Arquivado em: Daniela Moreira, direitos humanos, globalização, lixo eletrônico
Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que encontrou um lindo teclado cor-de-rosa com uma linda maçãzinha mordida bem no meio de uma imensa montoeira de lixo, vinda de um continente qualquer, e achou que nunca tinha encontrado coisa mais bela na sua breve vidinha, pois por ali nunca apareceu nada assim tão lindo e tão cor-de-rosa, e ainda por cima com uma maçãzinha mordida bem no meio.
Mas não é. História de gente que vive no meio do lixo, que vive do lixo e do lixo venenoso, não pode ser história bonitinha, nem fazendo muita força. É história do que é ser globalizado na China ou na África. É receber 500 toneladas de lixo por dia lá da Europa ou dos Estados Unidos ou de qualquer outro canto do mundo achando que está recebendo presente.
Computador quebrado, TV que não funciona e teclado cor-de-rosa, que já não presta pra nada. Presente de grego – ou de norte-americano. Mas lixo é lixo em qualquer lugar do mundo. E nem uma garotinha chinesa de sete anos se deixa enganar.
Talvez ninguém por ali saiba muito bem de onde vem toda aquela monteira de coisa ou porque aquilo vai parar ali. Certamente ninguém lhes disse que é mais prático exportar esse tipo de problema do que resolver no quintal de casa. Mas como ali está, tira-se o que é de proveito e o resto vira o que já era mesmo. Lixo.
O lixo, por ali mesmo se queima ou por ali mesmo se larga. Esqueceram de lhes contar, talvez, que este tipo de lixo assim, no ar, na água, no chão, causa doença, mata, por isso lá pras bandas do oeste ninguém quer por perto. A bem da verdade, ninguém gosta de lixo, como se supõe por aí. Mas tem quem precise dele, e isso já basta.
Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que viveu no lixo, brincou no lixo, cresceu no lixo e morreu de câncer aos 21 anos. E ainda pode ser.
Já ficou corriqueira a propaganda de um banco voltado aos correntistas com altos volumes de investimentos (pelo menos para os padrões brasileiros) em que um cara apanha no tênis “de um moleque”, mas fica feliz da vida de ter levado a surra porque se tratava “do seu moleque”.
Um reclame cheio de simbolismos que traz um cidadão bem-sucedido que já se encontra na meia idade, em plena forma física e bem financeiramente o bastante para se emocionar se sentir que a missão foi cumprida ao ver “o seu moleque” arrasando-o do lado da quadra. A moral da história, segundo o reclame, é que a passagem do tempo pode não ser uma coisa ruim.
Esses dias um amigo, dos tempos do colégio que a gente conhece há mais de 10 anos (ok, pode não ser muito tempo, mas para quem tem vinte e alguns é quase a metade da vida) assinou um contrato para começar a comprar seu apartamento. Vai financiar em não sei quantas parcelas, em não sei quantos anos e vai ter que, junto com a namorada, “apertar o cinto” para dar conta do compromisso assumido.
Quando ele chegou com a notícia em um churrasco entre amigos, foi rapidamente cercado. Era a mesma cena do primeiro cara da galera a tirar carteira de motorista que é rodeado pelos amigos ansiosos por detalhes da prova, ou como o primeiro cara a ir, levado certamente por primos mais velhos, a uma casa de tolerância. Alvo inevitável da curiosidade dos amigos. Um outro amigo, que está noivo e morando fora de São Paulo, anunciou que vai casar em menos de um ano.
Lembro de quando tinha acabado de sair do colégio e sempre existiam as especulações. Quem seria o primeiro a casar? Sempre tinha aquele favorito, não por ser o mais comprometido, mas por ter o maior potencial de engravidar uma namorada e ser forçado a ir ao altar.
Como estaremos daqui a 10 anos? Um colega de Domínio já foi morar sozinho e tem quem já esteja pagando seu próprio teto para ficar sobre a cabeça.
É engraçado como as culturas dos vários países são diferentes. Se eu fosse norte-americano e estivesse escrevendo isso, certamente os comentários aí embaixo sugeririam que ainda não saí das fraldas. Lá ir para a faculdade é sinônimo de sair da casa dos pais e, provavelmente, só revê-los em alguns fins-de-semana, Natais e Dias de Ação de Graças.
