Domínio Público


Educação para quê? by Gerson Freitas Jr.
24 novembro, 2006, 2:02 pm
Filed under: economia, Gerson Freitas Jr., sociedade, tecnologia

Tinha no máximo oito ou nove anos (15 ou 16 atrás) quando comecei a ter as primeiras lições de datilografia. Da esquerda para a direita: “a s d f g”. Da direita para a esquerda: “ç l k j h”. Repetidas vezes, sem “nunca olhar para as teclas”, ensinava meu pai, esperançoso de que a técnica me garantisse um bom emprego no futuro. Afinal, a oitava série e a velocidade dos dedos foram suficientes para começar uma razoavelmente bem-sucedida carreira de 25 anos em um banco.

Seria desnecessário dizer que o mundo do trabalho mudou uma enormidade nesse pequeno espaço de tempo. Transformação que passa por duas palavras: tecnologia e educação. Primeiro, os computadores se popularizaram, e as simpáticas máquinas de escrever viraram peças de museu. Segundo, o ensino fundamental completo não serve mais de nada. Meu pai estava tão bem intencionado quanto errado.

O Brasil registrou um salto importante na educação nos últimos 20 anos. Apesar da péssima qualidade das escolas, alcançamos a chamada universalização. Ou seja, praticamente todas as crianças são matriculadas e uma parte significativa completa pelo menos o primeiro grau. Essa expansão foi apoiada na proposta do Banco Mundial para os países em desenvolvimento, no campo das idéias inspirada na famosa teoria do capital humano.

De acordo com esse preceito, a educação é, antes de qualquer coisa, um investimento econômico. Quanto mais educado ou qualificado, mais produtivo é o trabalhador (na essência, um capitalista, detentor de um bem de produção “intelectual”). Com “colaboradores” mais qualificados, as empresas tornam-se mais eficientes e aptas a crescer. O empregado, que negocia seu “know-how” com a empresa, passa a ganhar mais. A economia cresce e a renda é distribuída à medida que as pessoas passam a estudar e aumentar seu estoque de capital humano.

Acontece que, do outro lado, do ponto de vista da tecnologia, nossos amigos computadores não eliminaram apenas as máquinas de escrever. O fizeram com ainda mais eficácia com os empregos na indústria, nos bancos e até nas centrais de atendimento ao cliente.

O resultado foi que a nossa revolução educacional anômala aumentou a oferta de mão-de-obra (suficientemente qualificada apenas para apertar os botões da máquina que, afinal, é quem faz tudo) para um mercado de trabalho em encolhimento. Resultado: menores rendas (lei da oferta e demanda) por um estoque maior de “capital humano”, para alegria dos empresários. Sim, Marx sabia do que estava falando quando criou o conceito de mais-valia.

Não à toa, as empresas se dão ao luxo de exigir ensino superior, inglês, bons relacionamento e comunicação, espírito de equipe e outras mentiras para empregador dormir até das simpáticas mocinhas que ajudam os velhinhos a mexer em caixas eletrônicos.

De quebra, essa ligação entre escola e trabalho transfere para trabalhador a culpa do desemprego, à medida que o coitado raramente está suficientemente qualificado para garantir uma vaga minimamente decente.  Ninguém mais questiona se há ou não espaço para todos no capitalismo moderno (não, não há). A questão é o nível de “empregabilidade” das pessoas, resultado do esforço pessoal de cada um.

Nada contra expandir a educação. Longe disso! Mas é preciso reformá-la no sentido de formar cidadãos melhores, e não apenas trabalhadores desempregados. Porque, desculpe desapontá-lo, caro leitor, a educação não vai, necessariamente, garantir-lhe um emprego e, tampouco, um bom salário. Se esses ainda são seus objetivos, talvez seja bom ouvir o conselho centenário do magnata americano Paul Getty. “Minha receita para enriquecer? Acorde cedo, trabalhe muito, ache petróleo”.

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5 Comentários so far
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Hahaha. Genial, meu caro… Nessas horas eu penso, “por que eu não nasci no Texas?!?”

Comentário por danielamoreira

Muito bom Gersão. Acho um absurdo, por exemplo, as escolas não ensinarem finanças no segundo grau. A galera começa a trabalhar, ganhar uns míseros tostões e não faz a menor idéia do que fazer com eles. Tem outras coisas que elas deviam ensinar também, afinal, em um mundo onde a maioria de pais e mães trabalha, alguém tem que ensinar alguma coisa da vida para a molecada
abs

Comentário por Lusa

É Junior, é sempre muito bom ler o que você escrever. Concordo com praticamente tudo o que está aí. Com essa educação ridícula, não vamos muito longe. A criançada hoje não quer saber de nada, mas isso porque esse sistema educativo desmotiva muito.
Abs

Comentário por Emerson (Bobby)

Muitas das complexidades que acompanham a educação estão descritas no seu post, de modo absolutante claro.
Há uma frase, porém, que, entendo, sintetiza o espírito do escrito:

“Meu pai estava tão bem intencionado quanto errado.”

Não, ele não estava errado, o pensamento dele estava voltado para a idade moderna, e hoje tudo é absolutamente descartável, desde que não seja o Santo Graal pós-moderno: o mercado.

Há muito de complexo no ato de educar, mas há uma tendência muito grande à simplificação, o que faz com que muitas vezes os focos sejam perdidos.

Gostaria, sinceramente, que você lesse meu blog. Eu adorei ler o seu.

Abraço grande

Comentário por Hilton Besnos

Gostei muito dos seus posts. Posso publicar no meu blog?
Espero resposta

Comentário por Hilton Besnos




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