Domínio Público


Pára cara. Pára
31 Janeiro, 2007, 3:25 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, aposentadoria, esportes, saber a hora de parar, tênis

Acordou com o barulho de uma construção do outro lado da rua. Ficou puto, aquele bate-estaca desgraçado lhe interrompera um sonho bom. Na verdade, uma lembrança boa em forma de sonho.

Sonhava que, mais uma vez, era o herói das massas. Uma batida na bola fazia o tempo parar, o vento parar de soprar. Tudo ficava em suspenso até a conclusão do lance e a caída da bola na terra batida, como o golpe fatal da espada no adversário. Tuchê!

O adversário se esticava, mas o golpe era inalcançável. O silêncio estava interrompido pelos aplausos e pela vibração. Bons tempos aqueles.

Mas, quando a bola subira para o alto e, em seguida, iniciava sua descida rumo ao impulso que poderia eternizá-la, veio aquele maldito bate-estaca despertar-lhe e interromper o sonho bom em forma de lembrança. O suspiro que, embora parecesse só um sopro, tinha um significado claro: “Ah, os meus vinte anos!”

Ah, aquele 1997! Que 1997! Ano que mudou a história de um brasileiro em particular e a rotina de muitos deles por alguns anos que se seguiriam.

Mudou porque ninguém esperava. Imagina que absurdo se alguém te falasse hoje que um número 66 do mundo ia chegar num dos quatro principais torneios de tênis do mundo, vencer os três últimos campeões daquela brincadeira –um bicampeão na final e dois “top ten” pelo caminho—e, recém-saído da adolescência, com 20 anos, se tornaria estrela do esporte.

Foi o que aconteceu. O austríaco metido a besta Thomas Muster dançou, o russo não mais simpático Kafelnikov iniciou sua freguesia e o rei do saibro, o espanhol Sergio Bruguera, tomou um três a zero na testa daquele Gustavo o quê? Kuerten? Mas o cara não é brasileiro?

Lógico que era! Que outro cara, num esporte de trajes tão sóbrios, se meteria a usar uma roupa que mais parecia ter saído de uma alegoria carnavalesca? Só um brasileiro mesmo, um moleque, de 20 anos, que ganhava seu primeiro título no circuito da ATP, logo um dos quatro principais, logo o principal do saibro, logo um Grand Slam.

Tal como o cara que é despertado pelo barulho infernal do bate-estaca, os brasileiros acordaram naquele domingo de meados de 1997 assustados, positivamente assustados. Quer dizer então que temos um campeão no tênis. Um ídolo nesse esporte tão elitista no país dos campos de barro e bolas de meia. Semelhança mesmo só o piso de terra batida.

Mas nada mais cruel que o tempo. Nada mais sacana e filha-da-mãe que esse maldito tempo. Dez anos se foram. Pô, mas o que são dez anos? Nada, pô! Nada, se você pensar que as pessoas vivem até bem depois dos 60 anos com os pés nas costas.

Mas entre uma vitória e outra, entre mais dois títulos em Roland Garros e entre o auge máximo em 2000 –imagina alguém derrotar Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio e ser aclamado o melhor do mundo naquele ano—, o quadril começou a encher o saco.

Não há de ser nada, devem ter dito. Mas era. Pergunte ao sueco Magnus Normann, rivalérrimo de Guga no saibro francês numa final épica em um tie-break eletrizante no último set. Ele parou a carreira antes dos 30 com lesão parecida.

Mas a esperança é a última que morre. Vamos entrar na faca, campeão!. Uma, duas e nada. Até o fisioterapeuta/druída das estrelas foi chamado para ver se resolvia o problema e nada.

Trocou de técnico, ficou sem técnico, voltou a ser treinado pelo mesmo cara que o ajudou nos dias de glória e… nada.

Enquanto isso, lá estava aquele maldito bate-estaca, depois de mais uma derrota para um cara inexpressivo, como se fosse uma idéia recorrente na cabeça lembrando que os tempos de glória já se foram e não voltarão mais: Será que o melhor não é parar e devolver o tênis brasileiro ao mar de ruindade em que ele vive desde Maria Éster Bueno e em que vivia antes dela?

O que deve ser mais difícil para um ex-número um do mundo. Parar ou olhar o ranking mundial e se ver na 1082ª posição?

Enganam-se aqueles que dizem que o nome Gustavo Kuerten está na história do esporte brasileiro. Ele está na história do esporte mundial, tanto assim que, mesmo após a derrota na estréia no torneio de Viña del Mar, estava na capa do site da ATP.

Lembremo-nos dele como o cara que pregou no deserto e, num país onde o tênis é praticamente restrito aos clubes da alta sociedade, ele brilhou entre os melhores do Globo.

