Arquivado em: Eduardo Simões, esportes, feminismo, futebol, igualdade, machismo, sexo, sociedade, tênis, vôlei
Por esses dias uma notícia provocou comemorações daqueles (e daquelas, principalmente) que defendem a igualdade entre os sexos. O tradicional torneio de tênis de Wimbledon, talvez o mais tradicional do mundo, decidiu finalmente igualar a premiação da campeã do torneio feminino ao do campeão do masculino.
Está certo que a comemoração foi discreta, ninguém saiu ateando fogo em sutiãs nem nada, mas foi uma notícia que agradou, foi tida como uma conquista daqueles que lutam pela igualdade dos sexos.
Pois eu lhes afirmo que foi uma conquista das mulheres, não uma conquista da igualdade entre homens e mulheres, mas um benefício para as mulheres, um benefício que dá a elas uma vantagem sobre eles.
Isso mesmo. O fato de Wimbledon ter seguido o exemplo já adotado pelos outros torneios de Grand Slam coloca a mulherada do tênis com um benefício que a marmanjada não tem. Nada contra Sharapovas, Kournikovas, Hantuchovas e outras belas das quadras. Nada contra outras menos dotadas nesse quesito como Mauresmos, Davenports e Navratilovas (aliás, é impressionante a proliferação de Ovas nesse esporte, mas isso é outra história).
O problema é que um tenista, para vencer uma única partida de um torneio de Grand Slam, precisa derrotar o oponente em três sets, enquanto as tenistas conquistam a vitória se vencerem dois sets. Isso significa que, em um jogo duro do masculino decidido em cinco sets, pode chegar a quatro horas, às vezes até mais. Enquanto que um duelo de titãs no feminino, na melhor (ou pior) das hipóteses chega na casa das três horas.
Essa é a diferença. É óbvio que assim a regra determina porque –e isto é cientificamente comprovado—homens e mulheres têm diferenças biológicas entre si. Por mais que a tenista francesa Amelie Mauresmo tenha um canhão no seu saque, o canhão dela vira bala de festim se comparado ao poderoso saque de um Andy Roddick, por exemplo; Por isso não faria sentido colocar a mulherada para jogar o mesmo número de sets que os barbados disputam. Por isso que a bola do basquete feminino é mais leve que a do masculino, a cesta menos alta e etc.
O único esporte em que as regras e medidas são idênticas para meninos e meninas é o futebol e, venhamos e convenhamos, a diferença não só técnica como de espetáculo entre o masculino e o feminino é avassaladora. Por isso que eu sou favorável a adaptações no futebol das meninas, como campo menor, bola mais leve, etc.
Voltando ao assunto inicial, não é questão de defender que os atletas masculinos devem receber mais só por terem nascido com um pinto. A questão é simples, fria e calculista. Nos Grand Slams eles têm que vencer mais sets que elas para triunfar. Questão de justiça. No vôlei, por exemplo, sou totalmente favorável à remuneração igualitária. Homens e mulheres disputam partidas em melhor de cinco sets, a premiação deve ser a mesma.
Além do mais a natureza, ou –para os que acreditam em Deus como eu– aquele que a criou, é sábia. Existem esportes em que as garotas dão um pau nos meninos. É muito mais bonito ver uma apresentação da Daiane dos Santos do que uma do Diego Hypólito, por exemplo. No próprio tênis e no vôlei as versões femininas são uma alternativa bastante interessante para quem já está de saco cheio de porrada no saque e voleio e pontos que não duram mais de trinta segundos com cortadas na casa da centena de quilômetros por hora.
Por fim, eu sou favorável à igualdade de sexos, não àquela hipocrisia de “a mulher tem que ganhar o mesmo que um homem que esteja na mesma posição, mas se sairmos para jantar e ele resolver dividir a conta, não é cavalheiro”.
Ou então, “eu sou mulher, mas sou mais macho que muito homem então não me trate como um ser frágil, mas se quiser passar em casa depois para abrir uma lata de ervilha ou trocar uma lâmpada será bem-vindo”.
