Domínio Público


Como calar a “garganta profunda” virtual
19 Fevereiro, 2008, 1:51 am
Arquivado em: Daniela Moreira, Uncategorized | Tags: , , ,

Por Daniela Moreira

O título não se refere a um site pornográfico censurado. Trata-se do Wikileaks.org, onde, até esta segunda-feira, era possível publicar anonimamente documentos sigilosos – ou seja, bancar o “garganta profunda por um dia” sem deixar rastros virtuais.Um tribunal da Califórnia acabou com a folia, determinando o fechamento do site nos Estados Unidos. O motivo: o site foi responsável por vazar documentos que denunciavam supostas operações de lavagem de dinheiro e evasão de impostos praticadas pelo banco suíço Julius Baer via Ilhas Cayman.

Antes da pendenga legal, o site foi responsável, entre outras coisas, pela publicação de documentos que embasaram denúncias de operações do exército norte-americano para perseguir terroristas iraquianos atravessando as fronteiras com a Síria e o Irã e revelaram políticas da prisão de Guantanamo que impediam o contato dos prisioneiros com representantes da Cruz Vermelha – ambos casos reportados pelo New York Times.

A Wikileaks se define como “uma Wikipedia sem censura para vazamento e análise de documentos”. O objetivo principal, segundo o próprio site, é denunciar “regimes opressivos na Ásia, ex-bloco soviético, África Subsahariana e Oriente Médio”, mas o Wikileaks também se presta a revelar “comportamento antiético de governos e corporações” localizadas em qualquer região.

O real objetivo por trás do site já foi questionado por detratores, assim como sua real capacidade de garantir a segurança e a privacidade dos informantes anônimos. Críticos apontaram ainda que o site poderia sim ser usado para o bem, mas também estaria à disposição do mal – poderia, por exemplo, ser usado para divulgar informações falsas ou de interesse próprio (parênteses para um argumento complicado: não seria essa a natureza ambígua da própria internet???).

Enfim, o banco reclamou, a Justiça acatou e o site saiu do ar. Bem, não exatamente.

Sem entrar no mérito pra lá de questionável do processo que decidiu calar a “garganta profunda virtual” (em plena terra da primeira emenda), na prática, a decisão será difícil de vingar.

Além das versões belga e alemã do site, que continuam no ar, o Wikileaks já tem espelhos e backup em arquivo torrent, informou John Paczkowski – que classificou o processo como uma tentativa de “tirar o xixi da piscina” –, no blog All Things Digital.

O recado é claro: não dá para fechar a web.



Nosso atraso
29 Novembro, 2007, 3:51 pm
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., direitos humanos, economia, justiça, liberdade, sociedade

Por Gerson Freitas Jr. 

É incrível que o Brasil, agora integrante do “grupo de elite” do desenvolvimento humano, ainda esteja na terceira divisão do respeito aos direitos humanos. O jornal que noticia a entrada do País no grupo das nações com maior IDH é o mesmo que conta a história de uma menina de apenas 15 anos, presa em uma cela com 20 homens e obrigada a fazer sexo em troca de comida.

O Brasil parece caminhar para frente, rumo a tempos melhores do ponto de vista econômico e até social, mas vai devagar, como se acorrentado às bolas de ferro de seu passado autoritário, corrupto e escravagista. O País dá várias demonstrações de que, sim, avança, mas de que também se nega a tratar as chagas de seu atraso.

E não se trata de um atraso meramente econômico, pois não se pode chamar de pobre um país que desenvolve tecnologia de ponta e busca petróleo em águas profundas. Não se pode chamar de pobre um país que se coloca na posição de realizar uma Copa do Mundo. Não se pode chamar de pobre um país que reivindica para si uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Não se pode chamar de pobre um país que, afinal, possui um dos 10 maiores PIBs do mundo.

Nossa debilidade é, sobretudo, mental. Porque, em algum momento, alguém acha normal condenar uma menor de idade delinqüente como adulto. E alguém acha normal que, delinqüente, ela cumpra sua pena junto de delinqüentes homens (talvez alguém, entre os que pensam que “bandido bom é bandido morto”, achasse normal se também dissessem que bandido não tem sexo). Porque também há quem ache normal que o condenado seja vítima de abusos sexuais na cadeia, como parte integrante de sua condenação.

