Domínio Público


Just Business by Daniela Moreira
10 agosto, 2006, 6:51 pm
Filed under: Daniela Moreira, direitos humanos, internet, mundo corporativo, sociedade

A multinacional de internet, modestamente apelidada de gigante das buscas, aportou por aqui há cerca de um ano, interessada nos 33 milhões de internautas tupiniquins e seu fascínio por sua rede social de nome turco que não deu certo em nenhum lugar do mundo, mas curiosamente se espalhou feito erva daninha por essas bandas.

Elegido pessoalmente pelos dois cérebros por trás do maior boom da grande rede nos últimos anos, o diretor da subsidiária brasileira conta que a pergunta de 1 milhão de dólares da dupla nada tinha a ver com os atributos do pleiteante à vaga de country manager. Queriam saber, afinal de contas, porque a tal comunidade virtual era tão popular no Brasil.

O interesse da matriz no filho quase prodígio, tão amado pelos brasileiros, parece ter se saciado por aí. A rede social, como muitos outros cantos desse mundo virtual, se infestou de gente da pior espécie e hoje é um dos principais pontos de encontro de pedófilos, racistas e criminosos em geral. Até aí – lamentavelmente – nada de novo. Trata-se de um dos desdobramentos da vida digital, que ainda está se estruturando e aprendendo a se auto-regular, por caminhos às vezes tortuosos.

Há mais de um ano, contudo, a Justiça brasileira vem tentando obter os dados que podem levar à identificação e à punição destes criminosos. O caso é que a filial brasileira da gigante se nega a colaborar com o Ministério Público Federal, sob o argumento de que não tem acesso aos dados armazenados lá na terra do Tio Sam. Válido, porém não muito convincente, visto que em abril, uma famosa socialite brasileira obteve, dos representantes da companhia no Brasil, todos os dados, incluindo e-mails, endereços IP e logs de acesso (traduzindo do informatiquês, tudo que é necessário para localizar um usuário virtual no mundo físico) dos autores de perfis que a difamavam na rede social. O que é justo, é justo. Ninguém é obrigado a ser insultado impunemente na grande rede – embora muitos o sejam.

Depois de prometer mundos e fundos à Comissão dos Direitos Humanos no congresso brasileiro e se comprometer com uma política de “tolerância zero” à pedofilia no parlamento norte-americano, a companhia fez exatamente o que vinha fazendo à respeito dos crimes na comunidade virtual durante os últimos 12 meses. Nada.

Com mais de 40 mil imagens de crianças de até cinco anos de idade envolvidas em crimes sexuais, a comunidade segue conquistando cada dia mais usuários – já são mais de 25 milhões, quase todos brasileiros -, enquanto os criminosos passeiam livres por seus domínios virtuais.

Os congressistas brasileiros encaminharam na última semana um documento ao Parlamento norte-americano, pedindo providências. A matriz diz que atende a todas as solicitações da justiça brasileira e leva a coisa toda muito a sério, basta pedir direito – recentemente nomearam um procurador no País para tomar conta do qüiproquó judicial.

Embora os crimes sejam cometidos em território nacional, por brasileiros e contra brasileiros, a subsidiária tupiniquim diz que não tem nada a ver com o pato e que está aqui apenas para fazer negócios. O que é justo, é justo. Há que se concordar que as grandes multinacionais de internet têm objetivos bastante claros ao desembarcar aqui (ou em qualquer outra “economia emergente”), que nada têm a ver com os direitos humanos – os jornalistas chineses condenados a apodrecer na prisão por expressar sua opinião na grande rede que o digam.

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1 Comentário so far
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[…] Por que, se o mapa está ali a dois ou três cliques, e se é possível até ver de perto o Cristo Redentor – uma das sete novas maravilhas do mundo moderno -, se até na terra da garoa vocês estiveram, vestindo a camisa da seleção canarinho e tudo, é tão difícil olhar por um instante para este país de dimensões continentais, onde a sua corporação de 161 bilhões de dólares, não por acaso, fincou bandeira em expedição comercial? […]

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