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Lembro daquele ano de 2003. Pela primeira vez em sua história o Campeonato Brasileiro era realizado no sistema de pontos corridos. Cronistas esportivos da velha guarda se levantavam contra a idéia ferozmente. Diziam que a fórmula resultaria no esvaziamento das arquibancadas e em desinteresse pelo torneio. Alguns, adotando uma abordagem um pouco mais ideológica bradavam que a “cultura do torcedor brasileiro” não permitia tal formato.
Os anos passaram e estamos na quarta edição seguida de Brasileirão em pontos corridos. Ao término da primeira edição com a nova fórmula, aqueles mesmos críticos decretavam triunfantes sua vitória. Afinal, em 2003 o Cruzeiro foi infinitamente superior aos adversários, chegou aos 100 pontos, levou o título com rodadas e rodadas de antecedência e fechou anos-luz (13 pontos) à frente do vice-campeão Santos.
Mas nada como o tempo para abaixar o topete dos detratores dos pontos corridos. Os anos seguintes tiveram disputas emocionantes, decididas apenas na última rodada e, como um castelo de cartas, todos os mitos negativos sobre a disputa em turno e returno caíram, um a um.
Ficou provado que toda partida vale e os primeiros a entender isso foram os torcedores. Ficou provado que o campeonato em pontos corridos dá a chance de recuperação na tabela ao longo da competição. Atestou-se que, apesar do futebol ser uma “caixinha de surpresa”, organização e planejamento de longo prazo são capazes de levar uma equipe ao topo da tabela. Caiu o tabu de que equipes consideradas tradicionais têm de ser protegidas da segunda divisão.
E a maturidade parece ter sido atingida agora, na quarta vez em que o Nacional é disputado na mais justa das fórmulas de competição. Embora o que se avizinhe seja uma conquista tranqüila do São Paulo, ainda antes da última rodada do torneio, as disputas por vagas em torneios continentais e para escapar do fantasma da Série B ganham contornos cada vez mais dramáticos o que, apesar do desconforto e da violência, têm levado os torcedores ao estádio.
Com pelo menos duas vitórias de folga em relação aos adversários mais próximos, o São Paulo conseguiu o recorde de público do Brasileirão no fim de semana. Cinqüenta e cinco mil pessoas assistiram a goleada sobre o Juventude. Venhamos e convenhamos, se tivesse perdido a partida, ainda assim, o tricolor teria vantagem confortável sobre os rivais. Apesar disso, o público foi similar a da primeira partida da final do Brasileiro de 2002, entre Santos e Corinthians, disputada no mesmo Morumbi. E estamos falando de um jogo da 29ª rodada, de um total de 38.
Ainda há ajustes a serem feitos. Digo, na fórmula de disputa, não vou entrar na questão da organização e estruturação do esporte no país senão provoco superaquecimento e derretimento da placa-mãe do computador e não encerro o assunto.
A Copa Sul-Americana, por exemplo, precisa ganhar mais importância, ser disputada ao longo de todo o ano, junto com a Libertadores. A fórmula precisa ser a mesma da Liga dos Campeões e da Copa da Uefa. Torneios disputados paralelamente e ao longo de toda a temporada. Assim, você valoriza mais a disputa e abre espaço no calendário para que todos possam participar da Copa do Brasil, inclusive as equipes com vaga garantida na Libertadores.
A Copa do Brasil, aliás, deveria englobar todas as equipes das três divisões do Campeonato Brasileiro, como acontece na Inglaterra, Espanha, França, etc, etc, etc. E por que não pensar em um torneio de clubes com países das três Américas? Faz-se como na Liga dos Campeões. Fases preliminares para os campeões nacionais de países com menos força no esporte e com os quartos, quintos, sextos colocados de Brasil e Argentina. Aqueles que forem derrotados vão sendo “rebaixados” para a Copa Sul-Americana, que seria o genérico da Copa da Uefa, até que se conheça, ao fim da temporada, os vencedores dos dois torneios e, no início da temporada seguinte, o campeão da SuperCopa das Américas em partida única, assim como nas finais da Libertadores e da Sul-Americana.
E os estaduais? Eles podem ser o equivalente aos Ramon de Carranza e Tereza Herrera da Europa. Campeonatos eliminatórios e de tiro curto cuja única finalidade é ser preparatório para a temporada que se aproxima.
Resumindo, é uma idéia meia Simon Bolívar, meia “vamos copiar o que fazem os europeus”. E que só os competentes e bem organizados sobrevivam no futebol brasileiro, por mais que me doa no coração essa idéia, assim é a vida, pelo bem do esporte.