E, sobretudo, porque achamos, todos, normal que ninguém seja punido. Principalmente quando a vítima é quem é.



Aniversário
17 Agosto, 2007, 3:12 am
Arquivado em: Uncategorized

Descobri meio que por acaso, mas vale o registro: o Domínio Público completa hoje um ano desde seu primeiro post. Foram 182 no total, com 364 comentários e pouco mais de 21 mil page views - números que estão longe de ser impressionantes, diga-se.

Mas tudo bem. Apesar dos poucos leitores e, muitas vezes, da falta de inspiração e de um certo saco cheio, escrever aqui todas as semanas continua sendo motivo de responsabilidade e, perdoem a contradição, grande prazer.

E, no final das contas, é arte, porra!



Quem ama o educa?
8 Junho, 2007, 5:54 pm
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Chegam seus filhos. Os dois entram, se sentam, conversam. Você não senta, não senta por que é o Educa. Vamos comer o que? Precisa perguntar? Não, a escolha já está feita, mas Educa refaz a pergunta esperando pelas respostas. E ai se não der as respostas, não vá quebrar a ordem de seu Educa. Mesmo com a resposta dada, debatemos alguns minutos, outras opções, falamos da comida japonesa só de sacanagem… O tempo necessário já passou, a pergunta verdadeira chega inapelável: Qual é o sabor da pizza?

Não importa mesmo, você é o Educa, vais escolher o mesmo sabor, aquela mesmíssima margherita que – além de tudo – é mais gostosa. Aliás, minto eu, até pergunta, para ir detonando sabor a sabor, calabresa, catupiry, portuguesa, todos em ordem caem para sobrar um: marguerita. Coma-se a marguerita que é, claro, da mesma pizzaria. Novidades são apenas outras novas chances de errar.

Dias desses, Educa entrou na era digital. Comprou um computador, com Vista, diga-se. Mais um que caiu no golpe, problemas de configuração, problemas de drivers, problemas de compatibilidade com as placas. Um caminhão de problemas digitais para o seu Educa. Educa que já teve diversas excursões de um dos filhos – eu – para arrumar o tal equipamento que, no final, não pode ser arrumado. Precisa ser trocado.

Certos dias, no entanto, ele ficou online. Tão online quanto possível, mas aprendeu rapidamente as maravilhas do foward nos e-mails que colocam a Amazônia como parte dos Estados Unidos ou alguma reclamação contra o PT. Mas, acima de tudo, ele aprendeu sobre o MSN. Do comunicador instantâneo, tiro um exemplo que – como poucos – explica exatamente o que é ser Educa.

Teclava comigo, irritadíssimo por eu não parar meu dia no meio e respondê-lo imediatamente. Disse, depois, que não gosta de falar comigo pelo micro, estou sempre muito “ocupado”. Ocupado que trazia, em seu ventre, uma dúvida muito grande sobre essa ocupação, mas sempre a certeza de que estava eu enrolando.

Enfim, ele entra um dia. Era meio da tarde, umas quatro. Começa: “VÉIO, QUANDO VC VEM AQUI PARA COMER?”. Fingi que não entendi que se tratava de outra troca para tentar arrumar a merda do computador e, humilde, tentei explicar. “Pai, qdo vc coloca tudo em maiúscula, parece que vc ta gritando. Enche o saco, tbm”. Reli umas duas vezes, pressenti, bati enter.

A resposta, inapelável como o sabor da pizza, não demorou um segundo. E ensinou mais sobre educa do que eu jamais poderia aprender lendo: “QUER ME ENSINAR A TCR?”.

Salve Educa…



Lamento de Maria
25 Janeiro, 2007, 11:47 am
Arquivado em: Daniela Moreira, Uncategorized

