Domínio Público


Por que os jornalistas mentem by Daniela Moreira
16 novembro, 2006, 4:34 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, ecologia, jornalismo

O leitor já deve ter ouvido, durante uma discussão acalorada, o seguinte argumento: “mas é verdade, eu li na revista tal [veja, não é preciso dar nome aos bois, pois o leitor sabe bem quem são eles…]”. Se o leitor não é jornalista – ou é, e por acaso está no grupo daqueles que vêem, mas preferem não enxergar – aí vai uma revelação bombástica: os jornalistas mentem.

OK, nem é tão bombástica assim. Mas acontece que muita gente ainda compra jornal e revista como quem adquire opiniões e lê tudo que está escrito como quem se intera de fatos, e puramente fatos. A culpa não é apenas da ingenuidade do leitor, mas de um consenso estabelecido de que a mídia diz a verdade.

As ciências sociais e a filosofia passaram o último século debatendo a capacidade humana de chegar a verdades e hoje já é carne de vaca: é impossível. O ser humano representa, simboliza, racionaliza e chega a algo que é como o mapa para o churrasco no sítio do seu amigo: as vias, curvas e referências estão lá, “representadas”, mas nem de longe traduzem toda a riqueza de detalhes do caminho. Não é mentira, mas não é verdade.

Se há mais de 250 anos Kant já anunciava os limites do intelecto humano, nós, jornalistas, preferimos enganar você, leitor, vestindo a camisa da imparcialidade e da isenção. Claro! As pessoas passam a vida inteira querendo ser “donas da verdade” e nós, que já nascemos com essa prerrogativa, vamos abrir mão assim fácil? Nem a pau, Juvenal.

Veja o exemplo da matéria de capa da última edição da revista Exame, que escandalizou a amiga e ativista de todas as causas da humanidade, Cíntia Kogeyama, e motivou este post. A capa já anuncia o que vem por aí: “ONGs os novos inimigos do capitalismo”. A foto é de um “subversivo”, atacando um objeto contra a pobre e bem-intencionada Polícia de choque brasileira, que só usa de artifícios “morais”, como bem sabemos, para coibir as manifestações desses terroristas disfarçados de boas intenções.

Aí vem o olho: “Os prejuízos e desafios das empresas brasileiras na convivência com grupos radicais que lutam contra o livre comércio, a globalização e o agronegócio”. Ou seja, de saída sabemos que ONG é sinônimo de problema e não solução. O que se segue é um festival de declarações imparciais e isentas do tipo:

“Os ativistas na defesa do meio ambiente iniciaram, nos últimos meses, um novo ciclo de espalhafatosas ações de protesto contra as grandes empresas”: A matéria é aberta com uma descrição que pinta os ativistas como personagens ridículos que se vestem de frango e saem cacarejando pelas ruas (sem mencionar, de cara, que esses mesmos ativistas ridículos, vestidos de frango, conseguiram conter, pelo menos temporariamente, a plantação de soja na Amazônia).

Ainda sobre a soja: “Os produtores também argumentam que a soja só ocupa áreas previamente degradadas por madeireiros”. Ahhhh, bom. Se é assim, tudo bem.

E continua: “Segundo a nova ideologia, o mundo de hoje seria dominado por gigantescas corporações interessadas em ganhar muito dinheiro à custa da saúde das pessoas e do planeta”. Que absurdo!!!

Ou ainda: “As ONGs acreditam que o capitalismo aumenta a divisão entre os ricos e os pobres”. Só as ONGs pra pensarem uma coisa dessas…

E só pra fechar com chave de ouro: “Acuadas pelas forças dos ativistas (ou “chantagistas verdes”, como foram batizados por seus críticos), muitas multinacionais acabam cedendo a seus apelos”. Tadinhas…

Não é que não haja argumentação a favor das ONGs: ela ocupa, primordialmente, a última meia página de uma matéria de oito. O que há, claramente, é um peso muito maior aos argumentos dos empresários, que se evidencia desde a capa até a retranca – “A caixa-preta das ONGs” – que revela como as ONGs são, na verdade, esquemas de manipulação política, lavagem de dinheiro e toda sorte de picaretangens possíveis e imagináveis e traz como box uma entrevista com um ex-ativista do Greenpeace descendo a lenha na ONG verde.

O leitor perspicaz pode muito bem agora argumentar: “Bem, mas você selecionou os trechos que ilustram o seu argumento, ao seu bel prazer. Você não está sendo igualmente parcial?”. Sim, obviamente. A diferença é que eu estou dizendo pra você, caro leitor, qual é o meu propósito com essa argumentação.