“Eu sou uma mulher completamente independente, tenho minha vida e quero que você respeite meu espaço, mas prepara-se para ser acordado de madrugada para vir trocar o pneu do meu carro ou ir comigo ao mecânico para ele não tentar me enganar.”
“Nós não nascemos grudados, eu respeito o seu espaço e você o meu, mas se você resolver ir tomar uma cerveja com seus amigos no dia do aniversário da minha tia Alberta está tudo acabado entre nós.”
Bom, é isso, podem descer a lenha agora meninas, peço só para preservarem minha mãezinha querida que, afinal, é mulher como vocês.
Relutei em voltar ao tema. Podem dizer por aí que pintou um bloqueio, que estou me repetindo, o que seria um duríssimo golpe na moral já por demais abalada deste Domínio graças aos seus desmedidos resvalos no “literatismo” – ao leitor desavisado, segue a definição do pai dos burros: “literatura medíocre, de má qualidade; literatice”.
Mas voltemos ao foco – o objetivo deste post não é defender o “literatismo”, a “literatice” nem sequer a “literatura de má qualidade” aqui praticada, pois o Domínio é público, mas as decisões, felizmente, são privadas.
Posto isso, voltemos agora de fato ao objeto que se repete: o idiota. Justifico: repete-se o tema porque se repetem os idiotas, aqui e acolá – embora já tivesse deixado bem claro que, aqui, a idiotice não era bem vinda. Enfim, há sempre um idiota que pode ter passado batido pelo alerta – comportamento muito natural para um idiota.
Em minha defesa e para manter o interesse do leitor, já adianto: repete-se o objeto, mas o viés é outro. Um outro tipo de idiota. A rigor, talvez seja até o mesmo. Mas ressalta-se aqui uma faceta específica do idiota, talvez a que mais me amedronta: o idiota letrado.
Antes que saiam dizendo por aí que estou defendo certas idiotices, idiotice é idiotice e pronto, acabou. Mas se há um tipo de idiota que é realmente indefensável, é o idiota que o é porque quer.
Explico: tem gente que vive muito feliz por aí, ignorante da sua idiotice. Gente que nunca abriu um livro na vida além da cartilha Caminho Suave, gente que teve pouco ou nenhum contato com uma carteira de escola, gente que aprendeu a ver o mundo apenas pelas dicotomias cultivadas para dentro da porta da sua casa. Gente que não lê jornal e que tem à sua disposição tão somente a cosmologia do Domingão do Faustão para decifrar o mundo. Vá lá…
O que realmente me assusta é o idiota da cadeira ao lado. O idiota que divide a mesma mesa do bar em que me sento, que cursou o ensino médio particular e bem pago que freqüentei e que esteve na universidade privada em que me formei (me eximo aqui de entrar no mérito pra lá de questionável da tal universidade neste momento).
Gente que leu (e se não leu foi porque não quis), gente que estudou, gente que teve noções mínimas de história, de filosofia, e quiçá, um pouco de retórica. Gente, que assim como eu e meus três colegas de Domínio (dos quais, para evitar de antemão as intrigas, por mais que discorde, não questionei nunca a inteligência e a sensatez), teve acesso a informação, cultura e educação formal, para dizer o mínimo. Teve de tudo para desenvolver um mínimo de senso crítico e discernimento. Mesmo assim, não se dá ao trabalho de avaliar, ponderar e argumentar – prefere ofender. Não é capaz de extrapolar os preconceitos e tabus herdados dos seus tataravôs.
O que me assusta mesmo é o idiota que chega a este Domínio, internauta, privilegiado digital, certamente letrado, e, quiçá, até jornalista, já que por aqui grande parte o é. Que chega aqui, lê tudo que escrevemos – se comenta, presumimos que lê – e, claramente, não entende lhufas. Esse idiota, não há como negar, teve todas as chances de não sê-lo.
Acho, ademais, um grandessíssimo desperdício. Dos livros na prateleira, dos superfaturados bancos da universidade, e das árvores – tantas árvores – gastas em diplomas de papel… Mais que tudo, um desperdício – tanta gente capaz de pensar sem livros, cadeiras e diplomas. E eles aqui e acolá, formados, premiados, celebrados, respeitados. Os idiotas.
