Domínio Público


Danou-se, a luz acabou by Eduardo Simões
1 novembro, 2006, 7:44 pm
Filed under: Eduardo Simões, internet, tecnologia

Nesta quarta por muito pouco os leitores não começaram o feriado com o pé direito e ficaram livres “daquele rapaz que escreve no meio da semana”. Por muito pouco os colegas de Domínio não conseguem a desculpa perfeita –se é que procuram uma—para extirpar a praga lusitana do pedaço.

Para quem não mora nessa coisa que se supõe ser uma cidade organizada, chamada São Paulo, explico. Choveu um monte na quarta-feira. Ah, preciso explicar de novo né? Quando chove um monte em São Paulo, a cidade deixa de ser o caos e se transforma no caos elevado à enésima potência, sendo que “n” é maior ou igual a cinco mil.

Tem outra, às vezes a luz vai embora também. A chuva leva, sabe como é. Choveu, caiu uns raiozinhos, crianças assustadas correram para debaixo da cama e Pá!!! A luz acabou, ficamos todos às escuras.

Isso foi mais ou menos umas duas, três horas. Tempo suficiente para, além de reclamar (bastante), fiquei pensando: “Como é possível a gente depender de um monte de coisa que pode ir pro espaço só porque água caiu do céu?”

Fiquei um bom tempo pensando em como nossa vida depende da tecnologia e bla, bla, bla. Fui aconselhado então a, para garantir a publicação disso que vocês estão lendo até a meia-noite, começar a escrever o texto num papel para depois colocá-lo no computador e publicá-lo no Domínio.

Confesso, considerei a idéia ridícula e nem a levei a sério. Continuei reclamando, lamentando que os computadores não tenham um compartimento para queimarmos lenha e fazer o bicho funcionar, além de outras bobagens.

Mas depois, na hora que fui sentar para escrever, cheguei a uma irrefutável conclusão. Esse negócio de computador me transformou em um semi-analfabeto. Confesso que sequer sei como essas letras saem da minha tecla para a minha tela. É quase mágico.

Lembro quando estava no ginásio, que hoje é ensino fundamental. Sempre fui uma negação em Matemática e em qualquer coisa que envolvesse números e contas, mesmo que fosse Desenho Geométrico. Sonhava com o dia em que uma calculadora a tira-colo seria algo comum em escolas, principalmente em dias de prova. Estava cansado de tirar nota baixa na porcaria da Matemática por causa do que os professores gostavam de chamar de “falta de atenção”. Ou seja, errava umas contas estúpidas e, assim, todo o exercício, toda a equação, ia para o ralo.

Sem a calculadora, estava condenado a ser um cretino com dificuldades nas quatro operações básicas. Aí surgiu o jornalismo e eu até que estou dando um jeito.

Tudo isso para dizer a razão dada por professores, pai e mãe para me negar uma calculadora, até mesmo nos deveres de casa. Eu só poderia usar a maquininha mágica a partir do momento que conseguisse compreender todas as contas que ela fazia. Para mim nunca colou, mas, apesar do sofrimento, foi uma boa lição.

O ponto é, hoje qualquer imbecil senta na frente de um computador e começa a trabalhar com ele sem sequer entender o que está fazendo. Não é à toa que o mundo virtual é terra fértil de espertalhões e malandrões. A grande maioria dos usuários de computador, entre os quais me incluo, não tem a menor idéia do funcionamento da máquina, muito menos da Internet.

Não por outro motivo a profusão de idiotas tão bem diagnosticada neste Domínio pela Dani Moreira. Mas além de idiotas, a Internet também é um lugar repleto de otários, ou ingênuos, para ser mais politicamente correto, afinal todo mundo acha que está vacinado contra o golpe até o dia que ele vem.

E-mails prometendo promoções, viagens grátis à Costa do Sauípe, encontros tórridos de amor com a Karina Bacchi (se ela aceita ser vista beijando o baixinho da Kaiser, por que razão não vai topar sair comigo?) são alguns dos convites maliciosos para cliques tão maliciosos quanto.

Dizem até que as máquinas já têm vontade própria. Quem nunca passou pela situação do computador travar sem problema aparente quando se está na 89ª página daquela monografia enorme que você precisa entregar amanhã sob pena de enforcamento (parece piada, mas estou sendo obrigado a reescrever o fim deste texto porque isso acabou de acontecer comigo).

Imaginem então se chegar o dia em que as máquinas resolverão decidir não só sobre seus próprios destinos, mas também sobre os nossos. Atualmente o mundo tem uma meia-dúzia de pessoas que conhecem e sabem lidar com as bichinhas; uma grande maioria que as usa, não tem a menor idéia de como elas funcionam e dependem desesperadamente delas; uma outra fatia que usa computadores para espalhar o mal; e uma última parcela que –certamente motivadas por teorias da conspiração como essa—abomina a tecnologia.

Resumindo, será o fim, a anarquia das máquinas, até o dia que alguém vai ter a idéia genial: desligar a chave de força.

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1 Comentário so far
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Portuga, portuga!!! Esse é o leitor e escritor lusitano que todo mundo conhece… Tirando ouro do nariz, rapaz… Depois de uma noite de absoluta falta de inspiração, vc me sai com uma dessas…

Brilhante, meu velho, brilhante…

abs

Comentário por Vinicius




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