Domínio Público


Sinceridade by Daniela Moreira
30 novembro, 2006, 5:07 pm
Filed under: Daniela Moreira

Leitor do Domínio, prepare-se para um momento de terrível sinceridade desta blogueira (inspirada pelo Rubem Braga e sua excelente crônica “Ao Respeitável Público”). Estou sem idéias e sem tempo pra escrever. Reedito aqui, portanto, um conto, que embora inédito (só o meu leitor número um pôde apreciá-lo, com exclusividade), não é inteiramente novo.

O leitor pode encarar esse ato de rebeldia como um quebra de paradigma (afinal, porque o Domínio só publica crônicas e artigos?!?), como uma oportunidade de conhecer um outro lado desta blogueira que vos escreve ou como pura picaretagem mesmo. Fica a seu critério. Aproveite!

A datilógrafa

Despertou uma hora mais cedo e não havia jeito de dormir de novo. Era aquela idéia teimosa que voltava a lhe aporrinhar logo de manhã. Pensamento grudento é assim, quando dá pra amolar a cabeça da gente, não sai do pensamento até que, de tanto tentar se esquivar, a gente acaba pensando mesmo sem querer. Aquele pensamento que ia e voltada de tempos em tempos, chegou naquela manhã pra perturbá-la e tirá-la da cama uma hora mais cedo. Eram as palavras da tia Neide, que mais uma vez se repetiam feito disco riscado na sua cabeça.

– Você tem jeito, filha. Olha os dedinhos dançando em cima das letras, que belezinha!

Tia Neide franzia a testa e olhava por cima do par de óculos fundo-de-garrafa pra ver com mais nitidez os fhebeuygbygayghoiiçpoqruikhtks que a pequena batia ao acaso na velha Olivette verde-exército. Sandoval, o filho mais velho, abandonara a engenhoca quando se mudou de vez pra casa de Maria dos Remédios e virou biscateiro, arrimo de família, pai provisório dos dois filhos da quarentona desquitada, empregada doméstica, cor de café-com-leite, como a tia costumava dizer. Nunca digerira bem a partida do primogênito – o único da família que completou os estudos e que tinha pela frente promissora carreira em firma que assina carteira e dá cesta básica –, por isso mantinha a velha máquina de escrever sempre em cima da mesa de jantar da sala, como que esperando que o rebento entrasse pela porta e retomasse o trec-trec até altas horas da madrugada. Gostava da sinfonia das martelas das teclas – barulho de gente inteligente trabalhando –, mas nem se atrevia a apertar aqueles ganchos saltados pra fora. Tinha medo de enfiar o dedo pelo vão adentro e enganchar uma unha – Deus me livre! Mas quando a pequena ia visitá-la – já chegava com os olhos pidões voltados à mesa de jantar, fitando seu brinquedo preferido –, tirava a toalhinha de crochê creme de cima da Olivette e perdia um tempão vendo a menina dedilhar a geringonça.

A menina também gostava do trec-trec, mas eram as letrinhas, todas ali de mãos dadas, que lhe agradavam de verdade. Mais tarde, quando aprendeu juntar vogal com consoante, sílaba com sílaba e formar palavras de verdade, aquilo lhe parecia ainda mais fascinante. A tia, quando já fraquejava dos ouvidos e não conseguia mais escutar a sinfonia de martelos, perdeu as esperanças de ver Sandoval entrar pela porta e deu de presente a velha quinquilharia à sobrinha.

– Vai aprender bater à máquina, filha, que você dá pra isso. Sempre deu, desde pequena. Os dedinhos dançavam em cima das letras. Uma belezinha.

Achou que era boa idéia mesmo, mas na época era muito menina, além do mais não tinha dinheiro pra pagar as tais aulas. Foi ser empacotadeira de mercado, ganhar uns trocados. Com o tempo, acabava retomando a vocação, pensou. Em uns anos, de empacotadeira foi promovida à caixa registradora. O gerente achou que era esperta e tinha razão, pois manuseava a registradora mais rápido que qualquer uma. Levava jeito com as teclas – desde pequena, a tia dizia. Até gostava do trabalho no mercadinho. Era movimentado, tinha gente nova, gente conhecida, às vezes gente mal-educada. Mas, no geral, era bom. Só que às vezes a tal idéia teimosa voltava à cabeça, como naquela manhã em que perdeu o sono.