Por aqui, assim de bate-pronto, só consigo lembrar de três amigos da mesma idade que não moram mais com a família.
Mas como o reclame do banco indica, o tempo passa, senhoras e senhores. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, a hora de “largar as fraldas” chega. Tem quem faça piada com a coisa, sugerindo que os pais não vêem a hora de se livrar dos rebentos para finalmente construírem nos quartos vagos aquele tão sonhado centro de fitness. Tem os irmãos caçulas que juram que só saem de casa depois que os mais velhos o fizerem, afinal “a ordem natural das coisas” tem de ser respeitada.
De todo modo, ao ver o tempo passando a sua volta, os amigos casando e se mudando, tem quem não consiga não se sentir pressionado. Afinal, daqui a pouco vai ser convidado para ser padrinho ou madrinha de casamento ou até mesmo de crianças. Imagina aquele monte de criança suja de brigadeiro, devastando bolos com dedadas e etc? E um padrinho que se preze não pode se ausentar nesses eventos.
O problema é: será que todo mundo está fazendo hoje o que achou que estaria há 10 anos? Aliás, será que planejar o que se vai estar fazendo daqui a 10 anos tem alguma utilidade?
Praticamente duas horas do dia eu passo dentro do trem que liga minha afável Ribeirão Pires a malcriada São Paulo. É muito mais tempo do que o necessário para deixar de se surpreender com uma enormidade de cenas, diálogos, situações e pessoas que confortavelmente julgamos não existirem. Felizmente, há alguns dias, pude saber que meus olhos (pelo menos eles) ainda não se haviam cauterizado para tudo isso.
Em mais uma sonolenta viagem rumo ao trabalho, já entre as estações Luz e Barra Funda, escorado no vão da janela do trem, percebo um casal fazendo sexo em um dos trilhos abandonados. Isso mesmo! Fazendo amor, transando, fodendo mesmo…
Faziam “aquilo” ali, às claras, onze e pouco da manhã, assistidos por algumas centenas de passageiros. Ele deitado sobre o corpo dela, ela com as pernas abertas e abraçadas ao corpo dele, completamente nus sob o céu de brigadeiro daquela indesejada segunda-feira.
Confesso que não prestei maior atenção na reação das pessoas, embora tenha boas razões para pensar que muitos tenham ficado chocados. Aquilo era muito diferente do sexo que fartamente se vende na TV, em outdoors ou bancas de jornal, e passava longe de ser objeto de satisfação do voyeurismo digital que tomou conta da nossa vida. Não era um reality show. Era real e, assim, dolorosamente humano. E isso faz toda a diferença.
O que não quer dizer que não houvesse algo de profundamente terno naquela cena, em dois moradores de rua, talvez marido e mulher, talvez namorados ou apenas cúmplices apaixonados de um atentado público ao pudor.
Foras da lei, o que soa até contraditório, pois sexo ainda é (entre muitas outras coisas mais ou menos nobres) uma expressão de amor, afeto e carinho. E pessoas não deveriam ser presas por demonstrar amor, afeto e carinho em público. O que apenas se explica pela liberdade com que o sexo caminha entre os campos do profano e sagrado, puro e imundo, terno e lascivo, desejado e recriminado.
Certamente nada disso preocupava aqueles dois amantes, ali deitados sem pressa, sem puderes e, claro, sem um teto que os abrigasse. Porque se o tivessem, certamente não estariam sobre os trilhos em que caminham livres pequenos camundongos pelo lixo amontoado. Certamente não.
Mas ali estavam por que faltou uma casa, um quarto e uma cama, suficientes para transformar aqueles dois vagabundos sem vergonha, ali criminosos, em pessoas de respeito. Uma casa, dentro da qual as verdades humanas se manifestam de maneira mais evidente e onde suas mais bizarras e repreensíveis distorções são prontamente escondidas.
Dentro dela, não apenas o sexo, mas a violência, o abuso e a opressão muitas vezes tornam-se “assunto de família”, omitidas da “sociedade” e do Estado. Fora, tudo fica exposto para o julgamento farisaico das pessoas “de bem”, como a frágil nudez daqueles corpos maltratados, com suas virtudes e pecados, desejos, instintos e necessidades, das quais apenas algumas ali saciadas.