Sob o risco de praticar a mais hedionda “literatice” aqui já registrada e revelar, mais um vez, minha faceta mais radical e, quiçá, até arrogante, ouso assim mesmo parodiar o paradoxo machadiano. Por que idiota, se letrado? Por que letrado, se idiota?
Arquivado em: Vinícius Cherobino
Eu precisava da chave. Queria a chave. Fiquei sentado, ouvindo os discursos repetitivos e reciclados (nada melhor do que reciclar idéias num tempo de preocupação pro forma de ecologia) e me inquietando na cadeira. A roupa social, os quilos a mais, a olheira de responsabilidade; tudo era fantasia. No fundo, estava eu mesmo a bater meus pés, a tamborilar meus dedos, a preparar o literatismo da segunda e aguardar a tão difícil chave.
Enfim o fim. Almoço, discussões espirituosas, a alforria. Chamo o táxi, só penso na chave, e aguardo ansiosamente cantarolando slogans da tevê. Burro, não vejo que ele já me esperava do lado de fora do gigantesco complexo azul de idéias recicláveis. Burro, mais alguns minutos perdidos, mais alguns momentos de vida que perdi a conta de tão comuns, mas não passo nenhuma noite sem me arrepender. Não sei, mas poderia ter empreendido alguma coisa.
No caminho, leio o meu poema em prosa ‘homens de terno’. Tem coisas bonitas, mas é ingênuo e idiota. Ah, os idiotas… Tão virando hábito também no domínio público, mais um lugar a úmido e quentinho que favorece a reprodução de tão comum espécie. Nem me animo a linkar, tenho medo dos idiotas. Mesmo andando tão perto deles…
Mas isso não importa. Perdi outros preciosos minutos na busca da chave. O inferno é que não combinei com os russos e, na reciclagem do dilúvio, enfrento uma chuva como há muito não via. Água por baixo do táxi, água por cima, pelos lados. As pessoas se afogam ao meu redor e eu só peço para que o taxista passe, por cima se possível, que eu vou em busca da chave.
Acaba a chuva, não a perseguição. Chegou a noite, cansado de guerra. Não vai ter jeito mesmo, durmo mais uma vez pensando na chave. Não tenho espaço para romantismos bobocas, mas guardo -perto- o papel que garante a minha chave. Meu vale-chave.
Acordou com uma pontada aguda logo acima do olho esquerdo. Abriu levemente as pálpebras e a fraca luz que entrava pela fresta da porta entreaberta lhe cegou por um momento. Sentiu o gosto azedo na boca. Antes que começasse a reconhecer os ingredientes do almoço do dia anterior levou a mão à testa e apertou bem os olhos. Veio a tontura e o primeiro flash. O silêncio de Bruna ao telefone quando ele disse que ia tomar uma cerveja com o pessoal do escritório.
Três segundos – teria cronometrado se tivesse relógio à mão. Depois, como já se esperava, os meio argumentos, os protestos e, por fim, inevitável, os gritos. Náusea. Levou a mão à boca e virou de lado. Alarme falso, só um leve arroto. Mas a dor que nasceu bem no meio da sobrancelha esquerda agora irradiava, ganhando a testa, no flanco norte, e tomando o globo ocular, mais ao sul. Ensaiou uma levantada de meio corpo, apoiado no cotovelo. Desabou.
Fechou de novo os olhos, procurando algum escuro. Mas agora quem vem vinha era Rui e a discussão na tarde daquela sexta. O enjôo aumentou. Mais empenho, ele pediu. Mais paixão. Paixão? Quem ele queria enganar? Um projeto medíocre, sendo muito generoso. Verba ridícula, idéia esdrúxula, pra dizer o mínimo. E só. Paixão? Dinheiro, ele finalmente retrucou. Com ar ofendido, o chefe virou de costas e deu por encerrada a discussão. O estômago deu mais uma volta, subiu até a garganta e voltou.
