“Você pode estar me dando um segundinho da sua atenção?”, perguntou a menina que calças laranjas e colete verde limão em frente a uma financeira. Fugi, confesso, empurrado não apenas pela pressa de quem está sempre lutando por três minutos que reduzam o atraso, mas pelo medo de aliciamento. Alguns metros à frente outro guri colorido, mais direto, pergunta: “Crédito pessoal, moço?”
Fiquei com a sensação que há algo muito errado com tanta oferta de dinheiro “fácil”, nas calçadas, nos outdoors do metrô, nas páginas dos jornais e horários pagos da TV. Os números também deixam uma pulga atrás da orelha. O Banco Central divulgou há algumas semanas que, só no passado, os empréstimos pessoais cresceram 33%.
Alguém pode argumentar, com alguma dose de razão, que esse aumento se explica pela queda na taxa de juros (que obriga os bancos a procurarem outros clientes tão bons quanto o governo) e o aumento do emprego e da renda que resultam do “espetáculo do crescimento”. E concluir que nenhuma economia se desenvolve sem boa oferta de crédito.
Também é verdade que, no Brasil, ainda falta dinheiro para financiar seja a compra de um carro, seja o aumento da produção de uma fábrica. Ao todo, a oferta de crédito respondeu por 34,7% de todas as nossas riquezas em 2007. Apesar de ser o melhor resultado em 12 anos, ainda está longe da média mundial, que gira em torno de 100%.
Portanto, o crescimento dos empréstimos é, a princípio, uma notícia positiva. Os problemas surgem quando a destrinchamos em pelo menos dois aspectos. O primeiro: o salário do trabalhador, que é baixo, não cresce no mesmo passo de seu endividamento. Pelo contrário, sua renda média caiu, descontada a inflação, 4,9% entre o segundo semestre de 2002 e os últimos seis meses do ano passado, segundo o IBGE. O segundo e mais importante: de acordo com a Anefac, a taxa de juros média para a pessoa física em dezembro foi de inescrupulosos 129,81% ao ano. No limite, portanto, o consumidor chega a pagar duas vezes o produto adquirido – diferença que fica com o sistema financeiro.
Logo, a expansão do consumo – principal responsável pelo crescimento do PIB no ano passado – está se dando à custa de uma brutal transferência de renda das famílias e do governo (via desconto para o pagamento de crédito consignado para funcionários públicos e aposentados) para o cofre dos bancos – o que ajuda a explicar seus lucros recordes no ano passado. É dinheiro migrando do consumo e do investimento para o pagamento de juros, o que resume a anemia econômica brasileira.
Por isso, quando uma menina sorridente em trajes coloridos de alguma financeira lhe pedir “um segundinho da sua atenção”, lembre-se: elas sempre querem algo mais.
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., internacional, justiça, liberdade, religião
Os judeus crêem que há cerca de 3.500 anos o povo de Israel cruzou em terra seca o Mar Vermelho. Javé, comovido com o clamor dos hebreus, sob opressão do Egito havia quatro séculos, lhes prometeu seu próprio território, uma lugar onde manava “leite e mel”.
Do compromisso divino assumido com Moisés por meio de uma sarça em chamas à saída do Egito foram-se diversas ameaças e dez pragas. Os egípcios viram gafanhotos devorarem suas plantações, os rios transformados em sangue e seus primogênitos ceifados pelo anjo da morte.
Quando os israelenses já caminhavam pelo deserto rumo à terra prometida, o Faraó enviou seu exército e encurralou os ex-escravos contra as águas do Bahr el-Ahma. Conta a Torá que o mar então abriu-se milagrosamente para que os israelenses passassem. Em seguida, fechou-se sobre os egípcios, que morreram afogados.
Gosto de pensar que as imagens da faixa de Gaza que correram o mundo nesta semana recontam, ao menos no plano simbólico, essa história: a de que não se pode oprimir ou confinar qualquer povo sob os olhos de Deus e de que toda dominação um dia sucumbe ao milagre da libertação. Pena que justamente Israel ainda não tenha aprendido.
