Domínio Público


Ocupantes
24 Maio, 2007, 7:41 pm
Arquivado em: Daniela Moreira

Confesso que quando ouvi as notícias da tal ocupação, achei molecagem. É o preço que se paga por envelhecer, já diria o nosso presidente. Essa gravidade que vai puxando a gente para a direita e nos deixando cada vez mais assustadoramente parecidos com nossos pais.

Tem a ver também com o fato de viver o clima Fefeléchi (como se pronuncia, carinhosamente, o acrônimo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da Universidade de São Paulo) todos os dias e conhecer de perto o “espírito revolucionário” que leva os companheiros fefelechianos – ou fefelechentos – a fazerem assembléia até pra decidir entre tomar cerveja na História ou na Química.

Pesam também as relações perigosas dos partidos canhotos (PSOL, PSTU, PCO e companhia) com o chamado movimento estudantil, que transformam líderes de grêmios em políticos de carreira. Pra não dizer que é papo de oposição, de alguma forma meu e-mail foi parar em um “Boletim da Ocupação” e, misteriosamente, hoje recebi na minha caixa de correio um spam do Partido da Causa Operária. Coincidência?

Pois bem, somando tudo, noves fora, confesso agora que achei molecagem mesmo – e digo com conhecimento de causa, de quem já vestiu nariz de palhaço em posse de reitor. Movimento sem pé nem cabeça, sem começo nem fim, sem agenda, sem pauta, meio assim, contra tudo e contra todos. Achei até que tinha mais a ver com arrumar um lugar novo pra fazer o churrasquinho de gato (não no sentido literal, pois quem transita pelos corredores da Fefeléchi sabe que os bichanos são muito bem tratados e têm até direito a moradia própria) que ultimamente andam promovendo na grama das Sociais.

Não que as demandas da “turma de estudantes” que a grande mídia, levianamente, classificou como “oportunistas” não sejam válidas. Que a universidade precisa de autonomia, não tem nem por onde começar a discutir. Quanto aos demais itens da pauta, que faltam professores, falta infra-estrutura, e, especialmente, falta verba para as “unidades amotinadas” – pois é, parece coisa de penitenciária – da USP, também é ponto pacífico.

Mas a despeito de tudo isso, o “movimento” me passava um feeling de Woodstock moderno, um ato meio vaidoso e intempestivo, mais pelo ato em si do que pelos fins. Os “companheiros” convidavam: “vamos dar um pulo na ocupação?”, como quem dá um pulo no boteco da esquina para dar alô para os amigos. Para ser muito honesta, nunca fui lá pra ver. Estava mesmo de má-vontade com os tais ocupantes, achando que há outras formas de fazer as coisas acontecerem.

Aí a coisa se prolongou demais, ganhou a grande mídia e veio o festival de bobagens. Entre gente dizendo que o nosso nobre governador “só quer transparência” e ordem judicial proibindo “atos ou protestos que causem transtornos e perturbações no campus” (sob pena de multa de mil pratas por dia), a velha “turma da moral e dos bons costumes” mostrou a cara.

É nessa hora, presidente, que o centro gravitacional se desloca e a gente – que não é presidente e tem só um quarto de século de vida – tem que dar uns passos mais à esquerda. Porque a demanda é antiga e persistente – e não oportunista -, deve se fazer ouvir, a despeito dos protocolos. Porque o ato pode ser atabalhoado, indeciso e um pouco impreciso, mas as razões, por múltiplas e dispersas que sejam, existem.

Quanto aos ocupantes, me redimo: quero acreditar que não são moleques que estão lá apenas por vaidade revolucionária, pra ter uma boa história pra contar. Que se lhes falta estratégia política, lhes sobra vontade de mudança. E que resta, apesar de tudo, bom senso.

Mas quero acreditar, principalmente, que saberão usar essa manobra um pouco desgovernada para fazer da ocupação um começo e não um fim.



0,25
23 Maio, 2007, 1:22 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr.

Quem é você?

Não subestime a pergunta.

Quem realmente é você?

Muitas pessoas podem levar uma vida para chegar à resposta. Algumas, como eu, levam 25 anos apenas para fazer a pergunta.

E quando fazem, se assustam. Talvez por descobrirem que não sabem o que dizer diante do espelho. Talvez por não ficarem satisfeitas com o que o espelho mostra. Ou, pior, quando não reconhecem o que vêem refletido.

