Por Gerson Freitas Jr.
Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Mas restasse alguma dúvida, ela teria se desfeito naquela terça-feira; uma ordinária e enfadonha terça-feira, diga-se, em cenário nada parecido com o que imaginamos para os grandes acontecimentos.
Estava eu de pé, galgando espaço entre corpos exprimidos quando observei, perto da porta do vagão, dois senhores conversando. Tinham em comum cabelo e longa barba alvos como a neve, a pele clara e as bochechas rosadas, grande barriga, óculos redondos, camisa-xadrez e anos avançados.
Não seria difícil encontrar duas figuras assim nas ruas de Higienópolis, por onde vi algumas vezes caminharem judeus ortodoxos com descrição parecida, mas em um trem de subúrbio…?
Não eram judeus ortodoxos, conclui com certeza tão logo ouvi um “PORRA”, como que dito com apenas um erre, o que denunciava uma possível ascendência italiana.
Como mariposas atraídas pela luz, levou-me a curiosidade a dar cinco passos rumo à saída e ficar de frente para os dois que, cercados tão de perto como todos que ali estávamos, em nada deram conta da minha presença e dos meus abelhudos ouvidos.
Não foram necessários mais que alguns segundos para desvendar o segredo que, a bem da verdade, nem sei se o era.
Aqueles dois senhores eram Papais Noéis. Sim, Papais Noéis, dos de verdade, desprovidos de trenós, renas e uma fábrica de brinquedos, mas contratados temporários de estabelecimentos comercias da Grande São Paulo, para os quais distribuiriam balas às crianças no Natal em pouco menos de três meses.
Balas?
Não, bala.
- Porra, meu! No Shopping XXX, eles só deixam dar uma bala por criança, e daquela dura! Porra! Eu fico constrangido. Onde já se viu? Porra! A criança vai lá e você dá uma bala pra ela…Não quero nem saber; dou logo umas três, quatro. Eles que reclamem!!!
Papai Noel subversivo – e boca suja!!!
Cuidei que nenhuma criança ouvisse aquela conversa. Imagine só o desencantamento com a cena!
E fiquei confortado por nunca ter acreditado em Papai Noel e alimentado uma ilusão tão frágil que se desfizesse após poucos minutos de conversa. Sabe lá Deus que traumas me causaria…
Mas depois, confesso, fiquei triste. Poxa, eu nunca acreditei em Papai Noel…
2 Comentários até o momento
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porra, que texto legal!
Comentário por levi araújo 10 Outubro, 2007 @ 5:24 pmparabéns camarada
Gerson Jr,
Quanto tempo não escrevo aqui. Uma das coisas que sinto falta de morar na capital é exatamente as viagens nos trens, metrês e outros meios de transporte público. Eu já chegeuei a acompanhar uma conversa que durou três dias entre duas moças. Pegávamos o mesmo metrô, no mesmo horário e vagão, e como não dava tempo de acabar o assunto, no dia seguinte elas continuavam. O melhor é que quando uma delas não lembrava onde tinha parado, eu tive que me controlar para não dar a deixa, pois eu lembrava exatamente…rs
Grande Abraço, e não deixem de atualizar!
Comentário por Diego Bonel 11 Outubro, 2007 @ 11:41 am