Corpos sem direito à intimidade, expõem-se compulsoriamente aos olhos de todos nos momentos em que nos esconderíamos de Deus se possível. E se eles já tomam banho, alimentam-se e expelem seus excrementos em público, o que impede de fazer sexo onde quer que seja?
São moradores de rua. A rua é sua casa, e nós, meros intrusos. Para ver neles os fragmentos de humanidade que escondemos e de que nos esquivamos por trás dos vidros de nossos carros, sob o teto de nossas acolhedoras casas e sob as vestes de nossa hipocrisia. Para que nos lembrem, ainda que por instantes, quem ainda somos e do quê nos fizeram.
Chega um pacote equivalente ao SEDEX na sede da rede americana de televisão NBC. Sem estar endereçado a ninguém específicamente. Vem em nome de Ismail AX, código em vermelho que estava no braço de Cho Seung-Hui, o assassino da Virginia Tech. Nele, textos, fotos e vídeos enviados pelo assassino entre a primeira parte da matança e a segunda.
A conclusão óbvia, claro, foi bombardeada por todos os cantos. Não foram poucos a falar que o massacre entrou na era digital e em quase tempo real. Teve até gente que perguntou quanto tempo até um novo assassino usar táticas de marketing de guerrilha para transmitir o massacre dos seus colegas pela internet. Sugeriu You tube. Idiota.
Mas, olhando as fotos, não fica nada disso. Fica um garoto, oriental, posando com armas. Pistolas, facas, balas. Olhos que – num púlpito – virariam demoníacos. Não o são. Numa palestra, virariam obviamente de assassinos, só as malditas forças da lei não conseguiram ver. Não é possível identificar as tendências assassinas de alguém pelos seus olhos, simplórios.
Era Cho Seung-Hui, posando em ensaio particular, com a máquina aparentemente em automático. Não sei se seria demais, mas parecia ser o vilão do filme, midiático toda a vida. Cool. Poderia dizer que pela primeira e última vez, mas não vou. Não sei. Não tenho como saber.
Depois das mortes, não tardou. As agências de notícias e os portais saíram atrás dos colegas. Descobriram que Cho Seung-Hui foi ‘bullied’. Verbo em inglês difícil de traduzir, mas que tem a idéia de “vítima de valentões”. Aí, pronto, uma nova série de romances de merda a serem escritos: abusado por valentões, um dia se revolta e mata os colegas – que o sacanearam, que riram em silêncio ou alto mesmo, ou que nem riram. Ele fala: “fiz por eles, pelos indefesos”.
Uma das frases entre as fotos, classificada pelo sóbrio portal e rede de notícias como “uma mistura de raiva, religiosidade, cultura pop e multimídia”, grita: “vocês adorariam ter fucking me matado”. Ninguém matou. Foram 33. Cho Seung-Hui junto – morto pela polícia.
Não tenho nada contra quem curte horóscopo. Eu mesmo leio de vez em quando (mentira, leio sempre), embora muitas vezes questione para mim mesmo a sobriedade do cidadão que escreveu aquilo.
Outro dia o pessoal aqui em casa comprou a “máquina de assar carnes sem gordura e mantendo todos os nutrientes e o sabor” daquele ex-campeão mundial de boxe. De brinde veio a assinatura de um jornal que a gente nem sequer pediu ou lê muito, porque a necessidade profissional me fez assinante de um outro que vai ter gente aqui dizendo que é mais a minha cara.
É aquela história, você pode não ler a página de política, economia do outro jornal, mas sempre vai dar uma passada de vista nas áreas de esportes, nos quadrinhos e, é claro, no horóscopo. Ainda mais quando enfiou na cabeça que precisa arrumar algumas coisas e esclarecer outras na sua vida.
Cidadão está decidido a tomar atitudes e corre para as páginas do horóscopo para dar uma sacada, quem sabe em busca de uma confirmação. Algo que diga: “Você é um aquariano nato, não fique aí sentado, vá expor suas idéias. Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.
Aí corre no primeiro jornal, aquele que já é assinante costumeiro e que dá destaque de meia página, no alto, para o horóscopo, com direito a foto do cara que o escreve. O cara diz que “só o inexplicável” é capaz de explicar o que anda rolando na sua vida e lança uma filosofia “deixa a vida me levar” que tudo acabará se resolvendo.
