Domínio Público


Contradições no país do futuro by cylene
22 setembro, 2006, 9:53 pm
Filed under: Cylene Souza, direitos humanos, economia, sociedade, Uncategorized

Produção agrícola cresce, indústria da moda brilha sob os holofotes e trabalhadores permanecem sob as condições da época do Império

Em 2005, a safra de algodão herbáceo em caroço atingiu mais de três milhões de toneladas. A de soja ficou em 51 milhões. Em todo o mundo, missões brasileiras divulgam o crescimento do agronegócio brasileiro, cada vez mais produtivo e modernizado.

Aí vem a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e acaba com o discurso bonito…

Estudo divulgado esta semana mostra que o número de trabalhadores em condições análogas à escravidão pode chegar a 25 mil.

O que o agronegócio tem a ver com isso? Ele “emprega” 10% destas pessoas nas plantações de soja e algodão e 80% na pecuária, para o desmatamento de áreas de pasto.

E é justamente na nova fronteira agrícola, entre o Pará e o Mato Grosso, que se registram a maioria dos casos, embora o pensamento lógico nos fizesse acreditar que, se é novo, a modernidade seria incorporada.

No mesmo país que exporta moda, milhares de bolivianos ficam presos o dia todo em porões, com péssimas condições de higiene e alimentação, vivendo como escravos e cortando tecidos, pregando botões e costurando para satisfazer os desejos de consumo dessas pessoas bonitas que vão trabalhar todos os dias em empresas com benefícios, planos de carreira e salário fixo.

Aqui pertinho da megalópole, na região de Bauru, 31 trabalhadores foram libertados da escravidão num canavial, agora em agosto.

E o que o país faz para inibir esta prática arcaica na época dos Direitos Humanos? De acordo com a OIT, muito pouco.

Nossa legislação nem mesmo foi capaz de definir se o julgamento dos acusados (são poucos, apenas 25 entre março de 2003 e junho de 2004) deve correr em esfera federal ou estadual.

A iniciativa não-governamental, recomendada pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos), que propunha uma “lista suja” para que os empregadores de mão-de-obra escrava não pudessem receber empréstimos nos bancos, também não pegou.

Enquanto se discute o sexo dos anjos e nós fingimos o que não vemos o que está embaixo do nosso nariz, estas pessoas vivem a seguinte situação: começam a trabalhar já devendo, com a famosa caderneta, em que são marcados os alimentos, roupas e ferramentas, com valores a ser descontados no próximo salário, vão para cidades que nem sabem onde ficam e sujeitam-se a condições desumanas de trabalho e sobrevivência.

O pior é que a falta de informações faz isso tudo parecer muito normal. Não é raro ouvir dos empregadores pegos que os trabalhadores “morderam a mão que os alimentou”.

Um prato de comida de péssima qualidade, um barraco, sem as mínimas condições de higiene, para dormir e umas parcas e perigosas ferramentas para labutar em uma jornada interminável têm um preço alto por aqui: a submissão sem fim ou até mesmo a vida.

Quem não abaixa a cabeça, corre o risco de ser assassinado: das 10 cidades que mais registraram assassinatos no campo, sete estão na lista das que utilizam trabalho escravo.

O país do futuro ainda possui um ranço forte de passado e, ao que parece, o paradoxo não anda incomodando muito…

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