Precisava chegar ao banheiro, antes que fosse tarde. A dor agora invadira toda fronte. Apoiou a palma da mão na testa, franziu o nariz, ergueu as maçãs do rosto, suspirou. Mais um flash. Pedrão jogando papo pra cima da morena da mesa ao lado. Falara com Lígia a menos de cinco minutos, garantindo que chegaria em casa cedo. Ânsia. Levantou rápido demais.
Agora não podia mais negar: era o gosto de bolinho de bacalhau misturado com cerveja que vinha à boca. Apoiou a mão na parede, se curvou um pouco sobre os joelhos dobrados. Bruna, histérica, insuportável. Rui, emprego de merda, salário de merda. Pedro. Ligia… Porra, Pedrão! Se equilibrou. Respirou. Nova pontada.
A amiga da morena da mesa do lado. Papo, mais papo, mais chopp, mais papo. Teria colocado a mão na sua cocha? Sorrisos, mais chopp e mais papo. Teria sido só papo? Ânsia. Encostou o rosto na parede e por um momento a sensação gelada lhe deu ânimo para seguir. Na porta do banheiro, o enjôo voltou com toda força. A que se reduzira? Bruna, Rui, Pedro, a amiga da morena da mesa ao lado, bolinho de bacalhau e cerveja.
Fitou o espelho. Náusea. Vomitou.
República Federativa do Brasil. Nome pomposo, mas o que significa? Bom, somos uma República, o que, segundo a Wikipedia, é “uma forma de governo na qual um representante, normalmente chamado presidente, é escolhido pelo povo para ser o chefe de Estado, podendo ou não acumular com o poder executivo”. Mais que isso, somos uma República Federativa.
O que nos remete à idéia de Federação, segundo o Houaiss, “substantivo feminino. Rubrica: direito público. União instituída entre Estados independentes para formar uma única entidade soberana [Os Estados passam a ter apenas autonomia, enquanto a federação é a detentora da soberania.]”.
Bacana, mas tem alguma coisa errada nisso aí! Ok tem gente nesse blog que estuda o assunto e tem mais autoridade do que eu para falar a respeito, mas do alto do meu conhecimento limitado do tema, eu fico me perguntando, onde está a autonomia dos Estados nessa República Federativa?
No Brasil, os Estados têm espaço de manobra limitado para legislar. Decidem algumas alíquotas de impostos, sobre obras locais e nomes de ruas e de praças. Quem aí se lembra de uma lei votada em qualquer uma das 27 assembléias legislativas do Brasil que tenha sido alvo de grande debate dada a sua importância? Lembro vagamente de uma sobre pagamento de estacionamento em shopping centers, e só.
E onde está a autonomia das Unidades da Federação se toda semana os governadores vão à Brasília com o pires na mão. O governo federal centraliza grande parte da arrecadação e a distribui ao seu bel prazer, quando não contingência. Toda vez que chega dinheiro vindo de Brasília para qualquer Estado, parece que o presidente, o grande provedor, está sendo generoso e não que esteja cumprindo sua obrigação.
O Tocantins precisa construir uma ponte? Manda o senhor governador ir à capital tentar sensibilizar ministros, parlamentares e burocratas, porque dinheiro para isso não existe em Palmas nem na esmagadora maioria das capitais de Estados brasileiros.
Se somos uma República Federativa no nome, por que não sê-lo de fato? Por que não dar aos Estados a autonomia de fato, para governar, para legislar, para definir prioridades, etc?
Se o povo de São Paulo, por exemplo, decidir – por meio de seus deputados estaduais ou por plebiscitos– mudar as leis de punições a criminosos, ou que se pode dirigir um automóvel a partir dos 16 anos, por que impedir?
Qual o problema se o Pará resolver que jogar lixo na rua dá um mês de cana, desde que seja por via democrática. É bastante questionável a autoridade de quem está Brasília de decidir que a mesma coisa é boa para a Amapá e para o Rio Grande do Sul.
E se o governador do Rio de Janeiro decidir diminuir a maioridade penal? Ora, desde que ele consiga aprovar uma lei sobre o tema na casa parlamentar fluminense, afinal, não somos uma República Federativa? Qual o problema em praticar o nosso próprio nome.
