Domínio Público


Indenização para Geraldo by Eduardo Simões
16 agosto, 2006, 1:58 pm
Filed under: direitos humanos, Eduardo Simões

Indenização para Geraldo

 

Geraldo foi membro da guerrilha do Araguaia nos tempos da guerra suja da ditadura no Brasil, foi capturado e torturado pelo regime militar, mas sobreviveu. Tanto sobreviveu que, no fim do mês passado, o Ministério da Justiça lhe concedeu indenização de 100 mil reais como anistiado político.

Geraldo, nome de guerra nos tempos de guerrilha esquerdista, é agora candidato a deputado federal. Seu nome é José Genoino. É uma das figuras centrais no recente escândalo que abalou o PT.

Mas isso não vem ao caso, pelo menos agora. O fato é: Genoino –ou Geraldo—foi indenizado em 100 mil reais pelas atrocidades que sofreu nas mãos sanguinárias e sádicas da repressão ditatorial.

Vale lembrar, no entanto, que Genoino/Geraldo fez a escolha de ir à região do Araguaia. Vale lembrar ainda que a guerrilha não tinha exatamente o ideal de libertar o Brasil das mãos dos tiranos militares.

O que se pretendia, declaradamente, era uma revolução nos moldes da chinesa ou da cubana, lugares que não são exatamente centros da democracia. Se tivessem alcançado seu objetivo, certamente teriam implantado aparelho repressor semelhante ao dos militares.

Mas, de novo, isso é outra história. Genoino foi torturado, o próprio governo federal reconhece hoje. A tortura é algo abominável, que não pode acontecer e, se 100 mil reais compensam, mesmo que em parte, a brutalidade sofrida por Geraldo, que receba o montante.

Agora queria falar de outro personagem muito menos conhecido. Esse sem codinomes. Mario Kozel Filho. Soldado do Exército de 18 anos, morto em um atentado com carro-bomba, assumido por grupos de esquerda, no quartel do Exército na região do Ibirapuera, em São Paulo, em 1968. Logo depois de sua morte, a família recebeu pensão militar por três meses. Recentemente, foi aprovada uma pensão de 330 reais para a família do soldado, que depois da morte virou sargento.

Pelo que conta Mario Kozel, pai do soldado assassinado, em entrevista a alguns jornais, o recruta sequer gostava de política, tampouco tinha pretensões de seguir na carreira militar. Ainda assim teve o corpo dilacerado enquanto servia o Exército, não por opção, mas por ter sido convocado compulsoriamente.

São fatos, a intenção aqui não é tomar partido, é mostrar fatos. Toda a forma de tortura ou assassinato é condenável e todos têm de ser reparados, mas o que parece acontecer é que a história, as lembranças e até mesmo as compensações para esses crimes são distintas e levam em conta o lado que a vítima estava, mesmo que ela não estivesse de lado nenhum.

Fica parecendo que os militantes de esquerda que optaram pela guerrilha e pelos atentados são paladinos da liberdade, enquanto vítimas inocentes –sem envolvimento com o regime militar—são apenas efeitos colaterais de uma luta necessária.

Os dois lados cometeram atrocidades. Os militares torturaram, assassinaram –até mesmo quem não era ligado aos extremistas de esquerda—e ocultaram corpos. Os guerrilheiros e grupos que cometiam atentados assaltaram bancos, mataram inocentes, explodiram prédios e sequestraram.

Por que lembrar somente de parte das vítimas? Por que transformar em glória patriótica o sofrimento de alguns e deixar o de outros empoeirado em uma estante? Por que esquecer que, assim como os militares mataram Vladimir Herzog, que não tinha nada a ver com aquela guerra, grupos de esquerda também o fizeram.

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2 Comentários so far
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100 mil reais?? isso explica a tranqüilidade dele, dirigindo pela Vital Brasil, umas 10 e meia da manhã… num dia de semana qualquer….

Comentário por Silvia

[…] direitista ou coisa que o valha, volto a tratar aqui de um assunto que foi tema de um dos meus primeiros textos neste Domínio: indenizações a anistiados políticos da época da ditadura […]

Pingback por Anistia « Domínio Público




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