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É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.
O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.
E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.
Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.
E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.
Por Daniela Moreira
Larry Page e Sergey Brin não ouviram meu apelo, mas Carlos Felix Ximenes, diretor de comunicação do Google Brasil deu uma entrevista para o IDG Now! com algumas respostas às indagações do post passado. Pelo bem da imparcialidade neste Domínio, aqui vai um resumo das principais:
Sobre os links patrocinados em comunidades criminosas: “Vamos reavaliar a ferramenta, pois a idéia é que os anúncios só apareçam em comunidades relevantes e com conteúdos apropriados”. Por enquanto, o sistema, que estava em fase de testes, foi tirado do ar.
Sobre o combate aos crimes na rede: “Temos feitos todos os esforços possíveis. É uma questão que nos aflige moralmente”. De acordo com Ximenes, o Google emprega mais de 80 profissionais que falam português nos Estados Unidos para monitorar o Orkut e comunidades e perfis denunciados não ficam mais de 48 horas no ar.
Sobre os números de páginas criminosas: “É claro que nenhum número é satisfatório, tem que ser zero”. O Google diz, contudo, que os dados da Safernet são discrepantes com seus próprios – embora não tenha apresentado dados para rebater os da ONG até o fechamento deste post.
Sobre a não-responsabilização do Google Brasil no processo: Segundo o executivo, a subsidiária brasileira deve passar a fazer o meio de campo, atendendo uma demanda de longa data do Ministério Público Federal em São Paulo. “É o caminho natural”.
No mais, tenho que confessar que o porta-voz, que confessou ter filhos pequenos, me pareceu deveras tocado com a questão e concordou com a indignação da repórter que vos fala.
Ficaremos atentos aos próximos capítulos da novela.
Por Daniela Moreira
Digite no espaço em branco: Andrômeda. Vupt. Num vôo suave você percorre a imensidão do espaço e se desloca anos-luz da Terra, até o ponto exato onde está localizada a constelação, logo ali ao lado de Pégasus.
É o Google Sky, mais uma cortesia da empresa do simpático logotipo de bolinhas coloridas, que nos brindou com algumas das invenções mais bacanas dos últimos tempos – a começar por aquela página toda em branco, com uma simples caixinha no meio, capaz de responder todas as suas perguntas, e que revolucionou a forma como 9,9 em cada dez seres humanos “conectados” se relacionam com todo e qualquer tipo de informação no seu dia.
Se pudesse digitar ali naquele espaço em branco uma única pergunta endereçada não aos tais robozinhos treinados para trazer sempre as melhores respostas – ou as mais convenientes -, mas aos dois garotos brilhantes que estão por trás dessa invenção genial que mudou tão radicalmente o sentido da expressão “navegar”, a pergunta seria “por quê?”.
Por que é tão fácil mapear todo o globo, com seus 6 bilhões de ocupantes, para falar só da vida humana, e – não satisfeitos – todo o espaço sideral, que sabe-se lá quanta vida abriga, mas ao mesmo tempo é tão difícil dar conta de um universo de pouco mais de 68 milhões de faces virtuais, cada qual com seu endereço IP, o cordão umbilical que liga o perispirito digital à gente de carne osso?
Por que, se o mapa está ali a dois ou três cliques, e se é possível até ver de perto o Cristo Redentor – uma das sete novas maravilhas do mundo moderno -, se até na terra da garoa vocês estiveram, vestindo a camisa da seleção canarinho e tudo, é tão difícil olhar por um instante para este país de dimensões continentais, onde a sua corporação de 161 bilhões de dólares, não por acaso, fincou bandeira em expedição comercial?
Por que é mais simples colocar a Lua, Marte, Vênus, sem contar 100 milhões de estrelas e 200 milhões de galáxias dentro dos nossos computadores do que responder a 233 apelos para prender gente da pior espécie, que estupra crianças de dois, três anos de idade, tortura animais a sangue frio e promove toda sorte de atos inescrupulosos, impiedosos e indignos de pertencer à categoria humana, e que anda livre por esse microcosmo que vocês brincaram de inventar?