E olhem só, mesmo com os Estados tendo autonomias financeira e legislativa, os nossos parlamentares em Brasília ainda teriam muito que fazer, afinal, é claro que existem coisas que devem ser iguais em todas as Unidades da Federação, se não eles deixarão de fazer parte desse grupo.
Ou então, deixemos de hipocrisia e mudemos nosso nome para República Centralizadora do Brasil. E ponto final.
Tão impossível quanto não se indignar com o bárbaro crime que matou o garoto de seis anos no Rio de Janeiro é não sentir nojo da hipocrisia com que a mídia e o governo reagem à questão. Sim, nojo, náusea, enjôo, repulsão, repugnância, asco e quais outros substantivos sinônimos que o dicionário oferecer.
É dessa forma que eu vejo o corpo de mais uma vítima da violência abraçado por oportunistas de toda a ordem, todos preocupados em ganhar pontos, uns com suas bases, outros no Ibope.
Aproveitam-se todos da cegueira da ignorância da população, que respira a fumaça da indignação que exala das fogueiras alimentadas não apenas pelos crimes que, sim, são chocantes, mas também pelo combustível de ódio e preconceito que nela atiram.
Cria-se a guerra do bem contra o mal, da “sociedade” contra a criminalidade, dos cidadãos de bem da classe média contra bandidos metamorfoseados em monstros e assim mergulhamos todos em comoção coletiva, tão bem explorada por quem dela sobrevive.
Enquanto isso, escondem o Estado, o Estado falido, o Estado a serviço dos credores, incapaz de assegurar educação, renda e o mínimo de perspectiva em uma sociedade na qual as relações são cada vez mais definidas pelo consumo, uma sociedade divida, sim, não entre bons e maus, mas entre os que têm e os que não têm.
Uma sociedade que não se indigna da mesma forma quando tolera uma criança de cinco anos vendendo bala no farol ou cheirando cola nas esquinas das cidades – como se houvesse crime maior contra um ser humano – ou que assiste incólume ao recrutamento de adolescentes sem futuro pelo tráfico de drogas, o mesmo tráfico que atende aos caprichos de jovens de classe média mimados e insensíveis, que se vestem de preto e saem às ruas para protestar por paz.
Mas por que explorar as raízes tão profundas e escondidas de uma sociedade que não respeita o social? É mais fácil apontar todos os canhões da nossa revolta contra os champinhas e outras personificações do mal que produzimos. Além disso, dá mais voto, mais ibope e, certamente, vende mais revista.
Arquivado em: Análise da Mídia, Vinícius Cherobino, direitos humanos, educação, escrever, guerra, jornalismo
- Saiam todos de casa, juntos, e fiquem parados na porta (ou portaria).
Esse momento é bem importante e delicado, é quando nasce a revolução. Todo mundo em sua porta (ou portaria), guardião do seu lar, prontos para o nascimento gigantesco daquilo que está por vir. A polícia não teria como combater os cidadãos nesse momento. Há um limbo legal sobre a porta (ou portaria) ser legalmente a sua casa ou não. No questionamento, ganhamos corpo.
- Marchemos, unidos, andando em blocos.
A polícia estará desorientada, depois de tanto tempo que os confundimos com a estratégia do limbo jurídico. Temos corpo, somos massa, e, agora, marchamos. É importante que os líderes impeçam e proíbam as tentações de dispersão ao atender o celular (ou PDA), responder e-mails no blackberry ou mesmo de levar o tocador de músicas digitais. O caminho é direto e a caminhada é reta.
- Aglomeração total na sede da Veja.
Como líder de fato e direito da toda a nossa indignação, nos aproximamos calmamente e ordenadamente para ouvir A Voz. Nada de se organizar no MASP ou no Sambódromo, o caminho tem que ser direcionado a sede para ouvir A Voz. Com as ordens de lá, que serão detalhadas a seguir, continuamos.
Nota aos organizadores: É preciso avaliar cuidadosamente o solo. Caso a aglomeração passe dos 500 mil, a marginal pode ter o buraco reaberto e São Paulo toda vai entrar numa entropia iniciada no prédio da Abril que consumirá a cidade.