De repente, nos descobrimos atores em conflito com o que há de mais íntimo e real em nós mesmos. Silenciosa e sorrateiramente, nosso alterego tenta suprimir a pessoa que, angustiada, tenta reagir e grita por socorro. 

Luta para preservar aquilo que talvez não seja tão bom e bonito quanto imaginam ou imaginamos nós mesmos, mas é honesto e verdadeiro. Luta contra a hipocrisia.

A tarefa de se descobrir pressupõe um grande esforço de garimpagem no entulho fantasioso de que nos revestimos, além de uma certa dose de humildade para aprender com quem se encontra debaixo. 

Não surpreende que Cristo tenha dito que a todos era necessário um novo nascimento, sem o qual não se conheceria o Reino de Deus. Tal experiência, que se pressupõe tão profunda e intensa, não podem viver meros retratos, como os do personagem de Oscar Wilde.

Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, outro ensinamento cristão de que gosto muito.  Se a liberdade passa pelo conhecimento da verdade, nada melhor do que começar pela verdade sobre quem somos. 

Mesmo porque, já afirma a canção, a verdade explode cada vez que mentimos. E ela parece nos colocar sempre em franca contradição, em posição de equilibrista de circo, apenas contando os minutos até que os pinos desabem no chão.  E eles hão de cair.

E então nos vemos envoltos em dúvida, em meio às incertezas e ao vazio que sobraram de tudo aquilo que antes parecia sólido como uma rocha e então ruiu. Puxam o seu tapete e você se descobre sem chão, incapaz de firmar seus pés onde quer que seja.  “Eu sei que acertaria se soubesse em quem acertar. Eu participaria do movimento, se houvesse alguém em que pudesse confiar”, grita o acrobata.

Abrimos então mão de conceitos e pré-conceitos, de verdades absolutas e da clareza das respostas e nos permitimos simplesmente fazer perguntas. Perguntas que incomodam, que estremecem e causam rebelião, mas que nos fazem sentir vivos de novo.  Quem somos, um quarto de século depois?  Somos um, (mas certamente) já não somos os mesmos.



Tic Tac*
19 Maio, 2007, 11:58 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, dia-a-dia

Tic Tac

 

Algo lhe perturba. Desperta, olha para trás onde está o rádio relógio e vê que tem ainda pouco mais de 20 minutos de sono. Mas não dorme. Revira-se na cama tentando entender o que raios aconteceu para que despertasse antes mesmo do relógio. Quando começa a criar a terceira hipótese para o fenômeno, o relógio toca.

Reluta alguns minutos, reclama, está cansado. Bate o olho no relógio e ele lhe afirma: tem de levantar, já se passaram dez minutos da hora que já devia estar debaixo do chuveiro. Pragueja novamente, pega a toalha e vai pra debaixo d’água. Tenta tomar um banho rápido, passa o sabonete no corpo, lava o cabelo, se enxágua e pronto. Deve ter gasto uns dez, quinze minutos, pensa. Sai do banheiro e descobre que meia-hora se passou, já está atrasado e, pior, o banho não lhe bastou para tirar a sensação de cansaço.

Coloca a roupa às pressas, engole ferozmente um pão de forma com presunto e queijo e um copo de chá, vai ficar com aquilo até bem depois do meio-dia. Sai de casa dez minutos depois do que deveria e torcendo para que, ao olhar para os pés, não descubra que colocou um pé de cada par do sapato ou meias diferentes. Sente um alívio, não errou.

Entra no elevador e, enquanto desce lembra que precisa comprar um sapato, aquele já está quase se desintegrando, não cai bem ir trabalhar todo mulambento. Antes de chegar à garagem o elevador pára no primeiro andar, entra uma mulher com quem encontra todos os dias, mas não sabe o nome. Acena com a cabeça como quem diz bom dia, ela devolve o aceno e, como acontece todos os dias, enquanto um olha para o teto, a outra olha para o chão.

Ela desce no térreo, e ele começa a pensar que encontra aquela pessoa todos os dias há mais de dois anos e não sabe absolutamente nada da vida dela. Começa a imaginar como vive aquela mulher se é sozinha, se tem namorado, se mora com a mãe. De repente toma um susto. Enquanto divagava fora desperto pela buzina de uma motocicleta. Quando volta ao mundo real, numa das marginais mais movimentadas de São Paulo, toma outro susto. Um motoboy passa ao seu lado xingando e dizendo palavrões aos quais acabara de ser apresentado.