Esse cara não merece ser lembrado como o atleta decadente que não soube a hora de parar.



As contradições do PAC
30 Janeiro, 2007, 4:00 pm
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., economia, jornalismo

A semana passada foi pródiga para quem queria entender um pouco sobre a esquizofrenia econômica (ou do pensamento econômico) no Brasil. A principal notícia veio na segunda-feira. Para acabar com as expectativas alimentadas havia quase dois meses, o governo Lula finalmente lançou seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que promete injetar um pouco de adrenalina nas cansadas veias do PIB nacional. 

Não faltou gente para dizer que o projeto é tímido – e é mesmo – por uma série de boas razões. A melhor explicação foi a de Melchíades Filho, da Folha de S. Paulo. Com o PAC, diz, “o governo promete fazer o que já é feito, investir o que não tem e renunciar àquilo que não arrecada”. Ou seja, o PAC não fede, nem cheira, não ajuda, nem atrapalha.

Para os menos pessimistas, há pelo menos um avanço retórico em voltar a falar de crescimento econômico no Brasil, como se já não ouvíssemos sobre “espetáculos do crescimento” há algum tempo. 

O problema do PAC é que ele nasceu morto. Mentira! Nasceu na segunda, viveu quase dois dias, e foi morto na noite de quarta-feira. Depois de ter seu presidente enquadrado no lançamento do programa de crescimento, o Banco Central, a despeito de toda a expectativa positiva, resolveu reduzir o tamanho do facão e cortar em apenas 0,25 ponto percentual a maior taxa básica de juros do mundo. Na verdade, pouco importa tamanho da queda, mas o efeito psicológico que ela proporciona. Um recado do tipo: “Aqui mandamos nós, caso vocês ainda não saibam”.

O PAC é um arremedo de política desenvolvimentista – aquela em que o Estado persegue o crescimento e, para isso, participa da economia por meio de políticas setoriais e investimentos diretos em infra-estrutura – lançado dentro de uma matriz econômico-ideológica liberal e monetarista, na qual o Estado deve ficar longe da atividade econômica e se limitar – por meio de um banco central independente, se possível – a regular a oferta de moeda no mercado para que haja estabilidade. 

São dois modelos, duas filosofias, duas concepções de Estado que não cabem dentro da mesma política econômica. Caso contrário, você tem uma situação a que muito em breve vamos assistir.

De um lado, o governo prometendo uma política expansionista, com aumento dos investimentos e dos gastos (não seriam também investimentos?) sociais. De outro, a autoridade monetária aumenta a taxa de juros, tirando dinheiro do mercado, reduzindo investimentos privados e públicos, aumentando o endividamento público e, consequentemente, comprometendo ainda mais o já deteriorado quadro fiscal. E é aí que a conta brasileira não fecha.

Como que deitado em um divã, assistido pelos doutores Keynes e Friedman, o País se vê dividido entre dois pensamentos, com o id desenvolvimentista e um superego monetarista. É o que impediu o país de abraçar integralmente as reformas liberais dos anos 90, vendidas ao país como passaporte para a era da modernidade, e de largar de vez a velha política expansionista, rotulada de atrasada. 

Enquanto não for capaz de decidir seu caminho de forma soberana e adotar políticas convergentes com essa opção, o Brasil vai continuar assistindo a taxas de crescimento medíocres, tão medíocres quanto aos programas apresentados para acelerá-las.



As vésperas da indignação
29 Janeiro, 2007, 6:54 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Vinícius Cherobino, blogs, internacional, internet

Foi a sensação que tive na Itália: as pessoas andam esperando um momento, um instante, para desovar a indignação que seguram em grandes berros, urros, violência verbal com medo de se tornar física. Lembro dum caso numa rede de fast food com calorias medidas em toneladas. O tiozinho que estava depois de mim na fila, franzino e meio acabado, se apóia na lateral da escada para olhar para a parte de baixo do restaurante (havia dois andares). Uma tiazinha, mais jovem e gordinha, não vê ninguém na fila e toma o lugar imediatamente atrás de mim. O lugar do tiozinho. Ele percebe, ela não gosta. Está feito o escarcéu com vafanculo repetidos.

Por que eu contei essa história? Ora, porque eu ganhei um parágrafo e duas linhas. Mas, mais do que isso, queria uma imagem que pudesse mostrar como é o internauta brasileiro. Não há imagem melhor do que os dois italianos putos se xingando para mostrar isso. Não, minto, tem uma imagem melhor sim. Para quem é paulista - você provavelmente deve morar em São Paulo - lembre-se do trânsito. Os seus garotos (que é pejorativo suficiente sem ter relação com a idade em si) de braço para fora da porta, carros tunados, olhar enfezado e rebeldia a toda. Andam, sempre prontos para enfrentamentos seguidos de fugas espetaculares, sempre prestes a explodir, a combater qualquer um que duvide do poder da sua armadura de fino metal e som eletrônico. Pronto, em suma, para se indignar. Um indignar mecanizado.