- Marcha aos presídios
A diretoria já está definindo qual é o itinerário das visitas aos presídios. De qualquer forma, iniciamos o ataque pelo portão principal. A polícia, nesse momento, estará ao nosso lado (deu certo com o Coronel Dutra?) e vai fornecer as armas. Está definido: duas balas por preso; a primeira: na cabeça; a segunda: no peito. Os presídios femininos serão os últimos a serem visitados, antes será a vez das Febens.
- Reagrupamento na sede da Veja
Depois de visitar todos os presídios e casas de re-sociabilização, a massa volta para a sede da Veja para ouvir A Voz. A diretoria ainda está avaliando marchas similares para a Assembléia e Câmara, com subseqüente marcha à Brasília. Problemas de agenda, budget e de negociações colocam o tópico “on hold”. O comprometimento da polícia também está em aberto nessa questão.
Aguarde novas ordens.
Por Thais Cerioni
Ok, confesso: já assisti a uns três ou quatro ‘episódios’ de BBB 7 e talvez faça isso outras vezes. E, sim, assisti um pouco dos outros seis que antecederam esta ‘temporada’. Nem percam tempo em criticar quem vê reality show, porque isso é assunto velho… Tem quem gosta, tem quem não gosta e tem quem, apesar de não gostar, não resiste. É o meu caso.
Mas desta vez estou sentindo um problema um pouco mais sério do que os que normalmente atingem esse tipo de programa. Tem um fulano, um tal Felipe, cujo comportamento vai além da falta de fosfato comum aos participantes do BBB. Lutador de jiu-jitsu, skatista e muito passional, o moço se estressa com absolutamente tudo. Fica p***, grita, xinga, chuta e chora – não necessariamente nesta ordem.
E o problema não pára por aí. Outro dia, revoltado por ter sido indicado para o paredão, ele passou pelo menos 20 minutos (aqueles que vão ao ar ao vivo pelo Multishow) contando causos. Em todos, ele e amigos se metiam em alguma briga e quebravam alguém até que “o cara apagasse”. Os cenários das pancadarias foram os mais diversos – de Bananal a Zurich –, mas se repetia a expressão de orgulho do sujeito, que se gaba por ter socado muita gente em várias partes do mundo.
Aí eu me pergunto: incitar a violência não é crime previsto no código penal brasileiro? Um fulano qualquer pode usar a maior empresa de mídia brasileira, em horário nobre, para incentivar milhões de jovens a brigar na rua e “quebrar” alguém até que “apague”? Não seria o caso do tal Big Brother (que vê e controla tudo o que acontece na casa) ter um mínimo de bom-senso e colocar certos limites ao que pode ser falado pelos participantes do programa?
Desliguei a TV e fui buscar na internet o que estão falando sobre o cara. Não me espantou descobrir que desde o início do ano uma série de ONGs e organizações pelos direitos dos homossexuais estão em pé de guerra com os patrocinadores do programa e com a emissora. “Até falo com viado. Mas se for para conviver comigo, não gosto não. Se for para entrar no meu mundo, invadir meu espaço, leva porrada mesmo.” A frase foi o estopim do movimento das ONGs contra o BBB7 porque propaga, em rede nacional, a violência e o preconceito. Este que, por acaso, também é crime previsto pela legislação do nosso querido País.
Será que os reality shows precisam mesmo fazer ecoar as idéias e ações de qualquer um, independente do seu caráter e da sua idoneidade? Será que não faz parte da responsabilidade de uma empresa do tamanho da Rede Globo e com o seu poder de influência escolher com mais cuidado quem serão os próximos candidatos a heróis? Será que nossas crianças, adolescentes e jovens já não têm maus exemplos demais?