Se refaz do susto. O trânsito está parado e ele sabe, não há milagre que o fará estar sentado em sua mesa em cinco minutos, como deveria. O rádio que toca notícia também não lhe dá perspectivas muito boas.

Chega ao escritório mais cansado do que quando saiu de casa. Mal senta já começa a trabalhar, em ritmo frenético, não pára um minuto. A moça do elevador, o motoboy mal-educado, o cansaço, nada parece lhe incomodar agora. Não há tempo nem para o cafezinho, somente o barulho frenéticos dos dedos batendo no teclado.

Quando pensa no barulho pára por um instante. Sempre lhe chamaram de “catador de milho” pela maneira pouco ágil e até violenta com que bate nas teclas. Sorri. Uma voz o traz de volta à rotina. Essa voz lhe pergunta –com cara de quem quer saber se você pretende terminar a tarefa ainda antes do fim do expediente– se já terminara o trabalho. Ainda não, responde, antes de resmungar para si mesmo. Havia esquecido que uma pausa, mesmo que de cinco minutos, podia ser interpretada como vagabundagem ou dispersão. Num último pensamento antes de remergulhar nas letras, aspas e vírgulas, lamenta o ritmo frenético do trabalho.

Chega a hora do almoço e o corpo há tempos já reclamava alimento. Sutilmente é informado que, dessa vez, não poderá gozar da uma hora de almoço a que tem direito, pois o dia está corrido. Cansado e com fome, não tem forças para reclamar nem para si mesmo. Novidade será o dia em que puder fazer uma hora de almoço, pensa.

Na mesa do refeitório senta-se ao lado de um colega com mais tempo de casa. Reclama do ritmo, dos almoços de pouco mais de meia hora e da impossibilidade de levantar, às vezes, sequer para ir ao banheiro. O colega escuta atento, concorda, mas lhe afirma, não há do que se queixar, há gente em situação muito pior. De fato, pensa, há gente que sequer emprego tem. Então, imitando o poeta, se cala com a boca de feijão sem antes deixar de pensar que, talvez não devesse reclamar, mas devia se conformar?

Entre garfadas e pensamentos seu almoço demorara pouco menos que cinqüenta minutos. Chega á sua mesa, senta e, ao perceber o olhar condenatório de alguns, decide começar a trabalhar imediatamente deixando a higiene bucal para mais tarde.

A correria recomeça, não se lembrava mais da moça do elevador, da bronca com o despertador, do motoboy mal-educado, da velocidade com que bate no teclado, da carne mal passada do refeitório, de que não devia se queixar da vida e, nem mesmo, do gosto de alho que ainda carrega na boca.

O fim do dia se aproxima e o ritmo não se arrefece. Uma colega levanta, se despede e vai embora ás cinco da tarde em ponto. Novos olhares condenatórios e pequenos buchichos sugerindo a falta de comprometimento de quem sai no horário.

Entende o recado e, mais uma vez, como faz todos os dias, fica até mais tarde no escritório. Poderia ao menos ganhar hora extra, pensa, mas lembra que não deve se queixar.

Se despede, pega a mala e entra no carro. Sente o gosto de alho na boca e lembra que sequer escovou os dentes. Sente um nojo momentâneo de si mesmo, mas lembra que precisa comprar um sapato, que o que está usando já está em processo de desintegração. Decide rumar para um shopping ali perto.

Se afunda no trânsito caótico, chega no shopping faltando meia hora para ele fechar. Depois de quinze minutos tentando encontrar um lugar para estacionar desiste. Ainda assim tem que pegar o estacionamento, coisa de quatro reais. Se afunda de novo no trânsito caótico e volta para casa.

Exausto, está exausto. E ainda é só segunda-feira. Deita na cama e dorme. Seus sonhos? Não consegue mais sonhar, todos eles têm como personagens os colegas de trabalho, a música frenética dos dedos batendo nos teclados, o sapato que deveria ter comprado. Gostaria ao menos de poder sonhar com a moça do primeiro andar que ele sequer sabe o nome, mas não consegue. Amanhã, quando acordar, só vai lembrar da existência dela quando ela entrar pela porta adentro.

Não tem mais raiva do motoboy mal-educado, não tem mais nojo da sujeira nos dentes, com a qual foi dormir, aliás. Sequer se lembra de sua maldita mania de acordar antes do relógio mandar. Foi tudo tão corrido que só o que ficou foi o cansaço. E amanhã tem mais.

 

* Este post foi republicado pois havia apagado por causa da ação de um spammer. Um  recado aos spammers: Caiam mortos!