Já o outro, o do jornal menos badalado que só veio parar à porta por causa do grill do campeão mundial de boxe, prega a ação “com coerência” para “conquistar tudo aquilo com que você mais deseja”. Um manda esperar, o outro dá sinal verde desde que se mantenha a coerência. Ahn? Fiquei confuso.
Talvez eu deva levar mais em conta o segundo, porque ele me chama a atenção para a movimentação da Lua em Touro quase da mesma maneira que um treinador chama a atenção de seu zagueiro para a movimentação do centro-avante em suas costas.
Ok, ok, os estudiosos vão dizer que é impossível cidadão escrever em algumas poucas mal traçadas algo tão complexo como a influência dos astros em nossas vidas e que o signo sob o qual a pessoa nasceu não é o único –talvez sequer seja o principal—fator a ser considerado no poder dos astros sobre os nossos destinos.
Mas o fato concreto, companheiros e companheiras, é que com a Internet. e já antes com os jornais, nunca na história desse país cidadão teve acesso a tanto horóscopo. Ta bom, pode ser mentira, mas não resisti a usar as expressões presidenciais.
De todo modo, tem muito horóscopo disponível, tem na Internet, tem nos jornais, tem nas revistas. E tudo do mesmo jeito, quatro ou cinco linhas recheadas de entrelinhas que você tem que abrir sua mente, deixar sua cretinice de lado e compreender para guiar seu dia, sua semana ou seu mês.
Eu sou um cara que gosta de absurdos. Não sei se isso tem a ver com o fato de eu ter nascido entre 21 de janeiro e 19 de fevereiro, mas isso é outra conversa, o que importa é que eu gosto de levar as coisas para o lado do absurdo numa discussão.
Então vamos lá. Num escritório em que todo mundo lê o segundo jornal, imaginem os aquarianos em polvorosa tomando atitudes, dizendo o que pensam e bradando a todo instante o mote de vários comentaristas esportivos “é como eu sempre digo” ou “eu já vinha dizendo” para expressar a enorme coerência com que norteiam seu comportamento.
Ou para quem lê o primeiro jornal, num departamento tomado por aquarianos. “Ei Peçanha, você pega aquele relatório para mim?” Peçanha não entende, acha inexplicável que o chefe de outra área esteja lhe pedindo para pegar um relatório e, como só o tempo pode explicar o inexplicável, não levanta da cadeira e deixa que as horas, minutos e segundos resolvam a situação.
Será que foi um horóscopo de três linhas que fez com que Sandy e Junior decidissem romper a parceria musical? Será que eu coloquei essa referência absolutamente sem nexo com o tema do texto só porque a minha verdadeira vontade era falar da separação dos filhos do Xororó e passar quase 3 mil caracteres repassando a carreira deles desde Maria Chiquinha até Imortal, mas fiquei com medo do julgamento das pessoas? Será que o horóscopo explica isso, ou deveria recorrer a um analista?
Enfim, fico por aqui, tenho pouco tempo para buscar uma terceira opinião, um desempate astrológico entre aja com coerência e sente a bunda na cadeira e deixe o tempo passar. Desejem-me sorte!
Da série boas idéias para varrer a miséria para debaixo do tapete: a prefeitura de São Paulo vai remover todos os mendigos da Praça da Sé para a visita da sua santidade, Bento XVI, à catedral da Sé. Nada mais justo. Tem cabimento o sumo pontífice caminhando no meio de um bando de pobres e necessitados?
Aliás, quem já teve o privilégio de dar uma volta pelos museus do Vaticano sabe muito bem que papa e pobreza não têm nada a ver. Luxo, riqueza, obras de arte e os modestos aposentos das santidades assinados pelos mais badalados artistas da época, para não falar no vastíssimo acervo arqueológico “preservado” no pequeno país dos guardas de calças bufantes, sugerem que os pontífices nunca foram lá muito frugais.
Por mais carola que se seja, há que se admitir que, na História, o “cargo” de autoridade espiritual suprema da Igreja na terra se confundiu com poder temporal, dando margem a umas santidades não tão santas assim. Até aí, vá lá. Mas não estamos mais falando de papas Borgia. É coisa bem mais contemporânea.
Ainda que pese o custo de uma burocracia global, como a exigida para propagar a Fé Cristã, há que se admitir ainda que desapego material e humildade não são exatamente os fortes do Vaticano – os calendários com múltiplas poses do papa vendidos aos punhados dentro dos muros do estado cristão, no câmbio de três pra um, que o digam.