Arquivado em: Silvia Noara Paladino
Por Silvia Noara Paladino
Mesmo após um período de evasão de turistas e investimentos para outras cidades do litoral Norte de São Paulo, ao longo dos anos 90, vejo que não sou a única a encontrar um paraíso particular no Guarujá. Na Praia de Pernambuco, o apresentador Silvio Santos realiza seu sonho antigo de erguer um sofisticado resort, apoiado por sua veia empreendedora, por um cofre de R$ 150 milhões e pelo desejo de morar em seu próprio hotel. O prefeito Farid Said Madi, que desde sua eleição protagoniza escândalos de corrupção mal esclarecidos, planeja até construir o aeroporto internacional do Guarujá. Mais turistas, mais dinheiro.
No Tombo, uma grande construtora também assumiu a tarefa genuína de criar refúgios milionários de frente para a praia, no lugar de casas mais velhas e terrenos vazios. Tenho a sensação de que não percebi as etapas de construção das novas mansões de arquitetura moderna, muros altos e andares que não terminam. Quando vi, elas já estavam de pé. A que mais encanta, no entanto, continua a ser a mais antiga delas, formada por varandas, janelas e portas de madeira, tijolos à vista, harmonia e leveza. São os donos da casa que, por tradição, armam os fogos mais bonitos na praia, a cada virada de ano, criando um clima propício para transformar milhares de abraços emocionados em uma única manifestação.
Uma só experiência de chegar ao dia 1o de janeiro sem ter o Tombo como testemunha do meu choro compulsivo, por sinal, foi o suficiente para levar uma lição por toda a vida. Dentro de mim, não existe um começo sem a vibração coletiva que transforma a massa em um único indivíduo e o indivíduo em massa. Sem as esperanças que se projetam em direção ao mar e retornam em forma de poder de realização. Mesmo como intenção, as resoluções de ano novo sinalizam para uma tomada de consciência em relação ao que deve ser conquistado, eliminado ou revisto, como uma luminosidade intensa sobre a pessoa que cada um deseja se tornar. Sem a certeza de estar em casa, porém, existe apenas a virada de uma página do calendário, que poderia ser qualquer uma.
O ‘seu’ Eduardo, um senhor de 74 anos que, entre momentos de veraneio e morada fixa no Guarujá, acompanha a trajetória do Tombo desde a juventude, reforça as rugas de seu rosto e franze a testa ao relatar os passos da procissão que rumou à praia para assistir aos fogos do último reveillon. “Cê já viu quando a TV mostra aquele mundo de gente no Brás, 25 de março, esses canto aí de São Paulo? Aqui ganhou!”. Com um ar até conformado, o ‘Manivela’ (como é conhecido pelo povo das antigas da praia), traz à memória a época em que o Tombo ainda não era habitado e havia apenas umas poucas casas de madeira. Muitas delas foram passadas de geração a geração, com famílias que continuam fiéis ao Tombo.
“Aqueles sirisinhos branco, caranguejo vermelho, não tem nada mais. Nem aquelas tatuíra bonitinha, que os pescador enchia balde para usar de isca, lembra? Se tem, é uma ou outra extraviada…”, lamenta ‘seu’ Eduardo. “Dizem que a água do Tombo é limpa, mas eu acredito que tá contaminada. Onde foram parar os bicho! Nem peixe…os pescador não acham mais nada”.
Lembro de quando a praia ainda não era bem iluminada, durante a noite, e eu corria em disparada em direção ao mar, para não me assustar com os pequenos siris que se multiplicavam entre a areia fofa. Na verdade, eu tinha mesmo era medo de pisar em um desses bichinhos engraçados que andam de lado. Mas ‘seu’ Eduardo tem razão. Eles raramente aparecem agora, de dia ou à noite. Os peixinhos que nadavam entre os pés na água rasa e as conchas presas à areia úmida também se foram – e nem eu me dei conta, reconheço. Assim como os peixes maiores, dizem os pescadores, que se enfileiravam nas zonas próximas às pedras e atraíam platéias eufóricas e atentas à briga do homem e do mar.
As autoridades públicas e organizações ambientalistas reconhecem a Praia do Tombo com um dos poucos lugares que ainda preservam suas belezas naturais no litoral Sul de São Paulo. E encontrar uma explicação para tal desaparecimento desses animais parece uma tarefa ainda mais difícil quando dou braçadas despreocupadas entre as ondas, como uma criança que se diverte em uma banheira de água morna e patinhos amarelos de borracha. Não há indícios, rastros ou pistas deixadas para trás.
