Domínio Público


Não existe almoço grátis II by Eduardo Simões
10 janeiro, 2007, 2:12 pm
Filed under: dia-a-dia, Eduardo Simões, sociedade

Podem me chamar de sovina, avarento e pão-duro. Eu devo ser mesmo. Sou tão sovina que não quis gastar tempo pensando num outro título e roubei esse que está aí em cima do post do meu colega de blog.

Mas me dêem um desconto, não foi só por sovinice. O título não poderia ser mais apropriado para o tema, que muitos vão chamar de sovina, afinal, trata-se de um manifesto contra as gorjetas.

Isso mesmo, eu sou tão pão-duro que, apesar da crise de segurança no Rio e do início paralisado de um novo-velho governo, eu decidi escrever contra as gorjetas e canalizar na minha direção o ódio de garçons, entregadores e manobristas.

Um exemplo. Na noite de um sábado preguiçoso o cidadão decide pedir um rango chinês em sua casa. Qual a razão de dar a famosa “caixinha” pro moço da motocicleta se a moça do telefone já avisa o preço assim: “São 28 reais incluindo a taxa de entrega”. Isso quer dizer que o serviço da entrega está incluso no preço total e, portanto, o chapa da moto não está lhe fazendo nenhum favor. Daí o título ser tão apropriado. Não existe almoço grátis, assim como não existe entrega grátis.

Tudo isso para dizer que o mundo é cruel. Desconfie se alguém lhe oferece um benefício ou um favor. Noventa e cinco por cento das vezes esse favor será cobrado de você, pode não ser imediatamente, pode não ser em dinheiro, mas será. Basta apenas sentar e esperar a estocada.

E os famigerados flanelinhas então? Quem gosta de futebol já está acostumado. “Aí patrão, deixa uma cerveja que a gente olha o carro pro senhor”.

O problema é que na maioria das vezes a exigência da qualidade da cerveja é bem alta, tipo uns dez reais, e o pagamento, ao contrário do que acontece na maioria das demais transações, tem que ser feito antes da entrega do “serviço”, que eu prefiro chamar de extorsão, afinal “se o senhor não quiser pagar a opção é sua, mas aí a gente não se responsabiliza se acontece alguma coisa com o seu carro”.

Eu já fui ingênuo, admito. Uma vez, quando era estudante do ensino fundamental, estava em um ônibus com amigos. Apareceu um cara oferecendo balas de hortelã da Garoto. Ele a estendia para o passageiro e dizia “cortesia”.

Não tive dúvida, agradeci, peguei a bala e guardei no bolso. Meus amigos, às gargalhadas, explicaram que o cidadão vendia aquilo a 50 centavos, na época, e que ele estava querendo me vender, não me dar a guloseima.

Foi quase um divisor de águas. Naquele dia comecei a entender que as pessoas oferecem com um sorriso e cobram com expressão sisuda. Que ninguém dá nada de graça para ninguém, que, de novo, não existe almoço grátis.

Voltando às gorjetas. Que sentido tem a pessoa dar “caixinha” na hora de pagar a conta, se os 10 por cento referentes ao serviço geralmente vêm incluso e, quando insatisfeito com o serviço, o cliente se recusa a pagar a taxa e ainda ouve um “da próxima vez então você pega o chopp no balcão”, como já aconteceu com esse blogueiro num badalado bar paulistano.

Em que momento da vida os famigerados 10 por cento passaram a ser uma obrigação? Mas, meu caro, já diziam Friedman e Cherobas (de quem o sovina que vos fala roubou o título), não existe almoço grátis, e há até quem diga que o tal percentual é uma malandragem dos donos de bares e restaurantes para pagar menos ordenado aos garçons.

Certa vez, numa viagem com a turma recém-formada no colégio no início do século, fomos a uma pizzaria. Como todo mundo carregava pouco dinheiro, anunciamos na entrada do restaurante que não pagaríamos os 10 por cento de serviço. O atendimento foi uma porcaria, o que me faz pensar: se a profissão do cara é servir, ele não deve receber um salário para servir e não um salário para não fazer nada e servir apenas quando vislumbrar a chance de ganhar os tais 10 por cento.

Mas, por mil demônios, não existe almoço grátis! E até mesmo quando você paga o almoço tem de incluir um adicional para garantir que o cozinheiro ou o garçom não cuspa no seu bife.

E nos postos de gasolina. “Comprando óleo em nosso posto a troca é grátis”. Uma pinóia! Vai ver quanto os caras cobram o litro do óleo e compara com o preço no varejo. Eu insisto em insistir. Não existe almoço, nem troca de óleo, grátis.

Até mesmo quando as pessoas fazem caridade, muitas vezes estão de olho na dedução do imposto de renda.

Portanto, caro leitor, pode até me chamar de mesquinho, pão-duro, sovina, avarento e o que mais quiser, só não brigue com os fatos. Por trás de um sorriso, na maioria absoluta das vezes, há uma mente perversa pensando em como tirar uma fatiazinha a mais do seu suado dinheirinho. Definitivamente, não existe almoço, nem bondade, grátis.

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1 Comentário so far
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hehehehe bacana o blog, cara…

Comentário por Gustavo




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