Domínio Público


Uma noite na Paulista by Gerson Freitas Jr.
12 setembro, 2006, 1:19 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., política, sociedade

Fazia não mais que sete graus, suficientes para fazer o paulistano tirar de seus armários blusas de lã, casacos, cachecóis, sobretudos, botas mais altas e calças mais grossas. A mocinha do tempo havia dito que aquela seria a madrugada mais fria do ano. Ela tinha de estar certa. O vento soprava e o ar gelado e seco já fazia arder as narinas congestionadas e trincar os lábios secos. As mãos, desprotegidas, doíam e buscavam instintivamente por proteção.

Ainda eram sete horas da noite, e as pessoas lotavam as calçadas, apressadas, urgentes, indo e vindo de todos os lugares e cuidando de seus mundos. Nada contra. Também lá estava eu caminhando pela cultuada Avenida Paulista, à espera do relógio que insistia em se arrastar até a hora esperada.

Paro em uma banca e compro uma revista ilustrada com a foto de uma importante figura da esquerda e do jornalismo no Brasil. Sempre me identifiquei com a esquerda! Politizado, preocupado com o país e com as grandes questões do mundo, com as eleições, a corrução, a guerra, as políticas econômicas ortodoxas, os juros altos e a concentração de renda e terra, eu, intelectualóide que sou, tiro o cartão de crédito do bolso e peço para o rapaz cobrar os 11 reais daquela informação. Informação! As pessoas estão cada vez mais interessadas nessa palavra, que tão bem qualifica a nossa Era.

Saio dali e vejo, cinco metros à frente, por trás da vitrine daquele café chique, logo abaixo da faculdade de comunicação que forma jornalistas de esquerda como eu, um apanhado de pessoas bem vestidas tomando champagne, umas duas câmeras de televisão e uns outros repórteres em volta de um senhor de cabelos (poucos) brancos e óculos redondos na ponta do nariz. Devia ser algum autor lançando seu livro, possivelmente sobre questões sociopolíticas que tanto me intrigam. É normal que autores da esquerda escrevam com indignação sobre as desigualdades humanas e lance seus livros em eventos regados a bebidas finas.

Mais 10 metros e me deparo com uma mulher, trinta e poucos anos, e seu bebê, não mais que um ano, sentados na calçada gelada, atrás da caixa com balas de goma que vendia. Passei indiferente, como as centenas de pessoas que ali cruzavam e as milhares que por mães com crianças pequenas passavam nas muitas calçadas de São Paulo. Fazia sete graus! Duplamente chocado, pensei: há realmente algo muito errado com o mundo. Há algo muito errado comigo.

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1 Comentário so far
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Querido, de fato me fez lembrar os bons tempos das Margens. Belíssimo! Beijos e saudades, Moreira.

Comentário por Dani




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