Domínio Público


Andando de bicicleta by vinacherobino
21 novembro, 2006, 9:13 pm
Filed under: Análise da Mídia, Vinícius Cherobino

A primeira vez que andei de bicicleta foi inesquecível. Não que tenha sido de um jeito americano, de filme, com o pai Bernardinho incentivando atrás, acompanhando a bicicleta que voa sob a linha do horizonte. Não havia ruas amplas e retas, nem tampouco horizonte. Lembro que havia a garagem, de uma escuridão úmida, e um grupo de moleques com a mesma ânsia de aprender.

Era desajeitado. Não dos piores, mas longe de ter nascido para aquilo. Não me ajeitava bem, não sabia como responder aos outros, nem entendia o que esperavam de mim os mais velhos. Via as tentativas de apoio como crítica escamosa, os toques nos ombros eram um empurrão covarde, que não pode se concretizar pelo ambiente ou por, sei lá, por pura falta de coragem.

Na beira da “pior ladeira”, que nada mais era do que a rampa mais íngreme de toda a garagem, ficávamos a nos desafiar. Quem teria coragem de montar na bike e encarar a bagaça? O espaço para curva era tão pequeno que dava medo. Mal tinha aprendido a andar no veículo, passava o tempo a dar graças por ter andado mais alguns metros sobre a bicicleta, mais alguns meses sem cair.

E eu caí. Foi feio. Acho que é por que não estava perto da “pior ladeira” ou por que, secretamente, queria cair. Talvez a dor da queda não seja tão dolorida quanto dizem, né? Mas foi feio, cai de bunda, no chão, de frente para todo mundo. Não chorei, por que os anos de desenvolvimento me fizeram mais hipócrita, mais blasé, mais covarde.

Hoje, mal tenho tempo de andar de bicicleta. Mas, às vezes, a vida me obriga. Quando subo no banco, me lembro do cagaço primeiro. E me lembro do tombo. E sinto o mesmo medo de novo, medo de sempre.

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Por que os jornalistas mentem by Daniela Moreira
16 novembro, 2006, 4:34 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, ecologia, jornalismo

O leitor já deve ter ouvido, durante uma discussão acalorada, o seguinte argumento: “mas é verdade, eu li na revista tal [veja, não é preciso dar nome aos bois, pois o leitor sabe bem quem são eles…]”. Se o leitor não é jornalista – ou é, e por acaso está no grupo daqueles que vêem, mas preferem não enxergar – aí vai uma revelação bombástica: os jornalistas mentem.

OK, nem é tão bombástica assim. Mas acontece que muita gente ainda compra jornal e revista como quem adquire opiniões e lê tudo que está escrito como quem se intera de fatos, e puramente fatos. A culpa não é apenas da ingenuidade do leitor, mas de um consenso estabelecido de que a mídia diz a verdade.

As ciências sociais e a filosofia passaram o último século debatendo a capacidade humana de chegar a verdades e hoje já é carne de vaca: é impossível. O ser humano representa, simboliza, racionaliza e chega a algo que é como o mapa para o churrasco no sítio do seu amigo: as vias, curvas e referências estão lá, “representadas”, mas nem de longe traduzem toda a riqueza de detalhes do caminho. Não é mentira, mas não é verdade.

Se há mais de 250 anos Kant já anunciava os limites do intelecto humano, nós, jornalistas, preferimos enganar você, leitor, vestindo a camisa da imparcialidade e da isenção. Claro! As pessoas passam a vida inteira querendo ser “donas da verdade” e nós, que já nascemos com essa prerrogativa, vamos abrir mão assim fácil? Nem a pau, Juvenal.

Veja o exemplo da matéria de capa da última edição da revista Exame, que escandalizou a amiga e ativista de todas as causas da humanidade, Cíntia Kogeyama, e motivou este post. A capa já anuncia o que vem por aí: “ONGs os novos inimigos do capitalismo”. A foto é de um “subversivo”, atacando um objeto contra a pobre e bem-intencionada Polícia de choque brasileira, que só usa de artifícios “morais”, como bem sabemos, para coibir as manifestações desses terroristas disfarçados de boas intenções.