Admito não ser a maior especialista nas obras de caridade católicas, por isso não vou avaliar aqui se a Igreja faz muito ou pouco pelo seu rebanho. Mas posso dizer que a sensação ao entrar no Vaticano e, para aliviar um pouco a barra da santidade, em qualquer igreja das inúmeras espalhadas pela Europa é que, talvez, tenha se gasto – e ainda se gaste – um pouco de mais com a casa do Senhor, e um pouco de menos com os seus filhos.
Obviamente alguém vai argumentar, com toda razão, que se trata de um patrimônio histórico e que sequer faria sentido sair leiloando obras de valor artístico, religioso e até documental para cuidar dos desprovidos. Não, a proposta não é vender a Pietà para comprar AZT para tratar os doentes de AIDS na África – já que a Igreja condena a camisinha.
Mas que retirar os pobres da praça para abrir caminho à santidade é, no mínimo, um desvio da proposta cristã original, isso não há como negar. Muito embora seja difícil saber o que é pior: ter que retirar os mendigos da porta da mais importante igreja da capital para a visita do papa ou que eles estejam por lá há tanto tempo, sem sequer serem notados pela missão de fé.
A saber: será que eles voltam depois que o pontífice se for? Aguardamos notícias do plano de evacuação.
São exatas duas horas e trinta e cinco minutos da manhã desta segunda-feira quando começo finalmente a escrever. Foram pelo menos três ou quatro dias de vão exercício em busca de um tema que marcasse minha chegada ao dia mais odiado da semana. E agora estou aqui, sem assunto, sem nada de fundamentalmente importante para dizer, pelo que peço desculpas ao caro leitor.
Eu juro que tentei, li e reli os jornais, selecionei umas duas ou três notícias interessantes, fiz minha lição de casa, mas não consegui. Acho que fui picado pela mosca da falta de motivação. Sentar em frente ao computador e escrever algumas linhas toda semana tornaram-se uma tarefa árdua e extenuante, mais do que deveria a um jovem jornalista, de tão escassas palavras publicadas e tantas marcas por alcançar.
Ah, as famosas marcas que todo mundo persegue! Estou em sérios problemas com essas tais marcas e, se o tempo parasse agora, não teria o menor problema de abdicar das minhas. Afinal, quem precisa de marcas? Se fosse o Romário, estaria a ponto de dizer “para mim está ótimo. Paro nos 999”, para deliciosa perplexidade de torcedores, imprensa e dirigentes que, afinal, não se deram conta de que nada muda depois dos mil. E se nada muda, por que fazer?
A verdade é que essa coisa de andar preocupado com tudo, pensando soluções e dissoluções o tempo todo, acaba por deprimir, conclusão a que, aliás, cheguei há bastante tempo.
Outro dia conversava com uma amiga sobre como muitas pessoas, amigos de infância, da minha pacata Ribeirão Pires (e de tantos outros lugares), vivem de modo alienantemente feliz as suas vidas. Casam-se cedo, arrumam um cantinho para morar, uma ocupação qualquer (desprovida da ambição profissional que pressupõe a inquietante pergunta sobre onde você vai estar em cinco anos) e curtem seus finais de semana em frente ao Domingão do Faustão e especulando se Alemão e Íris vão ou não vão ficar juntos.
Nada de questões mais complicadas, nada de se preocupar em romper confortável linha do senso comum, nada de pensar nas desigualdades mundiais, nada de discutir sistemas políticos e modelos econômicos, nada de se chocar com o que leu e se lamentar pelo que ainda não leu, nada de levantar perguntas existenciais contra as quais lutamos e nos debatemos até o fim sem que encontremos respostas definitivas. Uma delícia.
A ignorância é uma benção, gosta de repetir um amigo meu. Ele, que é bem informado, substitui a ignorância pela indiferença, a consciência de que não dá para mudar o mundo e que tentar é dar murro em ponta de faca. Cuida da sua vida e, pragmático, vive feliz, sem dores de consciência e nem ideologias juvenis.
