Domínio Público


Enxame de mosquitos by Gerson Freitas Jr.
16 janeiro, 2007, 1:58 am
Filed under: Gerson Freitas Jr., Uncategorized

Tenho certeza de que você nunca tinha ouvido falar de Muriaé há questão de dias. Exceto se 1) você é um muriaense, 2) vive na Zona da Mata mineira, 3) já viajou de carro para a Bahia e foi obrigado a parar na cidadedizinha a qual só se tem acesso pelas pequenas e velhas pontes levantadas sobre o rio de mesmo nome ou 4) é um amigo deste que lhe escreve.

Descartemos as três primeiras hipóteses. Não, você certamente não vive lá, nem nas redondezas, e duvido muito que tenha ido de carro para a Bahia e ainda se lembrado de todas as cidades de nomes gozados por onde passou.

Não apenas por eliminação, consideremos a quarta como mais provável. Afinal, cá entre nós, se você acessa o Domínio às terças-feiras, é que porque tem alguma relação de amizade e companheirismo com o titular do dia.

Muriaé é um nome indígena, dado pelos puris que viviam lá há quase dois séculos. Quer dizer “ter sabor de cana doce”. Pelo menos, é o que dizem os registros históricos. Meu pai sempre contava, como fervor e riqueza de detalhes, uma história um pouco diferente. Muriaé teria vindo de Muriaí, nome indígina que significaria “enxame de mosquitos”. Meio sórdido, eu sei, mas é o que ele conta: o colonizador teria chegado à região e encontrado, rodeada por índios, uma pessoa morta. “Muriaí, Muriaí!”, exclamaram os nativos para explicar a causa da morte. Daí o nome da cidade, versões oficial e paterna. Não sobrou nenhum puri para tirar qualquer dúvida.

Talvez o português em questão seja Constantino José Pinto, que lá desembarcou com quarenta homens em 1817 para comercializar ervas e raízes medicinais (será que foram as ervas que eliminaram os pobres puris?) . De repente, nem mesmo era o patrício, e sim o francês Guido Tomáz Marliére que, dois anos depois, ergueu uma pequena capela até hoje de pé no charmoso Largo do Rosário. Talvez não tenha sido nenhum dos dois e meu pai tenha me enganado o tempo todo.

Talvez pelo doce da cana e a despeito dos enxames de mosquitos, a região prosperou e, em 1841, tornou-se um distrito sob o nome de São Paulo do Muriahé. Em 1855, foi elevado à condição de Vila de São Paulo do Muriahé e, finalmente, 11 anos depois, transformou-se em uma cidade. Conheceu o trem no final do mesmo século, a luz em 1910, os serviços de água e esgoto no ano seguinte e o telefone em 1913. Um progresso de dar inveja.

Muriaé, hoje com quase 100 mil habitantes, é também a cidade de meus pais. Do lado da minha mãe, uma família de 14 irmãos de olhos verdes, criados todos na vida dura da roça pelos pais descendentes de portugueses e espanhóis. A dona Josélia ia à cidade uma vez no ano quando era criança, “no que era o dia mais feliz do ano”, conta. Com meus avós, visitava a Dona Guilhermina, uma senhora que até hoje não assiste TV por ser “coisa do diabo”,  com seus sete filhos homens “mal educados, dados a falar palavrão”.

Eram pobres, viviam de roubar frutas no pomar alheio, correr descalços sobre as pedras pontiagudas que ainda calçam as ruas e saltar da ponte no rio Muriaé, muitas vezes para fugir da polícia.  De tanto falar mal, Dona Josélia acabou casando com um deles e vindo para São Paulo.  Pagou a língua. Teve quatro filhos, dos quais um aqui escreve.

 E conta essa pequena história para que você não se recorde de Muriaé apenas como uma das três cidades mineiras que apareceram no Jornal Nacional por causa da destruição causada pelos bilhões de litros de lama despejados no rio Muriaé por uma mineradora da região. Mas que se lembre do doce da cana, do enxame de mosquitos, dos puri, da Dona Josélia e da Dona Guilhermina.

Afinal, debaixo da lama e da irresponsabilidade, ainda há muita memória.

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5 Comentários so far
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Fico cada vez mais impressionada com o rumo que este blog vem tomando…É ótimo saber que tenho jornalistas (na verdade, acho que já os classificaria como escritores) tão brilhantes como amigos…os textos estão cada vez mais inteligentes e mais sensíveis. Este seu mereceria um 10 do meu professor de Jornalismo Literário!

Comentário por Cylene

Cara, gostei muito da história.
Antes de ouvir as reportagens do Jornal Nacional, com certeza eu vou me lembrar da história do Seu Gerson e da Dona Josélia.
Um grande abraço!

Comentário por Lemos

Gerson, achei muito interessante a história de Muriaé…Mesmo porque aparece alí um Constantino,rs…É bom lembrar-mos que Muriaé não é só lama…
Existe uma uma história contada por pessoas que por lá passaram…
Devo dizer-lhe a versão da minha cidade natal também é muito peculiar…
Digo de “QUATÁ” nome originário dos macacos Quatís,rsrsrs…
Abraços…

Comentário por Gerson Constantino

Tenho mto orgulho de ter um irmão tão inteligente e tão especial… Sua sensibilidade literária é algo surpreendente… fascinante…
E Muriaé é um lugar que simplesmente me encanta (tanto quanto nosso pai)…
Viva o enxame de mosquitos!!!!
Todos sintam-se convidados a experimentar o dulçor deste lugar tão pitoresco…
Bjos, qrido

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Lamentavelmente este lugar pitoresco tem sofrido o ataque cruel da especulação imobiliária. “… a força da grana que ergue e destroi coisas belas” está demolindo lindo casarões do início do século por omissão e estímulo de um prefeito sem sensibilidade e ditador. Nada adianta o Conselho de Patrimônio tentar proibir e protestar; a força da caneta do executivo sempre fala mais alto. É lamentável.

Comentário por João Carlos Vargas




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