Domínio Público


Da esperança ao ceticismo by Gerson Freitas Jr.
31 outubro, 2006, 1:16 am
Filed under: eleições, Gerson Freitas Jr.

Luiz Inácio se reelegeu com quase 61% dos votos válidos sobre o tucano Geraldo Alckmin, resultado muito próximo daquele obtido há quatro anos, quando o petista derrubou o também tucano José Serra do ninho do poder. Em termos absolutos, Lula teve mais votos, mais de 58 milhões. Os números dizem, portanto, que o presidente acabou de obter uma vitória tão grande ou, quem sabe, maior da que o levou ao Planalto em 2002. Eles dizem, mas mentem.  Os números mentem. São uns tremendos mentirosos.

Pode ser percepção meramente pessoal, que o leitor deste Domínio vai me permitir compartilhar. O ano de 2002 reservava um sentimento diferente, uma grandeza de momento e de espírito “jamais vista na história deste país”, como gosta de repetir nosso mandatário. Lula representava a esperança, a paixão e o idealismo comuns não apenas a uma geração mais antiga, que lutara pela democracia e pelo sonho de um governo popular, mas também a outra mais nova, da qual fiz parte, recém apresentada ao processo democrático. Como é uma experiência pessoal, conto apenas sobre os últimos.

A eleição do operário Luiz Inácio Lula da Silva resumia a inocente esperança de mudança, e não apenas de um governo pouco melhor, mais eficiente ou competente que os anteriores. Era a esperança de justiça social, transformação e uma nova política que levou 150 mil brasileiros de todo o país à festa que ganhou as páginas dos jornais em todo o mundo naquele 1º de janeiro de 2003. A invasão popular ao centro do poder, que, contam, fez Eduardo Simões chorar como um menino, era a vitória de um símbolo, mais que de um homem ou um partido. Era, como fizeram crer a história e um certo Duda Mendonça, a vitória da esperança sobre o medo.

De lá para cá, foram-se quatro anos que, dia após dia, fato pós fato, ensinaram algo sobre amadurecimento. O amadurecimento nada mais é do que um processo de esgotamento da esperança. O idealismo de se viver o sonho alheio, da conquista de todos, fica na juventude e dá lugar às ambições pragmáticas e individualistas que são, afinal, o que parece restar. Ganhamos dinheiro, assinamos contratos, compramos ternos, trocamos o carro e, nos lembra Herbert, desaprendemos a caminhar no espaço.

Na política, fazem alianças, composições e concessões, jogam o jogo, mudam o discurso, pagam propinas, acobertam crimes e rasgam biografias. Tudo pela tal governabilidade, pela conservação de tudo da forma como sempre foi. Lula reeleito representa o ceticismo dos que não mais acreditam em mudança, o que também é sinal de amadurecimento.

Há quatro anos, a esperança vencia o medo. Hoje, não há mais medo. Tampouco resta esperança.



Não existe almoço grátis by vinacherobino
30 outubro, 2006, 11:20 am
Filed under: comércio, economia, internet, sociedade, Vinícius Cherobino

Um cara passa por uma perda na família. Está se sentindo terrivelmente mal, sozinho, abandonado. Na sua Austrália natal, resolve ir para uma área comercial bastante agitada para… oferecer abraços. Munido de um cartaz na mão -escrito Free Hugs-, Juan Mann se embrenha na selva de gente, numa aventura corajosa em tirar as pessoas de suas defesas urbanas em troca de abraços. Vai fazendo isso por alguns anos.

De repente, aparece no You Tube (aquele famoso site de vídeos online). Um músico da banda sick puppies vê o vídeo e faz uma música. Na era da produção coletiva, não sei direito como, aparece um vídeo: música sobre as cenas, jogo de p&b e cor, textos explicativos e tal; um videoclipe sem tirar nem por. O resultado é bem bonito

O negócio pegou… Como toda a onda na internet, o pessoal começou a sair com os seus cartazes nas mãos. Aconteceu em todos os cantos, com os orientais receosos da Coréia do Sul, em Tel Aviv e na polonesa Cracóvia. Assistindo, meu primeiro pensamento foi: “anos e anos de grades e abstração forçada do mundo enlouquecedor em que se vive nas grandes cidades ainda não foram suficientes para cortar essa tentativa desesperada de contato”. Mas aí…

Aí chegou a bagaça no Brasil. E o negócio foi diferente. Primeiro, trocaram o Free Hugs -que seria algo como Abraços Grátis- por “Me dá um abraço?”. Isso já tira boa parte da genialidade da idéia, por que o outro pode se esconder atrás da pena ao babaca de terno que corre com um cartaz na mão. E não foi só isso. Aproveitando que era um dos primeiros a tentar a idéia em terras tupiniquins, tascou uma propaganda no cartaz… Um empreendedor nato.