O fato é, caro leitor, é que estou meio anestesiado, indiferente aos estímulos externos e internos que sempre provocaram um turbilhão de pensamentos e sentimentos na minha limitada cabeça. As notícias simplesmente não mexem comigo e engessam minha pena eletrônica. A pobreza não comove, o descaso não indigna, a violência não assusta, a corrupção não escandaliza e o futuro não amedronta. E se ainda comovesse, indignasse, assustasse, escandalizasse e amedrontasse, de que adiantaria?
Os números mentem demais. Por que as pessoas produzem os números e, bom, não preciso mais do que cinco palavras para dizer que as pessoas nem sempre falam a verdade (merda, foram 12).
Mas, me diga, o que isto tem relação com o texto que lerás (talvez)? Pouca, por que vou falar de e-mail. De e-mail? De e-mail sim. Mas não vai esperando encontrar coisas revolucionárias, não tenho paciência para falar de ferramenta de produtividade ímpar e coisa e tal. Vou falar das mudanças surdas trazidas pela ferramenta, sorrateiras e sedutoras, e que pouca gente percebeu.
E o que tem demais? As senhoras e os senhores já pensaram na vulnerabilidade que é não poder clamar pelo túnel? Ou pelo elevador? Ou para uma cidade na qual o sinal não pega direito? Ou, meu Deus do céu, não ser capaz de dizer que ‘a bateria acabou’?
É isso que representa o e-mail. Enviou, entregou. Isso se chama inevitabilidade. Tentaram desenvolver outras técnicas de picaretagem, mas nem de longe têm o mesmo efeito. “Ainda não li” é muito mais agressivo do que dizer, por exemplo, “amor, estou entrando no túnel”. E “não recebi” é uma declaração com um cheiro enorme de mentira deslavada. Talvez em 1999, hoje não dá mais não.
O e-mail conseguiu fazer a piada do Manuel com celular acontecer com todo mundo. (O pá, Maria, como tu descobriste que estou acá num Motel???). Você pode tentar mentir, mas isso vai ficar muito na cara. E se você pensar na revolução da conectividade móvel (internet sem fio e até pela rede elétrica), a margem de manobra vai se reduzir assustadoramente.
Antes, a ferramenta de confirmação de leitura fazia isso de maneira acintosa. Agora, descontinuada (pelo menos na solução que tenho aqui), ela foi substituída pela confirmação de compromisso. Aceite e responda, recuse e morra. É maravilhoso como ficou com uma aparência bem mais democrática, mas o fundo é o mesmo: vc onde eu empresa quiser.
Tem outra: é rápido. E mais outra: pouco custo. E mais um outra: o padrão é aberto. Isso significa o seguinte: é fácil de usar, de enviar e de armazenar. Por outra: o que escreves agora, poderá ser lido por todo o sempre. Mesmo se a Microsoft fechar as portas.
E como termino este texto sem cabeça, mas que não vai ficar sem pé? Dizendo o seguinte: muito cuidado com o que escreves e atenção para as desculpas quando resolveres não escrever. Talvez o e-mail seja a ponta de lança da revolução da transparência radical e verdade absoluta. Talvez seja apenas outra forma de controle e vício. Boa dúvida.
Romário quer fazer mil gols, Michael Phelps quer ser o recordista de medalhas de ouro em uma única Olimpíada e Maradona quer bater Keith Richards no quesito “homem que viveu mais tempo curtindo a vida adoidado”. Todo mundo tem uma marca a ser buscada e, com alguma sorte, alcançada.
Homer Simpson e Barney Gumble disputam quem esvazia mais latinhas de Duff por minuto no desenho animado, enquanto, na vida real que mais parece piada, os parlamentares brasileiros brigam para ocuparem a profissão em que menos se trabalha no mundo.
Todo mundo, ou quase, busca uma meta, um recorde, um patamar. Tem aqueles que almejam atingir o nível de economias necessário para finalmente comprar um apartamento, tem outros cuja disputa de marcas é com a balança e tem ainda os que têm como meta passar menos tempo no escritório e mais com a família.
Tem as moças que juram que estarão casadas até os 28 anos e os rapazes que prometem continuar solteirões e “ativos no mercado” depois dos 35.
Todo mundo tem uma marca a ser perseguida. Qual é a sua? Nenhuma? Impossível! O que raios você quer da vida, sem metas, sem objetivos? Todo mundo tem um desejo, o maior sonho, qual é o seu?