Embora lhe agradasse, era um pouco trabalhosa demais. Teria que sair correndo de mercadinho pra chegar a tempo pras aulas. E o dinheiro, mesmo com as economias do colchão, era curto demais. Ia faltar. Ia ter que apertar o cinto. Além do mais, ninguém garantia que daria resultado. Tinha talento, era verdade. Era só uma questão de tomar umas aulas pra melhorar a prática. Poderia bater receitas de bolo, cartas, listas de supermercado, só pra começar a treinar. Poderia bem arrumar um trabalho melhor, trabalhar de meia fina e salto alto, em escritório de doutor ou repartição pública. Podia escrever trabalho de escola pra gente que não tem tempo ou não sabe bater à máquina. Tinha gente que ganhava dinheiro assim, ela sabia. Seria datilógrafa. Era o que dizia o letreiro do sobradinho, que ficava duas quadras pra baixo do mercado: Escola de Datilografia. Ali se davam aulas de como bater à máquina. Bater à máquina não, datilografar. Era assim que se dizia. Ensaiara entrar lá um tanto de vezes, e, de fato, entrou em mais de uma ocasião. A moça da recepção lhe dissera os preços e os horários, mais de uma vez. Gravou na cabeça, matutou, matutou, mais de uma vez. Mas o dinheiro era curto. E ninguém garantia… Além do mais, vivia tendo essas idéias malucas. De vez em quando acordava achando que podia ser bailarina. Saia pro trabalho de sapatilhas-ponta e saiote rosa. Lá pela hora do almoço, era primeira bailarina. Mas ao entardecer já era caixa de novo. Quanta bobagem!, pensava, quando batia o ponto.

Era mais ou menos assim com a história de bater à máquina. A idéia ia e vinha, de quando em quando. Mas com essa, era diferente. Porque sabia que tinha jeito. E a máquina estava lá, no canto do guarda-roupa, onde não tinha nem sapatilha nem saiote rosa. Era só tirar a poeira e melhorar um pouco a prática. A escola ficava a duas quadras do mercadinho. Fazendo uma força, dava pra chegar no horário. E também, nem era tão caro assim. Só ia ter que apertar um pouco o cinto. E se vestisse agora o uniforme dava tempo de passar na escola antes do trabalho – acordara uma hora mais cedo e ia ficar à toa mesmo.

Tirou depressa a camiseta puída, lavou o rosto, escovou os dentes, puxou os cabelos e prendeu em um novelo no topo da cabeça com meia dúzia de grampos. Vestiu o uniforme verde, pegou a bolsa, trancou a porta e saiu, a passos largos. Andou reto por duas quadras, subiu a ladeira, quebrou à esquerda, andou mais três quadras, passou pelo mercadinho – as portas ainda fechadas – seguiu reto por mais dois quarteirões. O portão do sobradinho branco estava aberto. Subiu as escadas, um pouco ofegante. Abriu a porta. No balcão, uma moça magricela, de salto-alto e meia fina falava com a recepcionista. Olhou pros lados, impaciente.

– Pode sentar. Já te atendo em um minuto, menina – disse a voz monótona, que veio de trás do balcão.

Exitou. Sentou. A conversa estava demorada. Olhando a magrela de saia cinza e blusa branca, pensou que não deveria ter vindo de uniforme. Mas também, se não fosse assim, não daria tempo. Eram só duas quadras do mercadinho, mas o tempo era curto. Ficaria corrido. Podia se atrasar. Pensando bem, seria difícil chegar na hora pras aulas. E também, se o preço tivesse aumentado, não ia dar. Mesmo que fosse o mesmo, ia ter que apertar o cinto. Além do mais, ninguém garantia… Levantou-se depressa.

– Senhora!

