Já eram quase nove da noite quando ela se sentou à minha frente no trem que relutava em partir. Levantei os olhos e, em três segundos, retornei-os à leitura. Foi tempo suficiente para perceber algo de especial naquela garota de vinte e poucos anos, pele morena, olhos grandes e expressivos. Talvez tenha sido a correspondência do olhar que, apesar de breve, foi suficiente para me constranger. Talvez certa inquietação. Há quem diga que as pessoas carregam e transmitem energias perceptíveis, embora não compreendidas, pelos que estão ao redor.
Vai ver foi isso. Seja o que for, algo captara minha atenção. Tanto que, alguns minutos depois, já com o trem em movimento, atreveram-se novamente meus olhos a fixá-la. Descobriram lágrimas e um pulso cerrado, que apertava com visível força um pequeno terço e servia de apoio à fronte que às vezes declinava. Ela rezava.
Rezava imersa e exprimia dor, alheia ao mundo externo, à minha observação, aos dois adolescentes que brincavam com um mini game ao meu lado, à senhora negra que pedia esmola e carregava um imenso saco de pano nas costas, enquanto disputava espaço no estreito corredor com o vendedor de amendoins, ao senhor de camisa amarela que dormia no banco ao lado, às duas mulheres que falavam sem parar da novela e ao estudante de boné e camisa pretos que ouvia música e olhava, catatônico, para o vazio.
Quantos universos ali juntos! Quantas vidas e histórias, com suas delícias e dores, ódios e amores, planos, medos, sonhos e desilusões, um infinito e conflituoso emaranhado de sentir e pensar. E solidão…meu Deus, quanta solidão entre toda essa gente junta! E quanta fé daquele espírito sofrido. Sim, somos corpo, alma e espírito, trinos como Deus, imagem e semelhança Dele.
Impossível não pensar em quanto a dor e o sofrimento caminham juntos da fé e às vezes constroem pontes entre o homem e Deus, não por vontade Deste, mas por necessidade daquele. Não acredito, ao contrário de muitos cristãos, em um Deus maniqueísta, que controla os passos do homem, que a ele dá e tira, a um faz nascer pobre e ao outro rico, a um concede doença e a outro oferta saúde a fim de cumprir um propósito divino. Não acredito em carma, tampouco em destino. Caso contrário, teria de crer que Deus está por trás da fome, da violência e de toda forma de opressão. Impossível!
A humanidade é livre para fazer suas escolhas, e responsável pelos seus atos. De nada adianta bilhões de boas almas clamarem pelos famintos do mundo; há que se distribuir alimento e renda. Tampouco adianta rezar pela Terra; há que se cuidar dela. Deus não tem o menor compromisso em resolver os problemas que são do homem, por maiores sofrimentos e angústias que carreguem.
Mas creio, de todo o coração, no efeito da fé individual, sincera, pura, desprovida de interesses, que move as montanhas que ninguém vê. A fé que não apenas aproxima o homem de Deus, mas é capaz de atraí-lo ao interior de um vagão de trem, entre mendigos e vendedores de amendoins, para simplesmente dar colo e conforto a quem chora por um pouco de paz…
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penso o mesmo que retratou no texto, inteligentíssimo. Pessoas se integram à estrutura em volta e passam a ser cenário, simplesmente, e não coadjuvantes de uma história se renovando a cada instante. Credo! Será que já estou assim…?
Comentário por Valter Vicente Alves 24 Novembro, 2007 @ 4:03 pm