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Wagner Montes, pré-candidato a prefeito do Rio de Janeiro e líder nas pesquisas de intenção de voto, defendeu na semana passada a restauração dos velhos Cieps, as escolas de tempo integral criadas por Leonel Brizola nos anos 1980. Mas o que Montes conseguiu mesmo, com toda sua crueza de raciocínio, foi explicar em poucas linhas o porquê do desastre educacional brasileiro.
* O Estado de S. Paulo, 21/01/2007
Na cabeça do favorito para ocupar a cadeira de prefeito da segunda maior cidade do País, criança (criança pobre, é claro) é resumida à condição de boca mesmo quando o assunto é a sua educação. A discussão sobre a formação do caráter, os meios de estimular habilidades intelectuais e artísticas e o preparo adequado para o mercado de trabalho dá lugar a uma simplória equação de bocas, como se elas precisassem apenas de comida.
A desgraça é que essa concepção utilitarista permeia o pensamento da maioria dos políticos destas bandas. Em seu discurso, a escola é sempre mostrada como o meio de garantir um assistencialismo qualquer, tempo para que as mães trabalhem ou mesmo uma pretensa proteção das crianças contra os “tentáculos da criminalidade”. Mas, nunca, como o espaço formador por excelência de cidadãos pensantes.
O Brasil vive um período de conveniente e escancarado desprezo coletivo pelo conhecimento, o que fica demonstrado não apenas nos péssimos resultados obtidos nas avaliações internacionais, mas na ascensão de políticos boçais como Montes, que prometem o manjado “livro pra comida, prato pra educação”. Mais um sinal de atraso no país do futuro: ser um país de muitas bocas e poucos cérebros.
Por Gerson Freitas Jr.
O ano começa com o correio eletrônico cheio de mensagens que desejam basicamente paz, saúde e prosperidade. É a receita trina da felicidade e da completude, além do diagnóstico de uma certa estiagem criativa. Nada contra que me desejem um 2008 com “muito dinheiro no bolso e saúde para dar e vender”, mas eu particularmente acho pouco.
Sinto como se houvesse uma mediocrização das expectativas, dos sonhos e, por extensão, da própria vida. Nos tornamos mais limitados, insípidos…meio sem graça mesmo.
Parece ser mesmo o sintoma de uma era amaldiçoada pelo comodismo, mais pela incapacidade de enxergar alternativas do que pela satisfação presente. As ideologias sucumbiram ao pragmatismo, e as relações humanas banalizaram-se diante da egoísta busca pela satisfação pessoal. Não há espaço para as utopias e nem utilidade nelas. Vivemos num mundo em que nada sobrevive se não servir a uma finalidade boçal.
Não ampliamos horizontes, pois é mais funcional não pensar. Não apuramos os sentidos, pois importa que nos habituemos com o trânsito caótico, o ar carregado, o mau cheiro dos rios, a poluição das praias, a propaganda dos outdoors, a música pasteurizada e o lixo da TV.
Perdemos a essência e inflamos o ego, que bate à porta dos templos da auto-ajuda em busca de pseudo-espiritualidade e fundamentalismo para dar sentido à bagunça do cotidiano. Desaprendemos a nos indignar e manifestar indignação, pois esses são tempos em que mais importa se emoldurar.
O que eu desejo para este ano, cada dia? Que degustemos a vida, as pessoas e a natureza, sem pressa nem ambições. Que prefiramos a frugalidade do momento que se vive às preocupações com o futuro.
Que possamos nos encantar com a música de Chico Buarque e a poesia de Vinicius de Moraes, experimentar a visceralidade de Cazuza e a espiritualidade do Sermão da Montanha. Que sonhemos os sonhos de Luther King e sintamos sua sede e fome de justiça. É disso que eu preciso – me embriagar de vida e me inconformar com este mundo.
Por Gerson Freitas Jr.
O Gênesis narra a Origem do mundo e do Homem segundo a fé judaico-cristã. Para além de sua questionável autenticidade literal, militarmente defendida pela Igreja, há um vasto campo filosófico e teológico a se explorar nesse livro.
Muito acima dos meios pelos quais se deu a criação, ali descritos, o Princípio oferece pistas importantes sobre o significado da existência e a relação do Homem com a Terra e com seu Criador, de onde emergem duas palavras capitais para sua compreensão: Domínio e Liberdade.