Depois de ler algumas manifestações de ódio dos internautas -xingando até cansar o jeitinho brasileiro- e de ultrapassar a minha própria, fui pensar direito. A despeito de me incomodar com a esperteza e com esse lance desesperado de “todas-as-chances-estão-por-aí-só-precisa-saber-aproveitar”, entendi o papel desse cara.

Era uma questão de tempo até isso acontecer. Se for analisar tranqüilamente, isso acontece com toda forma de manifestação cultural. É o processo de digestão do capitalismo… Ou o punk não fazia disquinhos bonitinhos para serem vendidos nas lojinhas? O Blues, de matéria de expressão negra, passa a ser alterado (adulterado?) para figurar como gênero easy listening! O rap (rythim and poetry) não vira a base o Hip-Hop que deriva em RB e que faz milionários e mais milionários na capa e por trás dos discos? No final, editoras não garantem algum com tomos e mais tomos da obra do Karl Marx?

E é por isso que não existe almoço grátis. Se ainda não cobraram, é só questão de terminarem de elaborar a nota fiscal.



Os idiotas by Daniela Moreira
27 outubro, 2006, 3:01 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, internet, sociedade

O mundo está cada vez mais cheio de idiotas. Nelson Rodrigues já o dizia há alguns anos, sem nem ter presenciado o boom de idiotice que essa coisa chamada internet nos proporcionou. Não é que a internet tenha parido idiotas, como defendeu o Tutty Vasques, no seu próprio manifesto contra os “ciberidiotas”.

O fato é que a internet lhes deu voz. É a democracia digital… Todo mundo diz o que bem entende, inclusive – se não principalmente – os idiotas. Não se trata só, como disse o Tutty, de uma geração de adolescentes que cresceu achando que sabe tudo só porque pode procurar no Google ou na Wikipedia. Essa pode até ser uma variação da espécie, mas tem idiota “bem grandinho” na rede expressando sua idiotice a torto e a direito.

O “ciberidiota” é, na verdade, uma espécie de idiota com superpoderes. A internet deu ao idiota, por exemplo, o poder do anonimato. Na grande rede, você pode ser idiota à vontade sem sofrer nenhum constrangimento social. Basta criar um apelido – idiota – e sair falando todas as barbaridades que você quiser. Ninguém precisa saber quem é você na vida real. No Brasil, provedor nem precisa guardar registro de acesso, então, fique à vontade pra ser um idiota! Ninguém vai te pegar.

Mas não pára por aí. A internet é também um excelente ponto de encontro para os idiotas. E quando um idiota encontra outro idiota na rede, dá-se o milagre: nasce uma comunidade pedófila ou neonazista no Orkut! Aí tem gente que nem se dá mais ao trabalho de usufruir do poder do anonimato. A união faz a força dos idiotas em rede.

Mas tudo isso são meios. O que defendo aqui é que a essência da idiotice é mais ou menos a mesma. O cara que na mesa do jantar defende a “Rota na Rua” é o mesmo que vai criar a comunidade “Rouba, mas faz” na web. E mais, o “modus operandis” também é o mesmo. Se você não tem argumentos para questionar a opinião alheia, cuspa na cara, ofenda, deboche, chame o blogueiro de veado, qualquer coisa que o permita dar vazão à fúria de ser contrariado. Debater, contestar e quem sabe até (aí está o impensável para o idiota) mudar de posição, jamais.

Se há solução para o problema dos idiotas, não sei. Se na “Revolução dos Idiotas” do Nelson eles estavam cada vez mais em saídinhos, hoje em dia pode-se dizer que eles escancaram de vez – seja na capa de Caras ou na Casa Branca. Para os idiotas comuns, a internet funciona como uma grande vitrine, documentando as idiotices que antes ficavam no ar, em comentários no ponto de ônibus, na sala de estar ou na mesa do bar.