Por que uma companhia que tem como filosofia “you can make money without doing evil” e que fatura 10 bilhões de dólares ao ano, precisa exibir links patrocinados de pet shops em comunidades de violência contra animais e propaganda de sexo barato em comunidades pedófilas?
Por que se, enquanto seres humanos, não somos dignos de um minuto da sua atenção, nem ao menos como estatística (potenciais clientes, para falar a língua dos cifrões) – 33 milhões de internautas, com recorde absoluto em horas navegadas, à frente dos norte-americanos, dos europeus ocidentais e até dos japoneses – merecemos ser ouvidos?
Finalmente, por que vocês – que colocam o universo ao alcance do nosso mouse – pensam que somos estúpidos o suficiente para acreditar que não há meios para impedir que conteúdos como estes sejam barrados, ou que somos ingênuos o suficiente para achar que alguém realmente está tentando?
Está certo, não é uma única pergunta. São muitas. Mas para quem supostamente tem todas as respostas, não deveria ser tão difícil dignar-se a dar uma ou outra de vez em quando.
Nota de rodapé: De janeiro de 2006 a julho deste ano, a ONG Safernet registrou 46 mil páginas brasileiras na internet acusadas de prática de crimes contra os direitos humanos, sendo que 94% delas estão no Orkut, rede social do Google. Quatro em cada dez destas páginas trazem conteúdo de pornografia infantil.
Há mais de dois anos, o Ministério Público Federal tenta obter a quebra de sigilo dos perfis e comunidades criminosas no Orkut sem sucesso. Embora o Google tenha subsidiária constituída no País, as informações devem ser solicitadas à matriz da empresa nos Estados Unidos, que freqüentemente envia dados incompletos e insuficientes, e falha em preservar registros, segundo o MPF.
De acordo com a sua assessoria de imprensa, o Google não se pronuncia sobre o assunto.
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Hoje resolvi soltar a franga do meu lado infame e politicamente incorreto. Por exemplo, vocês viram a troca de comando na Infraero? Tiraram o tenente-brigadeiro José Carlos Pereira e colocaram no lugar o ex-presidente da Agência Espacial Brasileira, Sergio Gaudenzi.
Foi na gestão de Gaudenzi que mandamos para o espaço o astronauta/futuro apresentador de talk show Marcos Pontes. Foi também no período em que Gaudenzi esteve à frente da AEB que o Brasil tentou lançar um foguete ao espaço com experimentos científicos. Deu errado. A carga útil do foguete caiu no mar e ninguém conseguiu encontrar.
Assim, a nomeação de Gaudenzi para assumir a Infraero, em meio aos mais de 10 meses de crise aérea e pouco depois do pior desastre da aviação brasileira (nunca antes na história desse país morreu tanta gente em um acidente de avião), pode ser vista de duas formas: a positiva e a negativa.
Por exemplo, se eu fosse um cara otimista eu diria que o recém-empossado ministro da Defesa, Nelson Jobim, acertou em cheio ao chamar Gaudenzi para o cargo. Afinal, nada melhor que o sujeito responsável pelo envio do primeiro astronauta do Brasil (nunca antes na história desse país enviamos um brasileiro para as estrelas) para resgatar a malha aérea brasileira que, segundo Pereira afirmou certa vez, “foi para o espaço”.
Agora, por outro lado, se fosse um cara pessimista diria que foi a pior decisão possível do ex-presidente do STF e ex-ministro do FHC. Afinal de contas, ele trocou um sujeito que não conseguiu preparar o terreno para um pouso por outro que não tem conseguido realizar uma decolagem com sucesso.
Percebe? Tudo é uma questão de ponto de vista, depende do ângulo que você olha. O Renan, por exemplo. Até outro dia era só um cara de Alagoas que gostava de fazer parte do governo, independente das cores ou ideologia predominantes no Planalto. Se bem que até isso tem dois lados. Ora, o cara gosta de participar de todos os governos porque ama servir seu país. Ou, o cara é uma sanguessuga que quer mamar nas tetas do poder e se beneficiar de seus favores.