Tô cansada de dizer e ele não escuta esse homem sai todo dia de manhã atrasado porque eu chamo chamo chamo e ele não escuta eu digo que tá na hora de ir pro trabalho que ele vai perder o ônibus das seis e quarenta e cinco e ele vira pro lado resmunga cobre a cabeça e eu lá só olhando só vendo ele chegar tarde na firma e baixar a cabeça pra levar pito chefe mas pra mim ele não baixa não ah não chega em casa de ovo virado bafo de pinga e ainda diz que a culpa e minha porque eu só faço uma coisa na vida só uma coisa na vida que é cuidar dessa casa e ainda cuido mal não presto nem pra isso desgraçado mas quem é que fica aqui no tanque raspando o casco até formar calo pra tirar a graxa daquela rouparada imunda que ele traz da fábrica quem é que esfrega tudo até ficar tinindo a burra de carga aqui e os menino que trabalheira todo dia é mãe isso mãe aquilo mãe cadê minha cueca mãe acabou o sabonete parece que não tem pé nem mão e a burra de carga aqui agüentando calada mas um dia eu ainda pego todo mundo de jeito um dia eu canso de tudo isso e sumo daqui sem deixar rastro vou embora arrumar um trabalho de faxineira que se é pra trabalhar que nem mula que seja pra ganhar uns trocos e trocar esses trapo velho que eu uso no corpo onde já se viu gente se vesti desse jeito toda mulambenta mas também se não for assim como há de ser o dinheiro mal dá pra comida e os sapato dos menino tá tudo furado tudo gasto que dá até vergonha de levar eles até a porta da escola quem dera entrar um dinheiro eu podia trocar os tênis e as camisa também que tá tudo puída limpinha mas puída dá até tristeza de ver as gola esgarçada mais vai se fazer o que mal tem dinheiro o dinheiro do feijão e do arroz o jeito mesmo é conformar o Zé também faz o que pode fica até tarde na firma agüentando aquele traste do chefe dele pudera que ele se enfeza mas não precisava descontar na gente eu é que não tenho culpa e nem os menino que só que uma ajuda com tarefa e tem que ficar ouvindo a mesma ladainha todo dia que eu ponho comida nessa mesa mas nada é suficiente e ninguém me respeita nessa casa e já amarra um bico estraga com a janta que a burra de carga preparou com tanto suor catando as moeda pra comprar uma mistura e botar uma mesa decente pra essa família um dia eu ainda me acabo de tristeza vou parar no Juqueri de tão louca que me botam eu aqui com a barriga molhada ralando nesse tanque e esse bando de ingrato que só faz reclamar da vida quero ver no dia que eu faltar o que eles fazem da vida eu já não tô boa da cabeça qualquer dia eu tenho uma síncope e vou parar no hospital e eles nem vão saber que fim que eu levei quero vê a Dona Carminda cuidar das suas roupa do jeito que eu cuido é Zé quero vê sua mãezinha querida fazer sua marmita todo dia cedo pra você não levar comida requentada e quero ver ela fazer os menino voltar da rua e tomar banho na hora certa ah não há quem faça deixa estar que um dia eu sumo mesmo desapareço e eu aí quero vê acabou-se a festa.

- Maria, vem acudir esse feijão que já ta cheirando!
- Já vou, Zé. Já vou…



Quanto vale a sua mãe?
19 Janeiro, 2007, 12:37 pm
Arquivado em: Análise da Mídia, Daniela Moreira, Uncategorized

Quanto vale um membro da sua família? Família próxima, digamos seu pai, ou um irmão, por exemplo? Vamos lá, não seja tímido. Ninguém está te ouvindo. Nada de sentimentalismo barato, do tipo, “não tem preço”, estamos falando em cash, money, bufunfa, tutu.

Vou tentar ajudar o leitor com algumas dicas práticas. Calcule, por exemplo, quanto vale um almoço de domingo, aquela lasanha maravilhosa da sua avó, o queijo derretido, puxando do prato até a sua boca, cheia de água, aquele molho inigualável, o cheiro que você sente lá do portão quando vem entrando, tudo no ponto certo, e a torta suculenta de morango de sobremesa, a sua preferida, que ela fez com todo amor só pra você. Cem reais? Duzentos? Vamos lá, não seja pão duro! Afinal, é a sua avó!

E aquela tarde no parque com o seu pai? Aquele dia em que ele te ensinou a andar de bicicleta, desparafusando as rodinhas, segurando os seus ombros pra ajudar a achar o equilíbrio, e por fim o sorriso indisfarçavelmente orgulhoso no rosto quando finalmente você conseguiu dar as primeiras pedaladas. Quanto? Cem pela bicicleta? Tá, uns trezentos porque ele deixou de ir ao churrasco do patrão para enfrentar o parque lotado, sob um sol de rachar o coco.

