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Sim, caro leitor, cá estou eu, “vivinha da silva”, de volta da Índia. Apesar das previsões encorajadoras dos amigos de que a esta altura já teria sido devorada pelos porcos assassinos, pisoteada por um bando de vacas furiosas ou contaminada pelas águas putrefatas do Ganges, vou muito bem, obrigada.
A título de prestação de contas, sim, as vacas andam felizes pelas ruas por lá mesmo. Aliás, justiça seja feita, em Nova Deli, não vi nenhuma. Mas em Bangalore, o “Sillicon Valley” indiano, que movimenta mais de 18 bilhões de dólares ao ano em softwares e serviços, as bichas estão por toda parte, ruminando sem constrangimentos. Na favela que nascia colada à parede do hotel cinco estrelas onde a IBM nos hospedou, vivem pelo menos umas três dúzias delas, pelas minhas contas.
E Bangalore não é campeã apenas no quesito vacas. Também dá um show no quesito trânsito. As buzinas incessantes marcam o ritmo caótico do vai e vem dos carros, bicicletas, rickshaws, ônibus e despreocupados pedestres que andam quase que literalmente uns por cima dos outros, na mão “inglesa”, só pra deixar esta desnorteada blogueira ainda mais atordoada.
Para o indiano médio, buzinar é quase obrigatório. Buzina-se para prevenir as colisões, para retaliar o barbeiro ao lado, para censurar o pedestre desatento, mas, antes de tudo, buzinar faz parte da vida. Em Deli, justiça seja feita de novo, o transito também é bastante caótico – o que, vindo de uma paulistana, quer dizer muita coisa.
A miséria, como também já haviam me alertado, está em toda parte. Em Bangalore, uma miséria triste, serena e resignada. Caminha-se pela favela, e quase tudo – tirando os prédios imponentes das multinacionais de tecnologia, os hotéis que servem de refúgio aos trabalhadores estrangeiros da tecnologia e os shoppings onde passeiam e compram os profissionais da tecnologia – é favela.
O mais impressionante é que, com 200 dólares na bolsa e uma câmera na mão, caminhando entre becos, não me senti em nenhum momento ameaçada. E isso, vindo de uma paulistana, quer dizer muita coisa. Imagine caminhar pela favela do Heliópolis – ou pela Rocinha, pra ser menos bairrista – com 200 dólares no bolso e uma câmara na mão e sair ileso, sem nenhuma tentativa de assalto ou seqüestro, e o que é mais surpreendente, sem nem mesmo sentir-se hostilizado.
Assim é caminhar entre os miseráveis de Bangalore, seus barracos caindo aos pedaços, suas ruas estreitas e imundas (de volta, a justiceira: vi apenas um rato, morto e muito bem nutrido, o que me leva a crer que morreu de enfarto, diante de um rickshaw desgovernado). Eles te olham com seus olhos grandes e curiosos e nada dizem – quando dizem, é uma súplica insistente: “anti, one foto, plis, one foto”.
Gostam mesmo é de se ver no LCD da câmera, mas se não der, basta sair na foto. Os mais velhos ou mais tímidos, às vezes lançam um olhar pesaroso, que como muito bem apontou o meu colega de viagem, parece dizer: “Ok, vá em frente, pode me fotografar. É isso aí mesmo, eu tô na merda, você também, e um dia todos nós vamos morrer, a vida é assim mesmo”.
As mulheres, com seus sarís multicolores, que podem ser amarrados de mais de 70 jeitos diferentes, e os homens, quase sempre da camisa (das mais discretas às mais extravagantes, com estampas em xadrez pink e verde) esboçam um certo esforço de elegância que, imagino, tem a ver com a herança da colonização britânica.
São, no mais, muito solícitos (o que pode se tornar facilmente irritante) e servis. Dizem que são também muito disciplinados e adaptáveis, por isso se deram tão bem neste negócio de prestar toda sorte de serviços terceirizados para o mundo – mas não dá pra dizer, é claro, que o salário de 500 dólares/mês para engenheiros formados (que por lá, aparentemente, é uma boa grana) não tenha nada a ver com isso.
Mas mesmo em Deli, onde a miséria é mais dura e mais frenética (e os camelôs e pedintes mais “saídos”), guardam uma dose de reserva e solicitude, que me parece, não tem só a ver com a necessidade de ganhar dinheiro. E como já diria o dono do nosso hotel, o não tão majestoso Madonna, “aqui ninguém vai te matar, no máximo vão tentar te aplicar um golpe”.
É um jeito de ser manso e resignado de ver e viver a vida. Como as suas sagradas vacas, que vivem no pasto – ou nas ruas – a contemplar a vida e a ruminar a ração que lhes cabe neste mundo, parecem andar no ritmo que a vida dita, como se soubessem de algum segredo que esqueceram de nos contar.
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