Aí vem o olho: “Os prejuízos e desafios das empresas brasileiras na convivência com grupos radicais que lutam contra o livre comércio, a globalização e o agronegócio”. Ou seja, de saída sabemos que ONG é sinônimo de problema e não solução. O que se segue é um festival de declarações imparciais e isentas do tipo:

“Os ativistas na defesa do meio ambiente iniciaram, nos últimos meses, um novo ciclo de espalhafatosas ações de protesto contra as grandes empresas”: A matéria é aberta com uma descrição que pinta os ativistas como personagens ridículos que se vestem de frango e saem cacarejando pelas ruas (sem mencionar, de cara, que esses mesmos ativistas ridículos, vestidos de frango, conseguiram conter, pelo menos temporariamente, a plantação de soja na Amazônia).

Ainda sobre a soja: “Os produtores também argumentam que a soja só ocupa áreas previamente degradadas por madeireiros”. Ahhhh, bom. Se é assim, tudo bem.

E continua: “Segundo a nova ideologia, o mundo de hoje seria dominado por gigantescas corporações interessadas em ganhar muito dinheiro à custa da saúde das pessoas e do planeta”. Que absurdo!!!

Ou ainda: “As ONGs acreditam que o capitalismo aumenta a divisão entre os ricos e os pobres”. Só as ONGs pra pensarem uma coisa dessas…

E só pra fechar com chave de ouro: “Acuadas pelas forças dos ativistas (ou “chantagistas verdes”, como foram batizados por seus críticos), muitas multinacionais acabam cedendo a seus apelos”. Tadinhas…

Não é que não haja argumentação a favor das ONGs: ela ocupa, primordialmente, a última meia página de uma matéria de oito. O que há, claramente, é um peso muito maior aos argumentos dos empresários, que se evidencia desde a capa até a retranca – “A caixa-preta das ONGs” – que revela como as ONGs são, na verdade, esquemas de manipulação política, lavagem de dinheiro e toda sorte de picaretangens possíveis e imagináveis e traz como box uma entrevista com um ex-ativista do Greenpeace descendo a lenha na ONG verde.

O leitor perspicaz pode muito bem agora argumentar: “Bem, mas você selecionou os trechos que ilustram o seu argumento, ao seu bel prazer. Você não está sendo igualmente parcial?”. Sim, obviamente. A diferença é que eu estou dizendo pra você, caro leitor, qual é o meu propósito com essa argumentação.

A diferença é que eu estou jogando limpo. E poderia jogar mais limpo ainda, dizendo que sou de esquerda (seja lá o que isso signifique) e sim, acho que há ONGs e ONGs, mas que uma categoria não pode ser ridicularizada e martirizada como um todo pelas falhas de alguns componentes, e, especialmente por tornar a vida dos pobres empresários um pouco mais complicada.

Pronto, as cartas estão na mesa e você pode decidir se a minha argumentação, com base nas minhas orientações e propósitos, é valida para você ou não. Você pode decidir se a minha versão da verdade lhe cabe, se o meu mapa serve ou não para você chegar aonde quer.

Aí o leitor pode argumentar que quem lê Exame sabe bem que visão de mundo está comprando. Concordo. Mas questão é que não é só a Exame que faz isso. Todos os grandes jornais, revistas e TVs deste País (e de outros, por que não) o fazem. Entregam a você, leitor, recortes e interpretações de realidade como realidade.

Os jornalistas mentem não porque contam fragmentos de verdade. É só isso que podemos fazer. Os jornalistas mentem porque vendem verdades absolutas e convencem você, leitor, de que não são pessoas de verdade – com crenças, gênero, orientações políticas e sexuais, preconceitos, motivações e dúvidas. Se o sabem e continuam fazendo, é porque são levianos ou simplesmente precisam manter seus empregos. Se não o sabem, é porque são ingênuos. De toda forma, quem sai mais prejudicado é você, leitor que, afinal, não estava lá pra ver e tem que se contentar em crer.