Desceu as escadas. Apertou de novo o passo. Ia chegar atrasada no trabalho. Voltou duas quadras e quando chegou, as portas do mercadinho já estavam se abrindo. Sentou na sua cadeira e respirou um pouco aliviada. Gostava da caixa registradora. Sabia manuseá-la mais rápido que qualquer outra caixa do mercadinho. E podia voltar à escola outro dia. Talvez amanhã. Podia acordar um pouco mais cedo. Umas duas horas talvez fossem o suficiente pra vestir uma outra roupa, ir até lá, e voltar a tempo de colocar o uniforme. Tinha jeito, dava pra coisa. Era só praticar melhor. Poderia escrever receitas e cartas. E talvez bater trabalhos de escola. E também arranjar um emprego em escritório ou repartição. Amanhã, com certeza, pensou.



Ufa! by Eduardo Simões
29 novembro, 2006, 1:50 pm
Filed under: Campeonato Brasileiro, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro

Não é fácil ser torcedor da Portuguesa. Nunca foi, mas ultimamente tem piorado bastante. As chacotas não raramente viram piada de português que, também não raramente, perdem o senso de humor e se transformam em desrespeito a toda uma colônia. Acho que por isso é tão especial ser fanático pelo time do Canindé. Certamente a torcida lusa não é a mais numerosa, mas há de se convir que os poucos que acompanham o time com regularidade são, como diz meu colega de blog Gerson, provas de que ainda existe amor no futebol.

Seria fácil desistir. Seria fácil o clube acabar por absoluta e total ausência de torcedores nas arquibancadas. As sucessivas diretorias que passaram pelo clube na última década fizeram um esforço hercúleo para que isso acontecesse.

Fracassaram. Transformaram um time em ascensão em piada, mas fracassaram. Levaram o clube à falência, com jogadores bastante abaixo do mínimo exigido para empunhar a camisa rubro-verde, mas fracassaram. Alguns, poucos mas fiéis, torcedores seguem comparecendo, acompanhando as partidas, seja no estádio ou fora dele. Alguns poucos, mas fanáticos, ainda se importam e não se escondem, apesar dos vexames recentes e das inevitáveis gozações.

Seria fácil desistir. O que não é fácil é olhar para o Canindé e ver o estado em que anos de descaso o deixaram. É olhar para o parque aquático do clube, que já fez dele um dos campeões de associados de São Paulo, e ver que nem um suicida ousaria nadar naquelas águas. É olhar para o gramado onde já pisaram Dener, Zé Roberto, Zé Maria e Evair, só para ficar nos mais recentes, e ver alguns jogadores que, não por culpa deles, mas de quem os contratou, não estão à altura do que representa a Portuguesa.

Para muitos, que certamente não se preocupam em conhecer a história do futebol, a Portuguesa não representa muito. Assim como nomes como Djalma Santos, maior lateral-direito da história do futebol mundial, Zé Maria (o da Copa de 1970) e Jair da Costa, todos os três presentes nos três primeiros títulos mundiais do Brasil na mesma época em que defendiam as cores rubro-verdes. Isso sem falar em Julinho Botelho, segundo maior ponta-direita da história do futebol mundial e rei de Firenze, Brandãozinho, o Príncipe Ivair, o genial Enéas, o tricampeão mundial Félix, revelado nas categorias de base da Lusa, e tantos outros que injustamente deixo de citar para não fazer deste o maior post da curta história deste Domínio.

Não sabem ainda do esquadrão que a Portuguesa tinha na década de 1950, bicampeão do Rio-São Paulo, Campeonato Brasileiro da época, e base das seleções brasileiras campeã do Pan-Americano de 1952 e que disputou a Copa do Mundo de 1954. Desconhecem que a Lusa dos anos 1960 e 1970 rivalizava em campo com o Santos de Pelé e o Palmeiras da Academia (Ademir da Guia e cia.)

Mas quem vive de passado é museu, dirão os críticos. Ao que eu respondo: um povo sem passado não tem futuro.