De todo modo, o fato concreto é que o Renan tem deixado de ser só o eterno governista de Alagoas. Mais recentemente, ele se tornou o adúltero, devasso, distribuidor de notas frias e lobista de fábrica de cerveja. Isso tudo, é óbvio, se eu for pessimista, e se eu for otimista, ou melhor, Poliano?
Aí, meus caros, o Renan é um ser humano como qualquer outro que tem lá suas fraquezas. Apareceu a Mônica Veloso, que cá entre nós não é pouca coisa, na frente dele e o cidadão não resistiu. Depois, ele voltou a ceder ás tentações da carne na venda de seu gado alagoano e, por último, teve lá seus problemas com a cerveja também, embora acho que pudesse ter arrumado marca melhor. Enfim, aquele que nunca fraquejou que lance a primeira pedra!
Por fim, quem viu a polêmica sentença do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, que decidiu arquivar uma queixa-crime do jogador são-paulino Richarlyson contra um dirigente do Palmeiras?
Bom, para quem não viu, ele disse que, quem viu o espetacular time campeão do mundo em 1970, “jamais conceberia um ídolo ser homossexual”. Mais: “Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas forme seu time e inicie uma Federação”.
Resumindo, o magistrado sugere o apartheid da opção sexual. Soltando a franga do meu lado infame e politicamente incorreto eu diria a esse juiz: Larga de viadagem que, no final das contas, todo mundo é igual, todo mundo é gente, todo mundo merece respeito, independente da fruta que gosta.
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Por que todo mundo diz que o Brasil perdeu a identidade com sua seleção de futebol se a Argentina –ok, vou falar bem deles—também tem uma maioria de atletas jogando na Europa, também só disputa amistosos na Europa, também vê seus craques saindo do campeonato local para a Europa cada vez mais novos e a gente não vê a imprensa Argentina dizendo que o time nacional não tem identidade com o país?
E essa história de direita ou esquerda, de destro e canhoto, de PT e PSDB, de DEM e de PSOL? Isso serve realmente para alguma coisa ou o inevitável e cruel destino é, depois de derrotas em três eleições presidenciais, a Heloísa Helena vencer o pleito de 2018, se tornar a primeira mulher presidente, todo mundo dizer que a mudança chegou e que a esperança venceu a medo para, logo no primeiro ano, todo mundo ver que era a mesma coisa?
Um Setúbal ou um Moreira Salles virar presidente do Banco Central, os “monetaristas” voltarem a triunfar sobre os “desenvolvimentistas”, os escândalos continuarem em profusão e uma ala de extrema esquerda do PSOL ser expulsa do partido para fundar uma nova legenda “guardiã do socialismo democrático” e propor CPIs e representações aos Conselhos de Ética aos milhões?
E a ação da Polícia e da Força Nacional de Segurança no Rio? Vai durar? Ou depois do Pan, todo mundo volta para casa e o morro volta ao controle dos traficantes? Não era mais fácil trocar ingressos na final do vôlei por uma trégua nos morros? Não morreria menos gente que não tem nada a ver com o tráfico?
E a atuação “republicana” e investigativa da Polícia Federal? Aliás, será que não estão banalizando a palavra “investigação”? Não seria melhor chamar de “grampeação”? Por que não mudamos a Constituição e não tornamos o grampo legal? Um órgão do governo ficaria encarregado de analisar os grampos de todos os brasileiro e por indiciar aqueles que são pegos no pulo. Desde o cidadão que admite que roubou um pãozinho até o mega corrupto usurpador dos cofres públicos. Seria a Grampobrás e, em seu estatuto, ficaria proibido a indicação de qualquer filiado do PMDB, o que diminuiria em 90 por cento as chances de ser loteada politicamente.
Aliás, e o Conselho de Ética? Quando vai ser merecedor do nome? Por que não, conselho de corporativismo? Ou esse nome deveria ser, na verdade, dado aos plenários das duas Casas do Parlamento?
E afinal, por que raios ainda discutimos a ditadura militar, os anos de chumbo? Por que mil demônios nos debatemos sobre quem foi bacana e quem foi feio, bobo, bocó e cara de fuinha naquele período, se aquele período já acabou há mais de 20 anos?