Ou aquele dia que vocês sentaram no quintal fazendo a melhor pipa a já voar nos céus do seu bairro. A cola de farinha, o papel de seda colorido, preto e branco, as cores do time do coração, e a rabiola, perfeita. Sem cerol, ele ensinou, pode machucar alguém. E lá foi ela pro alto, linda, a mais linda a voar nos céus do bairro. Quanto? Dois reais pela seda, três pelos sacos de lixo, mais um pela linha. Uns dez reais?

Agora escolha uma irmã, vai. Quanto vale aquele dia que você ficou com medo do escuro à noite e ela segurou sua mão até você dormir? E aquela tarde, a única na história da sua existência, em que ela deixou você ganhar no Cara-a-Cara porque você estava com catapora e não podia sair na rua pra brincar? Uns 50 paus?

E sua mãe? Essa vale bastante, hein? Pense bem… Quanto pelas noites em claro esperando você voltar da balada? E pelo chazinho de mel com limão levado na cama a cada resfriado? Quando por aquela palavra dura que te fez voltar à linha nos dias de abuso? E pela palavra de carinho mesmo quando você sabe que fez a maior cagada do mundo? Quanto vale aquele conselho sempre infalível – toda mãe é meio meteorologista – de levar o guarda-chuva bem nos dias que caem os maiores pés d’água? E quanto vale aquele sorriso, as lágrimas de felicidade, no dia da sua formatura? Quanto vale aquele beijo no rosto e o “vai com Deus” que te acompanham na saída para o trabalho todos os dias? Mil reais por todo o pacote?

Ah, caro leitor! Sejamos objetivos, por favor! Quanto você aceitaria receber de volta caso um belo dia um ente querido fosse, digamos, tragado por um buraco no meio da rua, por exemplo? Quanto vale uma vida? A vida do seu pai, da sua avó, do seu irmão, ou da sua mãe? Trinta mil reis? Tem gente que não se contenta com nada… Cem mil e não se fala mais nisso.



Enxame de mosquitos
16 Janeiro, 2007, 1:58 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., Uncategorized

Tenho certeza de que você nunca tinha ouvido falar de Muriaé há questão de dias. Exceto se 1) você é um muriaense, 2) vive na Zona da Mata mineira, 3) já viajou de carro para a Bahia e foi obrigado a parar na cidadedizinha a qual só se tem acesso pelas pequenas e velhas pontes levantadas sobre o rio de mesmo nome ou 4) é um amigo deste que lhe escreve.

Descartemos as três primeiras hipóteses. Não, você certamente não vive lá, nem nas redondezas, e duvido muito que tenha ido de carro para a Bahia e ainda se lembrado de todas as cidades de nomes gozados por onde passou.

Não apenas por eliminação, consideremos a quarta como mais provável. Afinal, cá entre nós, se você acessa o Domínio às terças-feiras, é que porque tem alguma relação de amizade e companheirismo com o titular do dia.

Muriaé é um nome indígena, dado pelos puris que viviam lá há quase dois séculos. Quer dizer “ter sabor de cana doce”. Pelo menos, é o que dizem os registros históricos. Meu pai sempre contava, como fervor e riqueza de detalhes, uma história um pouco diferente. Muriaé teria vindo de Muriaí, nome indígina que significaria “enxame de mosquitos”. Meio sórdido, eu sei, mas é o que ele conta: o colonizador teria chegado à região e encontrado, rodeada por índios, uma pessoa morta. “Muriaí, Muriaí!”, exclamaram os nativos para explicar a causa da morte. Daí o nome da cidade, versões oficial e paterna. Não sobrou nenhum puri para tirar qualquer dúvida.

Talvez o português em questão seja Constantino José Pinto, que lá desembarcou com quarenta homens em 1817 para comercializar ervas e raízes medicinais (será que foram as ervas que eliminaram os pobres puris?) . De repente, nem mesmo era o patrício, e sim o francês Guido Tomáz Marliére que, dois anos depois, ergueu uma pequena capela até hoje de pé no charmoso Largo do Rosário. Talvez não tenha sido nenhum dos dois e meu pai tenha me enganado o tempo todo.