A diferença é que eu estou jogando limpo. E poderia jogar mais limpo ainda, dizendo que sou de esquerda (seja lá o que isso signifique) e sim, acho que há ONGs e ONGs, mas que uma categoria não pode ser ridicularizada e martirizada como um todo pelas falhas de alguns componentes, e, especialmente por tornar a vida dos pobres empresários um pouco mais complicada.

Pronto, as cartas estão na mesa e você pode decidir se a minha argumentação, com base nas minhas orientações e propósitos, é valida para você ou não. Você pode decidir se a minha versão da verdade lhe cabe, se o meu mapa serve ou não para você chegar aonde quer.

Aí o leitor pode argumentar que quem lê Exame sabe bem que visão de mundo está comprando. Concordo. Mas questão é que não é só a Exame que faz isso. Todos os grandes jornais, revistas e TVs deste País (e de outros, por que não) o fazem. Entregam a você, leitor, recortes e interpretações de realidade como realidade.

Os jornalistas mentem não porque contam fragmentos de verdade. É só isso que podemos fazer. Os jornalistas mentem porque vendem verdades absolutas e convencem você, leitor, de que não são pessoas de verdade – com crenças, gênero, orientações políticas e sexuais, preconceitos, motivações e dúvidas. Se o sabem e continuam fazendo, é porque são levianos ou simplesmente precisam manter seus empregos. Se não o sabem, é porque são ingênuos. De toda forma, quem sai mais prejudicado é você, leitor que, afinal, não estava lá pra ver e tem que se contentar em crer.

Ou a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo te contaram que as famigeradas fotos do dinheiro para a compra do dossiê que forjaram o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil vieram acompanhadas de uma recomendação expressa: “tem que sair no Jornal Nacional!”? E depois ninguém entende como dois milhões de votos “de repente” mudaram de lado, como num passe de mágica…

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9 Comentários so far
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Excelente!

Comentário por Thais

Lusa se ferrou, Lusa se ferrou…
A campeã volta à ativa e em grande estilo. O ouro, Lombardi, é dela.

Brilhante, Dani, brilhante…
bjs

Comentário por Vinicius

É isso aí, Dani! Essa argumentação foi muito válida, pelo menos para mim! Vc já viu o documentário “The Corporation”? Vai fundo na ética capitalista e, nos extras, explora também o papel da mídia no meio disso tudo.
Parabéns pelo texto, bjs

Comentário por Rachel

Humm, concordo com vc, o texto está excelente!!! mas ainda acho que os donos das grandes editoras (e não os assalariados jornalistas coleguinhas) são os maiores “culpados”. bjs

Comentário por Silvia

Com certeza, Silvia. Fatores como edição e linha editorial têm um peso fundamental. E quando digo “nós, jornalistas” não me refiro a todos. Mas pra falar a verdade conheço muito jornalista, “pessoa física”, que compra o mesmo discurso e vende as mesmas mentiras do patrão. Aliás, não é de se estranhar. Na faculdade de Jornalismo aprendi que se não dá pra ser imparcial é preciso ser isento – até hoje não entendi muito bem a diferença. Só na faculdade de Ciências Sociais é que aprendi que não dá pra ser um nem outro. Acho que dá pra ser sim bem intencionado, buscar o que se chama em etnografia de “polifonia” (multiplicidade de vozes) e principalmente, mais transparente. É o que tentei fazer neste texto. Mas primeiro temos que fazer um esforço para descer deste posto de bastiões da verdade que nos deram, o que é difícil pra caramba. É um osso que ninguém quer largar e dá pra entender por que. Quer coisa melhor que converncer alguém das suas idéias? E se você não precisar nem fazer muito esforço, tanto melhor.
Beijos,
Dani

Comentário por danielamoreira

Sensacional! Só isso a dizer, afinal, você já disse tudo!
Excelente!

Beijos!

Comentário por Pri

Danizoca,

é isso…pode parecer bobagem, mas se cada um se colocar e assumir seus valores verdadeiramente, o mundo muda simmmmm!!!!

coragem para nos colocar, sempre!!!

e pode deixar que vou sempre te falar das angústias de nós “ongueiros – velha esquerda”!

bjs

Cintia

Comentário por cintia

Show! Mandou muito bem. Assino em baixo!

Comentário por Roberta

[…] “Uma grande besteira”, diria o Seu Dorival da Lapa*, que nunca chegou perto de uma tranqueira eletrônica dessas. Afinal, nada substitui uma boa história, seja ela cheia de verdades ou mentiras, contada na mesa do bar, regada a uma boa gelada e com aquele silencio malandro que faz o tempo parar e a respiração ficar suspensa antes do desfecho triunfal. […]

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