Se o caos nos aeroportos é o preço do sucesso, como disse o ministro da Fazenda, por que o “espetáculo do crescimento” não provocou um boom na venda de jatinhos?
Se o Catolicismo é a única maneira de salvação e a única religião de Cristo, como disse o papa, isso quer dizer que todo mundo que não for católico vai arder no inferno quando passar dessa para a pior (no caso, porque dizem que o inferno não é exatamente um lugar divertido)?
Será que não importa se você é uma pessoa correta, direita, honesta, cumpridora de seus deveres, ajuda o próximo quando pode, será que nada disso vale se você escolheu a religião errada? Quer dizer, se o cara é o santo na Terra e ele não escolheu “a única religião de Cristo”, ele vai arder nas chamas de Lúcifer?
Será que, além de ser honesto, não roubar, não matar, não cobiçar a mulher do próximo e todas essas coisas, o cara ainda tem que adivinhar qual a religião de Deus, qual a religião que Ele quer que sigamos? Se Deus é bom e misericordioso, por que todo mundo diz para as crianças: “se você não for um bom menino, Deus vai castigar”? Qual Deus é o da “verdadeira religião de Cristo”? O que multiplica os peixes para dar uma força para os pescadores, ou o que castiga as crianças que não se comportam direito?
Por que uma criança que morre ao nascer e, portanto não teve tempo de ser batizada, deve padecer o resto da eternidade no limbo? Que culpa ela tem por, ahn, vejamos, morrer ao nascer?
Por fim, será que um raio vai cair na minha cabeça nos próximos instantes, ou o chão vai se abrir sob meus pés ou terei o mesmo destino de Salman Rushdie ou José Saramago e serei condenado pelo que escrevi?
Se isso acontecer, vou fazer como Pedro. Não me sinto à altura de ser condenado à mesma coisa que esses caras muito mais legais, inteligentes e espertos do que eu. Crucifiquem-me de ponta cabeça.
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Já não é exatamente novidade um grupo de adolescentes de classe média-alta decidir se divertir queimando índios que suspeitem ser mendigos ou espancando empregadas domésticas. O que chocou no caso do espancamento de Sirlei Dias Carvalho Pinto é a leniência do pai de um dos agressores, que disse que as “crianças” que cometeram o crime –em tempo, eles também roubaram a bolsa da moça— não mereciam ficar presas, pois “trabalham e estudam”.
Opa, então espera aí, eu já trabalho há seis anos, então devo estar com um belo saldo para sair distribuindo sopapos pela rua. Quem sabe se meus alvos forem mendigos, travestis e prostitutas meu saldo seja equivalente a 12 anos de trabalho?
Sim, porque a justificativa dos jovens é que “pensaram” se tratar de uma prostituta. Ah, então não tem problema, meus queridos. O que houve foi apenas um mal-entendido. Da próxima vez, antes de começar o espancamento, perguntem se realmente se trata de uma mulher da vida, ok? Podem ir para casa tranqüilos. Ah, essas crianças de hoje em dia.
E, como diria o locutor da propaganda das facas Ginsu, não é só isso! O mesmo pai que defendeu a libertação das “crianças” farristas ao mandar uma mensagem “à sociedade” disse ainda que as marcas do espancamento que ficaram no rosto de Sirlei e que a impediram de exercer sua profissão temporariamente, sem falar do braço engessado, são conseqüência do fato de a vítima ser mulher e, por isso, mais frágil o que faz com que fique “roxa com apenas uma encostada”.
Ah, entendi. Isso certamente é um atenuante da maior relevância. Afinal, quem mandou essa pessoa nascer mulher, não usar roupa de freira –para que não seja confundida com uma prostituta—e ainda por cima ser frágil. Afinal, as “crianças” não têm culpa. Foram apenas algumas “encostadas” e nada mais. Culpa da vítima que, além de mulher, ainda por cima é frágil.
Aliás, devia estar na constituição ou no estatuto da criança e do adolescente. “Crianças entre 19 e 21 anos (!) têm o direito inalienável de surrar/queimar suspeitos de serem prostitutas ou mendigos para sua diversão. Essas crianças têm ainda o direito de ficarem livres de punições, mesmo que causem hematomas às vítimas, desde que fique provado que elas eram frágeis e, portanto, suscetíveis a ferimentos aparentemente graves após sofrerem uma mera encostada”.
