Domínio Público


Bolas trocadas no comércio by Eduardo Simões
13 setembro, 2006, 1:53 pm
Filed under: comércio, economia, Eduardo Simões, internacional, política

No último fim de semana o comércio mundial ganhou novas esperanças. Reunidos no Rio de Janeiro, os principais atores das negociações comerciais globais decidiram retomar a Rodada Doha, ou Agenda Doha de Desenvolvimento, como é chamada no site da Organização Mundial do Comércio.

Ótima notícia, já que a Rodada Doha, lançada em novembro de 2001, reconhece que “o comércio internacional pode desempenhar um importante papel na promoção do desenvolvimento econômico e alívio [redução] da pobreza” . Em suma, o comércio mundial seria quase um Robin Hood do Século 21.

Tudo muito lindo, muito maravilhoso, se não fosse a repetição do mesmo filme pela enésima vez. Desde a reunião na capital do Catar em 2001, outras reuniões já foram realizadas. Na mais famosa delas, em Cancún, a revista The Economist trouxe uma capa que sintetiza bem a preocupação que as potências comerciais (entre elas o Brasil) têm com a pobreza alheia.

Para alguns, como o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, a Rodada ficou “moribunda”, depois do fracasso nas negociações neste ano em Genebra. Para o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, ela foi para a UTI, mas após a reunião no Rio ela foi para a enfermaria.

Metáforas médicas à parte, não vou ficar chovendo no molhado aqui, dizendo que a negociação é um jogo de empurra. Os EUA dizem que a culpa é do protecionismo agrícola europeu e da relutância dos países em desenvolvimento em abrirem seus mercados industriais e de serviços. A Europa diz que, além da teimosia do mundo em desenvolvimento, os responsáveis são os EUA com seus subsídios distorcivos. Já o terceiro mundo esperneia que só pode avançar para outras áreas quando a questão agrícola estiver resolvida.

Quero me ater a outro ponto mais pitoresco. Vejamos os cargos dos protagonistas das conversações. De um lado a representante comercial dos EUA, de outro o comissário de Comércio da UE. Temos também os ministros de Comércio da Índia, e o do Japão, país que leva também o ministro da Agricultura para as conversas.

E o Brasil? Ora, o Brasil leva o ministro das Relações Exteriores. Mas por quê? Não temos um Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterioir (Mdic)? Não temos um Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)?

Temos. E por que raios eles estão alheios a negociações que dizem respeito exatamente às suas áreas de atuação? Por que os titulares dessas pastas não se sentam à mesa com os responsáveis pelos comércios norte-anericano e europeu? Por que não dialogam com os chefes de agricultura de EUA e UE?

Não sei. Por alguma razão a face brasileira da negociação é o Itamaraty. Alguém pode me responder: “ora, mas o Itamaraty é o responsável pela política externa do país, nada mais normal do que ser responsável pelas negociações”. Então qual a razão da secretária de Estado dos EUA e do representante da política externa européia não se meterem na história?

Não teriam os técnicos do Mapa e do Mdic mais competência que os do Itamaraty para tais negociações? Por que os ministros do Comércio e da Agricultura não aparecem?

Já sei! Por orientação do chefe, o presidente da República. Mas espera aí, qual a razão dessa orientação? Não sei, de novo. Se alguém souber me explique, por favor.

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