Recentemente, a Foundation for Environmental Education (FEE), entidade ambiental da Dinamarca, concedeu à Praia do Tombo o título de Bandeira Azul – comprometido com a conscientização em relação à proteção do meio ambiente, de forma a incentivar cidadãos e tomadores de decisão a solucionar problemas existentes. A certificação é sinônimo de qualidade ambiental e deve ser concluída até o final de 2007, com a condição de que sejam realizadas algumas intervenções, como implementação de sinalizações de segurança, melhorias de infra-estrutura e realização periódica de campanhas de educação ambiental.
A notícia de que o Tombo fora a única praia do litoral paulista a receber tal título, em um primeiro momento, despertou um orgulho de quem já há muito tempo percebeu que esse não é um lugar qualquer. Pode não se comparar a praias exuberantes do Nordeste brasileiro ou do litoral de Santa Catarina, mas o encanto do Tombo não reside apenas no que aparece nos cartões postais ou nos álbuns de fotos. Também não é visível a todos os olhos. Talvez seja evidente apenas para mim, e tudo bem também.
A visibilidade pública do meu pedaço no céu, por outro lado, gera uma preocupação que pode parecer egoísta. Como aquela sensação de quando o melhor amigo pede uma parte do que ele é em você de volta, ao decidir se casar. Mas também não é como um sentimento de posse, que não tem a acrescentar a nenhuma das partes. Na verdade, parece mais saudade de tudo o que foi vivido junto a ele (todas aquelas coisas que são especiais justamente porque não se repetem), ou mesmo cuidado em protegê-lo do que ele não consegue evitar.
A gratidão pelo amigo que ingressa em uma nova jornada nos faz sentir um pouco responsáveis por seu futuro. No final das contas, todas essas inseguranças acalmam com a certeza de que ambos permanecem silenciosamente atentos um ao outro.
Um belo dia inventaram a máquina do tempo. Eu embarquei receosa, com medo de tanta modernidade. Comecei a ver os rostos. A principio um, daquele que me convidou a entrar. Depois outro e mais outro. E mais outro. Aquela menina da escola, aquela colega da rua, aquele primo – quanto tempo!
No princípio, alegria. Tanta gente! Todo mundo! E eu aqui, recuperando em um clique tantos que se foram, há tanto tempo, que no meio da rotina, do dia a dia, do farol, do transito, do trabalho e da escola, nem existem mais. Um recado, uma promessa: este ano a gente se vê. Mas fica tudo na tela, é tudo bit.
Vejo as caras, uma a uma, lado a lado e já não sorrio, como no começo. Tenho saudades. Não aquelas saudades alegres, sorridentes. Saudades tristes, do que já não é e nunca mais será. Do que só existe na tela. Queria não ser tão triste e lembrar sem tantas saudades – afinal, naquele tempo eu também era triste, eu lembro muito bem. Por que as saudades então? Por que esse aperto, essa coisa? Afinal, é só zero e um, zero e um, zero e um.
Fulano deixou um recado. De longe. De bits. Queria um abraço, Fulano. Queria te ver de perto, embora a foto do seu perfil não esteja das piores. Mas que saudades daquela tarde na praia, daquele violão, daquele livro, daquele filme que a gente viu… Que saudades daquele dia que você chorou no meu ombro e eu te disse que tudo ia ficar bem. Ficou. Olha eu aqui, você aí. E tantos bits.
Dizem que alguns se reencontram, na máquina do tempo. Eu me perco. Me perco em saudades e nostalgia, em fotos, perfis e recados. De tanta tristeza, jurei que não punha mais os pés lá dentro. Mas é mentira. Às vezes embarco, clandestina. Um clique, dois cliques. E lá vêm elas. As saudades sem remédio de tudo que já foi.
Não. Melhor sair, fechar as janelas. Quem é triste não pode vagar por aí desse jeito, à toa. Corre o risco de se perder. Não, fecha as janelas. Fecha as janelas e vai colecionar novos rostos de carne, de osso. O resto é só saudades. E bits.