E a direção da Lusa, ao longo dos anos, tem esquecido esse passado, tem apequenado o time e o clube. Por isso o passado recente da rubro-verde tem sido tão ruim. Por isso a vibração com um resultado aparentemente medíocre: a permanência na segunda divisão do Campeonato Brasileiro no último minuto da última rodada (com um pênalti legítimo, aliás, ao contrário dos muitos apitados contra a Portuguesa ao longo da história).

Permanência conquistada de forma épica, brigadora, digna da paródia com os Lusíadas e digna da Portuguesa, mas, ao mesmo tempo, muito pouco para esse clube e suas tradições.

Acende-se uma esperança, pelo menos. Por isso o grito de alívio, o palavrão em forma de desabafo, o desassossego em frente ao televisor, o sofrimento, e a felicidade no final. Ainda não estamos no fundo do poço, o que não deveria ser motivo de comemoração, mas quem não comemoraria a notícia de que um ente querido escapou do coma, embora ainda permaneça na UTI?

Que venha 2007 e que a paciente Portuguesa de Desportos receba alta (para a primeira divisão do Paulista e do Brasileiro). È difícil? De fato, mas quem torce pela Lusa está acostumado com todo o tipo de obstáculo e, afinal de contas, sonhar não paga imposto.



O melhor goleiro do Brasil by Gerson Freitas Jr.
28 novembro, 2006, 4:13 pm
Filed under: Campeonato Brasileiro, futebol, Gerson Freitas Jr.

Não faz muito tempo que os jogadores de futebol beijavam o escudo do clube quando eram apresentados à torcida. Era um ritual de lealdade, uma espécie de declaração de amor. Gostava daquilo, ainda que, uma ou duas temporadas depois, diante de alguma proposta mais interessante, o jogador beijasse a camisa do time rival, às vezes do maior rival,  deixando o torcedor do antigo clube com cara de esposa traída.

Alguns jogadores ficaram famosos pela cara-de-pau com que trocaram de amores e refizeram seus juramentos. Luizão, por exemplo, jogou por Vasco, Flamengo e Botafogo, no Rio, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, em São Paulo. Reza a lenda que beijou todas as camisas e disse que “sempre sonhou em jogar com esta camisa” em todas as ocasiões.

Talvez por esses exemplos, o ritual perdeu força de um tempo para cá. A maior parte dos jogadores evita beijar a camisa, fazer promessas, dizer que vai jogar no time de infância. Agora, todos se assumem profissionais! E, no futebol profissional, o que vale é dinheiro no bolso. Há de se pensar na carreira, na família, nos contratos. O clube é apenas, bem, um clube nesse imenso negócio.

Acontece que o futebol profissional é chato, exceto no que diz respeito à organização. Aliás, o profissionalismo e a racionalidade vão de encontro à natureza do esporte. O que leva um torcedor a tomar chuva no estádio, perder o humor quando o time é derrotado e desfilar com sua camisa quando vence é a paixão. E o que eu quero, como torcedor apaixonado, é ver os jogadores fazendo juras de amor pelo meu clube, digladiando-se em campo, provocando o torcedor adversário, beijando a camisa quando faz o gol.

É isso que explica o verdadeiro caso de amor que a torcida do campeoníssimo tricolor paulista tem com seu goleiro-artilheiro Rogério Ceni. Ele não convence apenas pelas atuações abaixo da meta ou pelas excepcionais cobranças de falta que já decidiram muitos jogos complicados. Gols fazem apenas craques, mas não os tornam ídolos. É a paixão que demonstra pelo clube, há quase 10 anos como titular do time, que faz 70 mil torcedores gritarem incansáveis no Morumbi: “Puta que pariu! É o melhor goleiro do Brasil”.

***
Ele reclama de ser o mais citado neste Domínio, mas aproveito a incursão futebolística para homenagear e congratular Eduardo Simões pela vitória da Portuguesa de Desportos no último final de semana. Nosso querido Lusa é a demonstração de que, no futebol, o que vale ainda é o amor à camisa.



