Domínio Público


Glória do desporto nacional
20 Dezembro, 2006, 3:09 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro, jornalismo

Há quem queira desmerecer o título mundial conquistado pelo Inter no último fim de semana antes das festas de fim de ano. Há, inclusive, quem queira desmerecer até mesmo o tetracampeonato mundial conquistado pela Itália.

Mas isso é normal, o saudosismo. Aquele sentimento de querer que as coisas parem no tempo porque, àquela altura, tudo parece maravilhoso e tudo que se deseja é que o tempo pare para que aquilo nunca mude.

Só que os movimentos de rotação e translação da Terra seguem em andamento, e os saudosistas, muitos deles com microfones na lapela e letras em colunas de grandes jornais, resistem.

Reclamam do Inter porque ele venceu as estrelas do Barcelona graças a sua aplicação defensiva, o que, ao contrário do que pensam, não significa retranca. Os saudosistas lembram-se com nostalgia de Garrincha, Pelé, Zico e chegam a olhar com menosprezo para Ceará, Fabiano Heller e Iarley. Esquecem-se, no entanto, que o futebol é um esporte coletivo e, como em todo esporte coletivo, aquele que apresentar o melhor conjunto no período da disputa, os famosos 90 minutos, vence.

E foi isso que o Inter fez, enfrentou o Barcelona de igual para igual. Sim, enfrentou sim, assim como o time catalão, o Colorado colocou em campo o que tem de melhor e aliou marcação com força ofensiva nos contra-ataques. Basta p leitor rever a partida e verá que, do meio-campo, lugar de onde saiu o gol do Inter, o Colorado teve pelo menos outras quatro ou cinco jogadas perigosas no contragolpe rechaçadas pela defesa espanhola.

Foi uma vitória importante para a compreensão do esporte. Acabou com aquele clichê de que time bom é aquele que joga, mas também deixa jogar. Não, time bom é aquele que joga e também não deixa o adversário jogar, e foi isso que o Inter conseguiu fazer, não em toda, mas em boa parte da final.

Outra alegação dos que sentem falta dos tempos românticos: o título mundial da Itália é um retrocesso para o futebol. Qual a razão? Apenas porque a Itália sabe usar a seu favor seu melhor trunfo, a qualidade defensiva? Retrocesso para o futebol seria, como em 1978 e 1966, se o campeão mundial tivesse sido beneficiado por jogadas extra-campo.

Há até mesmo os que afirmam que o título mundial de 1994 foi “aquele que ninguém gostaria de ter ganho”. Opa! Deixem-me fora dessa. Eu adorei ver o Brasil campeão em cima da Itália nos pênaltis e levantar o Mundial 24 anos depois. Confesso, devo ser a escória da sociedade porque adorei ver os lançamentos do Dunga para Bebeto e Romário e não me importei muito com o fato daquele time não ser malabarista, mas objetivo e eficiente.

Apesar dos pesares, esse conceito de que futebol bem jogado é futebol eficiente, que marca forte, sem violência (como fez o Inter) e que sabe surpreender os adversários no contragolpe, é o futebol tático, que deixa a arrogância de lado e se arma conforme o adversário, tem crescido na crônica esportiva. Tanto é assim que a reação dos saudosistas, uma tentativa de desqualificar aqueles que têm opinião contrária às suas, já aconteceu.

Ventilou-se pouco depois da Copa do Mundo que o jornalismo esportivo brasileiro vivia uma “Era Dunga” porque os colegas mais jovens questionavam o excesso de atacantes na equipe.

Ora, foi-se o tempo do WM, do 4-2-4. O preparo físico evoluiu muito e isso não devia ser uma coisa ruim. Ou seria ruim os tempos campeões dos 100 metros rasos caírem substancialmente ao longo das décadas?

Concordo que a seleção brasileira não deva temer os adversários, mas isso não significa que jogaremos com apenas um volante, dois laterais subindo todo o tempo e massacraremos os mais fortes adversários com goleadas históricas, que podemos sofrer três ou quatro gols sem problemas porque sempre marcaremos sete ou oito.

Todas as equipes de sucesso jogam com a maioria de seus atletas atrás da linha da bola quando perdem a posse da redonda, por isso que o Inter teve apenas uma oportunidade cara-a-cara com o goleiro catalão. Mérito colorado, a única chance foi desfrutada.

Não me entendam mal, não estou cuspindo na história do futebol. Estrelas do passado têm de ser reverenciadas, não questionadas. As mudanças táticas e físicas –até mesmo pequenas alterações na regra—fazem do futebol um esporte quase diferente do que era há algumas décadas.

Penso que não cabe a discussão sobre se Pelé teria espaço no futebol de hoje. Isso não levaria a lugar algum, mas só para constar, penso que genialidade não tem época nem tempo. Isso vale tanto para um gênio do passado quanto para um do presente.


2 Comentários até o momento
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Descordo, descordo, descordo!!!
É o tucanismo chegando ao futebol

Comment por vinacherobino

Ah, antes da correção, escrEvi assim de propósito…

Comment por vinacherobino




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