O trailer de “Uma verdade Inconveniente”, de Al Gore – “I am Al Gore. I used to be the next president of America”, brinca o também ex-vice presidente dos Estados Unidos e atual ativista ecológico –, se parece mais com a abertura de uma daqueles filmes-catástrofe de dar inveja a Spielberg, James Cameron e companhia.
Furacões, enchentes, geleiras derretendo, refugiados e a Flórida debaixo da água – “Quando você mostra esse slide, não dá vontade de dizer: Gotcha!?”, provoca Jon Stewart, no Daily Show – dão o tom do “documentário de alerta” sobre o aquecimento global que o democrata lançou, com sucesso, neste ano, nos Estados Unidos.
Independente dos fins políticos, que o “ex-quase presidente” nega veementemente, o filme de Gore coloca, ao menos, duas propostas interessantes. A primeira delas é a retomada de uma discussão que andava pra lá de “fora de moda” na mídia, apesar do seu real caráter de urgência.
Temas como o aquecimento global, embora permaneçam na agenda política das principais potências mundiais (parênteses para os Estados Unidos, que até hoje não assinaram o protocolo de Kyoto), recebem da mídia um tratamento de pauta “café-com-leite” e freqüentemente acabam injustamente associados a imagens de “ecochatos” com alguns parafusos a menos, que se acorrentam a navios petroleiros ou acabam devorados por ursos.
Extravagâncias e alarmismos à parte, sim, os ativistas realizam um trabalho muito pouco reconhecido e de extrema importância – vide a “Edição Verde” da Época desta semana – que, diga-se de passagem, não estaria aí não fosse a empreitada de Gore – que traz exemplos como a mobilização do Greenpeace para conter o avanço do cultivo de soja na Amazônia.
A segunda proposta do documentário de protesto de Gore, discutida em entrevista ao Le Monde, é questionar o peso que a televisão ganhou na formação da opinião pública, especialmente a opinião política, e como este poderoso veículo pode ser utilizado para determinar decisões e “priorizar” questões.
“O espaço necessário em democracia para trocar idéias complexas e informações abundantes foi reduzido a uma área muito pequena. Às vésperas do dia em que o Senado votou a aprovação da guerra no Iraque, foi realizada uma pesquisa de opinião, que mostrou que 77% dos americanos acreditavam que Saddam Hussein estivesse na origem dos atentados de 11 de setembro”, conta Gore, ao Le Monde.
E continua: “No meu país, o diálogo político passou a ser conduzido, na sua maior parte, por meio de anúncios televisivos de trinta segundos. A influência perigosa do dinheiro em política deve-se amplamente à necessidade para os homens políticos de reunirem dinheiro em quantidade suficiente para financiar esses anúncios”. Ah, se ele soubesse como funcionam as coisas por aqui…
Nestes preciosos trinta segundos, o marketing do terror, que em terras estados-unidenses (como gostaria Eduardo Lusita) já provou ganhar eleições, toma o espaço de discussões igualmente importantes e urgentes, que acabam relegadas a segundo plano, quando não a plano nenhum.
Para Gore, a saída para este controle da TV sobre a opinião pública está na internet, que, tal qual a literatura Iluminista libertou o povo do monopólio da Igreja sobre o saber na Idade Média, abriria caminho para uma leitura mais múltipla e crítica do nosso tempo.
Torçamos para que as previsões de Gore – não as do apocalipse climático, mas as da grande rede – não acabem em marmelada, como seu embate com Bush nas urnas, e possam, de fato, se cumprir um dia.
2 Comentários até o momento
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ja assiste o documentario.E gostei muito e acho interesante botar ess DVD em vend para o pulblico.
Comentário por hingrid 22 Outubro, 2007 @ 9:03 pmMim deu vontade de bater um boquete
Comentário por Paulo 24 Maio, 2008 @ 9:05 pm