Vida delivery by vinacherobino
27 novembro, 2006, 5:19 pm
Filed under: direitos humanos, escrever, sociedade, Vinícius Cherobino

Cruzando a cidade, motoqueiros enfrentam os carros numa batalha épica. Digladiam por espaço, sangue por nesgas de asfalto, ossos por faixas de rolamento. Atacam e são atacados; morrem, matam, são mortos. Atrás, pizzas, japa, quitudes chineses, esfiras, bolos cremosos, comidinhas que se chacoalham e se equilibram e se entrebatem felizes por estarem às vésperas da digestão. Ou, que tal, produtos novíssimos, fresquíssimos, adorabilíssimos, saídos diretamente da fábrica chinesa, nascidos sob delicados e suaves dedos jovens.

Na outra ponta, você. Sentando. Irritado. Esperando. Tamborilando os dedos roliços, esperando a sua encomenda, ansiosamente.

Cada curva é um desafio, cada fechada uma vitória. E vc, baleísticamente repousando, continua esperando sob as instáveis luzes azuis da tevê. Segundos se passam, filhos nascem, filhos acabam de serem criados, acabam de ser eliminados; e o trajeto emocionante da mercadoria está em pleno vapor.

De fora, pela janela, seus milhares de vizinhos se equilibram em seus cubículos sobrepostos. De longe, parece um empilhamento de caixas com discretas janelas, cada vez mais discretas. Atrás delas, telas e barras. Atrás dessas, gente sentada, tamborilando os dedos roliços, esperando aquele que vem. Ele sempre vem. Sempre…

Toca a música do Zeca Baleiro –“meu boy morreu, o que será de mim? Manda buscar outro correndo lá do Itaim”- e continua esperando. Puto da vida, detestando tudo isso, esperando. Esperar é uma merda.

Na tevê, assiste comerciais de emagrecimento. Quem espera fica com a bunda gorda. Mas, felizmente, já bolaram uma solução. Apenas 55 minutos se equilibrando num pirulito gigante; tiro e queda. Se, de esperar, ficou velho, também temos a solução: formas mais em conta para esticar quimicamente a pele que se contorce, retorce-se, distorce. Nem os anos são finais.

Você, que já chegou até a levantar, se senta de novo. Assim não é possível.

Chegou. O porteiro não deixa ninguém subir, você precisa descer. Você odeia descer. Você prefere esperar.



Educação para quê? by Gerson Freitas Jr.
24 novembro, 2006, 2:02 pm
Filed under: economia, Gerson Freitas Jr., sociedade, tecnologia

Tinha no máximo oito ou nove anos (15 ou 16 atrás) quando comecei a ter as primeiras lições de datilografia. Da esquerda para a direita: “a s d f g”. Da direita para a esquerda: “ç l k j h”. Repetidas vezes, sem “nunca olhar para as teclas”, ensinava meu pai, esperançoso de que a técnica me garantisse um bom emprego no futuro. Afinal, a oitava série e a velocidade dos dedos foram suficientes para começar uma razoavelmente bem-sucedida carreira de 25 anos em um banco.

Seria desnecessário dizer que o mundo do trabalho mudou uma enormidade nesse pequeno espaço de tempo. Transformação que passa por duas palavras: tecnologia e educação. Primeiro, os computadores se popularizaram, e as simpáticas máquinas de escrever viraram peças de museu. Segundo, o ensino fundamental completo não serve mais de nada. Meu pai estava tão bem intencionado quanto errado.

O Brasil registrou um salto importante na educação nos últimos 20 anos. Apesar da péssima qualidade das escolas, alcançamos a chamada universalização. Ou seja, praticamente todas as crianças são matriculadas e uma parte significativa completa pelo menos o primeiro grau. Essa expansão foi apoiada na proposta do Banco Mundial para os países em desenvolvimento, no campo das idéias inspirada na famosa teoria do capital humano.

De acordo com esse preceito, a educação é, antes de qualquer coisa, um investimento econômico. Quanto mais educado ou qualificado, mais produtivo é o trabalhador (na essência, um capitalista, detentor de um bem de produção “intelectual”). Com “colaboradores” mais qualificados, as empresas tornam-se mais eficientes e aptas a crescer. O empregado, que negocia seu “know-how” com a empresa, passa a ganhar mais. A economia cresce e a renda é distribuída à medida que as pessoas passam a estudar e aumentar seu estoque de capital humano.

