“Ao lado de tão superiores façanhas, o rapazinho da Azinhagua só teria para apresentar a sua ascensão à ponta extrema do freixo de 20 metros, ou então, modestamente, mas de certo com maior prazer degustativo, as suas subidas à figueira do quintal, de manhã cedo, para colher os frutos ainda húmidos da orvalhada nocturna e sorver, como um pássaro guloso, a gota de mel quer surgia do interior deles. Pouca coisa, é verdade, mas é bem provável que o heróico vencedor do tiranossauro não fosse nem sequer capaz de apanhar uma lagartixa à mão”. José Saramago
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A leitura das belíssimas “Pequenas Memórias” obrigou-me o exercício de resgate da infância, mais distante dia após dia, de forma gradual, mas surpreendentemente rápida. Logo me vem à mente o garoto de cinco anos que um belo dia revelara a dúvida sobre a importância de cada olho. Por que um via melhor que o outro? A resposta: sete graus e meio de miopia no olho esquerdo e a apresentação dos óculos, que me acompanhariam por muitos anos mais e mudaria para sempre como me vejo e sinto.
Às vezes a gente pergunta demais, e a curiosidade infantil é muito inocente para entender isso. Mais do que curioso e, modéstia à parte, bastante inteligente, também era uma criança absurdamente introvertida e duas vezes mais desajeitada, completamente inapta para os esportes e para brincadeiras que exigissem alguma habilidade física. O tampão que usava na lente direita dos óculos, “para forçar o olho esquerdo a enxergar melhor”, apenas consagrava minha esquisitice.
Nas brincadeiras por vezes solitárias, gostava de fingir que era o Superman. Certamente, outras muitas crianças pretendiam e até hoje pretendem ser super-heróis americanos e não há nada de excepcional nisso. O que mais me chama a atenção é que o desejo de ser o homem de botas vermelhas passava antes pela identificação com o alter ego Clark Kent, que na versão de Richard Donner (1978) era tão atrapalhado, tímido e interiorano como eu me sentia – além de ser um quatro olhos, como eu. Mas, na realidade, o personagem eternizado por Christopher Reeve era o extremo oposto daquilo.
Talvez eu quisesse sê-lo também e, por isso, amarrava uma fralda de pano nas costas e pulava do sofá na esperança de voar por alguns metros que fossem. Até hoje me recordo de como sonhava, por noites e noites, que saltava do sofá e conseguia manter meus pés acima do nível do chão.
O bacana de ser criança é a freqüência com que sonhamos, dormindo e acordados. Sonhar é caminhar em um campo onde não há limitações de qualquer ordem, sejam físicas, culturais, mentais, socioeconômicas e temporais, em muito desconhecidas pelas crianças, um lugar onde os humanos se esquecem que são humanos.
O contraste entre Clark Kent e Superman sempre foi, para mim, o que torna esse super-herói realmente fascinante. Ele simboliza a diferença entre o que somos e o que queríamos ser: invulneráveis, imortais, rápidos, fortes e, é claro, voadores. E o que a ciência vem buscando desde sempre se não meios de realizar esses sonhos? Produzimos remédios que nos tornam resistentes a doenças e prolongam nossas vidas, fabricamos aviões que nos permitem voar a velocidades inalcançáveis por qualquer outro ser vivo e construímos as armas que tornam os homens mais fortes – infelizmente, diga-se.
Como criança, queria e imaginava fazer coisas incríveis. Queria ser um herói. Mas os anos passaram e levaram junto, uma a uma, as peças do quebra-cabeça desse sonho. No lugar, deixaram apenas uma realidade: os pés tocam o chão, ao contrário do que imaginava quando pulava do sofá com a fralda nas costas.
A gente amadurece com o tempo, presta vestibular, entra na faculdade, sai da faculdade, começa a trabalhar, recebe um salário, paga contas, consegue um aumento, arruma mais contas, assina um contrato e reduz todos os anseios anteriores à mediocridade de receber um salário bacana, comprar um carro e um apartamento, e ter os finais de semana livres para descansar e, quem sabe, ir ao Zôo – o grande ouro de tolo de Raul. O tiranossauro se transforma em uma inofensiva lagartixa.
Depois disso, restam as memórias. No ano passado, a Warner retomou a franquia e lançou seu “Superman Returns”, a que já devo ter assistido umas quatro ou cinco vezes. Apesar de algumas críticas dos que esperavam mais ação, é um filme belíssimo, com a maravilhosa trilha original de Jonh Williams, um cenário impecável, a reconstrução possível dos personagens – ou do personagem – que tanto marcaram a minha infância e a inquietante questão que garantira o Pulitzer a Lois Lane: “Por que o mundo não precisa do Superman”.
Pergunta que obviamente fica sem resposta pelo agora adulto de 24 anos, cujos olhos, observara a namorada, não pararam de brilhar (como nos tempos de infância) durante as mais de duas horas de projeção no cinema, período no qual uma voz insistia em recitar o livro dos conselhos: “Deixa-te levar pela criança que foste”.
7 Comentários até o momento
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Que bonito, meu querido. E viva a literatura (literatice jamais!). Beijos.
Comentário por danielamoreira 7 março, 2007 @ 12:57 amPô Gerson, baita treco triste!!!
Comentário por Eduardo Simões 7 março, 2007 @ 2:38 pm” O MUNDO ESTA PRESISANDO DE PAZ AMOR …HJ EM DIA A GENTE SÓ VER GUERRA SÓ VER MORTE … MAS PRA QUE PRA QUE TANTAM GUERRA PRA QUE TANTAM LUTA ? SE ALMENOS EU PUDESSE FASER ALGUMA COISA PRA AJUDAR O MUNDO MAS INFELIZMENTE NAO POSSO FASER NADA…
Comentário por Diego Ferreira da Silva 30 abril, 2007 @ 4:55 pmDe fato Gerson o mundo realmente precisa de um superman de analisarmos melhor todos nos precisamos de um superman e ele esta sempre do nosso lado só precisamos procura-los , sua matéria foi muito legal parabéns
Comentário por Aroldo 20 agosto, 2009 @ 4:21 pmSinto um covarde de não conseguir fazer tudo pelo mundo o mundo que vivemos há nele um elementos muito maior para he devolver a paz mundial já vi muitas violências e sofrimentos das crianças eu morreria de amores por eles contudo meu coraçao é um verdadeiro heróis beijos para todos
Comentário por sergiototti6 6 dezembro, 2010 @ 5:15 amsou do rio grande do sul rs deficiente aditivo. um abraços para todos amo todos vocês beijo
Comentário por Sergiototti6 12 janeiro, 2011 @ 11:20 pmperder o amor talvez seja o maor sofrimento do ser humano,,,,
Comentário por Sergio Sergiototti 3 agosto, 2011 @ 10:57 amDEUVA