Em defesa da liberdade e contra remédios sexuais
18 Maio, 2007, 8:19 pm
Arquivado em: Vinícius Cherobino

Final do dia de sexta, uma página intermitente branca e a falta danada de vontade. Mas – mesmo assim – escrevo novamente. Escrevo principalmente por que estamos sendo vítimas de ataques covardes que nos recomendam a compra remédios para melhora da disposição sexual.

Para não sermos elípticos, algum spammer maldito está enchendo antigos post com ofertas desse tipo de remédio que papa nenhum aprovaria. Ou aprovaria para casais casados sem filhos? Enfim, o fato concreto é que estamos testemunhando um movimento direcionado e claro contra a liberdade de imprensa desse domínio que, à força, ficou mais público.

Além do crime de matar nossos textos, recuperados com muito custo graças à ajuda do Google, esse criminoso está com um objetivo claro: eliminar o mais eminente pensador desse espaço. Óbvio, todos nós 4 fomos atingidos. Contudo, nem todos sofreram a mesma perseguição.

À frente, uma equipe de idiotas. Idiotas um e idiotas dois. Gerenciando a trupe, vários esquerdistas filhos do Che e futuros síndicos. Está claro, é só conferir os IPs. A verdade está dita e redita.

Tudo por que, no afã de se assemelhar com o seu ídolo da Veja, nosso querido português preferiu ignorar os anos de pagamento de gás por 40% a menos do preço de mercado e defender as pobres fábricas da Petrobrás (!), a propriedade privada, a família e a tradição.

Morte aos idiotas. Aos filhos do Che. Resistiremos bravamente. Não cederemos à pressão.



Manifesto
17 Maio, 2007, 5:28 pm
Arquivado em: Daniela Moreira

Quando crescer, quero ser revolucionário. Quero ser ativista, grevista, comunista e panfletista. Quero ser filiado a uma causa, seja ela qual for, quero fazer barulho, bater panela, quebrar janelas. Quero usar camisetas vermelhas, com o Che estampado, quero fundar um movimento, fazer um manifesto.

Quero ser do contra, quero ser oposição – não importa quem seja a situação. Quero ser do grêmio, quero estar na assembléia, quero gritar aos quatro ventos o meu lema, quero uma bandeira para erguer, quero uma camisa para vestir.

Quero comandar um levante, agitar uma massa, dar um golpe de estado, quero fazer uma invasão. Quero pegar em armas, quero um palanque, um piquete e um microfone. Eis as minhas demandas, sem margem para negociação.

E se nada der certo, quero ser síndico.



Robin Hood Lula da Silva
16 Maio, 2007, 4:01 pm
Arquivado em: Eduardo Simões, comércio, economia, globalização, política, robin hood

Qual a semelhança entre o presidente Lula e o herói inglês Robin Hood? Os dois tiram dos ricos para dar aos pobres, só que enquanto o inglês usava o arco e a flecha, o brasileiro usa a caneta.

Foi com este instrumento muito mais pacífico do que um arco e uma flecha que Lula descobriu de onde vai tirar a compensação pelo prejuízo obtido com a venda de duas refinarias da Petrobras para a estatal boliviana YPFB.

Ora, é só fazermos as contas. A Petrobras comprou as duas refinarias por 104 milhões de dólares e investiu mais 32 milhões de dólares para modernizá-las, o que dá 136 milhões de dólares. O acordo de venda prevê o pagamento de 112 bilhões de dólares pelas refinarias, um déficit de 24 milhões de dólares, isso deixando de lado que o mercado avaliava as duas unidades em 200 milhões de dólares.

Ficou um buraco aí de 24 milhões de dólares. De onde vai sair esse dinheiro? Ora, elementar meu caro companheiro, da quebra da patente do remédio efavirenz, usado no coquetel de tratamento da Aids dado gratuitamente aos brasileiros portadores da doença.

Aliás, nunca antes na história desse país o governo federal havia quebrado a patente de um remédio e, o dado concreto, companheiros e companheiras, é que foi um presidente operário quem fez isso.

E mais do que isso, como o governo afirma que economizará 30 milhões de dólares com o licenciamento compulsório, ele transformou um déficit de 24 milhões de dólares em um superávit de 6 milhões de verdinhas. Sensacional! E não é só isso! Promoveu também a distribuição de renda ao tirar dos imperialistas da indústria farmacêutica e dos porcos do mercado financeiro que têm ações da Petrobras para dar aos pobres miseráveis irmãos bolivianos e ao seu presidente Evo Morales, que adora afirmar que tem no colega brasileiro um “irmão mais velho”.

