Domínio Público


O debate alienante by Gerson Freitas Jr.
24 outubro, 2006, 3:04 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., Uncategorized

Que falta faz um partido de oposição no Brasil. Não a oposição que os tucanos fazem ao governo Lula que, no frigir dos ovos, não é lá coisa muito diferente do que foram. Falta oposição ideológica, com suas virtudes e defeitos, como aquela feita pelo PT quando ainda era PT. Não à toa, o debate entre Geraldo Alckmin e Lula consegue fazer dormir até o mais politizado e crente dos eleitores.

O que realmente importa nesse pleito fica longe, bem longe das câmeras de TV. Em parte porque não é compreendido pela grande maioria do eleitorado, mas também e, principalmente, porque os dois postulantes ocupam o mesmo lado quanto às questões que realmente valeriam discussão. E mais, concordam que tais pontos ficam devem convenientemente ser escondidos. Assim, o que era para conscientizar, acaba por alienar.

Um exemplo claro é a questão dos gastos públicos, bola levantada pelo tucano. Seu raciocínio é coerente: o Governo Federal gasta mais do arrecada e, por isso, precisa tomar dinheiro emprestado no mercado financeiro, pelo qual paga as altas taxas de juros que freiam o crescimento econômico. Se cortasse gastos até que o ponto em que eles se igualassem à arrecadação, não tomaria dinheiro emprestado, os juros cairiam, os investimentos privados cresceriam e o Brasil avançaria.

Até aí, tudo bem. O problema começa com a pergunta que Alckmin ainda não respondeu de modo convincente: onde cortar? O cafezinho pode ser um bom começo, mas não resolve. O tamanho do buraco é de R$ 60 bilhões, ou 3% de todas as riquezas do país. Para fechá-lo, é, sim, necessário cortar gastos sociais, da educação das criancinhas à aposentadoria dos velhinhos, além dos já escassos investimentos em infra-estrutura. O remédio é amargo, mas ainda é remédio.

Uma certa dose, aliás, já é aplicada desde o início do segundo mandato de FHC, quando o governo começou a fazer o chamado superávit primário. É o quanto se deixa de gastar com investimentos, educação, saúde, previdência, transporte e segurança. Esse montante, que vai somar R$ 70 bilhões este ano, é destinado ao pagamento de juros da dívida, que somam perto de R$ 130 bilhões. Ou seja, no balanço entre o que o governo arrecada e devolve para a população em serviços, já há superávit.

Mas essa economia é insuficiente e precisa ser aumentada, concordam os dois candidatos. O staff de Alckmin falta em mexer na previdência. Lula já pensa em mexer na educação e na saúde. Mas nenhum deles sequer cogita renegociar a dívida, por exemplo, ou mesmo assumir a imensa contradição que é cortar os já sucateados serviços públicos e direitos de toda uma população, pobre em sua imensa maioria, para proteger o lucro de uma minoria que ganha dinheiro com a maior taxa de juros do mundo. Aí temos um debate que realmente importa.

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2 Comentários so far
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E o PFL, meu caro? Taí uma oposição de escol!

Conforme caminham as coisas, a única diferença perceptível na prática acaba sendo a ruptura. O resto -já que o Super-Ávite tbm foi a tônica no lulismo e causou a demissão do C. Buarque (lembra?)- acaba sendo escolher entre dois times que frequentam a zona.

abs

Comentário por Vinicius

Gerson, não concordo plenamente com você. Acho que a disputa no segundo turno trouxe à tona uma discussão importante sim. A da manipulação da mídia e até onde ela é realmente efetiva. Carta Capital levantou a bola e alguns jornalistas (excelente nomes) abraçaram a idéia. Idéia composta por fatos – e não boatos – que envolvem a Rede Globo, a Veja, a F. de São Paulo, o Estadão e O Globo. Ou seja, alguns dos principais veículos de imprensa do país.
É vergonhoso ver colegas jornalistas se distanciarem de preceitos éticos básicos da profissão, daqueles que aprendemos na faculdade. Como ao reforçar a mentira do delegado Bruno sobre o vazamento das fotos do dinheiro. Claro, a fonte deve permenecer em off quando assim desejar, mas compactuar com a mentira são outros 500.
Mas mais importante tem sido a força da escolha do povo contra essa manipulação. Ao contrário do que a mídia determina, quem deve vencer é o Lula. E desta vez não estou entrando no mérito do meu próprio voto.
Ainda assim, fico com Chico Buarque, que em entrevista afirmou nunca ter visto um presidente ser tão xingado e maldito como o Lula. E por puro preconceito de classe. Afinal, sejamos francos, mesmo que a esperança tenha vencido o medo, Lula continua sendo um nordestino sem diploma. E sem um dedo, como gostam de lembrar alguns tucanos.
Fico também com Frei Beto, cuja carta aberta aos cristão brasileiros dá a dica: ruim com ele, pior sem ele.

Comentário por Olívia




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