Domínio Público


Lula e a segurança by Gerson Freitas Jr.
12 janeiro, 2007, 3:40 pm
Filed under: Gerson Freitas Jr., política, sociedade

De Luiz Inácio Lula da Silva, em seu discurso de posse, sobre a onda de violência que tomou o Rio de Janeiro na última semana de dezembro e culminou na morte de pelos menos 20 pessoas, entre as quais vários civis:  “Eu estou convencido de que o que aconteceu (…) é resultado de um processo de degradação da estrutura da sociedade brasileira, causada, quem sabe (?), pela perda de valores, quem sabe por problemas que precisam ser resolvidos a partir de dentro da nossa casa, porque é preciso que a família brasileira seja a base, o alicerce (…). Se dentro da família houver desagregação, se pai e mãe não se entenderem, se filho e pai não se entenderem, tudo vai ficar mais difícil, e não será a polícia que vai resolver.”

Não é de um padre, um pastor ou qualquer religioso bem-intencionado, preocupado com a preservação dos valores familiares, ou ainda de uma velhinha conservadora que se limita a dividir as pessoas entre boas e más. É do presidente da República a avaliação acima. E, cabe lembrar, não se tratam dos crimes domésticos ou passionais que temos acompanhado com algum destaque e intrigante curiosidade nos últimos meses. Trata-se de uma onda de violência organizada que há muito tomou conta das favelas do Rio de Janeiro, como de São Paulo, Espírito Santo, Salvador e outras grandes cidades, e agora ameaça a “sociedade”. Uma onda de violência que desceu do isolamento do morro e agora mostra no asfalto a dura face do tráfico de drogas, das armas e da marginalidade, antes circunscrita a uma parcela da população que, oras bolas, não passava de um bando de favelados.

Mas não é essa a visão do presidente, para quem a solução do problema passa, mais uma vez, por um auto-exame de consciência coletiva. “O que vai resolver o problema é cada um de nós voltar os nossos olhos para o que aconteceu no Rio de Janeiro e não ficar culpando o governo do estado, não ficar culpando o Presidente da República ou o prefeito da cidade (…)”, Ah, claro! Afinal, afirma Lula, o que está acontecendo é resultado de “erros históricos acumulados por toda a sociedade brasileira”. Por isso, cabe à “sociedade como um todo assumir a responsabilidade de ajudar os estados, os municípios e o governo federal a encontrar uma solução definitiva”.

Pobres coitados esses governadores, prefeitos e o Presidente que, além de terem de lidar com traficante incendiário, também levam nas costas a culpa do povo, esse ingrato povo, de cidadãos que não têm dinheiro para blindar seus carros, quando os têm, que entram em um ônibus e correm o risco de morrer queimados na linha vermelha. Pobres coitados os nossos políticos, que só fizeram segregar milhões de pessoas em grandes periferias ao longo das últimas décadas, e agora são encostados na parede. Quem poderia prever que, dali, dos simpáticos e folclóricos morros, da lama e do esgoto a céu aberto, onde o Estado nunca pôs o pé, daquele povo feio e sem educação, uma turma de malandros financiados pela classe média intelectualizada fosse emergir e impor seu domínio?

Agora, de fato, “não será a polícia que vai resolver”. Também não será a Força Nacional de Segurança, nem o exercito, nem a Otan. Afinal, não se trata mais de um problema de segurança pública e nem de uma ameaça terrorista. A crise aqui, caro leitor, é outra; é a crise da falta de Estado. E quando faltam o Estado e suas instituições, outras forças surgem para tomar o poder e estabelecer alguma ordem – primeiro nos morros e, agora, nas cidades. Nada mais justo, não?

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