Domínio Público


A morte da política by Gerson Freitas Jr.
29 agosto, 2006, 9:32 am
Filed under: eleições, Gerson Freitas Jr., política, sociedade

É provocante a pergunta que dá título ao artigo de Vinícius Cherobino (“O que é, gente, ter posição política?”), publicado neste Domínio semana passada. Façamo-la aos políticos em campanha. A julgar pelas semelhanças de discurso e no poder, não seria demais dizer que possuem a mesma e, em alguns casos, nenhuma posição política. O que se tem visto é um amontoado de boas intenções quanto à educação, saúde, segurança e emprego, objetivos comuns tanto à esquerda quanto à direita.

É um fenômeno dos nossos tempos. No capitalismo contemporâneo, a política é um artigo de importância menor. Aliás, para o cientista político Francisco de Oliveira, de quem fui aluno na PUC, há uma “colonização” da política pela economia e, mais especificamente, pelo mercado financeiro. Trata-se de “um fenômeno de alta relevância, pois era dela [a política] que o Ocidente vinha se valendo desde sempre para contrabalançar a assimetria de poderes”, escreveu recentemente o professor.

Em um mundo em que o mercado impõe seus mandamentos incontestes aos países de que é credor e de que dele dependem cada vez mais, há pouca margem para se fazer política e mudar estruturas. O exemplo claro foi a eleição presidencial de 2002, quando os quatro candidatos com condição de vitória (Lula, Serra, Ciro Gomes e até Garotinho) se comprometeram a cumprir os termos de um acordo com o FMI caso eleitos fossem, o que engessaria suas gestões. É como se aceitassem a seguinte condição: “façam o que quiser, apenas não mexam na economia, no dinheiro dos credores. Se o fizerem, desligamos os aparelhos e o paciente morre”.

Logo, o que resta de aspiração é a administração da imensa burocracia pública, que garante a sustentação da classe política por meios já conhecidos (e tantos outros desconhecidos). No máximo, os grupos que disputam o poder podem ser mais ou menos eficientes, mais ou menos corruptos, mais ou menos criativos com a pouca margem de manobra. Esse tem sido o tom das campanhas, principalmente a de Geraldo Alckmin.

E essa desesperança permeia toda a sociedade que, resignada e fragmentada, trata de tentar garantir sozinha sua sobrevivência. Afinal, a política não vai mudar a vida das pessoas. O resultado é desastroso, como se pode ver no Brasil. Contra os nefastos efeitos da desigualdade e do abandono da maioria, a classe média apolítica sobe seus muros, blinda seus carros e se arma, preparando-se para um conflito há tempos anunciado. “O que é, gente, ter posição política” no século 21? Não sei, mas é preciso descobrir logo.

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3 Comentários so far
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O fato é que a política dividida entre esquerda e direita morreu já faz um tempo. Isso porque da mesma forma como não há como questionar que todo cidadão precisa de moradia, emprego, saúde e educação de qualidade, também é inquestionável que todo cidadão tem o direito de livre expressão, de ser responsável por seus atos e de poder inovar, de criar… Ora, faz parte do progresso…
Hoje, creio eu, o mundo político é dividido em: aqueles que acreditam que o melhor é fechar as portas de seu país e fazer gestos populistas para o resto do mundo (e inglês verem), e aqueles que acham que abrir seu comercio e estreitar as relações entre vários países (contanto que leve vantagem [Lei de Gerson – não do autor do artigo, o outro] em cada negociação) seja o melhor a fazer.

Comentário por Tangi

Pois é Gerson, e acho que isso está ficando cada vez mais evidente. Hoje de manhã ouvi algo no rádio um comentário que me fez pensar exatamente sobre isso que você fala no seu post. Não me lembro quem disse que o grande problema da campanha do alckmim é que ele não apresenta nenhuma proposta diferenciada, nada que o contraponha às também já apresentadas propostas do atual presidente. E aí fica esse jogo de dizeres, em que não se vê nada consolidado, nenhum princípio enraizado, apenas propostas que, como bem se sabe, serão logo engessadas no natural caminho do “faz isso, mas não mexe nisso”. É um quadrado (naturalmente de lados iguais) não vejo esquerda, direita, centro. Vejo o que é preciso para se manter no poder… E Maquiavel nunca foi tão lido…

Comentário por Fabi

Banalizou geral. Os interesses pessoais dos candidatos ultrapassaram os interesses da nação. O gigante adormecido continuará em seu sono profundo!!!!!!!!

Comentário por Flavius Deliberalli




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