Antes as coisas eram bem claras. Dominante era dominante e dominado era dominado. Colonizador era enviado de Deus e escravo não tinha alma. Nego, ou melhor, branco, fincava bandeira no continente e como num grande tabuleiro de WAR sentenciava: é meu e ninguém tasca. Quem podia mandava e quem tinha juízo obedecia. E fim de papo.
Muita história rolou por debaixo da ponte, vieram as revoluções industriais e burguesas, as independências, as democracias, as guerras e as descolonizações. No pacote, direitos civis, políticos e sociais emergiram e um novo conceito de liberdade passou a vigorar no mundo ocidental.
Mais que tudo, veio forte o capitalismo e sua sanha por novos mercados. Sob a bandeira da liberdade, da democracia e dos direitos, libertou nações oprimidas e fundou, onde quer que houvesse uma brecha, um mundo novo, livre e, acima de tudo, liberal.
Caído o Muro de Berlim e superados os velhos impasses ideológicos que por um breve – embora explosivo – momento pareceram querer pôr por terra as bases desse admirável mundo novo, vimos nascer o que se convencionou chamar de “globalização”, conceito que sugeria que a mesma mão invisível que conduz o grande mercado mundial que passamos a habitar nos levaria a cooperar não mais como nações isoladas, mas como uma grande Pangea sem fronteiras, compartilhando decisões e desfrutando juntos das beneces do progresso e da evolução.
É claro que tudo não passa de um grande conto da Carochinha. Tão falacioso e ultrapassado quanto o argumento de que no mercado todos têm condições de competir como iguais, é a idéia de que passamos a viver em um mundo de cidadania global, com participação equânime e escolhas equilibradas das nações.
Vivemos sim em um mundo no qual poucos falam e muitos escutam – ou pagam o preço por não fazê-lo. Um mundo em que organizações internacionais – ONU, OTAN, OMC, e tantas outras siglas das quais uma ex-colega deste Domínio muito apropriadamente questionou a serventia -, sob a fachada de arenas democráticas e órgãos de governança global, dão poder de decisão legítima e em escala a grupos hegemônicos, clubes de privilegiados que não decidem só o que é do interesse e benefício geral das suas meia dúzia de nações, mas do mundo inteiro, por assim dizer.
A prática mostra que a cidadania global é legítima para mitigar o autoritarismo medieval e bárbaro do Oriente Médio, mas não se aplica, por exemplo, aos desmandos de Guantanamo. E que até mesmo as decisões consensuais tomadas na arena dos tais grandes órgãos internacionais, como a contenção das emissões de carbono, podem ser sumariamente ignoradas por alguns membros ilustres da turma.
Ao mesmo tempo, a velha dicotomia dos civilizados contra os selvagens, dos bonzinhos contra os malvados se repôs, não mais no eixo colonizadores-colonizados, mas no embate dos que estão dispostos ou não a abraçar a “nova ordem mundial”.
E o perigo mora ao leste. Nós, aqui abaixo da linha do Equador, não somos mais nocivos (exceto um ou outro vizinho, com tendência mais canhota). Viramos bons selvagens e temos até direito a uma alma – mas não a uma vaga no conselho permanente da ONU.
Não há mais caravelas, bandeiras nem capitanias hereditárias. Mas as coisas continuam bem claras. Quem pode manda e quem tem juízo obedece. E fim de papo.
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Oi, Danii!!!
Comment por Silvia 28 Março, 2007 @ 2:05 pmSim, as coisas são cruéis, mas eu, no meu infinito otimismo, ainda acho que tudo melhorou. E a tendência, acredito eu, de novo, é melhorar ainda mais. Jovens conscientes e inteligentes assim como vocês me enchem de esperança ainda mais. Beijos!!!
Ah!!! e vim dizer que como eu tinha o Dominio no bloglines, acabei esquecendo de por o link, Erro imperdoável, que agora finalmente eu corriji! bjs