Gênesis conta que o homem (no hebraico, Adam) foi criado com poder para dominar sobre a terra (Adamah) – embora fosse Adão formado a partir dela (daí a semelhança dos termos no idioma original). “Domine ele sobre os peixes no mar, as aves no céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Encham e subjuguem a terra!”, ordenou Deus.
Ao homem são entregues as chaves do planeta recém-construído. Ele se torna o livre gestor dos recursos naturais e de toda a vida existente debaixo dos céus. Adão tem a supremacia sobre um sistema dinâmico e vivo, que lhe garante tudo que precisa para viver de forma independente e multiplicar-se. À humanidade é dada como presente toda a criação que lhe precedeu.
“Lhes dou todas as plantas que nascem em toda a terra e produzem sementes, e todas as árvores que dão frutos com sementes. Elas servirão de alimentos para vocês. E dou todos os vegetais como alimento e tudo o que tem em si fôlego de vida”.
“O Homem se torna o livre gestor dos recursos naturais e de toda a vida existente debaixo dos céus”
A maior demonstração de que Deus não criou o homem para que fosse subserviente está representada na Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Gênesis conta que o Criador cultivou no meio do Jardim do Éden uma árvore cujos frutos seriam capazes de “abrir os olhos” do homem para o mal, o pecado até então ignorado.
Deus estava ciente do risco que corria toda a Criação se Adão e Eva experimentassem daquela árvore. “No dia em que dela comerem, certamente morrerão”, alertou. Mesmo assim, Deus não negou à humanidade a liberdade para escolher seu caminho, ainda que o livre arbítrio provocasse um colapso e até mesmo condenasse ao fracasso Seu plano divino.
E foi justamente o que aconteceu. Incentivados pela Serpente, Adão e Eva experimentaram o fruto proibido e tiveram suas vendas tiradas, de forma que não apenas passaram a conhecer, como se sujeitaram ao mal. Foi o homem amaldiçoado – e com ele, toda a Terra, parte dele, matéria-prima de sua composição. E, assim, entrou em desequilíbrio junto com a natureza. “Maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas”.
“Martin Luther King dizia que roubar a liberdade do homem é tirar-lhe algo da própria imagem de Deus”
Alguém pode perguntar por que o Criador permitiu que o homem sentenciasse sua própria condenação. Talvez a resposta passe pela afirmação de que não há vida sem liberdade. Martin Luther King dizia que roubar a liberdade do homem é tirar-lhe algo da própria imagem de Deus. E o homem é “imagem e semelhança de Deus”.
A importância desta reflexão está em que o Cristianismo ocidental desenvolveu e tem feito prevalecer a esquizofrênica tese de que todos os acontecimentos são fruto da vontade direta ou de permissão divina para o cumprimento de um Propósito – o que outras tradições religiosas chamariam, como mais precisão, de Destino.
Sob tal crença, toda a angústia humana – da dor de dente às grandes epidemias, das desigualdades sociais às opressões tiranas – subsistem na vontade de Deus, seja para punir os maus, seja para sadicamente educar os bons. Sob tal crença, o próprio mal exerce um papel utilitário a Deus.
Sob tal crença, apenas Deus – e mais ninguém – pode ser condenado por uma criança que definha de fome na África Sub-saariana. Sob tal crença, a revolta dos profetas judeus contra as injustiças sociais de sua época encontra em Deus seu maior alvo. Sob tal crença, a compaixão e o amor de Cristo pelos pobres encontram no Pai seu limite.
Mas Gênesis existe para lembrar que o Criador deu à humanidade a responsabilidade de traçar seus caminhos e escrever a história. E fomos nós que optamos por escrevê-la com a tinta da fome na África, da escravidão e injustiça em toda parte, das mortes por falta de hospitais e remédios no Brasil, do genocídio de Ruanda, das guerras mundiais e da bomba atômica no Japão, dos colonialismos europeus e dos grandes impérios dominadores do Mundo.
São os frutos de quem escolheu conhecer o Bem e o Mal, em toda a sua plenitude.
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., esportes, futebol brasileiro, infra-estrutura
Por Gerson Freitas Jr.
