Domínio Público


Quanto vale a sua mãe? by Daniela Moreira
19 janeiro, 2007, 12:37 pm
Filed under: Análise da Mídia, Daniela Moreira, Uncategorized

Quanto vale um membro da sua família? Família próxima, digamos seu pai, ou um irmão, por exemplo? Vamos lá, não seja tímido. Ninguém está te ouvindo. Nada de sentimentalismo barato, do tipo, “não tem preço”, estamos falando em cash, money, bufunfa, tutu.

Vou tentar ajudar o leitor com algumas dicas práticas. Calcule, por exemplo, quanto vale um almoço de domingo, aquela lasanha maravilhosa da sua avó, o queijo derretido, puxando do prato até a sua boca, cheia de água, aquele molho inigualável, o cheiro que você sente lá do portão quando vem entrando, tudo no ponto certo, e a torta suculenta de morango de sobremesa, a sua preferida, que ela fez com todo amor só pra você. Cem reais? Duzentos? Vamos lá, não seja pão duro! Afinal, é a sua avó!

E aquela tarde no parque com o seu pai? Aquele dia em que ele te ensinou a andar de bicicleta, desparafusando as rodinhas, segurando os seus ombros pra ajudar a achar o equilíbrio, e por fim o sorriso indisfarçavelmente orgulhoso no rosto quando finalmente você conseguiu dar as primeiras pedaladas. Quanto? Cem pela bicicleta? Tá, uns trezentos porque ele deixou de ir ao churrasco do patrão para enfrentar o parque lotado, sob um sol de rachar o coco.

Ou aquele dia que vocês sentaram no quintal fazendo a melhor pipa a já voar nos céus do seu bairro. A cola de farinha, o papel de seda colorido, preto e branco, as cores do time do coração, e a rabiola, perfeita. Sem cerol, ele ensinou, pode machucar alguém. E lá foi ela pro alto, linda, a mais linda a voar nos céus do bairro. Quanto? Dois reais pela seda, três pelos sacos de lixo, mais um pela linha. Uns dez reais?

Agora escolha uma irmã, vai. Quanto vale aquele dia que você ficou com medo do escuro à noite e ela segurou sua mão até você dormir? E aquela tarde, a única na história da sua existência, em que ela deixou você ganhar no Cara-a-Cara porque você estava com catapora e não podia sair na rua pra brincar? Uns 50 paus?

E sua mãe? Essa vale bastante, hein? Pense bem… Quanto pelas noites em claro esperando você voltar da balada? E pelo chazinho de mel com limão levado na cama a cada resfriado? Quando por aquela palavra dura que te fez voltar à linha nos dias de abuso? E pela palavra de carinho mesmo quando você sabe que fez a maior cagada do mundo? Quanto vale aquele conselho sempre infalível – toda mãe é meio meteorologista – de levar o guarda-chuva bem nos dias que caem os maiores pés d’água? E quanto vale aquele sorriso, as lágrimas de felicidade, no dia da sua formatura? Quanto vale aquele beijo no rosto e o “vai com Deus” que te acompanham na saída para o trabalho todos os dias? Mil reais por todo o pacote?

Ah, caro leitor! Sejamos objetivos, por favor! Quanto você aceitaria receber de volta caso um belo dia um ente querido fosse, digamos, tragado por um buraco no meio da rua, por exemplo? Quanto vale uma vida? A vida do seu pai, da sua avó, do seu irmão, ou da sua mãe? Trinta mil reis? Tem gente que não se contenta com nada… Cem mil e não se fala mais nisso.

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2 Comentários so far
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Chocante, né??… certas coisas não se misturam. Definitivamente.

Comentário por Silvia

Caramba, excelente o texto!
Quando eu vi a primeira notícia da indenização fiquei pensando que o pior é que deve sim ter uns “familiares’ que estão vendo um lado positivo $$ nessa história toda… O mundo tá ficando triste

Comentário por Thais




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