Acho, no entanto, que há algumas medidas úteis e necessárias para conter a idiotice, ao menos no mundo virtual. O Pedro Dória baixou um regulamento no weblog do No Mínimo que pode soar fascista, mas me pareceu bastante acertado. Em linhas gerais, está proibido ser idiota no blog dele. Começou com idiotice, vai ser sumariamente deletado e pronto, acabou.

A mesma regra passa a valer pra este Domínio, que me parece imune a este risco, já que nossa audiência é pequena, mas muito qualificada. Mas nunca se sabe. Outro dia um blogueiro amigo publicou um post descendo a lenha nos idiotas que infectam o computador com vírus ao abrir e-mails com supostas fotos dos corpos das vítimas do acidente da Gol. Adivinha o que aconteceu? Uma enxurrada de acessos ao blog dele trazidos pela maravilha das buscas. De idiotas procurando imagens do acidente da Gol.

Por via das dúvidas, está proibido ser idiota no Domínio Público, e pronto, acabou.



Quero ser Lula by Domínio Público
26 outubro, 2006, 5:13 pm
Filed under: Fernando Tangi

Por Fernando Tangi 

Se pudesse fazer um pedido, diria para ser o Lula. Tá, tá bom. Fico com meus 10 dedos, minhas orelhas e sem a barba. Fico também com a minha namorada. Mas, mesmo assim, queria ser Lula.

A fase da infância pobre foi até a adolescência. Depois, foi blindado pela estabilidade empregatícia dos cargos que ocupou nos sindicatos.Foi preso pela ditadura por promover greves. Não houve comprovações de que tenha sido torturado durante a sua… digamos… estadia. E até hoje recebe uma gorda pensão paga desde os tempos da redemocratização.

Criou um partido que o alimentou até chegar ao ponto de conseguir ser, ele próprio, o partido. Hoje, o presidente tem poderes para eliminar qualquer filiado petista, seja ele diretor, co-fundador, gerente, afiliado, associado ou que passou por perto e decidiu vestir uma camiseta vermelha.

Com o seu carisma, construiu o que chamo de “técnica Maluf” de influência. É uma capacidade de invencibilidade eleitoral que só acontece de tempos em tempos, como naqueles contos medievais. Com esse poder, o candidato pode mentir, pode ser acusado de roubo… pode até falar que rouba. Mesmo assim, consegue uma boa fatia de votos, chegando até mesmo a vencer as eleições. Impressionante.

O Lula é o nosso Gozilla. O Bicho podia ser feito, pisar em todos que atrapalhavam o seu caminho, destruir prédios em Tóquio… mas sem o monstro verde, o Ultraman não teria sentido de existir. Não saberia com quem lutar e ajudar a destruir a capital nipônica.

O presidente é o nosso Dhomini ex-BBB. Trai companheiros na frente de milhões de pessoas, é odiado por todos que estão perto dele… mas o povo adora vê-lo atuar!

Cara… quero ser Lula.



Adeus Dick Vigarista by Eduardo Simões
25 outubro, 2006, 2:17 pm
Filed under: automobilismo, Eduardo Simões, esportes, Fórmula 1

Sou daqueles que briga com os números. Não me importa que o cidadão seja o recordista de vitórias, de poles, de pontos, de títulos, etc, etc, etc. Gosto de olhar o contexto, de levar em conta o fator caráter, de saber de que jeito o cara chegou a números tão espetaculares.

Sou daqueles que briga com os números e que não os aceita como argumento definitivo para dizer que o alemão Michael Schumacher é disparado o melhor piloto da história a ter estado ao volante de um Fórmula 1.

Teimoso! Podem me chamar de teimoso, não me importo. Todos os jornalistas que acompanham o esporte e certamente entendem muito mais dele do que eu, dizem que Schumacher é o melhor da história, discordo. Teimoso! Teimoso! Sou mesmo, tenho a minha opinião e não abro mão dela.

Se um fanático torcedor argentino pode decretar que Maradona foi melhor que Pelé, se a torcida do Flamengo grita nas arquibancadas que “Obina é melhor que o Eto’o”, por que eu não posso falar que, apesar dos recordes, Schumacher não é o melhor da história? Até hoje insisto em torcer pela Portuguesa, não vai ser um monte de números que vai me fazer acreditar que o alemão é o melhor da história.