Durou pouco a promessa de que não haveria dinheiro público na construção de estádios para a Copa do Mundo no Brasil. Na semana passada, o governo da Bahia anunciou a implosão do velho estádio da Fonte Nova e a sua reconstrução, com vistas para o evento de 2014.
A decisão foi tomada na esteira do desabamento de parte de uma arquibancada no fim de semana passado, quando sete torcedores do Bahia morreram.
O governador petista Jaques Wagner disse que a nova arena, orçada pela bagatela de R$ 350 milhões, será levantada em conjunto com a iniciativa privada. Mas também avisou que, se a parceria “não for possível”, “o Estado irá arcar com os custos dessa implantação”.
Tudo, claro, pensando em “proporcionar um estádio digno aos torcedores baianos” (que, certamente, já encontram essa dignidade nas escolas e hospitais do Estado).
Absurdo maior é que esse mesmo Estado negligenciou, por anos e anos, a manutenção da Fonte Nova, um patrimônio público pelo qual deveria zelar e prestar conta. Mas, agora, diante do desastroso resultado de sua incompetência e descaso, propõe simplesmente esquecer o passado, colocar tudo abaixo e construir um estádio novo – um desperdício que chega a ser imoral para um país como o Brasil e um Estado como a Bahia.
Tudo bem, pois quem paga a conta mesmo, os tais torcedores – e não torcedores – baianos, têm coração grande. Mas é bom que você, caro leitor, também prepare o coração e o bolso para a jornada 2014, que acaba de começar. Pois esteja certo: os baianos serão os primeiros, mas certamente não serão os únicos.
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., direitos humanos, economia, justiça, liberdade, sociedade
É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.
O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.
E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.
Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.
E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.
Saí da sessão de Tropa de Elite tentado a fazer uma contraposição com Cidade de Deus, um dos meus filmes favoritos. Estava contaminado pela binária Crítica que os colocou em lados opostos do espectro que se resume a bandidos e mocinhos. E caí na tentação de pensar que, se como disseram, Cidade de Deus é a glamourização do criminoso (não é), Tropa de Elite talvez seja asfixiado por idéias fascistas e apologia à tortura (talvez).
Chego aqui convencido, no entanto, de que os dois filmes são retratos opostos da mesma violência, preservando a lógica de um sistema corruptor, tanto para os “de cima” quanto para os “de baixo” da lei.
Sim, pois aqui, em geral, as pessoas se dividem entre os que estão sujeitos às penalidades da lei e os que não estão, pouco importando de que lado estejam exatamente.
Os dois filmes andam juntos quando mostram que a violência no Brasil não é unilateral, com um roteiro de partida e chegada e alvo(s) específico(s), mas um mal estrutural, contagioso e democrático.
E que se justifica à medida que todos se sentem, de alguma forma, vitimados e, órfãos de justiça, no direito de buscá-la a seu modo – do policial mal pago que cobra “caixinha” ao jovem da periferia que busca guarita no tráfico, passando pelo cidadão de classe média que, diante de um Estado ineficiente, se sente no direito de sonegar seus impostos.
Tropa e Cidade são – e nisso se igualam – histórias sobre a falência das instituições, da escola que devia educar, do hospital que devia cuidar, da polícia que devia proteger e da lei que devia igualar. E, apenas sob suas ruínas, há espaço para heróis como Capitão Nascimento, tão justiceiro quanto o traficante Mané Galinha – embora com menos coração.
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., Luciano Huck, celebridades, crime, falta de Estado, sociedade, violência
O assalto sofrido pelo apresentador global Luciano Huck e a polêmica que sucedeu seu artigo na Folha de S. Paulo, no começo do mês, serviram para evidenciar que a discussão sobre violência no Brasil é, sobretudo, uma discussão elitista, com seu moralismo peculiar.
O desabafo de Huck, enquanto desabafo, é compreensível. Sabem-no todos os que já estiveram sob a mira de uma arma, como este autor. A sensação de impotência e fragilidade assusta, revolta e, por fim, deprime.
Mas, nas páginas do principal jornal do país, sob uma seção intitulada “Tendências/Debates”, não é mais do que um objeto de crítica, sujeito ao julgamento dos que leram ali também uma visão de mundo.