Esse é o internauta médio brasileiro. As irritações súbitas, as perseguições cegas, a indignação que surge e vai embora com um clicar de botão. Vejo os comentários espalhados pela minha curta carreira de blogueiro e me assusto: os idiotas me adoram. O meu texto na Trivela no qual o Tio Afonso critica o título do Inter foi um absurdo: por ler algo diferente, se indignaram e amaldiçoaram todas as gerações cherobínicas anteriores. Talvez por eu ser, também, um idiota. Mas isso é outro assunto. O que importa, agora, é como é bonita essa frase: “o internauta brasileiro é um ser às vésperas da indignação”.

Toda a vez que vejo um movimento de “Basta”, normalmente acompanhado por algum assunto muito sério (violência, aborto, câmara dos deputados, torcedores do corinthians, sei lá), tenho vontade de chorar. Só isso… Sei que, assim como grande parte dos veículos de comunicação que também me despertam desejos semelhantes, não tenho outro remédio sem ser aceitar. Isso é algo tão brasileiro como, vá lá, a cocada. Mas cansa, como cansa…

Por isso, minha querida meia dúzia que me lê aqui (estou numa séria crise de otimismo), pense muito bem antes de comentar, antes de dar vazão à sua indignação. Lembre-se do trânsito. Lembre-se dos vafanculos. Lembre-se das mulheres de Atenas. Qualquer coisa, mas controle a sua indignação e tente, vá lá, fazer um protesto no meio da rua, todo mundo de branco, mãos dadas, gente jovem reunida. Senão adianta nada, pelo menos rende imagens melhores.



Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte I)
26 Janeiro, 2007, 5:42 pm
Arquivado em: Silvia Noara Paladino

Sentada em minha cadeira de praia, sem perder a mania de afundar meus pés na areia clara e macia, tenho olhos apenas para o mar verde escuro, por instantes indeterminados. Moldado por ondas pacíficas, que desenham contornos brancos passageiros por toda parte, o aquário gigante passa a impressão de ser inofensivo. No verão, geralmente é assim. O mar revolto, que ora me força a recuar, ora me puxa pelos pés em direção a suas armadilhas, parece dar uma trégua. Os surfistas não se mostram muito satisfeitos com a calmaria temporária das águas. Mesmo assim, eles compõem uma fila horizontal de pranchas, paralela à linha do horizonte, que acompanham o movimento das ondas.

Vinte e quatro. Essa poderia ser a quantidade de vezes em que regressei a esse exato momento, se eu não levasse em conta detalhes que formam noites e dias distintos, a cada nascer e pôr-do-sol. Eles são os navios que estão a caminho ou de partida do Porto de Santos, as placas de “perigo” que os salva-vidas enterram na areia para orientar os banhistas e os vizinhos de guarda-sol. Vinte e quatro, contudo, são o número de anos em que me arrependo de ter esquecido os chinelos ao queimar as solas dos meus pés nessa areia. Vinte e quatro também poderia ser o número de ocasiões em que me lamentei por não ter usado protetor solar, de livros começados, de cantadas ruins, de machucados provocados por trombadas e chutes no futebol de areia – meninas adoram a idéia demoníaca de desafiar os meninos a qualquer custo –, e de mergulhos sob a Lua.

Se por um lado as contas de perdem, por outro eu reconheço melhor a mim mesma quando reencontro minhas lembranças de tanto tempo. Há quem diga que a Praia do Tombo (Guarujá, São Paulo), conhecida pelas fortes ondas que hoje abrigam importantes campeonatos de surf, se revoltou quando, na época do Brasil colonial, escravos eram aprisionados nas grutas das encostas do morro e, depois, lançados ao mar. A amargura parece, no entanto, uma tática defensiva de um soldado impalpável, que adormece de olhos abertos para vigiar o seu espaço.

A aparência de quem apenas observa o que acontece ao redor, protegido por armas feitas de silêncio e mistério, contudo, já não me convence. A inconstante movimentação da maré, de acordo com seu temperamento e humor em relação aos ventos, pode parecer natural. Ela vem e volta, mas vem muito mais do que volta. Lembro de quando era criança e meus passos quase não alcançam as ondas que quebravam na areia. As pernas eram curtas, é verdade. Embora elas não tenham se alongado muito mais, sei que o meu caminhar não foi o único que mudou. O mar também deu seus passos, sem que a multidão percebesse.