Não existe quem não busque o sucesso profissional, pessoal, emocional, moral ou tantos outros “als” que você quiser e puder imaginar. Enfim, qualquer pessoa que se preze tem uma ambição. Somos todos ambiciosos. Uns mais, outros menos.
Existem aqueles cuja ambição é ter o bastante para levar uma vida honesta e tranqüila, e outros que têm no céu o limite de seus desejos, mas todo mundo tem ambição e ponto final.
Tem gente que diz que ambição demais é ruim, tem quem diz que sem ela você não vai pra frente, não evolui, que ela é necessária ao desenvolvimento da espécie. Aliás, Darwin era ambicioso?
Vai ver é a natureza do ser humano. Vai ver isso começou lá atrás quando homens conquistavam as mulheres a pancadas de tacape na cabeça, quando alguém teve a brilhante idéia de “vou pegar isso aqui que sobrou para mim”. Há quem diga que isso foi pior para a humanidade do que Eva morder o fruto proibido.
Eu tenho minhas dúvidas, para mim soa divertido morar no paraíso, mas será que até lá as pessoas teriam ambições, recordes a serem batidos, marcas a serem perseguidas?
Sei lá, só quem sabe isso é Adão, Eva e a maldita cobra que ofereceu o tal do fruto. Mas o que eu sei é que por aqui tem sim. Por isso eu ínsito em insistir: qual marca você persegue?
Eis uma notícia interessante. De acordo com levantamento da Folha, apenas 355 dos 20,91 mil projetos de lei complementar e Propostas de Emenda à Constituição apresentados pelos deputados federais entre 1995 e 2006 viraram lei – uma impressionante eficiência de 1,7%.
Alguns cálculos deste autor.
Em média, cada cadeira na Câmara propôs 40,7 projetos em 11 anos, uma média de 3,63 por ano. Cada uma delas aprovou, portanto, 0,69 projeto de lei ao todo – 0,06 por ano!
Em um mês, a estrutura que dá suporte ao deputado (salários mais benefícios) consome cerca de R$ 100 mil. Logo, são R$ 1,2 milhão por ano que o contribuinte paga para um deputado que, pela média, leva quase 17 anos para aprovar um projeto de lei. Pode-se ainda dizer que cada projeto aprovado custa R$ 20,4 milhões só em salários e benefícios para deputados.
Alguém vai argumentar, com razão, que números têm alguma coisa de irrelevante nessa história. Mais do que quantidade, é a qualidade das propostas elaboradas que medem a eficácia do legislativo.
Mas imagine, caro leitor, quanta abobrinha deve ter sido proposta nesses 11 anos pelos nossos nobres representantes. Abobrinhas traduzidas em números, pois grande parte da energia – 98,3% – do legislativo é dispensada em projetos que vão acabar engavetados ou rejeitados, muitos pela qualidade duvidosa, outros tantos por falta de consenso, conflitos de interesse e outras tantas razões mais.
É possível ponderar ainda que falta uma base de comparação. Afinal, o que é muito e o que é pouco? Sem olhar para outros países, fica difícil saber se o índice de aprovação de 1,7% é grande ou pequeno. No entanto, a própria investigação da Folha nos dá um parâmetro. De acordo com o levantamento, o governo federal apresentou 690 propostas nos 11 anos em questão, dos quais quase 50% saíram do papel.
Vamos novamente às contas.
Entre 1995 e 2006, o governo federal – de FHC e Lula – foi responsável por apenas 1,64% dos projetos de lei apresentados ao Congresso, mas foi autor de praticamente metade de tudo que virou lei no país. Se o que foi aprovado foi bom ou ruim para o país, é outra história, claro está.
Como também fica claro que este autor não entende ser a “produtividade” um critério lá muito válido de avaliação do desempenho de um deputado federal. Afinal, a ele cabe muito mais do que apresentar projetos de lei, mas “representar o povo brasileiro, legislar sobre os assuntos de interesse nacional e fiscalizar a aplicação dos recursos públicos”. E tenho certeza de que se houvesse números para mensurar tais atribuições, eles seriam bem mais favoráveis.
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Alteração – Esta é a última terça-feira em que escrevo neste Domínio. A partir da semana que vem, assumo a cadeira da segunda-feira. Segunda que, aliás, nossos empenhados deputados aboliram de suas agendas.