Talvez pelo doce da cana e a despeito dos enxames de mosquitos, a região prosperou e, em 1841, tornou-se um distrito sob o nome de São Paulo do Muriahé. Em 1855, foi elevado à condição de Vila de São Paulo do Muriahé e, finalmente, 11 anos depois, transformou-se em uma cidade. Conheceu o trem no final do mesmo século, a luz em 1910, os serviços de água e esgoto no ano seguinte e o telefone em 1913. Um progresso de dar inveja.

Muriaé, hoje com quase 100 mil habitantes, é também a cidade de meus pais. Do lado da minha mãe, uma família de 14 irmãos de olhos verdes, criados todos na vida dura da roça pelos pais descendentes de portugueses e espanhóis. A dona Josélia ia à cidade uma vez no ano quando era criança, “no que era o dia mais feliz do ano”, conta. Com meus avós, visitava a Dona Guilhermina, uma senhora que até hoje não assiste TV por ser “coisa do diabo”,  com seus sete filhos homens “mal educados, dados a falar palavrão”.

Eram pobres, viviam de roubar frutas no pomar alheio, correr descalços sobre as pedras pontiagudas que ainda calçam as ruas e saltar da ponte no rio Muriaé, muitas vezes para fugir da polícia.  De tanto falar mal, Dona Josélia acabou casando com um deles e vindo para São Paulo.  Pagou a língua. Teve quatro filhos, dos quais um aqui escreve.

 E conta essa pequena história para que você não se recorde de Muriaé apenas como uma das três cidades mineiras que apareceram no Jornal Nacional por causa da destruição causada pelos bilhões de litros de lama despejados no rio Muriaé por uma mineradora da região. Mas que se lembre do doce da cana, do enxame de mosquitos, dos puri, da Dona Josélia e da Dona Guilhermina.

Afinal, debaixo da lama e da irresponsabilidade, ainda há muita memória.



O tal espírito natalino
21 Dezembro, 2006, 3:56 pm
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Confesso, não estou de muito bom humor hoje. Desconsidere, então, caro leitor, quaisquer rabugentices em época pouco apropriada para tal. Sim, pois Natal não é tempo para chorar pitangas, leite derramado ou algo que o valha. Pelo contrário, espírito natalino pede confraternização, família, alegria, muita comilança, cartões (isso existe ainda?), telefonemas (e isso?), além de afloramentos otimistas.

Nada contra. Na verdade, é o que eu mais gosto no Natal. O problema é que a data me deixa meio reflexivo, me faz pensar. E, quando a gente pensa, descobre que seria melhor se não pensasse.

O Natal é uma ocasião particularmente especial para os cristãos, já que comemora o nascimento de Jesus Cristo em Belém, há quase 2 mil anos. No cristianismo, o Filho de Deus encarnado em um bebê significa a redenção do homem com o Criador, a salvação da humanidade separada de Deus e condenada desde que Eva e Adão comeram o fruto da árvore que lhes permitia conhecer o Bem e o Mal. Culpa de Eva, é bom que se diga.

Mas o Natal há muito perdeu sua conotação estritamente religiosa. Na verdade, rompeu os limites da religião, de seu próprio significado e propósito originais, e passou a integrar a cultura ocidental, se secularizou. Não caio aqui na heresia de dizer que se tornou apenas mais uma data comercial. Ou até mesmo de fazer uma pequena provocação e insinuar que o natal pós-moderno é um culto ao consumismo, uma celebração a Mamon. Seria meio que injusto, ainda que meio verdade.

Não se pode desprezar o tal espírito natalino, dessa época do ano em que as pessoas, em geral, independente de seus credos e não credos, ficam mais humanas e sensíveis às necessidades alheias. Cabe perguntar o que as leva ou eleva a tal estado, se não um sentido quase religioso inerente ao ser humano, sufocado por uma sociedade competitiva e egoísta, de praticar o bem, de manifestar afeto e de desejar até a ilustres desconhecidos um Feliz Natal, seja lá o que isso quer dizer exatamente.

De qualquer forma, se o Natal cristão celebra o nascimento de Cristo, o Natal secular parece celebrar o renascimento de valores que andam esquecidos. Em última instância, celebra o renascimento da humanidade, de uma humanidade mais humana, com atitudes humanas. Talvez seja esse o tal espírito natalino de que tanto falam. A pena é que dure tão pouco. 