Acontece que, do outro lado, do ponto de vista da tecnologia, nossos amigos computadores não eliminaram apenas as máquinas de escrever. O fizeram com ainda mais eficácia com os empregos na indústria, nos bancos e até nas centrais de atendimento ao cliente.

O resultado foi que a nossa revolução educacional anômala aumentou a oferta de mão-de-obra (suficientemente qualificada apenas para apertar os botões da máquina que, afinal, é quem faz tudo) para um mercado de trabalho em encolhimento. Resultado: menores rendas (lei da oferta e demanda) por um estoque maior de “capital humano”, para alegria dos empresários. Sim, Marx sabia do que estava falando quando criou o conceito de mais-valia.

Não à toa, as empresas se dão ao luxo de exigir ensino superior, inglês, bons relacionamento e comunicação, espírito de equipe e outras mentiras para empregador dormir até das simpáticas mocinhas que ajudam os velhinhos a mexer em caixas eletrônicos.

De quebra, essa ligação entre escola e trabalho transfere para trabalhador a culpa do desemprego, à medida que o coitado raramente está suficientemente qualificado para garantir uma vaga minimamente decente.  Ninguém mais questiona se há ou não espaço para todos no capitalismo moderno (não, não há). A questão é o nível de “empregabilidade” das pessoas, resultado do esforço pessoal de cada um.

Nada contra expandir a educação. Longe disso! Mas é preciso reformá-la no sentido de formar cidadãos melhores, e não apenas trabalhadores desempregados. Porque, desculpe desapontá-lo, caro leitor, a educação não vai, necessariamente, garantir-lhe um emprego e, tampouco, um bom salário. Se esses ainda são seus objetivos, talvez seja bom ouvir o conselho centenário do magnata americano Paul Getty. “Minha receita para enriquecer? Acorde cedo, trabalhe muito, ache petróleo”.



É ver pra crer! by Daniela Moreira
23 novembro, 2006, 7:25 pm
Filed under: Daniela Moreira, escrever, internet

Se Tomé vivesse nos tempos da internet seria um santo bem mais feliz. De uns tempos pra cá, aconteceu, tá no YouTube. Se não tá, melhor desconfiar. Honestamente, se alguém me contasse que na década de 70 uma japinha xarope mandou o Silvio Santos “enfiar naquele lugar” em rede nacional, eu acharia que era mais uma das lendas da TV.

E se dissessem ainda que Michael Richards, o bonachão Kramer do Seinfeld, teve um surto racista, ofendendo os convidados que atrapalharam seu show nos Estados Unidos com vocabulário digno da Ku Klux Klan, pra mim soaria como piada de mau gosto. Tem coisa que é melhor nem ver…

Mas tá tudo registrado lá, junto com a briga do João Gordo e do Dado Dolabella, com o Vanucci bêbado, com a cabeçada do Zidane, e tantas outras cenas memoráveis que esta blogueira, desatenta de plantão, certamente teria perdido não fossem as maravilhas da tecnologia. E nos ciclos “incluídos digitalmente” virou regra: cada boa história vem acompanhada de um link.

Para mim, tudo lindo, tudo maravilhoso. Confesso que passo muitas horas felizes navegando pelas entrevistas do Letterman que só passavam à meia-noite, na TV a cabo, e por tantas outras preciosidades perdidas deliciosas de ver.

Mas imagino, em um exercício de pura falta do que fazer, o que pensariam os grandes contadores de causos – aqueles que são capazes de manter o povo todo atento em roda por horas durante uma festa, como adorável pai do Peixe Grande, de Tim Burton – dessa moda de YouTube.

“Uma grande besteira”, diria o Seu Dorival da Lapa*, que nunca chegou perto de uma tranqueira eletrônica dessas. Afinal, nada substitui uma boa história, seja ela cheia de verdades ou mentiras, contada na mesa do bar, regada a uma boa gelada e com aquele silencio malandro que faz o tempo parar e a respiração ficar suspensa antes do desfecho triunfal.