Nesse meio tempo, vejo que o “Mano” continua a vender suas raspadinhas aos sábados e domingos, depois de uma semana inteira de trabalho como estivador no Porto de Santos. O Mano é evangélico, por isso não vende raspadinha com vodka, somente o suco com gelo mesmo. Já o tio do biscoito de polvilho – um senhor baixinho, de uns 60 anos, vestido sempre de calças compridas e sandálias de tiras largas – inventou algumas músicas novas para chamar atenção nesse verão. Para eles, o crescimento descontrolado do Guarujá encheu a praia de novos turistas e, conseqüentemente, de dinheiro. Talvez não tenham percebido como a descoberta em massa da cidade de belas praias sobrecarregou as águas, os morros e mangues, provocando cortes de eletricidade, falta de água, pobreza e poluição por todos os cantos.

Ingenuidade a minha em achar que a ocupação desenfreada das outras praias do Guarujá, encobertas por guarda-sóis que se amontoam ao longo de um morro a outro, não chegaria ao Tombo. Em pouco menos de um quilômetro de extensão entre os morros que delimitam a praia, custo para encontrar um espaço ao sol, bem perto da água, sem que os amadores do frescobol, do vôlei, do futebol e dos castelinhos de areia me atropelem.

E se o mar já tinha o temperamento furioso, agora nem se fale. Mal consegue ser ouvido! Desacreditado, procura entender como uma rave - aquelas festas de música eletrônica que geralmente acontecem em sítios e outros lugares mais isolados –, vai parar em um dos cantos da praia, sob o sol do meio-dia. Meus olhos também não acreditam em meus ouvidos, incapazes de abstrair o som repetitivo que vibra no meu cérebro. Como se não fosse o bastante, do outro lado da praia, em um bar encostado ao morro, o som alto também se alastra até onde estou. Pagode. É quando percebo que as canções do mar tornaram-se coadjuvantes em uma peça de atores fajutos, de enredo sem conexões, de público cego e surdo.

Confesso que a irritação me faz parecer uma senhora que não aceita muito bem essas coisas da modernidade, como o biquíni fio dental, o beijo de língua em público, o sexo sem pudores. “Ah, os velhos tempos…”, como já diria minha avó (acho que todas as avós do mundo, na verdade).

A movimentação dos turistas mais animados continua durante a noite. Enquanto alguns seguem para o show do Jamil (a moda eleita para esse verão) ou de DJs internacionais com apresentações marcadas no Hotel Casa Grande e em outras baladas, na praia da Enseada, decido passar pelo Tombo. No quiosque ao lado do posto dos salva-vidas, bem ao centro da praia, vejo que existe uma única mesa vazia. Um dos garçons comenta que tem trabalhado todo dia até umas 4h da manhã. “Mas é bom, tem que aproveitar agora, que tem bastante gente!”, comemora ele, enquanto peço o chope que ainda não veio pela terceira vez.

Iluminada de ponta-a-ponta pelos holofotes e, na maior parte das noites, pela Lua, a Praia do Tombo arranca suspiros. Em um cenário de filme romântico, daqueles em que sempre há um drama avassalador para convencer a platéia de que amar é sofrer, casais poderiam criar seus finais felizes na areia, andando de mãos dadas na beira da água, caso o mundo acabasse. Mas prefiro observar de longe, do plano real, satisfeita por ser apaixonada mesmo é pelo mar. E aí, não existe final.

Infelizmente, os sinais de que o silêncio e os encantos da noite amenizam o caos do verão, por alguns momentos, perdem-se no amanhecer do novo dia.

Leia também a segunda e a terceira parte dessa história.



Lamento de Maria
25 Janeiro, 2007, 11:47 am
Arquivado em: Daniela Moreira, Uncategorized

