Domínio Público


Os grandes perdedores by Daniela Moreira
24 agosto, 2006, 5:24 pm
Filed under: Daniela Moreira, internacional

Ele bem que está tentando, mas, dessa vez, não colou. Uncle Sam ofereceu alguns milhões aos libaneses para a reconstrução do país e eles disseram: “No, thanks. Preferimos o dinheiro do Hezbollah”. Que frustração! O plano de mostrar ao Oriente que o terrorismo não compensa e que o benevolente paizão do Ocidente está lá pra colocar ordem na casa, bem, foi por água abaixo de novo.

Os Estados Unidos estão com problemas para levar à frente a sua tradicional política do “bate, mas depois assopra” no Líbano, porque proibiram as organizações humanitárias financiadas pelo governo norte-americano de fornecer ajuda, por meio do Hezbollah, à população civil afetada pela guerra.

Pois bem, acontece – que ironia do destino, deve ter pensado Mr. Bush, na sua casa branca, os ataques aéreos passarem justo por ali! – que a população civil afetada pela guerra vive sob a área de influência do Hezbollah, que já está preparando inclusive uma extensa lista com os nomes das famílias que receberão até 15 mil dólares (que não virão do além mar, mas de um país bem mais “chegado”) só de saída, para resolver os problemas mais imediatos.

Gozando de prestígio entre os governos locais no Sul, os terroristas que Israel prometeu aniquilar nunca foram mais populares. Não só por lá, mas em todo o Líbano. A guerra cirúrgica israelense (que mais parece coisa do SUS) não só não desarticulou a organização – que, diga-se de passagem, não é meramente fundamentalismo religioso, como gostariam os EUA, mas tem também um forte caráter político e social -, como a tornou mais forte. Alguém duvida que, guardado o tempo devido, foguetes voltarão a voar sobre a fronteira?

Em uma guerra, só há perdedores. Tirando talvez uma meia dúzia de oficiais de alta patente e chefes de estado equivocados, perdem as pessoas (perdem suas casas, seus parentes, suas vidas e tudo mais, se é que há mais a se perder) e perdem as causas (perdem a legitimidade, a medida e a simpatia).

Nesta guerra, há muitos perdedores, tanto de um lado quanto do outro da fronteira. Perde o Líbano, pelos mais de mil civis mortos, pela destruição e pela ascensão da intolerância. Perde Israel, que não só acumulou suas próprias baixas, mas também reforçou sua imagem de Golias impiedoso – que esmaga com tanques os atiradores de pedras – perante o mundo. No além mar, perdem os Estados Unidos, que na sanha de encampar as guerras contra o terror, ganha antipatia até daqueles que não são seus adeptos.

No saldo geral, perdemos todos, pois esta guerra não é só de israelenses e libaneses. Nova-iorquinos, londrinos e madrilenos, que já sentiram na pele, que o digam.

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2 Comentários so far
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O fato é que essa guerra não vai acabar mesmo com tratados de paz. É algo muito mais profundo, desde a criação do Estado de Israel a mais de 50 anos. O povo palestino não tem direito a exército. Não tem representantes na esfera federal no governo. Tem um governo próprio, mas é como se fosse uma sub-prefeitura – já que não é nem reconhecido pela ONU e não consegue representação legal em negociações internacionais. Eles não tem moeda própria (o que aliás, precisam comercializar com notas e moedas que louvam o povo israelense). Responda rápido: quem consegue mais verbas para construção de escolas, pontes, estradas e hospitais? os moradores israelenses ou será os moradores de uma vila palestina? Outra coisa: uma grande massa de palestinos trabalha em sub-empregos em áreas israelenses. São operários, balconistas, faxineiros… e se houver algum problema trabalhista ou de aposentadoria… quem julga? O juri israelense?

Além disso tudo vem uma outra questão, esta quase extraterreno: Deus, ou melhor, o Filho de Deus passou por aquelas terras. Oras. Se você estivesse morando num lugar onde cegos foram curados por aquele cpnsiderado o FILHO DE DEUS, você sairia? Veja bem, é o filho do Todo Poderoso… praticamente um pecado ignorá-lo…

Comentário por Tangi

Concordo plenamente, Tangi. Na real, estamos observando os desdobramentos de um estado transplantado, legitimado pelo Ocidente, mais forte economicamente, politicamente, militarmente e, talvez o mais devastador para os palestinos, diplomaticamente.

Comentário por dominiopublico




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