Domínio Público


Está fazendo o que aí parado? Pensando na vida? by Daniela Moreira
19 outubro, 2006, 4:56 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, escrever

Há muito tempo, muito antes da “era da razão”, trabalhar era coisa de escravo. Pensar é que era coisa de gente importante. Lá atrás, na antiguidade clássica, os pensadores – aqueles mesmo da coleção da estante – dedicavam todo o seu tempo ocioso a desvendar as coisas relevantes da vida. “Trabalhar, que é bom, nada?” Nada.

Aí veio a tal da “idade das trevas” e pensar ficou perigoso. Quem tinha idéias demais acabava tostado, portanto era bom mesmo pensar pra si e olhe lá. Trabalhavam então os servos, os criados, os pobres. Gente de estirpe era da corte, da vida boa. E vida boa era ter alguém pra trabalhar pra você.

Mas mesmo quem trabalhava, o fazia por pura necessidade e na medida da sua necessidade. Trabalhava-se para comer, para alimentar a família, pra pagar os tributos. Se trabalhava-se muito ou pouco, não sei. Antes que venha algum engraçadinho metido a historiador deturpar o argumento, este não é o ponto.

A questão é que vieram os iluministas, veio a “razão”, o mundo se desencantou e o tal espírito do capitalismo de Max Weber baixou geral.

De repente, trabalhar passou a ser uma virtude, e mais que uma virtude um dever. “Não se trata de uma técnica pra ganhar a vida, trata-se de uma ética de vida”, explicaria o professor de sociologia.

Máximas que nos parecem tão atemporais, quase universais, como o famoso “tempo é dinheiro”, têm data de nascimento. Nasceram bem ali, entre puritanos e empreendedores, que acabaram por emplacar esta “ética de vida” mesquinha.

Faça render o seu dinheiro, não perca nenhum momento bebendo na taberna, preserve a sua imagem de bom pagador. Viva uma vida econômica nos prazeres e abundante no trabalho e viverá a boa vida. Se você passa um minuto com dez reais no bolso, sem fazer nada, mesmo que você não os gaste, está perdendo dinheiro.

E o objetivo já não é satisfazer suas necessidades. Não importa se dez reais lhe bastem para tomar sua cerveja gelada assistindo um bom jogo de futebol. O objetivo não é a cerveja, mas os reais, mais e mais.

Mais que isso, já não pega bem trabalhar o suficiente, como antigamente. É preciso trabalhar muito para ser alguém nesta vida moderna, tão racional. É preciso fazer algumas horas extras – de preferência muitas – para “subir na vida” profissional. Se um empregador lhe pergunta na entrevista de trabalho qual é o seu maior defeito, responda: sou um workaholic, um amante incansável do trabalho! Está contratado. Ou você já viu aquele cara que sai todo dia à 5h00 em ponto do escritório receber uma promoção?

Nosso objetivo não é ser Sócrates ou Aristóteles. Queremos ser Henry Ford! Os heróis do nosso tempo trabalham no mínimo 12 horas por dia e, nas folgas, estão sempre disponíveis ao celular pra resolver aquele problema do escritório.

Até mesmo nós, “trabalhadores do conhecimento”, “intelectuais”, “jornalistas” viramos operários fabris. Temos prazo, metas e métricas. Por falar nisso, como anda a sua produtividade? Quantas notas você produziu hoje? Está fazendo o que aí parado? Pensando na vida? Você tem exatamente 15 minutos para refletir sobre a importância desta notícia antes de colocá-la no ar.

Na idade da razão, pensar também é coisa de escravo.

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8 Comentários so far
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Brilhante, Daniela, brilhante.

Quem consegue ler -como eu- está fazendo coisa errada no trabalho. O lance é fazer e acumular horas…

Aliás, acho que os espiões estão quase me pegando!
bjs

Comentário por Vinicius

Pois é… é cruel esse mundo corporativo. Mas hj eu achei a minha praia. Se tiver um tempinho, dê uma olhada nisso aqui: http://wharton.universia.net/index.cfm?fa=viewArticle&id=1237&language=portuguese

eu adorei!!!

E Vini, relaxa, que não sou espiã. hehehe

Comentário por Silvia

Ow, o que vcs todos estão fazendo que estão lendo esse post. Eu pelo menos tenho a desculpa de entrar mais tarde. E voces? Vao trabalhar, fazer alguma coisa da vida!!!

Comentário por Lusa

Olá Dani, a Eli me indicou esse blog para visitar e gostei do que vi aqui .. se me permitir, vou linká-la no meu blog .. tenho dois .. um de conteúdo político … http://www.blogdavoz.blogspot.com e outro literário .. www. bloguisteria.blogspot.com .. continuemos a nos comunicar e parabéns pelo blog … beijos

Comentário por daniarriba

sensacional Dani!
Se sair às 18h certamente deixou de fazer algo. Dane-se o resto da sua vida, o que importa é o dinheiro na conta do seu chefe no final do mês. Enquanto, em geral, o “escravo”, continua sempre, com o mesmo soldo de quando começou com bem menos afazeres.
E escrever tornou-se uma atividade mecânica. É o mesmo que panhar café, usa-se a mesma dinâmica de cobrança, sem pensar que escrever não requer braços fortes e suor.
Alguém já pensou que nos 15 minutos em que vc estava parada, estava apanhado suas ferramentas para começar a explorar a página branca do word?

Comentário por Fabi

Oi Dani .. que estória é essa do Tutty Vasques me copiando? não achei o texto que vc quis me passar :-/ .. mas fiquei curiosa …. vou continuar a postar lá no blog .. estou de mudanças residencial e está meio atribulada a coisa aqui … mas é só aguardar que logo sai do forno .. beijos

Comentário por daniarriba

[…] Quando pensa no barulho pára por um instante. Sempre lhe chamaram de “catador de milho” pela maneira pouco ágil e até violenta com que bate nas teclas. Sorri. Uma voz o traz de volta à rotina. Essa voz lhe pergunta –com cara de quem quer saber se você pretende terminar a tarefa ainda antes do fim do expediente– se já terminara o trabalho. Ainda não, responde, antes de resmungar para si mesmo. Havia esquecido que uma pausa, mesmo que de cinco minutos, podia ser interpretada como vagabundagem ou dispersão. Num último pensamento antes de remergulhar nas letras, aspas e vírgulas, lamenta o ritmo frenético do trabalho. […]

Pingback por Tic Tac « Domínio Público

Mandou bem Daniela. Essa cultura utilitarista, burguesa, historicamente enraizada principalmente no ocidente ( mas que não tem fronteiras ) é o pano de fundo de todas as guerras. Afinal, o que REALMENTE importa? “saber quem sou eu”, responderiam os senhores do ócio, isto é, indivíduos que se dedicavam a refletir a natureza e o verdadeiro sentido das coisas. A etmologia do termo “negócio” é “negar o ócio”, do ponto de vista daqueles que dependiam de uma atividade que lhes garantisse o sustento. Estes, viam aquele “fazer nada” com indignação. Muitas guerras e séculos depois e eis o panorama: questionar o sentido das coisas continua estranho aqueles que são escravos do trabalho, hoje senhores do negócio; e trabalhar além do que é preciso para o próprio sustento se afigura estranho aos que “são” e não querem “tornar-se” algo.

Comentário por alan




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