Domínio Público


Uma menina by Daniela Moreira
19 dezembro, 2006, 5:47 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, escrever

Toda mensagem de Ano Novo é piegas e a blogueira aqui não ousaria romper com esta tradição. Trago aqui aos caríssimos leitores do Domínio e aos amigos em geral, minha mensagem de final de ano, tão piegas quanto todas as outras que circulam por aí, mas antes de tudo sincera.

Outro dia li em um blog uma suposta frase do Paulo Francis, que dizia que escrever é uma forma de existir para os outros. Honestamente, não sei se é mais uma das lendas da web (como aquelas correntes que levam o nome do Jabor ou do Veríssimo) e para ser sincera achei modesto demais para o grande Francis (e seu grande ego), mas a frase é boa e reflete um pouco do que quero dividir com vocês neste post.

Uma história de uma menina que adorava escrever. Uma história piegas – reitero aos leitores mais pragmáticos e menos dados aos melodramas, que é melhor parar por aqui -, que começa com palavras cruzadas na escada, sua mãe ditando as letras para preencher os quadradinhos e formar palavras.

A menina, que começou amando as palavras, cresceu e aprendeu amar os livros e as histórias, e descobriu que o queria mesmo fazer da vida era escrever livros e contar histórias. Virou jornalista, como viram muitos aspirantes a contadores de histórias, e descobriu que, na vida real, jornalistas às vezes contam mais fábulas que histórias de verdade, e se entristeceu.

Escrever, para ela, virou dever. Dever às vezes dá prazer, mas nem sempre, e é, antes de tudo, dever. Lendo as notícias e aprendendo como se fazem as notícias, a menina aprendeu que o mundo é mesmo cheio de guerras, de morte e de coisas terríveis. E também cheio de mentiras. E se cansou de contar histórias, e se entristeceu.

Mas um dia um querido amigo a convidou a escrever novas histórias. A menina, que há muito queria colocar de novo no papel aquilo que realmente achava que valia a pena ser escrito, se alegrou. E voltou, como na sua meninice, a escrever histórias do coração, da alma, das suas verdades, das coisas ao seu redor, ao seu modo, ao seu sabor. Mesmo com uma pontinha de dever.

É engraçado como às vezes uma coisa boba, um parar pra pensar sobre as coisas, pra valer, muda a vida da gente. É engraçado como escrever um texto às vezes muda a vida da gente – ou pelo menos a da menina. E a menina ficou menos triste. Não que não sofra pelas guerras, pelas mortes e pelas coisas terríveis. A menina tem um coração tolo e muito frágil, que vive chorando as tristezas dos outros, que, afinal, são de todos nós mesmo.

Mas a menina aprendeu, refletindo e escrevendo suas histórias, que é preciso ter fé, não a fé das religiões (que às vezes causa tanta dor e tanta tristeza), mas fé em si. Na sua capacidade de escrever novas histórias, independente de quem vai ler. Fé nos pequenos atos – não das nações e das companhias, mas das pessoas. Na capacidade de mudar de cada um e na vontade de mudar de cada um. Fé que ao contar sua história cada um tem um pouco a oferecer ao outro e que o outro está aberto sim a ouvir nossa história, assim como devemos estar abertos a ouvir as suas.

Fé que é possível existir, apesar das guerras, de morte e de coisas terríveis – e sem jamais perder a sensibilidade de se entristecer -, em uma realidade diferente daquela que nos é dada, mesmo que no intervalo de um texto, na tela do computador. Escrevendo, a menina, como Francis (ou quem quer que tenha dito a tal frase lá em cima), reencontrou uma nova forma de existir.

A menina agradece, portanto, a todos que passam por aqui (e que ainda passarão) e a ajudam a existir na sua forma mais apaixonada – escrevendo – e deseja que vocês em 2007 – e sempre – possam existir nas suas paixões, pequenas, como este Domínio, ou grandiosas, sem medo, principalmente, de dar o primeiro passo, mesmo que o caminho pela frente pareça longo demais para ser percorrido.

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5 Comentários so far
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Lindo, como sempre! Feliz Natal e não deixe de correr atrás do seu sonho, menina!

Beijo natalino da sua ex-companheira de blog,
Cy

Comentário por Cylene

Que menina gente-boa essa! Compartilho desse poder transformador de escrever, ah, que maravilha! Feliz 2007 a você, Dani, e ao Vinícius! Muitas frases libertadoras e palavras encantadas pra vcs
beijão, Quel

Comentário por Rachel

Ah, minha querida! Mais uma vez, deixou seu amigo de coração mole emocionado – e, claro, orgulhoso. Que você siga colocando no papel “o que realmente vale a pena ser escrito, como na sua meninice, a escrever histórias do coração, da alma, das suas verdades, das coisas ao seu redor, ao seu modo, ao seu sabor”. Nunca, se esquecendo da “pontinha de dever”. Beijos!!!!!

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Querida Dani, vc se superou nesse texto, com que me identifiquei em inúmeras passagens. Muito apropriado mesmo para essa época em que se compra de um tudo, menos o espírito natalino….
Feliz Natal e um 2007 fenomenal.
Bjs

Comentário por Silvia

Bravo !!!

… que 2007 seja um ano de intensa inspiração para que nós, leitores, amigos e curiosos, possamos continuar vivenciando sempre mais desta menina.

beijo, Eli Yamauchi

Comentário por Eli




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