Domínio Público


De volta by Daniela Moreira
5 outubro, 2006, 5:05 pm
Filed under: Daniela Moreira

No avião, folheava o principal periódico espanhol, que dedicava surpreendente uma página e meia às eleições presidenciais brasileiras, estampando perfis bem à moda do jornalismo espanhol – carregado de adjetivos e pouco preocupado em dissimular suas orientações. Alckmin, “político, profesional e insípido”. Lula, “séptimo hijo de una campesina analfabeta”, “obrero, sindicalista, político y finalmente presidente”. Heloísa Helena, “la radical más brillante”.

Pensei, por um momento, no que me aguardava lá em baixo, um mês depois das minhas andanças pelo Velho Continente. As poucas notícias que recebi daqui – dossiês, dinheiro, assessores, um pouco mais da velha baixaria – não me deixavam nem um pingo ressentida por estar perdendo a “festa da democracia”, que acontecia naquele momento, em terra firme. No ar, me divertindo com a visão curiosa – pra dizer o mínimo – que o “El País” pintava dos nossos presidenciáveis, pensei no que teria mudado neste tempo que fiquei fora. Mais que uma reflexão, foi mais uma sensação, quase uma intuição. Alguma coisa mudara.

Um mês não é lá muito tempo, é verdade. Na minha infância, viajava pras Minas das amigas Andréas (Pereira e Natasha), e um mês voava. Chegava e encontrava tudo no mesmo lugar: casa, escola, a lição de férias que ficou esquecida na mala, intocada… Mas este um mês, bem mais longe de casa, da TV, da internet, da família, dos amigos, do trabalho, me bateu mais forte, como uma pausa muito brusca, um hiato no meu tempo. Junto com ele, a sensação de alguma coisa mudara.

Desembarquei em Guarulhos, sem as malas, que preferiram ficar em Madri mesmo. De lá pra casa, fotos, comida, presentinhos, algumas histórias e cama – a minha! Desmaiei. Acordei às sete da manhã – meu corpo, cinco horas à frente do seu tempo, achou que já tinha passado da hora de dormir.

Em casa, apesar da reforma, tudo igual. As mesmas rotinas, as mesmas regalias, os mesmos problemas, pai, mãe, irmã, tio, tia, avó, avô, cachorro, tartaruga e uma pilha de contas a pagar. A segunda-feira passou depressa, sem igrejas, parques ou museus, com planilhas e visitas às concessionárias pra achar o sucessor do Verdugo (que só muito tardiamente descobrir ser sinônimo de “carrasco” ou “algoz”).

Às seis e meia, São Paulo me recebeu de volta, de braços abertos, com um trânsito de uma hora e meia até a Cidade Universitária. Pensei na rede de trens e metrôs de Paris, caótica, confusa, um tanto suja, mas onipresente. Sonhei em pegar um trem na estação Operários, bem na minha porta, e desembarcar – depois de umas três baldeações, é verdade, mas quem se importa… – na estação Luciano Gualberto/FFLCH.

Na sala, uma prova de Antropologia IV me aguardava. Os deuses da Academia me castigaram pelo mês de ausência… Mentira, a tal prova estava no calendário. Eu é que, no meu hiato, esqueci completamente dela. Virei as costas e fui embora, “claro!”, como bem diriam os espanhóis. Passei ao largo de Dumont e companhia no último mês. Nada a declarar. Eram oito horas, mas meu corpo gritava pela cama, achando que uma hora da manhã não era hora pra uma senhora da minha idade estar de pé. Um olhar de misericórdia ao meu parceiro no crime, também aos pandarecos, e fomos pra casa. Desmaiei de roupa mesmo e só acordei às sete da manhã, de novo, achando que era meio-dia.

Na terça, mais contas, mais fotos, mais histórias, e, com o sucessor de Verdo devidamente eleito, nova empreitada à USP. Dessa vez o transito colaborou, mas voltei a achar que os tais deuses da Academia estavam mesmo debochando da minha cara. O professor, doente, faltou. Coloquei o papo em dia com a amiga Kogê, que me assegurou não ter arrumado um terceiro emprego, mas confessou que já se prepara para a segunda maratona da sua carreira atlética. Pelo menos trancou Antropologia IV (tô perdida sem as anotações da minha fiel escudeira…).

Quarta, dia de voltar ao trabalho. Acordei às sete, sem dificuldades. Começo a suspeitar que o fuso não vai me deixar em paz tão cedo… Pra chegar ao trabalho, na Vila Olímpia, dois ônibus, duas horas. O primeiro, que já soltava gente pelo ladrão antes da primeira parada, teve que acolher, no ponto seguinte, mais umas sete pessoas que foram evacuadas da lotação anterior. Uma moça, dependurada na porta pra não perder a hora, caiu e bateu a cabeça, relataram as testemunhas. A lotação – ou microônibus, como é mais politicamente correto dizer – despejou os passageiros e correu com a vitima pro hospital. São Paulo, afinal de contas, ainda era São Paulo, a paulicéia desvairada.

No trabalho, notícias de uma grande multinacional de tecnologia que contratou detetives pra se passarem por jornalistas e descobrirem quem, dentro do conselho, andava abrindo o bico pra imprensa. Garganta Profunda, coitado, deve ter se sentido um calafrio. No mais, as mesmas notas, as mesmas notícias. Uma, duas, três. Coletiva de imprensa. Reunião, newsletter, SMS, de volta à rotina. Nada de diferente aqui também.

A cidade, minha casa, o trabalho, nada mudou, pelo menos não radicalmente. A sensação do avião – pensando agora, quase um frio na barriga, que bem poderia ter a ver com o indigerível frango servido pela Ibéria, mas não tinha – não foi, contudo, alarme falso. Quem mudou – “claro!”, já diriam os espanhóis -, fui eu.

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2 Comentários so far
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Adorei o post, especialmente o fim. Eu to cada vez mais a fim dessa mudança e desse hiato. Planos….
bjs

Comentário por Thais

olá!

engraçadíssimo seu texto…sim, quando viajamos, somos nós que voltamos diferentes…essa é a diferença entre turista e viajante!!!
vamos para a Amazônia!!!

Comentário por cintia




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