E eu explico a razão. Basta olhar o título deste artigo. Quem não se lembra do Dick Vigarista da Corrida Maluca. O alemão é parecido, só que muito mais bem-sucedido e, reconheço, competente do que o dono do Rabugento. Ah sim, para não mencionar sortudo.

Ok, também não vou diminuir o cara. Ele é, sem dúvida, um dos grandes do esporte. Mostrou isso na última corrida da sua carreira. Mas ele é um deles, não o maior deles.

Lançando mão de um clichê, digo que Michael Schumacher é sinônimo de controvérsia. Quem não se lembra o que ele fez com o pouco brilhante Damon Hill na decisão do campeonato de 1994 aquele mesmo que ele só ganhou porque seu principal adversário, um dos monstros sagrados da categoria, fez a última curva de sua vida na terceira prova do mundial.

Em 1997 ele repetiu a dose. Tentou jogar o espevitado canadense Jacques Villeneuve para fora da pista e fracassou. Dessa vez foi punido. Perdeu o vice-campeonato mundial, tão valorizado em todo o mundo.

Depois, por anos e anos, usou seus companheiros de equipe e a subserviência da Ferrari como degraus para atingir o topo. Nunca reconheceu o apoio dado por Rubens Barrichello, um piloto talentoso, mas, para mim, pouco ambicioso.

“Schumi” esqueceu-se subitamente do Grande Prêmio da Áustria de 2002 quando, na última curva, Barrichello lhe deu a vitória em uma bandeja enfeitada com marmeladas. Esqueceu-se que, ao lado de Rubinho, é o recordista de dobradinhas na categoria. Não tenho o dado correto, mas acredito que seja possível contar nos dedos as vezes que o alemão olhou o brasileiro de baixo para cima no pódio. Em seu último gesto para o ex-colega, zombaria em vez de gratidão.

Por fim, Schumacher, um dos grandes do esporte, nunca teve outro gigante do automobilismo para lhe fazer frente nos vários anos que esteve na principal categoria do esporte. Não se pode afirmar que Mika Hakkinen, Damon Hill, Jacques Villeneuve serão lembrados ao lado de nomes como Ayrton Senna, Niki Lauda, Nelson Piquet, Alain Prost, Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, Juan Manuel Fangio, etc, etc, etc. Fernando Alonso tem potencial, mas ainda não chegou lá.

Enfim, adeus Dick Vigarista, apesar dos pesares –que não são poucos—você foi um piloto brilhante, mas não o melhor deles.



O debate alienante by Gerson Freitas Jr.
24 outubro, 2006, 3:04 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., Uncategorized

Que falta faz um partido de oposição no Brasil. Não a oposição que os tucanos fazem ao governo Lula que, no frigir dos ovos, não é lá coisa muito diferente do que foram. Falta oposição ideológica, com suas virtudes e defeitos, como aquela feita pelo PT quando ainda era PT. Não à toa, o debate entre Geraldo Alckmin e Lula consegue fazer dormir até o mais politizado e crente dos eleitores.

O que realmente importa nesse pleito fica longe, bem longe das câmeras de TV. Em parte porque não é compreendido pela grande maioria do eleitorado, mas também e, principalmente, porque os dois postulantes ocupam o mesmo lado quanto às questões que realmente valeriam discussão. E mais, concordam que tais pontos ficam devem convenientemente ser escondidos. Assim, o que era para conscientizar, acaba por alienar.

Um exemplo claro é a questão dos gastos públicos, bola levantada pelo tucano. Seu raciocínio é coerente: o Governo Federal gasta mais do arrecada e, por isso, precisa tomar dinheiro emprestado no mercado financeiro, pelo qual paga as altas taxas de juros que freiam o crescimento econômico. Se cortasse gastos até que o ponto em que eles se igualassem à arrecadação, não tomaria dinheiro emprestado, os juros cairiam, os investimentos privados cresceriam e o Brasil avançaria.