Pronto, assim a Justiça seria restabelecida e esse absurdo de “crianças” que “trabalham e estudam” serem presas por crimes que cometeram seria abolido.
Não fosse eu um defensor da máxima de que é melhor ouvir merda do que ser surdo defenderia aqui a prisão desse pai pelas declarações escabrosas e pela flagrante apologia ao desrespeito às leis.
Não vou fazer isso. Afinal, imagino que ele esteja apenas tentando esconder seu retumbante fracasso como pai. Não ensinou ao filhote valores mínimos como o respeito ao próximo, não o ensinou a não ser um covarde, não ensinou a diferença entre certo e o errado, e que as pessoas têm de sofrer as conseqüências de seus atos.
Talvez por isso, por ter sido um pai que não ensinou essas coisas básicas, tente agora correr atrás do tempo perdido, indo a delegacias defender em mensagens enfáticas “à sociedade” o filhote já marmanjo.
Provavelmente, paizão, é tarde demais.
Sob o risco de ser taxado de reacionário, direitista ou coisa que o valha, volto a tratar aqui de um assunto que foi tema de um dos meus primeiros textos neste Domínio: indenizações a anistiados políticos da época da ditadura militar.
Antes de qualquer coisa, vale esclarecer que não sou contra as indenizações pagas, mas há casos e casos. Também não busco desmentir os livros de história, que apontam o sadismo e as constantes violações aos direitos humanos que marcaram essa época da história brasileira. No entanto, vale lembrar que essas violações ocorreram dos dois lados, tanto por integrantes do regime nos porões da ditadura quanto por militantes que aderiram à luta armada.
Desconfio do argumento de que a causa dos guerrilheiros era nobre e por isso justificava o assassinato de pessoas que, muitas vezes, estavam alheias às disputas políticas da época, não eram nem de esquerda nem de direita. Aliás, desconfio de qualquer causa que justifique o assassinato de quem quer que seja. A ditadura matou inocentes e a guerrilha também o fez.
Toda essa introdução chata e enfadonha porque, na semana passada, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça determinou promoção pós-morte do ex-capitão do Exército Carlos Lamarca, e pagamento de indenização para sua viúva e filhos no valor total de 300 mil reais. Com a promoção, a viúva de Lamarca, que em 1969 desertou do Exército para se tornar um dos principais nomes na luta armada no país, passará a receber pensão mensal pouco superior a 12 mil reais mensais, equivalente a de um general.
Sobre Lamarca, sabe-se que foi capitão do Exército, que, ao desertar, roubou armas e munição que levou consigo para a luta armada. Está documentado ainda que condenou à execução a coronhadas de fuzil, um tenente da Polícia Militar paulista, que militou nos grupos guerrilheiros VPR, Var-Palmares e MR-8, participou do seqüestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher –no qual um segurança do embaixador foi morto—e que é acusado pela morte de um gerente de banco e de um segurança de uma agência bancária.
Por outro lado, ele também era conhecido como exímio atirador, por ter tomado posição decisiva contra a execução de Bucher no cativeiro e por ter sido morto pelo Exército quando descansava debaixo de uma árvore no sertão da Bahia.
Não há notícia de que Carlos Lamarca tenha sido detido pela ditadura, de que tenha sido torturado nos porões do regime. Pouco leva a crer, ainda, que tenha sido um perseguido político, já que suas atividades de oposição à ditadura militar em muito passaram ao largo da atividade política. Tinha motivações políticas, mas nunca foi perseguido por andar com um exemplar de “O Manifesto Comunista” embaixo do braço.
Somente isso já o desqualificaria para uma eventual candidatura à indenização. Não quero mencionar a morte do tenente da PM, ou do segurança do embaixador –um agente da Polícia Federal– ou até mesmo o seqüestro de um diplomata.
Mas existe uma coisa que acho que vale a pena lembrar, para mostrar que os anos da guerra suja da ditadura não foram de esquerdistas santos lutando pela liberdade contra direitistas sujos e sanguinários promovendo o autoritarismo e o fascismo. Os dois lados cometeram atrocidades.
