Em dias em que falta inspiração, e não são poucos, o ofício de preencher este espaço me obriga a abrir os jornais em busca de algo que chame a atenção e mereça algumas linhas de reflexão. Não que jornalistas não leiam os jornais todos os dias – acreditem, eles lêem! -, mas o marasmo de alguns períodos faz com que uma releitura muito, mas muito apurada seja necessária.
Acontece também o contrário, como na última semana, e o desafio passa a ser o de selecionar o fato mais importante – pelo menos na ótica do autor, é claro – dentre vários outros relevantes. De posse da “grande notícia”, depois de alguns minutos (horas, creio) regados a café preto, bom exercício mental e muita paciência, temos o resultado…
Pois bem. A grande notícia da semana passada bem que poderia ter sido a reeleição de Hugo Chávez, no domingo, por tudo pode representar para o cenário político latino-americano. No entanto, a informação mais relevante saiu na quarta-feira e passou quase despercebida, como, volto a dizer, costumam passar as notícias que realmente importam: de acordo com a ONU, os 2% mais ricos do planeta possuem 50% de toda a riqueza mundial.
A grande notícia da semana poderia ter sido a rejeição das contas de campanha do presidente Lula por parte do TSE, que quase me fez perder o sono com a pergunta que insistia: “de onde vem o dinheiro, de onde vem o dinheiro?”. Mas, cá entre nós, o que realmente conta é que 1% dos adultos mais ricos do mundo é dono de 40% dos ativos mundiais, enquanto 10% desse grupo possui 85% de toda a riqueza.
A grande notícia da semana poderia ter sido a crise nos aeroportos brasileiros, símbolo de um país que, a despeito de quaisquer esforços retóricos, dá demonstrações de que não está pronto para crescer. Mas acho realmente que, mais importante do que o calvário dos pobres passageiros, é saber que, para integrar o clube dos 10% mais ricos do mundo, você não precisa de mais do que US$ 61 mil em ativos e que, mesmo assim, 90% dos 6 bilhões de habitantes do planeta estão de fora da festa.
A grande notícia da semana poderia ter sido a aprovação do tão falado Fundeb, o novo fundo para financiar a educação das criancinhas no Brasil, ou o fim da cláusula de barreira, que mantém a festa do pluripartidarismo no país da falta de idéias. Mas achei realmente ainda mais importante a constatação de que 90% da renda mundial está concentrada em América no Norte, Europa e países de alta renda Ásia-Pacífico. Os outros 10% são rateados entre a América Latina, África e a grande parte da Ásia.
A grande notícia da semana poderia ter sido a de que Fidel Castro pode não durar até o natal (seguindo os passos do chileno Pinochet, em que pesem as diferenças) e que Hugo Chávez, a quem muitos vêem como um sucessor de Castro, já ensaia uma aproximação dos Estados Unidos, que isolaram Cuba e o povo cubano do resto do mundo.
Mas a grande notícia, caro leitor, é que um estudo pioneiro da ONU mostrou, em números, que o mundo globalizado, que democratizou os sonhos de consumo entre os povos, ainda não globalizou a renda. Antes, segue brutalmente desigual, dividido entre poucos milionários e bilhões de famintos, entre dominadores e dominados, entre 2% que detém metade de um bolo e 98% que brigam pelo resto.
A grande notícia é que, no ápice do capitalismo e da superação de seus obstáculos, os ricos nunca foram tão ricos. E os pobres, nunca tão pobres. A grande notícia, senhores, é que quase ninguém dá a mínima para isso…
2 Comentários até o momento
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Sensacional, meu caro. É realmente de doer, principalmente estando do lado de cá, ver como nós, mídia, negligenciamos certas informações que deveriam ser gritadas ao mundo. Talvez porque suponhamos que ninguém dá a mínima ou talvez porque não damos a mínima também…
Comment por danielamoreira 12 Dezembro, 2006 @ 9:56 amMeu caro Gerson, esse foi o seu melhor! Forma e fundo, malandro, tudo correndo redondo.
Brilhante…
Repito o elogio do Manuel Bandeira ao Rubem Braga: “O Braga é sempre bom, mas quando não tem assunto é fantástico”.
Comment por vinacherobino 12 Dezembro, 2006 @ 11:24 am