Ou a Rede Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo te contaram que as famigeradas fotos do dinheiro para a compra do dossiê que forjaram o segundo turno das eleições presidenciais no Brasil vieram acompanhadas de uma recomendação expressa: “tem que sair no Jornal Nacional!”? E depois ninguém entende como dois milhões de votos “de repente” mudaram de lado, como num passe de mágica…



Ceni na Fazenda, Chilavert no BC e Campos no Tesouro by Eduardo Simões
15 novembro, 2006, 12:08 pm
Filed under: economia, Eduardo Simões, esportes, futebol, futebol brasileiro, infra-estrutura

Como um Ronaldo, não os atacantes, o histórico goleiro do Corinthians na década de 1990, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deu na segunda-feira um enorme esporro em seus zagueiros, laterais e volantes.

 Defendendo a política de juros, o guardião da moeda disse que, se um time é violentamente atacado pelo adversário e seu goleiro vive dia sensacional defendendo até sombra e segurando o placar no zero, é possível que a torcida fique frustrada, pois os três pontos são necessários, mas “essa frustração será má expressa se o goleiro passar a ser cobrado por não marcar gols”. Em suma, Meirelles tentou imitar Ronaldo e aplaudir Gralak após a falha do zagueiro, colocando-o contra a torcida.

Os Gralaks da equipe econômica de Lula não tiveram, pelo menos ainda, a mesma reação do ex-zagueiro de Corinthians, Paraná e Coritiba, mas a comparação futebolística do ex-tucano e ex-presidente mundial do Bank Boston que virou presidente do BC de um “governo operário” acenderam uma lâmpada na minha cabeça.

Imaginem a partir de janeiro uma equipe econômica formada pelo ministro da Fazenda, Rogério Ceni; pelo presidente do Banco Central, José Luis Chilavert; e pelo secretário do Tesouro Nacional, Jorge Campos.

Sensacional hein? Digno de o Bussunda voltar aos vivos e, vestido de Lula, invadir o gabinete presidencial e dizer ao presidente: “Seus problemas acabaram!!!”

Aposto que os três arqueiros aceitariam a incumbência. Chilavert e Campos já penduraram as chuteiras. O primeiro já manifestou desejo de seguir carreira política, não deve ser difícil convencer o segundo. Quanto a Rogério, com a conquista do tetra-brasileiro pelo São Paulo, que se aproxima, ele já terá ganho tudo o possível pelo clube do Morumbi, com uns recordes de brinde, estará na hora de ajudar seu país.

Mais difícil seria convencer Diego Lugano a deixar o futebol turco e assumir a secretária-executiva da Fazenda. Ah sim, porque eu duvido que o Rogério aceite ter o Paulão ou o Wilsão como secretário-executivo. Coitado, ele já teve sua cota de zagueiros limitados.

Composta a equipe, formada por três goleiros artilheiros nos três principais postos da economia brasileira, a defesa da meta (a do futebol, não a de inflação) e a artilharia estarão garantidas.

É uma idéia meio maluca né? Concordo, Quem tiver algo melhor que dê um passo à frente, isso é tudo que tenho. Ainda mais depois da esquizofrenia da segunda-feira. O governo desmentindo o próprio governo e dizendo que, ao contrário do que disse o governo, o país cresce 5 por cento só em 2017 (isso, dois mil e dezessete, não foi um erro de digitação).

Aí, meu amigo, com o Oséas “chutando” de cabeça para as próprias redes, não há Lev Yashin que resolva.