No meu outro texto sobre indenizações eu falei sobre Mario Kozel Filho. Soldado do Exército de 18 anos de idade, morto em um atentado à bomba quando exercia a função de sentinela numa instalação do Exército no bairro do Ibirapuera, em São Paulo. Com a concessão de indenização à família de Lamarca, o caso de Kozel Filho voltou a ser lembrado pela imprensa. Afinal, ele foi morto em uma ação do grupo guerrilheiro do qual Lamarca supostamente fazia parte antes mesmo de desertar.
Ao contrário de Lamarca, que optou pela luta armada e escolheu um lado da batalha, Kozel Filho cumpria serviço militar obrigatório. Seu pai chegou a dizer que o filho sequer tinha intenções de seguir na vida militar. Era um inocente. Assim como muitos inocentes morreram e foram torturados pela ditadura, ele foi um dos inocentes mortos em nome da causa revolucionária defendida pelas guerrilhas.
Ainda assim, como se vê na matéria linkada, sua morte não recebeu a mesma atenção dispensada pelas autoridades à morte de Lamarca.
Arquivado em: ambição, aposentadoria, comportamento, direitos humanos, ditadura, Vinícius Cherobino
Todos são explorados. Seria triste se houvesse alguma resistência. Não há resistentes. Eles podem sair duas vezes por dia, no máximo. Quando saem para comer e quando saem para voltar para a jaula, talvez tomem um sol, depende muito do dia, talvez comuniquem-se no idioma dos animais. De qualquer jeito, o tempo não é muito e eles não têm lá uma cara de quem está morrendo de prazer. Mas – tampouco – não parecem que caminham para a morte.
No resto do dia passam em observação pública. Restritos a uns poucos metros de espaço – um cubículo de metro e meio por uns setenta centímetros – mal andam, ficam a maior parte do tempo sentados, a cabecear, olhando para frente. O máximo de exercício possível está em mexer os dedos, ora lentamente, ora avidamente. Nas patas traseiras, umas sobem por cima da outra em uma atitude que um escritor barato chamaria de emulação do sentimento latente de fuga. Fuga que, diga-se, nunca se realiza.
Ficam em grupos, pelo menos, entre os deles. Mas como em todos os grupos de animais, há a criação de grupos menores e as suas subdivisões. Naturalmente, rivais das outras e com conflitos que – mal nascidos – já contam com histórias de séculos. Histórias mais baseadas em silêncios do que em ação, há pouco espaço até para ação nesse lugar. Mas, o escritor barato assopraria, nada mais do que uma ferramenta para manter a vida minimamente interessante. A esperança de cravar as presas no inimigo sempre é interessante, por mais que estes dentes arredondados não saiam da papinha cotidiana.
A pouca alegria reside no final do dia. Ah, a volta para a jaula. Educados, organizados, diria o barato escritor, uma boa e bela manada. Nenhum desastre na mão, só aqueles que foram concatenados durante o dia, que serão debatidos nos grunhidos do idioma animal na jaula, para entrarem nas histórias de séculos do dia seguinte. Mas, isso não importa, eles já passaram, já se encaminham para a jaula. Roteiro sagrado.
Não, escritor barato, agora não. Me larga. Está na minha hora, eu preciso ir para a minha aula. Não vejo a hora de ir hoje, vai demorar um pouco mais para eu voltar.
Arquivado em: Daniela Moreira, direitos humanos, globalização, lixo eletrônico
Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que encontrou um lindo teclado cor-de-rosa com uma linda maçãzinha mordida bem no meio de uma imensa montoeira de lixo, vinda de um continente qualquer, e achou que nunca tinha encontrado coisa mais bela na sua breve vidinha, pois por ali nunca apareceu nada assim tão lindo e tão cor-de-rosa, e ainda por cima com uma maçãzinha mordida bem no meio.
Mas não é. História de gente que vive no meio do lixo, que vive do lixo e do lixo venenoso, não pode ser história bonitinha, nem fazendo muita força. É história do que é ser globalizado na China ou na África. É receber 500 toneladas de lixo por dia lá da Europa ou dos Estados Unidos ou de qualquer outro canto do mundo achando que está recebendo presente.
