Domínio Público


Ensaio sobre um (quase) suicídio by Gerson Freitas Jr.
25 janeiro, 2007, 2:05 am
Filed under: Gerson Freitas Jr.

Faltam exatos 15 minutos para as dez horas. Se tiver sorte, se tudo conspirar a favor, chego ao Brás a tempo de pegar o trem das 09h55.  Mais 20 minutos, com sorte e tudo a favor, chego ao compromisso marcado com um atraso não tão difícil de justificar. Jogo lá uns 20 minutos a mais no trabalho, uns 15 de atraso do ônibus, uns dez por causa do trânsito e tenho uma bela desculpa a dar a quem já está de braços cruzados me esperando.

Por enquanto, vou bem. Saio da Barra Funda de metrô, que encostou logo depois de eu colocar o pé na plataforma – golpe de sorte. A primeira parada não consome mais que 15 segundos, já é tarde e não há razões para atrasos. Acho que vou conseguir. Estamos parando na Santa Cecília, estação que eu adoro. A composição reduz a velocidade e, de repente, sentimos o tranco. A máquina pára bruscamente, as luzes logo se apagam, os olhos correm para o relógio, e a cabeça já começa a refazer os cálculos. Falta de energia é sinônimo de atraso. Resta apenas saber quanto.

De repente, a voz do alto-falante anuncia e dá o veredicto. A viagem está interrompida por tempo indeterminado. Há uma pessoa nos trilhos.

“Esse já era”, ouço, ao que alguém logo responde. “Não é hoje que vamos sair daqui”. Possivelmente. Já não me preocupo mais. Agora, os olhos voltam-se é para fora, à busca de algum movimento, alguma explicação.  Uns querem ir embora logo e cuidar de suas vidas, que ainda as tem, azar de quem tinha e não quis. Outros, entre os quais me incluo, são tomados pela curiosidade. Saio do trem e corro para o piso elevado, onde alguns já se aglomeram. O acesso à plataforma que assistiu à fatalidade já está isolado. De luvas brancas, alguns bombeiros correm rumo ao local, enquanto funcionários tentam em vão conter o alvoroço dos observadores.

A mão desliza sobre o bolso onde se encontra o telefone. Penso: “Tenho uma história nas mãos, em primeira mão. De repente, me recordo ter ouvido em algum momento há muito tempo que os jornais não publicam sobre mortos nos trilhos do metrô. Meio frustrado, observo o resgate, à distância, enquanto cai a ficha. Vida importante mesmo, só a nossa! Com a dos outros a gente não está nem aí. Uma pessoa está ali, possivelmente morta, e os vivos em volta se dividem entre os que não vêem a hora de tudo isso acabar para seguirem viagem e os que apenas querem uma história para contar, indiferentes e cínicos.

Começo a pensar naquele senhor, cinqüenta e poucos anos, rosto desfigurado. O que o levara a saltar? Talvez o desemprego, talvez a solidão, talvez um coração partido, uma doença sem cura. Talvez nada disso e, realmente, pouco importa. Para aquele homem, apenas não valia mais a pena esperar pela morte, não mais valia acordar todos os dias e se ver cercado pelos problemas, tristezas, inseguranças, ansiedades e sofrimentos que cercam os corpos e mentes dos que aqui vivem. Sim, pois as assolações miram o corpo que, para uns, assemelha-se a uma prisão. Para eles, a morte é um vislumbre de liberdade.

“Como alguém tem coragem de fazer isso?”, acusa, indignada, uma mulher ao meu lado. Não sei, mas é uma atitude corajosa. Sim, corajosa! Ou alguém aí arriscaria dizer que a saída mais fácil é apertar o gatilho contra a própria cabeça?

Certamente não! Fomos dotados de apego pela vida, pelo corpo que nos abriga todos os dias, ao longo dos anos que, arrisco, por muitos e tribulosos que sejam, sempre serão insuficientes e desejados. Desapegar-se de tudo isso também é um ato de coragem, ainda que alimentada pelo desespero e até, veja o paradoxo, o medo de seguir em frente.

Mas a Santa Cecília não foi a última estação do anônimo suicida. Talvez por que o acaso o protegera, talvez por que Deus quisera dar-lhe uma segunda chance, aquele homem sobreviveu para ver novos dias, acompanhados de problemas, tristezas, inseguranças, ansiedades e sofrimentos, os que cercam os corpos e mentes dos que aqui vivem. Voto sincero, que opte por viver…

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2 Comentários so far
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Grande Gerson Júnior….

Acho que eu que te falei que os jornais não publicam…hahaha… muit bom, meu caro…

Um grande Abraço!

Comentário por Diego Bonel

Oi, meu querido!

Texto lindo, mas não concordo que suicídio seja um ato corajoso. É fugir dos problemas, ter vergonha se si mesmo, é não ter força o suficiente para reverter uma situação que à priori é impossível reverter. Corajoso é aquele que se levanta intacto depois de cada queda. Corajoso é sempre achar um atalho numa mata fechada. É sorrir enquanto adoece. É vencer enquanto todos esperam a sua derrota. Isso sim é coragem!

Um bjo grande e saudades!!!!!
Loira

Comentário por Suzana Inhesta




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