Tô cansada de dizer e ele não escuta esse homem sai todo dia de manhã atrasado porque eu chamo chamo chamo e ele não escuta eu digo que tá na hora de ir pro trabalho que ele vai perder o ônibus das seis e quarenta e cinco e ele vira pro lado resmunga cobre a cabeça e eu lá só olhando só vendo ele chegar tarde na firma e baixar a cabeça pra levar pito chefe mas pra mim ele não baixa não ah não chega em casa de ovo virado bafo de pinga e ainda diz que a culpa e minha porque eu só faço uma coisa na vida só uma coisa na vida que é cuidar dessa casa e ainda cuido mal não presto nem pra isso desgraçado mas quem é que fica aqui no tanque raspando o casco até formar calo pra tirar a graxa daquela rouparada imunda que ele traz da fábrica quem é que esfrega tudo até ficar tinindo a burra de carga aqui e os menino que trabalheira todo dia é mãe isso mãe aquilo mãe cadê minha cueca mãe acabou o sabonete parece que não tem pé nem mão e a burra de carga aqui agüentando calada mas um dia eu ainda pego todo mundo de jeito um dia eu canso de tudo isso e sumo daqui sem deixar rastro vou embora arrumar um trabalho de faxineira que se é pra trabalhar que nem mula que seja pra ganhar uns trocos e trocar esses trapo velho que eu uso no corpo onde já se viu gente se vesti desse jeito toda mulambenta mas também se não for assim como há de ser o dinheiro mal dá pra comida e os sapato dos menino tá tudo furado tudo gasto que dá até vergonha de levar eles até a porta da escola quem dera entrar um dinheiro eu podia trocar os tênis e as camisa também que tá tudo puída limpinha mas puída dá até tristeza de ver as gola esgarçada mais vai se fazer o que mal tem dinheiro o dinheiro do feijão e do arroz o jeito mesmo é conformar o Zé também faz o que pode fica até tarde na firma agüentando aquele traste do chefe dele pudera que ele se enfeza mas não precisava descontar na gente eu é que não tenho culpa e nem os menino que só que uma ajuda com tarefa e tem que ficar ouvindo a mesma ladainha todo dia que eu ponho comida nessa mesa mas nada é suficiente e ninguém me respeita nessa casa e já amarra um bico estraga com a janta que a burra de carga preparou com tanto suor catando as moeda pra comprar uma mistura e botar uma mesa decente pra essa família um dia eu ainda me acabo de tristeza vou parar no Juqueri de tão louca que me botam eu aqui com a barriga molhada ralando nesse tanque e esse bando de ingrato que só faz reclamar da vida quero ver no dia que eu faltar o que eles fazem da vida eu já não tô boa da cabeça qualquer dia eu tenho uma síncope e vou parar no hospital e eles nem vão saber que fim que eu levei quero vê a Dona Carminda cuidar das suas roupa do jeito que eu cuido é Zé quero vê sua mãezinha querida fazer sua marmita todo dia cedo pra você não levar comida requentada e quero ver ela fazer os menino voltar da rua e tomar banho na hora certa ah não há quem faça deixa estar que um dia eu sumo mesmo desapareço e eu aí quero vê acabou-se a festa.

- Maria, vem acudir esse feijão que já ta cheirando!
- Já vou, Zé. Já vou…



Ensaio sobre um (quase) suicídio
25 Janeiro, 2007, 2:05 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr.

Faltam exatos 15 minutos para as dez horas. Se tiver sorte, se tudo conspirar a favor, chego ao Brás a tempo de pegar o trem das 09h55.  Mais 20 minutos, com sorte e tudo a favor, chego ao compromisso marcado com um atraso não tão difícil de justificar. Jogo lá uns 20 minutos a mais no trabalho, uns 15 de atraso do ônibus, uns dez por causa do trânsito e tenho uma bela desculpa a dar a quem já está de braços cruzados me esperando.

Por enquanto, vou bem. Saio da Barra Funda de metrô, que encostou logo depois de eu colocar o pé na plataforma – golpe de sorte. A primeira parada não consome mais que 15 segundos, já é tarde e não há razões para atrasos. Acho que vou conseguir. Estamos parando na Santa Cecília, estação que eu adoro. A composição reduz a velocidade e, de repente, sentimos o tranco. A máquina pára bruscamente, as luzes logo se apagam, os olhos correm para o relógio, e a cabeça já começa a refazer os cálculos. Falta de energia é sinônimo de atraso. Resta apenas saber quanto.

De repente, a voz do alto-falante anuncia e dá o veredicto. A viagem está interrompida por tempo indeterminado. Há uma pessoa nos trilhos.

“Esse já era”, ouço, ao que alguém logo responde. “Não é hoje que vamos sair daqui”. Possivelmente. Já não me preocupo mais. Agora, os olhos voltam-se é para fora, à busca de algum movimento, alguma explicação.  Uns querem ir embora logo e cuidar de suas vidas, que ainda as tem, azar de quem tinha e não quis. Outros, entre os quais me incluo, são tomados pela curiosidade. Saio do trem e corro para o piso elevado, onde alguns já se aglomeram. O acesso à plataforma que assistiu à fatalidade já está isolado. De luvas brancas, alguns bombeiros correm rumo ao local, enquanto funcionários tentam em vão conter o alvoroço dos observadores.

