Domínio Público


Desconectados by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2006, 1:52 pm
Filed under: escrever, Gerson Freitas Jr., internet, tecnologia

São pouco mais de cinco horas da tarde na redação, onde jornalistas têm olhos grudados em seus terminais. Faz-se um quase silêncio, que não o é apenas pelo ruído dos teclados, frenéticos, e vozes que sussurram indecifráveis nos telefones. Elas tratam das informações que surgem na tela na velocidade insana do mercado financeiro: dinheiro, ações, derivativos, balanços, contratos futuros, números que sobem e descem nas bolsas de valores, de commodities, Nova York, Londres, Chicago, São Paulo, um olho na China, que ainda acorda, e outro na TV, no centro do mundo. Bush fala. A notícia não pára.

De repente, a reclamação ecoa. O sistema caiu! Não há internet, não tem e-mail, os números que pipocam na tela a todo instante dão lugar a mensagens de erro. Fecham-se as portas para o mundo. A linha de produção é interrompida e a imensa engrenagem informacional entra em colapso.

Como que um personagem de Saramago que não mais vê o mundo diante de uma súbita cortina branca como o leite, começo a pensar o que seria do mundo se, por um dia que fosse, as redes de computadores em todo o planeta, nas casas e escolas, empresas, bolsas de valores, bancos, lojas e governos, da Casa Branca à prefeitura de Ribeirão Pires, de repente parassem de funcionar. Nada de internet, nada de mensagens eletrônicas ou informações em tempo real.

Numa primeira reação, as pessoas sacam do bolso seus celulares a fim de dar notícias a clientes, parceiros, amigos, chefes, empregados, familiares e percebem que também não há mais telefone, pois, na era digital, as centrais telefônicas também dependem dos computadores.

Uma hora, duas horas, três, quatro…a espera é persistente. O sistema tem de voltar. Ele sempre volta. E o trabalho precisa ser feito. Ele sempre tem de ser terminado. Mais um tempo e a esperança dá lugar à constatação de que o melhor é ir pra casa, para a satisfação disfarçada de muitos. O problema é que não dá pra sair. O trânsito é caótico. Semáforos apenas piscam sua luz amarela, desconectados dos sistemas que o regem e, agora, jazem inconscientes. Também o metrô e os trens não circulam, sem comunicação entre as composições e os centros de controle. Também os aviões não decolam e os que estão no ar tentam arriscados pousos de emergência.

Não se sabe se é um problema localizado, deste bairro, de São Paulo, ou se é o mundo todo que, antes acessível a um toque, tenta agora em vão se comunicar com a vizinhança. Nas ruas, a tensão aumenta. A polícia tenta organizar o fluxo de carros e pessoas que, atônitas, andam de um lado para o outro à procura de alguma informação. Lojas não compram e não vendem, desconectadas de seus sistemas de cobrança, e agora tentam evitar saques e outros atos de vandalismo, que começam a acontecer.

De repente, parece que as pessoas não mais sabem onde estão. Não, elas definitivamente NÃO sabem. Já fazia algum tempo em que elas existiam e se moviam apenas na esfera virtual. Viajavam de Nova York a Xangai sem sair do lugar, falavam com pessoas com quem nunca haviam estado, faziam amigos, compravam, vendiam em lojas que não existem, e assaltavam bancos sentadas em suas confortáveis poltronas, conectadas a um espaço abstrato, mas que movimenta o real.  

De repente, um colega sentado a cinco metros da minha mesa, com quem nunca havia trocado mais que um aceno com a cabeça no corredor, interrompe a minha elucubração. “Alguém aí quer jogar War?” Três segundos de hesitação. Desligo minha máquina e aceito o convite. É hora de aprender a se ressocializar. Antes que seja tarde. 
  

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