Duvido que nas histórias de Robin Hood exista algo tão nobre do que isso que fez o querido presidente. Numa só tacada atingiu uma indústria global, como a farmacêutica, e os espoliadores do patrimônio nacional, que se aproveitam do sucesso de uma empresa do povo, como a Petrobras, para lucrar. Mais que isso, numa demonstração de humildade, deu um descontaço para o governo do irmão caçula, 88 milhões de dólares, só faltou um CD e um porta-retrato do Zezé e do Luciano como brinde.

E tem mais, hein. Sem essas frescuras de carnê como nas Casas Bahia. Se o companheiro cocaleiro quiser, pode até pagar parte da pechincha em gás, sem nem precisar colocar a mão no bolso.

Quem se importa que o tal do laboratório tenha acenado com a possibilidade de, no futuro, o governo receber a tecnologia para a fabricação, por si próprio do efavirenz no laboratório da Fundação Oswaldo Cruz? Afinal, segundo nota do programa de DST/Aids do Ministério da Saúdequalquer formalização nesse sentido requereria aprofundamento sobre os seus termos, obrigações e garantias entre as partes, tornando sua análise inviável, naquele momento”.

Isso sem contar, que era preciso tirar do império farmacêutico e do mercado financeiro para dar à Bolívia.

Enfim, para quem não entende aquela adorável figura de linguagem chamada ironia, vou tentar ser mais claro, já que pela Internet fica difícil de desenhar. Não seria mais coerente ser duro na defesa dos interesses nacionais tanto com o megalaboratório farmacêutico quanto com o país vizinho que força a barra para comprar um ativo de uma empresa estatal com um deságio gigantesco? Não seria mais correto se preocupar com os pobres e miseráveis desse lado da fronteira, para depois ajudar os pobres e miseráveis dos outros países?



Somos laicos, graças a Deus
14 Maio, 2007, 5:24 pm
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., internacional, política, religião

Mais de um milhão de turcos saíram às ruas de Ismir para dar um recado às autoridades: querem que Estado se mantenha laico, “alheio ao controle da igreja e do clero sobre a vida intelectual e moral, sobre as instituições e os serviços públicos” (usando a definição do Houaiss). 

A santa exigência veio de encontro à possível eleição a presidente do chefe da diplomacia turca, o muçulmano Abdullah Gül, que integra o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), no poder.

Recado semelhante foi dado na quinta-feira, por estas bandas, pelo presidente Lula ao Papa Bento XVI. Ao recusar uma proposta de acordo com a igreja católica, o presidente disse que pretende “preservar e consolidar o Estado laico”. 

Uma grande notícia, nos dois casos.

Fundamentalistas religiosos sofrem uma pesada tentação pelo poder (embora estejam muito longe de ser os únicos a comer desse fruto). Mais do que o simples controle da máquina pública, há o cego desejo de se impor uma visão de mundo, considerada boa, perfeita e, portanto, não apenas desejável, mas necessária.

É uma tentação ideológica, muitas vezes compreensível. Que cristão mais fervoroso não gostaria de ver seu filho tendo aulas de religião na escola pública ou, pelo menos, ter a certeza de que a escola não vai colocar preservativos na mão de seu rebento? Se os professores de biologia lhe pouparem dor de cabeça e abrirem mão do evolucionismo no programa de aula, melhor ainda!

Poderiam se proibir também as cenas de sexo na TV, as bandas de rock de fazer apologia a isso ou àquilo, as drogas, o adultério, o casamento gay, a venda de bebidas alcoólicas, a mini-saia, o biquini, toda e qualquer forma de atentado ao pudor, à família e aos bons costumes.

“Feliz a nação cujo Deus é o Senhor, e o povo que ele escolheu para sua herança”, diz um salmo bíblico, a que se apegam muitos líderes cristãos – em especial de igrejas evangélicas, no caso brasileiro – para pedir apoio a irmãos de fé a cada eleição. 

Não percebem o quanto a relação entre fé e poder pode ser perigosa. Aliás, sempre que igreja e Estado se confundiram, houve derramamento de sangue, restrição das liberdades e atrasos imensuráveis nas ciências, nas artes e na filosofia.  Fecham-se as portas para o mundo, o ar fica rarefeito, viciado, empobrecido. Não à toa se chama a idade média de idade das trevas.