A mão desliza sobre o bolso onde se encontra o telefone. Penso: “Tenho uma história nas mãos, em primeira mão. De repente, me recordo ter ouvido em algum momento há muito tempo que os jornais não publicam sobre mortos nos trilhos do metrô. Meio frustrado, observo o resgate, à distância, enquanto cai a ficha. Vida importante mesmo, só a nossa! Com a dos outros a gente não está nem aí. Uma pessoa está ali, possivelmente morta, e os vivos em volta se dividem entre os que não vêem a hora de tudo isso acabar para seguirem viagem e os que apenas querem uma história para contar, indiferentes e cínicos.

Começo a pensar naquele senhor, cinqüenta e poucos anos, rosto desfigurado. O que o levara a saltar? Talvez o desemprego, talvez a solidão, talvez um coração partido, uma doença sem cura. Talvez nada disso e, realmente, pouco importa. Para aquele homem, apenas não valia mais a pena esperar pela morte, não mais valia acordar todos os dias e se ver cercado pelos problemas, tristezas, inseguranças, ansiedades e sofrimentos que cercam os corpos e mentes dos que aqui vivem. Sim, pois as assolações miram o corpo que, para uns, assemelha-se a uma prisão. Para eles, a morte é um vislumbre de liberdade.

“Como alguém tem coragem de fazer isso?”, acusa, indignada, uma mulher ao meu lado. Não sei, mas é uma atitude corajosa. Sim, corajosa! Ou alguém aí arriscaria dizer que a saída mais fácil é apertar o gatilho contra a própria cabeça?

Certamente não! Fomos dotados de apego pela vida, pelo corpo que nos abriga todos os dias, ao longo dos anos que, arrisco, por muitos e tribulosos que sejam, sempre serão insuficientes e desejados. Desapegar-se de tudo isso também é um ato de coragem, ainda que alimentada pelo desespero e até, veja o paradoxo, o medo de seguir em frente.

Mas a Santa Cecília não foi a última estação do anônimo suicida. Talvez por que o acaso o protegera, talvez por que Deus quisera dar-lhe uma segunda chance, aquele homem sobreviveu para ver novos dias, acompanhados de problemas, tristezas, inseguranças, ansiedades e sofrimentos, os que cercam os corpos e mentes dos que aqui vivem. Voto sincero, que opte por viver…



Garota eu vou pra Califórnia
24 Janeiro, 2007, 3:46 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, celebridades, esportes, futebol, sociedade

Que sonho hein? Em vez de uma aposentadoria convencional em que o cidadão pára de trabalhar e fica em casa vendo os filhos crescerem, uma pré-aposentadoria em que o camarada continua trabalhando com um nível de exigência muito menor, um salário bastante generoso e badalação, badalação e badalação –quem sabe até uma nova carreira no show business após o abandono definitivo da profissão.

Espetacular hein? Quem não gostaria? Só um maluco, ou um workaholic que morre aos 35 anos de infarto fulminante e uma vida recheada de stress.

Por isso não acho que dê para criticar o David Beckham. Afinal, de bola para valer o cara não está mais a fim, não está mais com saco de torcida cobrando resultado, de Fabio Capello pedindo raça e determinação. O que ele quer agora é pegar sua linda esposa e ir para a terra das celebridades e, unindo o útil ao agradável, ele arrumou um time que vai pagar uma bela grana para que ele cobre umas faltas, mostre um pouco de sua habilidade e pronto. Depois, badalação, badalação e badalação.

É só olhar as notícias. Das que eu achei, apenas uma fala de futebol e mesmo essa mostra que o Los Angeles Galaxy não está realmente preocupado em reforçar seu meio-campo com um jogador que passa bem e é um exímio cobrador de falta, mas sim reforçar seu caixa com um sujeito que traz um retorno financeiro fenomenal, retorno cuja ausência até mesmo o Real Madrid, que agora se despede do astro, deve sentir.

É um dizendo que a Spice-Esposa do meia recebeu oferta do rei do pop para comprar seu tenebroso rancho na Terra do Nunca, outro falando que o mais novo mais badalado casal de Hollywood deve ir à festa do coelhão Hefner e até mesmo os que garantem que a apimentada cônjuge de Beckham deve enfrentar ciumeiras das namoradas e esposas de seus colegas de time.

Futebol que é bom nada. Mas também, que bando de caras chatos esses críticos. Deixa o cara curtir a vida. Futebol para quê? Quem se importa com um bando de marmanjo correndo atrás de um negócio redondo?

Legal mesmo é viver entre as celebridades. Logo cedo, café-da-manhã com o amigo Tom Cruise, depois um almoço informal com Will Smith, Spielberg e Britney (que pode até mesmo estar sem a roupa íntima). À tarde, passeio com as crianças e a patroa na Dysneylândia, de noite alguma balada com bastante câmeras e o merecido sono lá pelas cinco da manhã.

