Domínio Público


Sinceridade by Daniela Moreira
30 novembro, 2006, 5:07 pm
Filed under: Daniela Moreira

Leitor do Domínio, prepare-se para um momento de terrível sinceridade desta blogueira (inspirada pelo Rubem Braga e sua excelente crônica “Ao Respeitável Público”). Estou sem idéias e sem tempo pra escrever. Reedito aqui, portanto, um conto, que embora inédito (só o meu leitor número um pôde apreciá-lo, com exclusividade), não é inteiramente novo.

O leitor pode encarar esse ato de rebeldia como um quebra de paradigma (afinal, porque o Domínio só publica crônicas e artigos?!?), como uma oportunidade de conhecer um outro lado desta blogueira que vos escreve ou como pura picaretagem mesmo. Fica a seu critério. Aproveite!

A datilógrafa

Despertou uma hora mais cedo e não havia jeito de dormir de novo. Era aquela idéia teimosa que voltava a lhe aporrinhar logo de manhã. Pensamento grudento é assim, quando dá pra amolar a cabeça da gente, não sai do pensamento até que, de tanto tentar se esquivar, a gente acaba pensando mesmo sem querer. Aquele pensamento que ia e voltada de tempos em tempos, chegou naquela manhã pra perturbá-la e tirá-la da cama uma hora mais cedo. Eram as palavras da tia Neide, que mais uma vez se repetiam feito disco riscado na sua cabeça.

– Você tem jeito, filha. Olha os dedinhos dançando em cima das letras, que belezinha!

Tia Neide franzia a testa e olhava por cima do par de óculos fundo-de-garrafa pra ver com mais nitidez os fhebeuygbygayghoiiçpoqruikhtks que a pequena batia ao acaso na velha Olivette verde-exército. Sandoval, o filho mais velho, abandonara a engenhoca quando se mudou de vez pra casa de Maria dos Remédios e virou biscateiro, arrimo de família, pai provisório dos dois filhos da quarentona desquitada, empregada doméstica, cor de café-com-leite, como a tia costumava dizer. Nunca digerira bem a partida do primogênito – o único da família que completou os estudos e que tinha pela frente promissora carreira em firma que assina carteira e dá cesta básica –, por isso mantinha a velha máquina de escrever sempre em cima da mesa de jantar da sala, como que esperando que o rebento entrasse pela porta e retomasse o trec-trec até altas horas da madrugada. Gostava da sinfonia das martelas das teclas – barulho de gente inteligente trabalhando –, mas nem se atrevia a apertar aqueles ganchos saltados pra fora. Tinha medo de enfiar o dedo pelo vão adentro e enganchar uma unha – Deus me livre! Mas quando a pequena ia visitá-la – já chegava com os olhos pidões voltados à mesa de jantar, fitando seu brinquedo preferido –, tirava a toalhinha de crochê creme de cima da Olivette e perdia um tempão vendo a menina dedilhar a geringonça.

A menina também gostava do trec-trec, mas eram as letrinhas, todas ali de mãos dadas, que lhe agradavam de verdade. Mais tarde, quando aprendeu juntar vogal com consoante, sílaba com sílaba e formar palavras de verdade, aquilo lhe parecia ainda mais fascinante. A tia, quando já fraquejava dos ouvidos e não conseguia mais escutar a sinfonia de martelos, perdeu as esperanças de ver Sandoval entrar pela porta e deu de presente a velha quinquilharia à sobrinha.

– Vai aprender bater à máquina, filha, que você dá pra isso. Sempre deu, desde pequena. Os dedinhos dançavam em cima das letras. Uma belezinha.

Achou que era boa idéia mesmo, mas na época era muito menina, além do mais não tinha dinheiro pra pagar as tais aulas. Foi ser empacotadeira de mercado, ganhar uns trocados. Com o tempo, acabava retomando a vocação, pensou. Em uns anos, de empacotadeira foi promovida à caixa registradora. O gerente achou que era esperta e tinha razão, pois manuseava a registradora mais rápido que qualquer uma. Levava jeito com as teclas – desde pequena, a tia dizia. Até gostava do trabalho no mercadinho. Era movimentado, tinha gente nova, gente conhecida, às vezes gente mal-educada. Mas, no geral, era bom. Só que às vezes a tal idéia teimosa voltava à cabeça, como naquela manhã em que perdeu o sono.