O grande problema de muitos religiosos é que do dualismo entre igreja e mundo parte a percepção de que um precisa necessariamente se impor sobre o outro, como em uma guerra entre bem e mal na qual os lados estão muito bem definidos. Ledo engano!

Como disse brilhantemente Leonardo Boff na Folha de ontem, “há bondade no mundo, como há maldade na Igreja”. “A Igreja que evangeliza deve ela mesma ser evangelizada por tudo aquilo que de bom, honesto, verdadeiro e sagrado puder ser identificado na história humana”, ensinou.  Para tanto, é preciso humildade e, sobretudo, tolerância – valores que encontram em um Estado livre o palco ideal para se desenvolver.  

O próprio Cristo deixou clara a separação entre igreja e Estado.  Certa vez, interpelado pelos fariseus se era lícito pagar impostos ao imperador César (Israel estava sob domínio do Império Romano), Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).

Depois, já no julgamento que levaria a sua morte, Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus” (João 18:36).

Por fim, “interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lucas 17:20-21). Está dito!



Regratizando a exceção
11 Maio, 2007, 1:02 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Vinícius Cherobino, blogs

O discurso é típico de um domingo morto. No programa de auditório, naquele quadro em que se lembra da família e as celebridades todas choram, uma frase bate forte, cheia de emoção. “Qualquer um com um sonho pode chegar lá. Eu sou a prova que é possível chegar lá”.

Quem resiste? As lágrimas nos olhos, as palavras do gorduroso apresentador que falam de um dos melhores atores/cantores/músicos do Brasil, a platéia que mal respira, a sala de família que – finalmente – passa a ouvir o que diz a tevê. Todos juntos vão para frente meu povo, chorando junto com o pobre novo rico que volta: “não deixe de sonhar, gente, vocês podem chegar lá!”.

Então. Isso é mentira. Deslavada. Entenda. Da centena de milhares de atores/cantores/músicos do Brasil, apenas dez vingam. E, para tanto, foi feito de tudo um pouco para ‘chegar lá’. Muito mais do que sonhar, do que ter um pai lutador, do que ser íntegro, do caralho, da buceta. É o modelo. E o modelo não é medido pelo talento, como falam, é medido por uma série de fatores delicados que também podem passar pelo talento, mas envolvem sexo, conhecidos em cargos importantes, empresários influentes, entre um monte de outras coisas. E isso serve para qualquer profissão.

Só que ninguém vai falar isso. Não é interessante que as pessoas entendam este modelo, periga que elas percebam que ficar sentado assistindo tevê para descansar não é tão bacana assim e, pior, periga que eles simplesmente desistam de ir trabalhar bonitinho no dia seguinte e no resto da vida.

Veja, o título do post é espirituoso, mas simples: da exceção é feita a regra. E esse procedimento é uma das coisas mais cruéis da ideologia atual. Fazer alguém acreditar que pode realmente mudar a sua situação – mesmo que seja uma probabilidade estatística ridiculamente mínima (alguém falou da Megasena?) – está sendo mais do que suficiente para controlar a população e manter tudo exatamente como está.

Quer um exemplo? American Idol ou Ídolos. Sem parar de sonhar, centenas ou milhares de pessoas aguardam em fila sob o sol ou chuva e esperam a sua vez de entrar para a ter a “chance” de suas vidas. Depois de serem ridicularizados (muitos) ou elogiados (poucos) pelos juízes, uns três sobrevivem. A tal pirâmide é tão alta que sobra só um, lá em cima. E, veja, é só lembrar do resultado da primeira edição do programa brasileiro: isso não significa lá muita coisa.

Pensem comigo: Qual é a regra? Qual é a exceção? Para cada hit, há centenas de pessoas que dormem no chão e passam fome. E todo mundo só se importa com quem tá no palco. Não é perverso?



Rainha do quintal
10 Maio, 2007, 10:03 pm
Arquivado em: Daniela Moreira

Lolita tinha longas pernas e corpo esguio. Era altiva, de uma nobreza que não estava no seu sangue mestiço, mas no brilho negro da sua silhueta de marquesa ou baronesa, sabe-se lá…

Dizem que quando pequena era espoleta e corria pelo quintal, fazendo as peraltices que todo filhote costuma fazer. Se é verdade, não sei, pois só me lembro dela assim, alta e elegante, passeando mansa e graciosa, dona do quintal.

Não foi a primeira cadela da família – pequenezes, collies e muitos outros vira-latas vieram antes –, mas para mim era como se fosse, pois das outras não me recordava.