Isso sem falar nos constantes gols contra dos apagões. O aéreo, o elétrico, o das estradas, o da saúde, o da segurança



Desconectados by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2006, 1:52 pm
Filed under: escrever, Gerson Freitas Jr., internet, tecnologia

São pouco mais de cinco horas da tarde na redação, onde jornalistas têm olhos grudados em seus terminais. Faz-se um quase silêncio, que não o é apenas pelo ruído dos teclados, frenéticos, e vozes que sussurram indecifráveis nos telefones. Elas tratam das informações que surgem na tela na velocidade insana do mercado financeiro: dinheiro, ações, derivativos, balanços, contratos futuros, números que sobem e descem nas bolsas de valores, de commodities, Nova York, Londres, Chicago, São Paulo, um olho na China, que ainda acorda, e outro na TV, no centro do mundo. Bush fala. A notícia não pára.

De repente, a reclamação ecoa. O sistema caiu! Não há internet, não tem e-mail, os números que pipocam na tela a todo instante dão lugar a mensagens de erro. Fecham-se as portas para o mundo. A linha de produção é interrompida e a imensa engrenagem informacional entra em colapso.

Como que um personagem de Saramago que não mais vê o mundo diante de uma súbita cortina branca como o leite, começo a pensar o que seria do mundo se, por um dia que fosse, as redes de computadores em todo o planeta, nas casas e escolas, empresas, bolsas de valores, bancos, lojas e governos, da Casa Branca à prefeitura de Ribeirão Pires, de repente parassem de funcionar. Nada de internet, nada de mensagens eletrônicas ou informações em tempo real.

Numa primeira reação, as pessoas sacam do bolso seus celulares a fim de dar notícias a clientes, parceiros, amigos, chefes, empregados, familiares e percebem que também não há mais telefone, pois, na era digital, as centrais telefônicas também dependem dos computadores.

Uma hora, duas horas, três, quatro…a espera é persistente. O sistema tem de voltar. Ele sempre volta. E o trabalho precisa ser feito. Ele sempre tem de ser terminado. Mais um tempo e a esperança dá lugar à constatação de que o melhor é ir pra casa, para a satisfação disfarçada de muitos. O problema é que não dá pra sair. O trânsito é caótico. Semáforos apenas piscam sua luz amarela, desconectados dos sistemas que o regem e, agora, jazem inconscientes. Também o metrô e os trens não circulam, sem comunicação entre as composições e os centros de controle. Também os aviões não decolam e os que estão no ar tentam arriscados pousos de emergência.

Não se sabe se é um problema localizado, deste bairro, de São Paulo, ou se é o mundo todo que, antes acessível a um toque, tenta agora em vão se comunicar com a vizinhança. Nas ruas, a tensão aumenta. A polícia tenta organizar o fluxo de carros e pessoas que, atônitas, andam de um lado para o outro à procura de alguma informação. Lojas não compram e não vendem, desconectadas de seus sistemas de cobrança, e agora tentam evitar saques e outros atos de vandalismo, que começam a acontecer.

De repente, parece que as pessoas não mais sabem onde estão. Não, elas definitivamente NÃO sabem. Já fazia algum tempo em que elas existiam e se moviam apenas na esfera virtual. Viajavam de Nova York a Xangai sem sair do lugar, falavam com pessoas com quem nunca haviam estado, faziam amigos, compravam, vendiam em lojas que não existem, e assaltavam bancos sentadas em suas confortáveis poltronas, conectadas a um espaço abstrato, mas que movimenta o real.  

De repente, um colega sentado a cinco metros da minha mesa, com quem nunca havia trocado mais que um aceno com a cabeça no corredor, interrompe a minha elucubração. “Alguém aí quer jogar War?” Três segundos de hesitação. Desligo minha máquina e aceito o convite. É hora de aprender a se ressocializar. Antes que seja tarde. 
  



Desconectados by Gerson Freitas Jr.
14 novembro, 2006, 1:51 pm
Filed under: Uncategorized

São pouco mais de cinco horas da tarde na redação, onde jornalistas têm olhos grudados em seus terminais. Faz-se um quase silêncio, que não o é apenas pelo ruído dos teclados, frenéticos, e vozes que sussurram indecifráveis nos telefones. Elas tratam das informações que surgem na tela na velocidade insana do mercado financeiro: dinheiro, ações, derivativos, balanços, contratos futuros, números que sobem e descem nas bolsas de valores, de commodities, Nova York, Londres, Chicago, São Paulo, um olho na China, que ainda acorda, e outro na TV, no centro do mundo. Bush fala. A notícia não pára.