A visão do cidadão que, jura, paga todos os impostos – “uma fortuna” –, que passa o dia “pensando em como deixar as pessoas mais felizes” e fazer este país “mais bacana” – por meio da TV, que “diverte”, e a ONG que preside, “um trabalho sério e eficiente em sua missão” – do homem cujo “prazer passa pelo bem-estar coletivo” (e não tem dúvidas disso), mas que, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebeu balas de chumbo na testa e viu seu rolex, presente da esposa grávida do segundo filho, levado por dois assaltantes em uma moto.
Seria “manchete do Jornal Nacional” e no caderno policial da Folha – “e, quem sabe, teria uma homenagem póstuma no caderno de cultura”. Não veria seu segundo filho. “Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio”.
Huck não apenas escancara a presunção de quem se atribui uma importância muito maior do que realmente tem para o país, como, desconfio, reflete a imagem meritocrática que toda a elite brasileira – inclui-se a classe média – tem de si mesma.
Aquela visão do burguês honesto, moço de bem, que paga corretamente seus impostos, acumula fortuna com seu próprio esforço, milita numa ONG e, por isso, tem o direito de exigir do Estado proteção contra os marginais que, sobre duas rodas, apontam uma arma em sua direção e lhe sacam o relógio.
Sutilmente (ou escancaradamente), faz-se, sim, uma perniciosa distinção de classe. O relógio roubado causa indignação, mas a chacina, o tráfico, o abuso de poder e as balas perdidas que correm os céus da periferia passam ao largo da comoção público-midiática, como se legitimamente pertencessem ao cenário e à vida das pessoas daquele lugar, onde até se fale em violência, mas NUNCA em segurança.
Huck afirma: “Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade”. Correto, mas pergunto: a segurança de quem?
Por Gerson Freitas Jr.
Confesso que nunca acreditei em Papai Noel. Mas restasse alguma dúvida, ela teria se desfeito naquela terça-feira; uma ordinária e enfadonha terça-feira, diga-se, em cenário nada parecido com o que imaginamos para os grandes acontecimentos.
Estava eu de pé, galgando espaço entre corpos exprimidos quando observei, perto da porta do vagão, dois senhores conversando. Tinham em comum cabelo e longa barba alvos como a neve, a pele clara e as bochechas rosadas, grande barriga, óculos redondos, camisa-xadrez e anos avançados.
Não seria difícil encontrar duas figuras assim nas ruas de Higienópolis, por onde vi algumas vezes caminharem judeus ortodoxos com descrição parecida, mas em um trem de subúrbio…?
Não eram judeus ortodoxos, conclui com certeza tão logo ouvi um “PORRA”, como que dito com apenas um erre, o que denunciava uma possível ascendência italiana.
Como mariposas atraídas pela luz, levou-me a curiosidade a dar cinco passos rumo à saída e ficar de frente para os dois que, cercados tão de perto como todos que ali estávamos, em nada deram conta da minha presença e dos meus abelhudos ouvidos.
Não foram necessários mais que alguns segundos para desvendar o segredo que, a bem da verdade, nem sei se o era.
Aqueles dois senhores eram Papais Noéis. Sim, Papais Noéis, dos de verdade, desprovidos de trenós, renas e uma fábrica de brinquedos, mas contratados temporários de estabelecimentos comercias da Grande São Paulo, para os quais distribuiriam balas às crianças no Natal em pouco menos de três meses.
Balas?
Não, bala.
- Porra, meu! No Shopping XXX, eles só deixam dar uma bala por criança, e daquela dura! Porra! Eu fico constrangido. Onde já se viu? Porra! A criança vai lá e você dá uma bala pra ela…Não quero nem saber; dou logo umas três, quatro. Eles que reclamem!!!
Papai Noel subversivo – e boca suja!!!
Cuidei que nenhuma criança ouvisse aquela conversa. Imagine só o desencantamento com a cena!
E fiquei confortado por nunca ter acreditado em Papai Noel e alimentado uma ilusão tão frágil que se desfizesse após poucos minutos de conversa. Sabe lá Deus que traumas me causaria…
Mas depois, confesso, fiquei triste. Poxa, eu nunca acreditei em Papai Noel…

