Domínio Público


O pecado de Haggard by Gerson Freitas Jr.
7 novembro, 2006, 2:56 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., internacional, sociedade

“A maior causa singular do ateísmo no mundo são os cristãos, que reverenciam a Jesus com seus lábios e o negam com seu estilo de vida”. A frase é o prólogo de uma canção chamada What If I Stumble, do Dc Talk, uma banda gospel que fez bastante sucesso nos Estados Unidos em meados dos 1990. Veio à memória com as notícias do envolvimento de um importante reverendo em um escândalo sexual sem precedentes na igreja evangélica americana.

Ted Haggard pastoreava cerca de 14 mil ovelhas na New Life Church e ocupava o posto máximo da Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos, que congrega cerca de 30 milhões de membros (10% da população americana) e influencia quantos milhões mais – o que fez dele um dos cristãos evangélicos mais influentes no governo do protestante George W. Bush.

Haggard destacou-se nos últimos tempos pelas cruzadas contra o casamento gay no Colorado. Além deste, mais sete Estados norte-americanos votam hoje emendas sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo. E bem na semana do “vamos ver” sobre o tema, um tal de Mike Jones aparece em uma rádio em Denver e conta a notícia que chocou os crentes. Nos últimos três anos, ele e o pastor mantiveram regulares relações sexuais, digamos, contratadas.

Não é sobre o “pecado” de Haggard e tampouco se trata de um juízo de valor sobre o casamento gay. A questão aqui, caro leitor, é de coerência. O mínimo que se espera de alguém que, por quaisquer razões, até transcendentais, se ocupa de levar a milhões de lares uma mensagem contra o homossexualismo é que não seja flagrado em uma relação homossexual com um garoto de programa.

O caso do pastor americano é sintomático de um processo de desconstrução de reputações bastante marcante dos tempos atuais. De repente, parece que não há liderança, causa ou entidade que goze de inteira credibilidade, que seja insuspeita de ser apanhada em flagrante contradição com seu discurso.  Alguém aí vai dizer que isso é bom, pois, afinal, é a verdade vindo à tona. Fiéis não mais terão de seguir um líder que não faz e talvez nem mesmo acredite no que prega.  Realmente.

Mas a verdade, dependendo de qual for, também traz consigo o desencanto e uma crise moral e ética, na qual a sociedade perde suas referências, seus exemplos de comprometimento com a verdade, com a justiça ou com as causas que representam, sejam quais forem. Daí, o caminho mais próximo é o da esculhambação.

Afinal, perderam todos a legitimidade, os clérigos “pedófilos”, os políticos “ladrões”, a polícia “assassina”, o Estado “falido”, a Justiça, que afinal se mostra injusta, e os cristãos, que “que reverenciam a Jesus com seus lábios e o negam com seu estilo de vida”. Aos últimos, aliás, cabe a recomendação de São Francisco de Assis: “Evangelize sempre; se necessário, use palavras”.

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2 Comentários so far
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Essa pode ser uma das razões do ateísmo, mas não é a única. O ateísmo vem da crença no pensamento científico e na busca por evidências. Não se trata de recusar Deus ou entidades divinas, mas de não haver nenhuma evidência que comprove sua existência. Sou ateu por definição, mas não do tipo que hostiliza os crentes e refuta a evidente importância da religião na vida de muitas pessoas.

Comentário por jacktorrance

Ninguém é perfeito ha ha ha !!!!

Comentário por Flavius




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