De repente, a reclamação ecoa. O sistema caiu! Não há internet, não tem e-mail, os números que pipocam na tela a todo instante dão lugar a mensagens de erro. Fecham-se as portas para o mundo. A linha de produção é interrompida e a imensa engrenagem informacional entra em colapso.

Como que um personagem de Saramago que não mais vê o mundo diante de uma súbita cortina branca como o leite, começo a pensar o que seria do mundo se, por um dia que fosse, as redes de computadores em todo o planeta, nas casas e escolas, empresas, bolsas de valores, bancos, lojas e governos, da Casa Branca à prefeitura de Ribeirão Pires, de repente parassem de funcionar. Nada de internet, nada de mensagens eletrônicas ou informações em tempo real.

Numa primeira reação, as pessoas sacam do bolso seus celulares a fim de dar notícias a clientes, parceiros, amigos, chefes, empregados, familiares e percebem que também não há mais telefone, pois, na era digital, as centrais telefônicas também dependem dos computadores.

Uma hora, duas horas, três, quatro…a espera é persistente. O sistema tem de voltar. Ele sempre volta. E o trabalho precisa ser feito. Ele sempre tem de ser terminado. Mais um tempo e a esperança dá lugar à constatação de que o melhor é ir pra casa, para a satisfação disfarçada de muitos. O problema é que não dá pra sair. O trânsito é caótico. Semáforos apenas piscam sua luz amarela, desconectados dos sistemas que o regem e, agora, jazem inconscientes. Também o metrô e os trens não circulam, sem comunicação entre as composições e os centros de controle. Também os aviões não decolam e os que estão no ar tentam arriscados pousos de emergência.

Não se sabe se é um problema localizado, deste bairro, de São Paulo, ou se é o mundo todo que, antes acessível a um toque, tenta agora em vão se comunicar com a vizinhança. Nas ruas, a tensão aumenta. A polícia tenta organizar o fluxo de carros e pessoas que, atônitas, andam de um lado para o outro à procura de alguma informação. Lojas não compram e não vendem, desconectadas de seus sistemas de cobrança, e agora tentam evitar saques e outros atos de vandalismo, que começam a acontecer.

De repente, parece que as pessoas não mais sabem onde estão. Não, elas definitivamente NÃO sabem. Já fazia algum tempo em que elas existiam e se moviam apenas na esfera virtual. Viajavam de Nova York a Xangai sem sair do lugar, falavam com pessoas com quem nunca haviam estado, faziam amigos, compravam, vendiam em lojas que não existem, e assaltavam bancos sentadas em suas confortáveis poltronas, conectadas a um espaço abstrato, mas que movimenta o real.  

De repente, um colega sentado a cinco metros da minha mesa, com quem nunca havia trocado mais que um aceno com a cabeça no corredor, interrompe a minha elucubração. “Alguém aí quer jogar War?” Três segundos de hesitação. Desligo minha máquina e aceito o convite. É hora de aprender a se ressocializar. Antes que seja tarde. 
  
  



As mentiras que certos homens contam by vinacherobino
13 novembro, 2006, 12:29 pm
Filed under: sobre a garota do horário de verão, Vinícius Cherobino

– Plantada, estou, aqui, plantada.

Ela olha nervosamente para os lados. Direta –movimento surpreendentemente rápido da cabeça-; Esquerda –movimento assustadoramente irritado da cabeça-; Centro. Pára exatamente no centro, no copo, de vinho. No centro da mesa, rezava para que o copo roxo fosse um escudo, escudo velho acabado, manchado de um sangue ressecado. Uma proteção aos olhos inquisidores do redor, olhos múltiplos, infinitos, que insistem em fuzilar, curiar, tentar uma invasão. Estava sozinha.