 Treino? Como assim treino? Você sabe com quem está falando “professor”? Eu sou o Beckham! Conseguiu ser o principal astro da seleção do meu país sem nunca ter ganho nenhum título pelo English Team e fui contratado por uma das equipes mais badaladas do mundo e nunca ganhei nada de muito importante por lá também, então, “coach”, vai ver se eu estou em Neverland.

Afinal de contas, futebol para quê? Como diz a música: garota eu vou pra Califórnia, vou ser artista de cinema, o meu destino é ser star.



Isso nunca me aconteceu antes
23 Janeiro, 2007, 4:26 pm
Arquivado em: Vinícius Cherobino

Está bom, leitor, confesso: falhei. Foi mal.

Mas - reconheça! - não tenho essas coisas de esconder, de dissimular, assumo: falhei. Poderia usar o discursinho de “sabe como são essas coisas, vida corrida, agitada, atribulada, muito cansaço”. Não uso. Assumo, falhei e é a primeira vez que isso me acontece.

Poderia culpar a profissão, mas não vou. As coisas da minha profissão não justificam esse tipo de coisa. Além do mais, toda e qualquer carreira acaba tendo uma coisa dessas. Não vou tentar explicar, dizendo que, de repente, fiquei todo enrolado, como que abraçado por um polvo olerítico, preso, frágil, flácido.

Não há metáforas, não há imagens. Há a falha e o fato de que poderia acontecer com qualquer um. Isso mesmo, seu arrogante, qualquer um.

Poderia mesmo. Eu sei. Sou homem e já ouvi milhares de histórias assim. De repente, acontece e pimba: muda tudo. Confesso: minha auto-estima está abalada, muito abalada, mas eu vou sobreviver. Eu vou sobreviver.

Mas, olha, não foi por falta de idéias não. Não foi, não foi, juro! Tava pensando nas probabilidades, queria desenvolver mais o que eu falei na semana passada. Achei que não ficou tão claro e tals. Valeria explicar mais, dizer o porquê d’eu achar que – na minha vida toda – não vou encontrar ninguém que quebre essa estrutura tão forte de fatores prováveis. Terminaria com “é provável, mas não é possível”, seria um final bacana. Você ia ver, ia mesmo…

Mas fica para a próxima. Prometo. Pode confiar, não vou mais falhar de novo, não vou mesmo. Isso acontece com todo mundo e aconteceu comigo. Desculpa, foi só um dia…

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Quanto vale a sua mãe?
19 Janeiro, 2007, 12:37 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Daniela Moreira, Uncategorized

Quanto vale um membro da sua família? Família próxima, digamos seu pai, ou um irmão, por exemplo? Vamos lá, não seja tímido. Ninguém está te ouvindo. Nada de sentimentalismo barato, do tipo, “não tem preço”, estamos falando em cash, money, bufunfa, tutu.

Vou tentar ajudar o leitor com algumas dicas práticas. Calcule, por exemplo, quanto vale um almoço de domingo, aquela lasanha maravilhosa da sua avó, o queijo derretido, puxando do prato até a sua boca, cheia de água, aquele molho inigualável, o cheiro que você sente lá do portão quando vem entrando, tudo no ponto certo, e a torta suculenta de morango de sobremesa, a sua preferida, que ela fez com todo amor só pra você. Cem reais? Duzentos? Vamos lá, não seja pão duro! Afinal, é a sua avó!

E aquela tarde no parque com o seu pai? Aquele dia em que ele te ensinou a andar de bicicleta, desparafusando as rodinhas, segurando os seus ombros pra ajudar a achar o equilíbrio, e por fim o sorriso indisfarçavelmente orgulhoso no rosto quando finalmente você conseguiu dar as primeiras pedaladas. Quanto? Cem pela bicicleta? Tá, uns trezentos porque ele deixou de ir ao churrasco do patrão para enfrentar o parque lotado, sob um sol de rachar o coco.

Ou aquele dia que vocês sentaram no quintal fazendo a melhor pipa a já voar nos céus do seu bairro. A cola de farinha, o papel de seda colorido, preto e branco, as cores do time do coração, e a rabiola, perfeita. Sem cerol, ele ensinou, pode machucar alguém. E lá foi ela pro alto, linda, a mais linda a voar nos céus do bairro. Quanto? Dois reais pela seda, três pelos sacos de lixo, mais um pela linha. Uns dez reais?

Agora escolha uma irmã, vai. Quanto vale aquele dia que você ficou com medo do escuro à noite e ela segurou sua mão até você dormir? E aquela tarde, a única na história da sua existência, em que ela deixou você ganhar no Cara-a-Cara porque você estava com catapora e não podia sair na rua pra brincar? Uns 50 paus?

