Domínio Público


Vida delivery by vinacherobino
27 novembro, 2006, 5:19 pm
Filed under: direitos humanos, escrever, sociedade, Vinícius Cherobino

Cruzando a cidade, motoqueiros enfrentam os carros numa batalha épica. Digladiam por espaço, sangue por nesgas de asfalto, ossos por faixas de rolamento. Atacam e são atacados; morrem, matam, são mortos. Atrás, pizzas, japa, quitudes chineses, esfiras, bolos cremosos, comidinhas que se chacoalham e se equilibram e se entrebatem felizes por estarem às vésperas da digestão. Ou, que tal, produtos novíssimos, fresquíssimos, adorabilíssimos, saídos diretamente da fábrica chinesa, nascidos sob delicados e suaves dedos jovens.

Na outra ponta, você. Sentando. Irritado. Esperando. Tamborilando os dedos roliços, esperando a sua encomenda, ansiosamente.

Cada curva é um desafio, cada fechada uma vitória. E vc, baleísticamente repousando, continua esperando sob as instáveis luzes azuis da tevê. Segundos se passam, filhos nascem, filhos acabam de serem criados, acabam de ser eliminados; e o trajeto emocionante da mercadoria está em pleno vapor.

De fora, pela janela, seus milhares de vizinhos se equilibram em seus cubículos sobrepostos. De longe, parece um empilhamento de caixas com discretas janelas, cada vez mais discretas. Atrás delas, telas e barras. Atrás dessas, gente sentada, tamborilando os dedos roliços, esperando aquele que vem. Ele sempre vem. Sempre…

Toca a música do Zeca Baleiro –“meu boy morreu, o que será de mim? Manda buscar outro correndo lá do Itaim”- e continua esperando. Puto da vida, detestando tudo isso, esperando. Esperar é uma merda.

Na tevê, assiste comerciais de emagrecimento. Quem espera fica com a bunda gorda. Mas, felizmente, já bolaram uma solução. Apenas 55 minutos se equilibrando num pirulito gigante; tiro e queda. Se, de esperar, ficou velho, também temos a solução: formas mais em conta para esticar quimicamente a pele que se contorce, retorce-se, distorce. Nem os anos são finais.

Você, que já chegou até a levantar, se senta de novo. Assim não é possível.

Chegou. O porteiro não deixa ninguém subir, você precisa descer. Você odeia descer. Você prefere esperar.

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