Domínio Público


O tempo é relativo by vinacherobino
23 outubro, 2006, 11:26 am
Arquivado em: sociedade, Vinícius Cherobino

Tempos atrás, li um artigo que falava sobre o funcionamento do cérebro. Dizia que temos um processo interessante de armazenamento: como o montante diário de informações é algo incalculável, a nossa mente acaba condensando experiências similares dentro de silos, vamos chamá-los de “dia comum”. Assim, cada dia em que você acorda na hora de sempre, faz o caminho de sempre, cumprimenta seus colegas da mesma forma e trabalha do mesmo jeitinho, todas as informações vão para esse lugar. Resultado? O dia nem parece que passou.

Esse é um dos pontos que explica por que o tempo é relativo. A percepção, nesse aspecto, é a grande mandante da história. Ninguém poderia contra-argumentar comigo, criança, de que a Dona Esmeralda, uma das primeiras professoras de matemática, tinha esse poder supremo de transformar minutos em horas, segundos em minutos. Assim, os quarenta e tantos minutos do relógio rodavam, regorjeavam e refestelavam, satisfeitos da gordura recebida e do novo poder. Tal qual lutadores de sumo invisíveis, embaleiados, colocavam todo esse peso sobre mim. E eu me encolhia na carteira.

Da outra forma, meu recente mês de férias me pareceu um recorte no tempo absurdo, alguns anos na memória, trinta dias no calendário e a percepção com fritas. De volta, a rotina de dias comuns fizeram essa sensação se destacar ainda mais, com o inferno de dias comuns cobrando seu preço e eu passando repetido como trens de Metrô. Lembro das dicas do tal artigo e me sinto ridículo. “Tente quebrar a rotina onde ela pode ser quebrada, escove os dentes com a outra mão, ouça uma música enquanto canta outra, andar em casa de olhos fechados” e nem sei mais o resto. Tudo isso para maximizar o aproveitamento da capacidade de armazenamento do cérebro.

Isso tudo não é ridículo? Como colocar esse tipo experiência se passamos, vá lá, 9 horas no trabalho e mais duas para ir ou voltar. Tira aí o seu sono, que varia conforme demanda do seu emprego, e o que sobra? De maneira prática, se eu não zoei o cálculo, algo próximo a 4 horas. Alguém te disse isso? Quando falaram da vida de trabalho, das coisas que você pode comprar e tal, já tinham te dito isso? Nem para mim.

Por isso vou aproveitar o macete cerebral e sentar a pua nos exercícios. Escovar os dentes, cantar músicas e ouvir outras, botar uma faixa negra nos olhos. Tudo o possível para fugir da vida que escorre. Aí, quem sabe, naquela cena final, não me fique um vazio. Seja no leito de morte com as pessoas próximas, ou o metal do veículo sobre o peito, ou os instantes antes do corpo desacordar e retornar ao chão, sei lá; sempre com uma luz no fim do túnel (eu preciso acreditar em algo). Nessa hora tudo, menos a vida nem parece que passou.

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6 Comentários so far
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Que paulada! A respeito dos tais silos, os meus andam transbordando de dias terrivelmente iguais… Beijos.

Comentário por dominiopublico

Da cama p’ro banho, do banho
P’rá sala
O sono persiste, o sol já não
Tarda
A vida insiste em servir um velho
Ritual
Que sempre serve a tantos outros
O mesmo pão comido aos poucos
Se senta e abre o jornal
Tudo parece normal
Um dia a menos, um crime a mais
No fundo no fundo no fundo tanto
Faz
Já é hora de vestir o velho paletó
Surrado
E caminhar sobre o caminho pisado
Que conduz rumo à batalha que
Inicia a cada dia
Conseguir um lugar p’rá sentar e
Sonhar na lotação
E é tudo igual, igual, igual…

No fim dos dias úteis há os dias
Inúteis
Que não bastam p’rá lembrar ou
P’rá esquecer de quem se é
O ar pesado nesse bairro pesado em
Plena barra pesada
A mão pesada vem oferecer
E conta os trocados contando
Vantagem
E toma uma bola, começa a viagem
E enquanto não chegar a velha
Hora
Que inicia cada dia
Em várias partes da cidade, por
Lazer ou rebeldia
A mão pesada se abrirá
Oferecendo a garantia barata de
Que tudo vai mudar
E é tudo igual, igual, igual…

O Caminho Pisado
Paralamas Do Sucesso
Composição: (Herbert Vianna)

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Tá, ficou meio grande o comentário “emprestado” do Herbert, mas acho que vale a pena…

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Sou sua fã nessas suas escrevinhações que não tem a intenção de dizer que no final tudo vai ficar bem. Eu sempre acredito no final feliz, mas é bom saber dos ciclos da nossa vida, que hora parecem bons e depois já se transformam naquilo que a gente nunca quis. E eu, qdo escolhi ser jornalista, achava que ia fazer uma pauta nova cada dia, que ia conhecer pessoas simples, problemas diferenciados. Mas cá estou eu, enfiada nessa redação de dias iguais e perdendo boa parte da minha memória!
Real life!!!

Comentário por Fabi

Fazedo, só espero que você não esteja pensando em suicídio. E tem gente que fala “quero ser jornalista porque em jornalismo não tem rotina”. Por que eu não fui fazer Ciências da Terra ou Paleotonlogia?
abs

Comentário por Eduardo Simões

Nas grandes cidades de um país tão irreal
Os muros e as grades
Nos protegem de nosso próprio mal
Levamos uma vida que não nos leva a nada
Levamos muito tempo prá descobrir
Que não é por aí…não é por nada não
Não, não, não pode ser…é claro que não é
¿Será?

Enghaw – Muros e Grades
…pois é!

Comentário por Le




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