco mil pessoas assistiram a goleada sobre o Juventude. Venhamos e convenhamos, se tivesse perdido a partida, ainda assim, o tricolor teria vantagem confortável sobre os rivais. Apesar disso, o público foi similar a da primeira partida da final do Brasileiro de 2002, entre Santos e Corinthians, disputada no mesmo Morumbi. E estamos falando de um jogo da 29ª rodada, de um total de 38.

Ainda há ajustes a serem feitos. Digo, na fórmula de disputa, não vou entrar na questão da organização e estruturação do esporte no país senão provoco superaquecimento e derretimento da placa-mãe do computador e não encerro o assunto.

A Copa Sul-Americana, por exemplo, precisa ganhar mais importância, ser disputada ao longo de todo o ano, junto com a Libertadores. A fórmula precisa ser a mesma da Liga dos Campeões e da Copa da Uefa. Torneios disputados paralelamente e ao longo de toda a temporada. Assim, você valoriza mais a disputa e abre espaço no calendário para que todos possam participar da Copa do Brasil, inclusive as equipes com vaga garantida na Libertadores.

A Copa do Brasil, aliás, deveria englobar todas as equipes das três divisões do Campeonato Brasileiro, como acontece na Inglaterra, Espanha, França, etc, etc, etc. E por que não pensar em um torneio de clubes com países das três Américas? Faz-se como na Liga dos Campeões. Fases preliminares para os campeões nacionais de países com menos força no esporte e com os quartos, quintos, sextos colocados de Brasil e Argentina. Aqueles que forem derrotados vão sendo “rebaixados” para a Copa Sul-Americana, que seria o genérico da Copa da Uefa, até que se conheça, ao fim da temporada, os vencedores dos dois torneios e, no início da temporada seguinte, o campeão da SuperCopa das Américas em partida única, assim como nas finais da Libertadores e da Sul-Americana.

E os estaduais? Eles podem ser o equivalente aos Ramon de Carranza e Tereza Herrera da Europa. Campeonatos eliminatórios e de tiro curto cuja única finalidade é ser preparatório para a temporada que se aproxima.

Resumindo, é uma idéia meia Simon Bolívar, meia “vamos copiar o que fazem os europeus”. E que só os competentes e bem organizados sobrevivam no futebol brasileiro, por mais que me doa no coração essa idéia, assim é a vida, pelo bem do esporte.



Lula, Maggi e os apoios eleitorais
17 Outubro, 2006, 2:44 pm
Arquivado em: vôlei

Segundo turno de eleição presidencial é assim: os dois candidatos reúnem seus assessores e abrem sobre a mesa um mapa do Brasil. De Norte a Sul, Estado por Estado, vão à caça dos tão valorizados apoios regionais – lideranças, partidos, candidatos e governadores eleitos, de todas as tendências, que possam agregar votos com sua adesão.

É o momento em que se esquecem divergências antigas e velhas amizades, inimigos de antes posam juntos e antigos aliados caminham separados. É quando se tem a impressão (só a impressão) de que no vale-tudo da política brasileira os arranjos se dão conforme a conveniência do momento. Ainda assim, uma notícia na semana passada conseguiu surpreender até os mais calejados: a adesão do Governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, à candidatura de Lula. Às razões da estranheza:

1) O empresário Maggi, proprietário de algumas dezenas de milhares de hectares pelo Mato Grosso, não tem exatamente o que se pode chamar de identidade histórica com Lula e o PT, mais afeitos à turma do MST, que mira exatamente gente como Maggi.

2) Um dos maiores produtores de soja do mundo, o governador mato-grossense é, antes de tudo, um representante do agronegócio, dos exportadores de grãos que vêm amargando três anos de prejuízos no Estado por causa da política cambial de Lula – que Geraldo Alckmin promete incisivamente alterar a gosto dos exportadores – e dos altos custos logísticos – resultado da absoluta escassez de investimentos federais em estradas, ferrovias e portos.

3) Por fim, o partido de que Blairo é vice-presidente, o PPS, formalizou apoio ao tucano de São Paulo. Apoio, aliás, incentivado, adivinhe sábio leitor por quem.

Mas, acredite, Maggi entregou a carta de desfiliação ao partido de Roberto Freire, pelo qual acabou de ser reeleito, e virou o mais novo “companheiro” de Lula nas bandas mato-grossenses.

A explicação, senhoras e senhores? O acerto para o repasse de R$ 3 bilhões (R$ 1 bi só para o Mato Grosso) para financiar as dívidas dos produtores rurais quebrados – não apenas por causa do dólar, da logística ou de uma conjuntura externa desfavorável, mas também por conta de graves problemas de gestão nas fazendas.  Os dois lados, obviamente, negam que tenha havido cooptação ou compra de apoio eleitoral. Estranho seria se confirmassem.

O episódio é a síntese de como se formam as bases de apoio aos governos no Brasil e, claramente, no governo Lula. É a política do loteamento de cargos públicos entre partidos aliados, repasse de emendas parlamentares e, mais recentemente, da distribuição de dinheiro vivo em troca de voto. Muda-se a forma, mas não a prática histórica, que Lula e o PT abraçaram sem vacilar.
 
Respondendo ao coordenador-geral da campanha de Lula e presidente em exercício do PT, Marco Aurélio Garcia, não, o empréstimo aos produtores não é uma operação ilegal. “Temos de parar de rebaixar a política brasileira e ter respeito aos governadores”, protestou. É verdade, Garcia, bem observado!

Cheap Viagra Online