E sua mãe? Essa vale bastante, hein? Pense bem… Quanto pelas noites em claro esperando você voltar da balada? E pelo chazinho de mel com limão levado na cama a cada resfriado? Quando por aquela palavra dura que te fez voltar à linha nos dias de abuso? E pela palavra de carinho mesmo quando você sabe que fez a maior cagada do mundo? Quanto vale aquele conselho sempre infalível - toda mãe é meio meteorologista - de levar o guarda-chuva bem nos dias que caem os maiores pés d’água? E quanto vale aquele sorriso, as lágrimas de felicidade, no dia da sua formatura? Quanto vale aquele beijo no rosto e o “vai com Deus” que te acompanham na saída para o trabalho todos os dias? Mil reais por todo o pacote?

Ah, caro leitor! Sejamos objetivos, por favor! Quanto você aceitaria receber de volta caso um belo dia um ente querido fosse, digamos, tragado por um buraco no meio da rua, por exemplo? Quanto vale uma vida? A vida do seu pai, da sua avó, do seu irmão, ou da sua mãe? Trinta mil reis? Tem gente que não se contenta com nada… Cem mil e não se fala mais nisso.



E Agora, George?
17 Janeiro, 2007, 3:03 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, Eleição norte-americana, guerra, internacional, política

Imagine o seu Epaminondas. Pensando em conseguir dinheiro rápido para comprar um apartamento, ele colocou parte de suas economias em ações de uma única empresa que, dizia-se, tinha enorme potencial de crescimento. Não foi bem o que aconteceu, a companhia enfrentou dificuldades e, mesmo no longo prazo, o dinheiro de seu Epaminondas foi sumindo sem perspectiva de recuperação.

Agora vamos pensar no seu Noronha, um cara doido por pescaria. Certo fim de semana ele saiu para pescar. Três horas da manhã estava de pé, arrumou as coisas, entre elas um saco cheio de camarões para isca, e partiu animadíssimo para um local onde, segundo amigos, peixes enormes e ingênuos seriam presa fácil em seu anzol. Pode ou não ser azar de pescador, mas seu Noronha começou a desperdiçar isca atrás de isca com peixes de tamanho insignificante.

O que o bom senso manda seu Epaminondas fazer? Resgatar o que ainda lhe sobra enquanto é tempo. O que o bom senso manda seu Noronha fazer? Desistir da pesca fadada ao fracasso, colocar os camarões na geladeira para serem usados em um local realmente quente para o esporte ou num bobô.

Em vez disso, seu Epaminondas decide lançar mão de mais recursos e adquirir mais ações da tal empresa, vai na contramão do mercado. Em vez disso, seu Noronha corre ao armazém mais próximo, compra mais iscas e insiste na pescaria.

Eles estão errados? É bem provável, mas estavam apenas seguindo a lógica do líder do mundo livre. Ele mesmo, o homem que decide enviar mais 21.500 soldados ao Iraque, mesmo diante de uma guerra (lá vem uma redundância) equivocada e estúpida na qual seu país está –no popular– levando um couro.

Certamente foi inspirado nisso que seu Epaminondas decidiu torrar suas economias e seu Noronha decidiu lançar, em vão, camarões ao mar. Assim como Bush vai na contramão da lógica e do bom senso, os dois também decidiram nadar contra a correnteza.

Talvez o raciocínio do presidente do país mais poderoso do mundo seja mais simples. Se estamos perdendo, então vamos mandar reforços. Mas e se esses reforços não servirem? Se não forem o bastante? Mandaremos mais? Até quando? É isso que a “imensa” minoria de norte-americanos que ainda tem alguma crença no atual governo deve se perguntar todos os dias.

Mas, como dizem naquela divertida série mexicana: quem poderá nos defender?

Seria o senador filho de pai queniano que admitiu ter consumido maconha e cocaína na juventude ou a ex-primeira-dama traída? E do outro lado? Será que um colega de Bush pode resolver a situação? Se sim, seria o herói americano de setembro de 2001 ou o ex-prisioneiro de guerra no Vietnã?

Mas antes que isso seja resolvido pela decisão nem sempre sábia, aos olhos do resto do mundo, dos eleitores norte-americanos em 2008, a interrogação mais forte é: que saídas o texano que usou da influência da família para não servir no Vietnã vai inventar para sair do Iraque?

É quase consenso que, apesar de enforcamentos recheados de insultos e decapitações, ele não vai conseguir entregar um país harmonioso e pacífico e que a missão não será cumprida, como ele quis fazer acreditar após a queda de Saddam Hussein.

Parafraseando Drummond: E agora, George?