E apesar do semblante de princesa, Lolita não tinha a empáfia dos poodles ou a arrogância dos dobermans. Era meio dálmata, mas sem pintas, pêlo preto e meias brancas. E mesmo linda, era doce e modesta.

Lolita foi soberana absoluta do quintal por uns bons anos. A dona acostumou-a a dormir na cama, e apesar das longas patas que faziam o dono dormir de pernas encolhidas, nunca foi de soltar pêlos no lençol e também não tinha mal-cheiro, como diziam os implicantes. Era uma jóia de cachorro.

Mas um dia a casa ficou agitada. A dona, que há tempos estava casada e queria muito uma menininha – até rezava pra Nossa Senhora, embora não fosse católica -, teve suas preces atendidas.

A primeira regalia perdida com a novidade foi o lugar na cama de casal, que agora ficara pequena demais para quatro. Lolita passou a dormir na sala, que não era espaçosa, mas afinal de contas dava para o gasto.

Os meses passaram e veio a menininha. Linda, uma boneca. Porém alérgica. Mal Lolita entrava no quarto, curiosa pra ver a menininha e cheirar aquele cheirinho novo que tomara conta da casa, e o narizinho do bebê ficava vermelho, começava o espirra-espirra, um Deus nos acuda.

Pelo sim, pelo não, Lolita não foi expulsa só do quarto. Passou a dormir no quintal, em uma casa bem simpática, com telhadinho vermelho e janelinha, que o dono construiu com habilidade. Era uma boa casa, pra cachorro nenhum botar defeito, mas não combinava com a majestade de Lolita.

Eu, que nesta época já era um pouco mais velha, comecei a achar tudo aquilo muito injusto. Não que não gostasse da menininha, gostava. Mas ver Lolita ali naquela casinha de madeira, embora simpática, me cortava o coração.

Não só porque Lolita era princesa, mas porque era também tão boazinha, um amor de cadela, daquelas que se tira o osso da boca sem sofrer um arranhão. Era uma rainha generosa e resignada, e manteve a graça, embora por esses tempos tenha começado a ficar um pouco melancólica.

Mais uns anos passaram e veio o menino. Aí as coisas pioraram de vez. Ele era arteiro e corria desenfreado com o andador pelo quintal, derrubando as plantas e passando rente às patinhas alvas de Lolita. Para o bem do cão e do menino, criou-se um cercado para o cão.

Lolita não fez pirraça, foi como uma lady para o seu novo canto. Era difícil esticar as longas patas ali e acho que desde então nunca mais a vi passear altiva pelo quintal. Passava grande parte do dia deitada, com o focinho apoiado nas patas.

De longe eu olhava para o cercadinho e via Lolita lá, com o rabo entre as pernas e um olhar distante, de cachorro sem dono.

O tempo passou mais ainda e ninguém mais dava conta de Lolita. Até eu, que no começo sentia pena, me ocupei de outras coisas, e muito de vez em quando passava pelo cercado, mas olhava pro outro lado pra não ver Lolita me fitando, com aquele olhar tristonho, as patas encolhidas e as orelhas murchas.

As crianças cresceram e um belo dia inventaram de aparecer em casa com uma nova cadelinha. Foi a sensação da casa por umas três semanas. Espoleta, saltava pra lá e pra cá com a energia dos jovens, fazia gracinhas e chegou a dormir umas duas noites na cama da menininha.

Mas a folia acabou depressa e Lilica também acabou no cercado. Lolita, sempre generosa, acolheu a espevitada e abriu espaço em sua casinha de telhado vermelho pra outra se aconchegar. Não contente com o canto cedido, Lilica gostava mesmo de dormir por cima anfitriã e de vez em quando deixava cair as patas sobre os olhos tristes de Lolita, tampando o seu olhar perdido para o quintal.

Lolita nunca mais foi altiva, nunca mais foi rainha e aos poucos abriu-se a ferida, que nunca mais fechou – talvez por falta de cuidado da dona, talvez porque fosse mesmo incurável, talvez porque Lolita já não quisesse viver.

Digna, como nunca deixara de ser, gemia baixinho à noite, nunca fez escarcéu. Mas até Lilica, que era alegre, respeitou a dor da outra e entristeceu. O olhar de Lolita já não era imponente, suplicava. A morte rondava noite após noite, mas sem misericórdia – ou talvez reticente em ceifar alma tão delicada – não lhe levava.