Embora lhe agradasse, era um pouco trabalhosa demais. Teria que sair correndo de mercadinho pra chegar a tempo pras aulas. E o dinheiro, mesmo com as economias do colchão, era curto demais. Ia faltar. Ia ter que apertar o cinto. Além do mais, ninguém garantia que daria resultado. Tinha talento, era verdade. Era só uma questão de tomar umas aulas pra melhorar a prática. Poderia bater receitas de bolo, cartas, listas de supermercado, só pra começar a treinar. Poderia bem arrumar um trabalho melhor, trabalhar de meia fina e salto alto, em escritório de doutor ou repartição pública. Podia escrever trabalho de escola pra gente que não tem tempo ou não sabe bater à máquina. Tinha gente que ganhava dinheiro assim, ela sabia. Seria datilógrafa. Era o que dizia o letreiro do sobradinho, que ficava duas quadras pra baixo do mercado: Escola de Datilografia. Ali se davam aulas de como bater à máquina. Bater à máquina não, datilografar. Era assim que se dizia. Ensaiara entrar lá um tanto de vezes, e, de fato, entrou em mais de uma ocasião. A moça da recepção lhe dissera os preços e os horários, mais de uma vez. Gravou na cabeça, matutou, matutou, mais de uma vez. Mas o dinheiro era curto. E ninguém garantia… Além do mais, vivia tendo essas idéias malucas. De vez em quando acordava achando que podia ser bailarina. Saia pro trabalho de sapatilhas-ponta e saiote rosa. Lá pela hora do almoço, era primeira bailarina. Mas ao entardecer já era caixa de novo. Quanta bobagem!, pensava, quando batia o ponto.

Era mais ou menos assim com a história de bater à máquina. A idéia ia e vinha, de quando em quando. Mas com essa, era diferente. Porque sabia que tinha jeito. E a máquina estava lá, no canto do guarda-roupa, onde não tinha nem sapatilha nem saiote rosa. Era só tirar a poeira e melhorar um pouco a prática. A escola ficava a duas quadras do mercadinho. Fazendo uma força, dava pra chegar no horário. E também, nem era tão caro assim. Só ia ter que apertar um pouco o cinto. E se vestisse agora o uniforme dava tempo de passar na escola antes do trabalho – acordara uma hora mais cedo e ia ficar à toa mesmo.

Tirou depressa a camiseta puída, lavou o rosto, escovou os dentes, puxou os cabelos e prendeu em um novelo no topo da cabeça com meia dúzia de grampos. Vestiu o uniforme verde, pegou a bolsa, trancou a porta e saiu, a passos largos. Andou reto por duas quadras, subiu a ladeira, quebrou à esquerda, andou mais três quadras, passou pelo mercadinho – as portas ainda fechadas – seguiu reto por mais dois quarteirões. O portão do sobradinho branco estava aberto. Subiu as escadas, um pouco ofegante. Abriu a porta. No balcão, uma moça magricela, de salto-alto e meia fina falava com a recepcionista. Olhou pros lados, impaciente.

– Pode sentar. Já te atendo em um minuto, menina – disse a voz monótona, que veio de trás do balcão.

Exitou. Sentou. A conversa estava demorada. Olhando a magrela de saia cinza e blusa branca, pensou que não deveria ter vindo de uniforme. Mas também, se não fosse assim, não daria tempo. Eram só duas quadras do mercadinho, mas o tempo era curto. Ficaria corrido. Podia se atrasar. Pensando bem, seria difícil chegar na hora pras aulas. E também, se o preço tivesse aumentado, não ia dar. Mesmo que fosse o mesmo, ia ter que apertar o cinto. Além do mais, ninguém garantia… Levantou-se depressa.

– Senhora!

Desceu as escadas. Apertou de novo o passo. Ia chegar atrasada no trabalho. Voltou duas quadras e quando chegou, as portas do mercadinho já estavam se abrindo. Sentou na sua cadeira e respirou um pouco aliviada. Gostava da caixa registradora. Sabia manuseá-la mais rápido que qualquer outra caixa do mercadinho. E podia voltar à escola outro dia. Talvez amanhã. Podia acordar um pouco mais cedo. Umas duas horas talvez fossem o suficiente pra vestir uma outra roupa, ir até lá, e voltar a tempo de colocar o uniforme. Tinha jeito, dava pra coisa. Era só praticar melhor. Poderia escrever receitas e cartas. E talvez bater trabalhos de escola. E também arranjar um emprego em escritório ou repartição. Amanhã, com certeza, pensou.

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1 Comentário so far
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Adorei, muito bom. Mas eu gosto de finais felizes… bjs (amanha – ops… hj – começo no emprego novo, depois mando as coordenadas)

Comentário por Silvia




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