Vida de gado
14 Dezembro, 2006, 5:34 pm
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Sim, caro leitor, cá estou eu, “vivinha da silva”, de volta da Índia. Apesar das previsões encorajadoras dos amigos de que a esta altura já teria sido devorada pelos porcos assassinos, pisoteada por um bando de vacas furiosas ou contaminada pelas águas putrefatas do Ganges, vou muito bem, obrigada.

A título de prestação de contas, sim, as vacas andam felizes pelas ruas por lá mesmo. Aliás, justiça seja feita, em Nova Deli, não vi nenhuma. Mas em Bangalore, o “Sillicon Valley” indiano, que movimenta mais de 18 bilhões de dólares ao ano em softwares e serviços, as bichas estão por toda parte, ruminando sem constrangimentos. Na favela que nascia colada à parede do hotel cinco estrelas onde a IBM nos hospedou, vivem pelo menos umas três dúzias delas, pelas minhas contas.

E Bangalore não é campeã apenas no quesito vacas. Também dá um show no quesito trânsito. As buzinas incessantes marcam o ritmo caótico do vai e vem dos carros, bicicletas, rickshaws, ônibus e despreocupados pedestres que andam quase que literalmente uns por cima dos outros, na mão “inglesa”, só pra deixar esta desnorteada blogueira ainda mais atordoada.

Para o indiano médio, buzinar é quase obrigatório. Buzina-se para prevenir as colisões, para retaliar o barbeiro ao lado, para censurar o pedestre desatento, mas, antes de tudo, buzinar faz parte da vida. Em Deli, justiça seja feita de novo, o transito também é bastante caótico – o que, vindo de uma paulistana, quer dizer muita coisa.

A miséria, como também já haviam me alertado, está em toda parte. Em Bangalore, uma miséria triste, serena e resignada. Caminha-se pela favela, e quase tudo – tirando os prédios imponentes das multinacionais de tecnologia, os hotéis que servem de refúgio aos trabalhadores estrangeiros da tecnologia e os shoppings onde passeiam e compram os profissionais da tecnologia – é favela.

O mais impressionante é que, com 200 dólares na bolsa e uma câmera na mão, caminhando entre becos, não me senti em nenhum momento ameaçada. E isso, vindo de uma paulistana, quer dizer muita coisa. Imagine caminhar pela favela do Heliópolis – ou pela Rocinha, pra ser menos bairrista – com 200 dólares no bolso e uma câmara na mão e sair ileso, sem nenhuma tentativa de assalto ou seqüestro, e o que é mais surpreendente, sem nem mesmo sentir-se hostilizado.

Assim é caminhar entre os miseráveis de Bangalore, seus barracos caindo aos pedaços, suas ruas estreitas e imundas (de volta, a justiceira: vi apenas um rato, morto e muito bem nutrido, o que me leva a crer que morreu de enfarto, diante de um rickshaw desgovernado). Eles te olham com seus olhos grandes e curiosos e nada dizem – quando dizem, é uma súplica insistente: “anti, one foto, plis, one foto”.

Gostam mesmo é de se ver no LCD da câmera, mas se não der, basta sair na foto. Os mais velhos ou mais tímidos, às vezes lançam um olhar pesaroso, que como muito bem apontou o meu colega de viagem, parece dizer: “Ok, vá em frente, pode me fotografar. É isso aí mesmo, eu tô na merda, você também, e um dia todos nós vamos morrer, a vida é assim mesmo”.

As mulheres, com seus sarís multicolores, que podem ser amarrados de mais de 70 jeitos diferentes, e os homens, quase sempre da camisa (das mais discretas às mais extravagantes, com estampas em xadrez pink e verde) esboçam um certo esforço de elegância que, imagino, tem a ver com a herança da colonização britânica.

São, no mais, muito solícitos (o que pode se tornar facilmente irritante) e servis. Dizem que são também muito disciplinados e adaptáveis, por isso se deram tão bem neste negócio de prestar toda sorte de serviços terceirizados para o mundo – mas não dá pra dizer, é claro, que o salário de 500 dólares/mês para engenheiros formados (que por lá, aparentemente, é uma boa grana) não tenha nada a ver com isso.

