Saí da sessão de Tropa de Elite tentado a fazer uma contraposição com Cidade de Deus, um dos meus filmes favoritos. Estava contaminado pela binária Crítica que os colocou em lados opostos do espectro que se resume a bandidos e mocinhos. E caí na tentação de pensar que, se como disseram, Cidade de Deus é a glamourização do criminoso (não é), Tropa de Elite talvez seja asfixiado por idéias fascistas e apologia à tortura (talvez).
Chego aqui convencido, no entanto, de que os dois filmes são retratos opostos da mesma violência, preservando a lógica de um sistema corruptor, tanto para os “de cima” quanto para os “de baixo” da lei.
Sim, pois aqui, em geral, as pessoas se dividem entre os que estão sujeitos às penalidades da lei e os que não estão, pouco importando de que lado estejam exatamente.
Os dois filmes andam juntos quando mostram que a violência no Brasil não é unilateral, com um roteiro de partida e chegada e alvo(s) específico(s), mas um mal estrutural, contagioso e democrático.
E que se justifica à medida que todos se sentem, de alguma forma, vitimados e, órfãos de justiça, no direito de buscá-la a seu modo – do policial mal pago que cobra “caixinha” ao jovem da periferia que busca guarita no tráfico, passando pelo cidadão de classe média que, diante de um Estado ineficiente, se sente no direito de sonegar seus impostos.
Tropa e Cidade são – e nisso se igualam – histórias sobre a falência das instituições, da escola que devia educar, do hospital que devia cuidar, da polícia que devia proteger e da lei que devia igualar. E, apenas sob suas ruínas, há espaço para heróis como Capitão Nascimento, tão justiceiro quanto o traficante Mané Galinha – embora com menos coração.
2 Comentários até o momento
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Assistir ao Tropa de Elite é igual a ouvir Face da Morte e Facção Central, a Realidade é nua e Crua…
Comentário por Tropa de Elite 19 Novembro, 2007 @ 3:05 pmComo os Policiais entram na Favela?
Na ultima noticiada foram 12 né?
De Hitler e louco todo mundo tem um pouco…
Concordo com sua visão de que ambos os filmes denotam a falência do Estado. Vivemos em uma época de caos: inversão de valores humanistas, distorção da realidade, corrupção em todos os setores, e atos violentíssimos que aterrorizam a população. Se assistirmos aos “cidade alerta” da vida, deixaremos de viver, pq o que vemos é a podridão do ser humano.
Comentário por Joelma 28 Novembro, 2007 @ 4:42 pmParabéns mais uma vez!