Por via das dúvidas, vou pedir ao Seu Dorival, que me ensinou a amar as boas histórias, que conte mais uma vez a minha preferida, aquela da Brasília atolada na estrada de Santos, no meio do toró. Desta vez vou gravar tudo em vídeo. Aposto que vai ser um hit no You Tube. Aguardem e verão!

*Este post é uma homenagem ao meu avô querido, que me ensinou a amar as boas histórias, mesmo depois de escutá-las pela milésima vez.



Aguarde um instante, sua visita é muito importante para nós by Eduardo Simões

Olá, obrigado por visitar o Domínio Público. Favor digitar seu nome completo na caixa de diálogo que aparecerá no canto superior esquerdo de seu vídeo. Agora, por favor, digite seu CPF na caixa que aparecerá no canto inferior direito de sua tela. Obrigado, agora aguarde uns instantes, em breve nosso post estará com você.

Enquanto aguarda, disponibilizamos o hit das esperas telefônicas para entretê-lo. Sua visita é muito importante para nós.

Chato né? Agora, imagine se depois disso tudo aparecesse uma pessoa e pedisse para você dizer novamente em viva voz tudo o que já foi obrigado a digitar apenas para ler esse humilde post. Aposto que as estatísticas mostrariam que 97,86 por cento das pessoas desistiram antes da terceira linha.

Mas imagine se você precisasse ler este post. Se da leitura dele dependesse sua comunicação com o mundo exterior ou, sei lá, sua conexão para fazer a máquina voltar a funcionar.

Parece loucura, mas é isso que acontece quando você tem problemas com a empresa de telefonia, a assistência técnica do celular, o banco, a concessionária do carro ou qualquer empresa que, por alguma razão que eu juro que ainda não entendi, coloca uma gravação para atender a uma “ligação que é muito importante para nós”.

E não é só isso!!! Passada a esquizofrenia do homem levando uma idéia com a máquina, você cai nas mãos, ou melhor, nos ouvidos, de um ser humano de carne e osso igual a você. O único problema é que ele foi treinado para ser tão ou mais inflexível que o robô com quem você conversara instantes antes. Não é a toa que o telemarketing é um dos setores de maior rotatividade de funcionários. Pudera, nem o mais acomodado dos humanos aceita perder a humanidade e ainda ser xingado, destratado por furiosos clientes que não vêem seus problemas solucionados.

E quando o cara te liga para vender alguma coisa? Começa com aquela história. “Devido ao ótimo relacionamento que o senhor tem com o seu banco.” Peraí, ótimo relacionamento para quem, cara pálida? Eu pago e você recebe? Ou então eu pego o meu dinheiro e coloco para você investir e você, apesar de ganhar dinheiro com isso, ainda me cobra uma taxa de administração?

De fato, é uma ótima relação (para o banco), mas eu juro por Deus e por tudo que há de mais sagrado que eu não preciso de outro cartão de crédito ou de um financiamento para um carro ou um apartamento que eu sequer pretendo comprar. Em que momento da história humana aquela máxima de “se eu quiser eu peço” se perdeu?

Também não tenho interesse em trocar meu plano de ligações de longa distância. Por quê? Ora, porque eu não faço ligações de longa distância!!! Não preciso também de um novo plano de celular ou de um cartão de fidelidade que me dará descontos nas “mais badaladas casas noturnas de Sampa”. Tem cartão para desconto de cerveja em boteco? Esse eu até toparia.

Eu odeio spams, mas vamos fazer um paralelo. Se o cara te manda um email indesejado, você apaga e ponto. Vai perder uns cinco minutos da sua vida e, para muitos, como diria Hans Moleman, “eu não faria nada com eles mesmo”.

Já se o cara te liga para oferecer uma coisa que você não quer e, mais que isso, não precisa ou nem mesmo pode pagar, se você encerrar o assunto em cinco minutos você é o monstro mal-educado e insensível que trata mal as pessoas que estão apenas tentando ganhar suas vidas honestamente. Não importa se o telefonema foi no almoço, no jantar ou na hora que o cara do horário de verão ia finalmente consumar o amor do elo perdido.