Até aí, tudo bem. O problema começa com a pergunta que Alckmin ainda não respondeu de modo convincente: onde cortar? O cafezinho pode ser um bom começo, mas não resolve. O tamanho do buraco é de R$ 60 bilhões, ou 3% de todas as riquezas do país. Para fechá-lo, é, sim, necessário cortar gastos sociais, da educação das criancinhas à aposentadoria dos velhinhos, além dos já escassos investimentos em infra-estrutura. O remédio é amargo, mas ainda é remédio.

Uma certa dose, aliás, já é aplicada desde o início do segundo mandato de FHC, quando o governo começou a fazer o chamado superávit primário. É o quanto se deixa de gastar com investimentos, educação, saúde, previdência, transporte e segurança. Esse montante, que vai somar R$ 70 bilhões este ano, é destinado ao pagamento de juros da dívida, que somam perto de R$ 130 bilhões. Ou seja, no balanço entre o que o governo arrecada e devolve para a população em serviços, já há superávit.

Mas essa economia é insuficiente e precisa ser aumentada, concordam os dois candidatos. O staff de Alckmin falta em mexer na previdência. Lula já pensa em mexer na educação e na saúde. Mas nenhum deles sequer cogita renegociar a dívida, por exemplo, ou mesmo assumir a imensa contradição que é cortar os já sucateados serviços públicos e direitos de toda uma população, pobre em sua imensa maioria, para proteger o lucro de uma minoria que ganha dinheiro com a maior taxa de juros do mundo. Aí temos um debate que realmente importa.



O tempo é relativo by vinacherobino
23 outubro, 2006, 11:26 am
Filed under: sociedade, Vinícius Cherobino

Tempos atrás, li um artigo que falava sobre o funcionamento do cérebro. Dizia que temos um processo interessante de armazenamento: como o montante diário de informações é algo incalculável, a nossa mente acaba condensando experiências similares dentro de silos, vamos chamá-los de “dia comum”. Assim, cada dia em que você acorda na hora de sempre, faz o caminho de sempre, cumprimenta seus colegas da mesma forma e trabalha do mesmo jeitinho, todas as informações vão para esse lugar. Resultado? O dia nem parece que passou.

Esse é um dos pontos que explica por que o tempo é relativo. A percepção, nesse aspecto, é a grande mandante da história. Ninguém poderia contra-argumentar comigo, criança, de que a Dona Esmeralda, uma das primeiras professoras de matemática, tinha esse poder supremo de transformar minutos em horas, segundos em minutos. Assim, os quarenta e tantos minutos do relógio rodavam, regorjeavam e refestelavam, satisfeitos da gordura recebida e do novo poder. Tal qual lutadores de sumo invisíveis, embaleiados, colocavam todo esse peso sobre mim. E eu me encolhia na carteira.

Da outra forma, meu recente mês de férias me pareceu um recorte no tempo absurdo, alguns anos na memória, trinta dias no calendário e a percepção com fritas. De volta, a rotina de dias comuns fizeram essa sensação se destacar ainda mais, com o inferno de dias comuns cobrando seu preço e eu passando repetido como trens de Metrô. Lembro das dicas do tal artigo e me sinto ridículo. “Tente quebrar a rotina onde ela pode ser quebrada, escove os dentes com a outra mão, ouça uma música enquanto canta outra, andar em casa de olhos fechados” e nem sei mais o resto. Tudo isso para maximizar o aproveitamento da capacidade de armazenamento do cérebro.

Isso tudo não é ridículo? Como colocar esse tipo experiência se passamos, vá lá, 9 horas no trabalho e mais duas para ir ou voltar. Tira aí o seu sono, que varia conforme demanda do seu emprego, e o que sobra? De maneira prática, se eu não zoei o cálculo, algo próximo a 4 horas. Alguém te disse isso? Quando falaram da vida de trabalho, das coisas que você pode comprar e tal, já tinham te dito isso? Nem para mim.

Por isso vou aproveitar o macete cerebral e sentar a pua nos exercícios. Escovar os dentes, cantar músicas e ouvir outras, botar uma faixa negra nos olhos. Tudo o possível para fugir da vida que escorre. Aí, quem sabe, naquela cena final, não me fique um vazio. Seja no leito de morte com as pessoas próximas, ou o metal do veículo sobre o peito, ou os instantes antes do corpo desacordar e retornar ao chão, sei lá; sempre com uma luz no fim do túnel (eu preciso acreditar em algo). Nessa hora tudo, menos a vida nem parece que passou.