Computador quebrado, TV que não funciona e teclado cor-de-rosa, que já não presta pra nada. Presente de grego – ou de norte-americano. Mas lixo é lixo em qualquer lugar do mundo. E nem uma garotinha chinesa de sete anos se deixa enganar.
Talvez ninguém por ali saiba muito bem de onde vem toda aquela monteira de coisa ou porque aquilo vai parar ali. Certamente ninguém lhes disse que é mais prático exportar esse tipo de problema do que resolver no quintal de casa. Mas como ali está, tira-se o que é de proveito e o resto vira o que já era mesmo. Lixo.
O lixo, por ali mesmo se queima ou por ali mesmo se larga. Esqueceram de lhes contar, talvez, que este tipo de lixo assim, no ar, na água, no chão, causa doença, mata, por isso lá pras bandas do oeste ninguém quer por perto. A bem da verdade, ninguém gosta de lixo, como se supõe por aí. Mas tem quem precise dele, e isso já basta.
Esta poderia ser a história de uma menininha chinesa que viveu no lixo, brincou no lixo, cresceu no lixo e morreu de câncer aos 21 anos. E ainda pode ser.
Arquivado em: direitos humanos, ditadura, Eduardo Simões, liberdade, política, sociedade
Todo mundo critica, todo mundo fala mal, chegam até a usar a palavra “ditador” como uma maneira de atingir adversários, um xingamento. Mas a verdade é que a maioria gosta dessas figuras polêmicas. Esses caras que se auto-intitulam salvadores da pátria e que se perpetuam no poder por meio de censuras, repressões, eliminação de adversários e cerceamento de liberdades.
E não sou eu quem diz isso não. É o povo. E se a voz do povo é a voz de Deus, viva os ditadores!!! Vá falar mal de Juan Domingo Perón para um argentino. Uma recente pesquisa da Folha de São Paulo junto a 200 notáveis escolheu Getúlio Vargas como o maior brasileiro da história e, em Portugal, um levantamento por telefone sobre os grandes portugueses da história feito pela emissora estatal RTP deu o título a Antonio de Oliveira Salazar.
Napoleão Bonaparte também é um herói francês, Fidel Castro está há quase cinco décadas no poder em Cuba e a lista de ditadores mais amados do que odiados –mesmo que às vezes de maneira clandestina—é extensa.
Os ditadores são como aquelas doses de caipirinha que você amaldiçoa na hora da ressaca, mas corre atrás delas no fim de semana seguinte. É como o Big Brother, que todo mundo fala mal, mas sabe de cor e salteado que o Caubói fez um complô para acabar com o triângulo amoroso entre Alemão, Fani e Siri.
Todo mundo fala mal, mas a maioria gosta. Não importa se o cara mandou uma judia para um campo de concentração nazista só por ela ser casada com um adversário, não importa se ele mandou para o exílio todos seus opositores nem tampouco se ele disse que preferia ver seu país miserável a dependente de potências externas.
É aquela história, todo mundo gosta de liberdade, de ser dono de seu nariz, mas por alguma razão também gostam de seguir um salvador da pátria, um pai dos pobres, um defensor da moral e dos bons costumes, seja ele um antiimperialista ou um caçador de comunistas. Afinal, quem se importa se liberdade, igualdade e fraternidade terminaram em um general megalomaníaco que queria dominar a Europa?
Agora vem a parte broxante, caro leitor. Eu disse tudo isso, mas não vou dar uma conclusão para você. E a razão é simples: eu não a tenho.
Não sei se é comodismo, não sei se é a eterna busca do salvador, não sei se é preguiça ou medo de tomar as rédeas do próprio destino. Só sei o que qualquer imbecil minimamente atento sabe. As pessoas gostam de ditadores.
A maioria que os critica não o faz por serem figuras totalitárias, centralizadoras e opressoras, mas sim por estarem do outro lado de sua esfera política. Um crítico de um ditador de esquerda gostaria de ter um caudilho de direita no comando e vice-versa.
Vai ver é a natureza humana, simples assim.