– Calma. Só faz uma hora. Só pode ser o trânsito.

Não era o trânsito. Apesar de São Paulo oferecer trânsitos para todos os gostos, não era trânsito.

– Ai, já é quase Meia-Noite. Ah não, agora é uma hora já, mudou hoje. Eu gosto do horário de verão, demora mais para anoitecer. É legal voltar para casa vendo o sol caindo aos pouquinhos. Tá certo que em São Paulo a poluição dá o bônus de uma explosão psicodélica –rosas, roxos e vermelhos-sangue- mas arco-íris é arco-íris.

Não era o trânsito.

– Ai, que grande filho-de-uma-puta. Levei um bolo.

Acontece.

– Acontece sim, mas não comigo. Não comigo! Eu sou horrível…

Volta para o carro. Sentada, abre o celular. Murmura uma última promessa.

– Vou ligar uma última vez para esse filho-de-uma-puta.

O celular dele, a essa altura, deve ter umas trocentas chamadas não atendidas. Num instante, atende. Voz de sono. A azeitona do último Martine, réquiem de uma noite que se recusava a acreditar morta, desfaz-se ante a fúria que ferve o drinque.

***

O que ele disse? O QUE ELE DISSE? VOCÊ ESTÁ ME PERGUNTANDO O QUE AQUELE FILHODUMAPUTA DISSE?

Inventou uma história maluca, cheia de coisinhas, historinha. Depois, teve a pachorra de me falar que se atrapalhou com o horário de verão.



Gato da Vizinha by Domínio Público
10 novembro, 2006, 3:35 pm
Filed under: Flavius Deliberalli, sociedade

Por Flavius Deliberalli

Depois de tanto xingar, gritar, atirar pequenos objetos e tudo o mais, tive que me render à preguiça e aos encantos do maldito gato da minha vizinha. O bichano adora se espreguiçar e tirar uma soneca em cima do capô do meu carro. Porém, se não fosse o tal, a essa altura estaria a pé.

Na última sexta-feira, havia saído com minha namorada, e por conta do horário, acabei ficando na casa dela. Meu carro ficou com meu irmão, pois ele não teve a mesma sorte que eu e não conseguiu prolongar o feriado de finados.

Por volta de meia-noite, minha vizinha partiu em sua rotineira busca pelos arredores da Rua Heitor Peixoto, atrás de seu dócil gatinho, aquele mesmo que adora dormir em cima do capô do meu carro. Quando a moça colocou os pés na rua, se deparou com quatro marmanjos. Dois já estavam dentro do carro, do meu carro, e os outros dois davam cobertura. Os quatro se assustaram, mais que a minha vizinha, e deram no pé, deixando para trás meu humilde carrinho com as portas escancaradas e uma enorme chave de fenda, que no mínimo, foi utilizada para abrir as portas do carro.

A vizinha, depois do susto, e de ter encontrado seu preguiçoso animalzinho, tocou a campainha de casa e avisou meu irmão, que desceu até a rua e fechou o carro.

Graças a Deus tenho seguro, e a perda do carro seria restituída. Mas e a segurança pública? E o direito de ir e vir, ou de pelo menos, parar meu carro na frente da minha casa!!!??!!! Moro, praticamente, no quarteirão da Delegacia de Polícia aqui do bairro, mas parece que a bandidagem ultimamente não liga muito para a Polícia. E os milhões que deixamos de gastar com nossa família para pagar impostos, que há séculos não são aplicados onde realmente devem ser?

Se eu fosse reclamar para o Lula, certamente ele iria querer colocar o Exército nas ruas. Se eu procurasse o Alckmin, ele diria que a situação está sob controle. Dos bandidos, é claro!!!

É por essas e por outras que anulei meu voto. Entre o bom moço omisso e o barbudo corrupto por cumplicidade, prefiro o gato da vizinha, desde já meu herói.