Aos poucos, todo o quintal ficou triste também. Já não dava pra desviar olhar do martírio da cadela, que sequer conseguia se erguer para urinar. Não era morte que se desejasse nem para um cachorro.

Cansada da falta de atitude da dona, da indiferença da menina e do descaso do menino, minha mãe resolveu tomar providência e pôr fim no sofrimento de Lolita. A idéia de levá-la para um fim tão triste, ela que sempre foi tão doce, me pareceu traiçoeira. Quis contestar. Mas a lembrança de Lolita esguia, jovem, iluminando o quintal, em contraste com aquela sombra que se esparramava no cercado, inerte, agonizando, não deixava dúvidas. Uma princesa que já fora tão altiva e tão imponente não merecia uma aurora degradante assim.

Enrolada em um lençol branco, deitada no colo de minha mãe, ela foi em silêncio até o local onde tomaria a injeção letal. Fechou os olhos, como quem se prepara para morrer, quieta, serena, resignada. E morreu. Nunca houve outra rainha no quintal.



Show pro Povão

Pedro e Gustavo almoçavam juntos e discutiam animadamente os principais assuntos da semana.

- Esses caras não têm jeito. Reclamam que nunca têm nada e quando recebem alguma coisa fazem arruaça, baderna. Não tem jeito, não dá para dar nada para essa gente -dizia Pedro.

- Que é isso cara. Pára de falar besteira. Os caras são oprimidos o tempo todo, até mesmo quando estão em um show. Meia dúzia exagerou ao extravasar e a polícia, para variar, chegou chutando tudo, tratando todo mundo como arruaceiro. É a desculpa que precisavam para abandonar ainda mais a periferia –rebateu Gustavo.

Não sou adivinho, mas seria capaz de apostar que discussões deste tipo foram travadas em várias mesas de bar, vários intervalos no escritório e em várias mesas de jantar depois da batalha campal na Praça da Sé durante show do grupo de rap Racionais MC’s. Difícil é saber quem tem razão.

Não dá para dar razão para a turma que subiu em cima de uma banca de jornal, o que certamente deu prejuízo para o jornaleiro, nem para a rapaziada que depredou uma lanchonete, cuja dona se lamentava no dia seguinte que não teria como reformar o estabelecimento “porque o faturamento não dava nem para pagar as contas do dia-a-dia”.

Por outro lado, também não há como ser ingênuo e acreditar que a polícia usou “apenas a força necessária para restabelecer a ordem” e que não cometeu excessos. Balas de borracha atiradas a esmo não são teleguiadas e podem atingir tanto o cara que acabou de quebrar uma vidraça quanto amigas que estão correndo no meio da confusão em busca de um lugar seguro.

Geralmente, a culpa é sempre de uma “meia-duzia” que se aproveita do anonimato proporcionado pela multidão para badernar e provocar tumulto generalizado.

A pergunta mais intrigante é: porque isso acontece? Será que é a população que não está preparada para uma idéia tão boa como a da Virada Cultural? Será que é falha de policiamento preventivo, que deveria evitar esse tipo de baderna?

Será que a solução é acabar com esse tipo de evento, já que o povo não sabe aproveitar, ou será que se deve insistir no modelo para que a população aprenda?

Talvez a questão seja outra, bem mais profunda e, por isso, atrai muito menos atenção das autoridades e vontade delas para lidar com o assunto. Talvez não adiante apenas dar o circo uma vez ou duas por ano. Talvez ajude dar à população uma presença mais efetiva do Estado, com escola se hospitais decentes, por exemplo.

Mas isso leva outra à questão. É a sociedade que prepara o criminoso ou cara que comete o crime nasceu com maldade e iria cometê-lo de qualquer jeito?

Do alto da minha falta de embasamento teórico arrisco um palpite meio em cima do muro. Os dois. Afinal, tem cara de classe média-alta que mata o pai e mãe, assim como tem –e como tem– gente extremamente pobre que nunca roubou, sequer para comer.

Enfim, isso tudo envolve uma longa e provavelmente cansativa discussão sociológica da qual eu não tenho competência para participar. Mas uma coisa é fato, se o governo não aparecesse só uma vez por ano para dar show de graça –o que é importante— e estivesse fazendo-se sentir no dia-a-dia de toda população, não ia acabar com as arruaças em shows e festas de comemorações de títulos, mas que ia diminuir ia.

Dizem por aí que um povo mais bem cuidado é um povo mais educado, vai ver é isso aí.