Mas mesmo em Deli, onde a miséria é mais dura e mais frenética (e os camelôs e pedintes mais “saídos”), guardam uma dose de reserva e solicitude, que me parece, não tem só a ver com a necessidade de ganhar dinheiro. E como já diria o dono do nosso hotel, o não tão majestoso Madonna, “aqui ninguém vai te matar, no máximo vão tentar te aplicar um golpe”.

É um jeito de ser manso e resignado de ver e viver a vida. Como as suas sagradas vacas, que vivem no pasto – ou nas ruas – a contemplar a vida e a ruminar a ração que lhes cabe neste mundo, parecem andar no ritmo que a vida dita, como se soubessem de algum segredo que esqueceram de nos contar.



A grande notícia
12 Dezembro, 2006, 2:24 am
Arquivado em: Gerson Freitas Jr., economia, sociedade

Em dias em que falta inspiração, e não são poucos, o ofício de preencher este espaço me obriga a abrir os jornais em busca de algo que chame a atenção e mereça algumas linhas de reflexão.  Não que jornalistas não leiam os jornais todos os dias – acreditem, eles lêem! -, mas o marasmo de alguns períodos faz com que uma releitura muito, mas muito apurada seja necessária.

Acontece também o contrário, como na última semana, e o desafio passa a ser o de selecionar o fato mais importante – pelo menos na ótica do autor, é claro – dentre vários outros relevantes. De posse da “grande notícia”, depois de alguns minutos (horas, creio) regados a café preto, bom exercício mental e muita paciência, temos o resultado…  

Pois bem. A grande notícia da semana passada bem que poderia ter sido a reeleição de Hugo Chávez, no domingo, por tudo pode representar para o cenário político latino-americano. No entanto, a informação mais relevante saiu na quarta-feira e passou quase despercebida, como, volto a dizer, costumam passar as notícias que realmente importam: de acordo com a ONU, os 2% mais ricos do planeta possuem 50% de toda a riqueza mundial.

A grande notícia da semana poderia ter sido a rejeição das contas de campanha do presidente Lula por parte do TSE, que quase me fez perder o sono com a pergunta que insistia: “de onde vem o dinheiro, de onde vem o dinheiro?”. Mas, cá entre nós, o que realmente conta é que 1% dos adultos mais ricos do mundo é dono de 40% dos ativos mundiais, enquanto 10% desse grupo possui 85% de toda a riqueza.

A grande notícia da semana poderia ter sido a crise nos aeroportos brasileiros, símbolo de um país que, a despeito de quaisquer esforços retóricos, dá demonstrações de que não está pronto para crescer. Mas acho realmente que, mais importante do que o calvário dos pobres passageiros, é saber que, para integrar o clube dos 10% mais ricos do mundo, você não precisa de mais do que US$ 61 mil em ativos e que, mesmo assim, 90% dos 6 bilhões de habitantes do planeta estão de fora da festa.

A grande notícia da semana poderia ter sido a aprovação do tão falado Fundeb, o novo fundo para financiar a educação das criancinhas no Brasil, ou o fim da cláusula de barreira, que mantém a festa do pluripartidarismo no país da falta de idéias. Mas achei realmente ainda mais importante a constatação de que 90% da renda mundial está concentrada em América no Norte, Europa  e países de alta renda Ásia-Pacífico. Os outros 10% são rateados entre a América Latina, África e a grande parte da Ásia.

A grande notícia da semana poderia ter sido a de que Fidel Castro pode não durar até o natal (seguindo os passos do chileno Pinochet, em que pesem as diferenças) e que Hugo Chávez, a quem muitos vêem como um sucessor de Castro, já ensaia uma aproximação dos Estados Unidos, que isolaram Cuba e o povo cubano do resto do mundo.
 
Mas a grande notícia, caro leitor, é que um estudo pioneiro da ONU mostrou, em números, que o mundo globalizado, que democratizou os sonhos de consumo entre os povos, ainda não globalizou a renda. Antes, segue brutalmente desigual, dividido entre poucos milionários e bilhões de famintos, entre dominadores e dominados, entre 2% que detém metade de um bolo e 98% que brigam pelo resto.

A grande notícia é que, no ápice do capitalismo e da superação de seus obstáculos, os ricos nunca foram tão ricos. E os pobres, nunca tão pobres. A grande notícia, senhores, é que quase ninguém dá a mínima para isso…