Domínio Público


E Agora, George? by Eduardo Simões
17 janeiro, 2007, 3:03 pm
Filed under: Eduardo Simões, Eleição norte-americana, guerra, internacional, política

Imagine o seu Epaminondas. Pensando em conseguir dinheiro rápido para comprar um apartamento, ele colocou parte de suas economias em ações de uma única empresa que, dizia-se, tinha enorme potencial de crescimento. Não foi bem o que aconteceu, a companhia enfrentou dificuldades e, mesmo no longo prazo, o dinheiro de seu Epaminondas foi sumindo sem perspectiva de recuperação.

Agora vamos pensar no seu Noronha, um cara doido por pescaria. Certo fim de semana ele saiu para pescar. Três horas da manhã estava de pé, arrumou as coisas, entre elas um saco cheio de camarões para isca, e partiu animadíssimo para um local onde, segundo amigos, peixes enormes e ingênuos seriam presa fácil em seu anzol. Pode ou não ser azar de pescador, mas seu Noronha começou a desperdiçar isca atrás de isca com peixes de tamanho insignificante.

O que o bom senso manda seu Epaminondas fazer? Resgatar o que ainda lhe sobra enquanto é tempo. O que o bom senso manda seu Noronha fazer? Desistir da pesca fadada ao fracasso, colocar os camarões na geladeira para serem usados em um local realmente quente para o esporte ou num bobô.

Em vez disso, seu Epaminondas decide lançar mão de mais recursos e adquirir mais ações da tal empresa, vai na contramão do mercado. Em vez disso, seu Noronha corre ao armazém mais próximo, compra mais iscas e insiste na pescaria.

Eles estão errados? É bem provável, mas estavam apenas seguindo a lógica do líder do mundo livre. Ele mesmo, o homem que decide enviar mais 21.500 soldados ao Iraque, mesmo diante de uma guerra (lá vem uma redundância) equivocada e estúpida na qual seu país está –no popular– levando um couro.

Certamente foi inspirado nisso que seu Epaminondas decidiu torrar suas economias e seu Noronha decidiu lançar, em vão, camarões ao mar. Assim como Bush vai na contramão da lógica e do bom senso, os dois também decidiram nadar contra a correnteza.

Talvez o raciocínio do presidente do país mais poderoso do mundo seja mais simples. Se estamos perdendo, então vamos mandar reforços. Mas e se esses reforços não servirem? Se não forem o bastante? Mandaremos mais? Até quando? É isso que a “imensa” minoria de norte-americanos que ainda tem alguma crença no atual governo deve se perguntar todos os dias.

Mas, como dizem naquela divertida série mexicana: quem poderá nos defender?

Seria o senador filho de pai queniano que admitiu ter consumido maconha e cocaína na juventude ou a ex-primeira-dama traída? E do outro lado? Será que um colega de Bush pode resolver a situação? Se sim, seria o herói americano de setembro de 2001 ou o ex-prisioneiro de guerra no Vietnã?

Mas antes que isso seja resolvido pela decisão nem sempre sábia, aos olhos do resto do mundo, dos eleitores norte-americanos em 2008, a interrogação mais forte é: que saídas o texano que usou da influência da família para não servir no Vietnã vai inventar para sair do Iraque?

É quase consenso que, apesar de enforcamentos recheados de insultos e decapitações, ele não vai conseguir entregar um país harmonioso e pacífico e que a missão não será cumprida, como ele quis fazer acreditar após a queda de Saddam Hussein.

Parafraseando Drummond: E agora, George?

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2 Comentários so far
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Eu discordo dos que vêem a empreitada americana como um fracasso, pelo menos do ponto de vista das reais pretensões do governo Bush. Afinal, o que ele queria era derrubar o regime de Saddam e estabelecer um governo “democrático” aliado, em uma região estratégica. E isso foi alcançado, ainda que parcialmente e, talvez, provisoriamente.
Talvez as dificuldades sejam maiores e as baixas bem mais expressivas do que as esperadas, o que é difícil justificar para a opinião pública – assim como ainda não se justifica a própria invasão ao Iraque segunfo discurso proposto. Mas esses são ovos que precisavam ser quebrados diante do grande omelete que os EUA pretendiam fazer sobre o árido Oriente Médio.
Por fim, Bush não é o idiota que fazem crer ser. Quer dizer, idiota ele até é. Mas não é bobo.

Comentário por Gerson Freitas Jr.

Gerson, acontece que o governo pró-EUA do Iraque não é operacional. O país vive em guerra civil e os EUA não têm tirado nenhuma vantagem de um governo amigável a Washington. Além do mais, quando sair do Iraque os Estados Unidos deixarão para trás um país muito mais hostil contra si do que era o governo de Saddam Hussein. Saddam reprimia os extremistas islâmicos e isso era bom para os Estados Unidos, tanto que Washington apoiou Bagdá na guerra com o Irã. O que vai ficar no Iraqie, com a saída das tropas norte-americanas, será um país tomado por extremistas com a intenção constante de atacar interesses americanos na região.

Comentário por Lusa




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