Domínio Público


Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte I) by Domínio Público
26 janeiro, 2007, 5:42 pm
Filed under: Silvia Noara Paladino

Sentada em minha cadeira de praia, sem perder a mania de afundar meus pés na areia clara e macia, tenho olhos apenas para o mar verde escuro, por instantes indeterminados. Moldado por ondas pacíficas, que desenham contornos brancos passageiros por toda parte, o aquário gigante passa a impressão de ser inofensivo. No verão, geralmente é assim. O mar revolto, que ora me força a recuar, ora me puxa pelos pés em direção a suas armadilhas, parece dar uma trégua. Os surfistas não se mostram muito satisfeitos com a calmaria temporária das águas. Mesmo assim, eles compõem uma fila horizontal de pranchas, paralela à linha do horizonte, que acompanham o movimento das ondas.

Vinte e quatro. Essa poderia ser a quantidade de vezes em que regressei a esse exato momento, se eu não levasse em conta detalhes que formam noites e dias distintos, a cada nascer e pôr-do-sol. Eles são os navios que estão a caminho ou de partida do Porto de Santos, as placas de “perigo” que os salva-vidas enterram na areia para orientar os banhistas e os vizinhos de guarda-sol. Vinte e quatro, contudo, são o número de anos em que me arrependo de ter esquecido os chinelos ao queimar as solas dos meus pés nessa areia. Vinte e quatro também poderia ser o número de ocasiões em que me lamentei por não ter usado protetor solar, de livros começados, de cantadas ruins, de machucados provocados por trombadas e chutes no futebol de areia – meninas adoram a idéia demoníaca de desafiar os meninos a qualquer custo –, e de mergulhos sob a Lua.

Se por um lado as contas de perdem, por outro eu reconheço melhor a mim mesma quando reencontro minhas lembranças de tanto tempo. Há quem diga que a Praia do Tombo (Guarujá, São Paulo), conhecida pelas fortes ondas que hoje abrigam importantes campeonatos de surf, se revoltou quando, na época do Brasil colonial, escravos eram aprisionados nas grutas das encostas do morro e, depois, lançados ao mar. A amargura parece, no entanto, uma tática defensiva de um soldado impalpável, que adormece de olhos abertos para vigiar o seu espaço.

A aparência de quem apenas observa o que acontece ao redor, protegido por armas feitas de silêncio e mistério, contudo, já não me convence. A inconstante movimentação da maré, de acordo com seu temperamento e humor em relação aos ventos, pode parecer natural. Ela vem e volta, mas vem muito mais do que volta. Lembro de quando era criança e meus passos quase não alcançam as ondas que quebravam na areia. As pernas eram curtas, é verdade. Embora elas não tenham se alongado muito mais, sei que o meu caminhar não foi o único que mudou. O mar também deu seus passos, sem que a multidão percebesse.

Nesse meio tempo, vejo que o “Mano” continua a vender suas raspadinhas aos sábados e domingos, depois de uma semana inteira de trabalho como estivador no Porto de Santos. O Mano é evangélico, por isso não vende raspadinha com vodka, somente o suco com gelo mesmo. Já o tio do biscoito de polvilho – um senhor baixinho, de uns 60 anos, vestido sempre de calças compridas e sandálias de tiras largas – inventou algumas músicas novas para chamar atenção nesse verão. Para eles, o crescimento descontrolado do Guarujá encheu a praia de novos turistas e, conseqüentemente, de dinheiro. Talvez não tenham percebido como a descoberta em massa da cidade de belas praias sobrecarregou as águas, os morros e mangues, provocando cortes de eletricidade, falta de água, pobreza e poluição por todos os cantos.

Ingenuidade a minha em achar que a ocupação desenfreada das outras praias do Guarujá, encobertas por guarda-sóis que se amontoam ao longo de um morro a outro, não chegaria ao Tombo. Em pouco menos de um quilômetro de extensão entre os morros que delimitam a praia, custo para encontrar um espaço ao sol, bem perto da água, sem que os amadores do frescobol, do vôlei, do futebol e dos castelinhos de areia me atropelem.

E se o mar já tinha o temperamento furioso, agora nem se fale. Mal consegue ser ouvido! Desacreditado, procura entender como uma rave – aquelas festas de música eletrônica que geralmente acontecem em sítios e outros lugares mais isolados –, vai parar em um dos cantos da praia, sob o sol do meio-dia. Meus olhos também não acreditam em meus ouvidos, incapazes de abstrair o som repetitivo que vibra no meu cérebro. Como se não fosse o bastante, do outro lado da praia, em um bar encostado ao morro, o som alto também se alastra até onde estou. Pagode. É quando percebo que as canções do mar tornaram-se coadjuvantes em uma peça de atores fajutos, de enredo sem conexões, de público cego e surdo.

Confesso que a irritação me faz parecer uma senhora que não aceita muito bem essas coisas da modernidade, como o biquíni fio dental, o beijo de língua em público, o sexo sem pudores. “Ah, os velhos tempos…”, como já diria minha avó (acho que todas as avós do mundo, na verdade).

A movimentação dos turistas mais animados continua durante a noite. Enquanto alguns seguem para o show do Jamil (a moda eleita para esse verão) ou de DJs internacionais com apresentações marcadas no Hotel Casa Grande e em outras baladas, na praia da Enseada, decido passar pelo Tombo. No quiosque ao lado do posto dos salva-vidas, bem ao centro da praia, vejo que existe uma única mesa vazia. Um dos garçons comenta que tem trabalhado todo dia até umas 4h da manhã. “Mas é bom, tem que aproveitar agora, que tem bastante gente!”, comemora ele, enquanto peço o chope que ainda não veio pela terceira vez.

Iluminada de ponta-a-ponta pelos holofotes e, na maior parte das noites, pela Lua, a Praia do Tombo arranca suspiros. Em um cenário de filme romântico, daqueles em que sempre há um drama avassalador para convencer a platéia de que amar é sofrer, casais poderiam criar seus finais felizes na areia, andando de mãos dadas na beira da água, caso o mundo acabasse. Mas prefiro observar de longe, do plano real, satisfeita por ser apaixonada mesmo é pelo mar. E aí, não existe final.

Infelizmente, os sinais de que o silêncio e os encantos da noite amenizam o caos do verão, por alguns momentos, perdem-se no amanhecer do novo dia.

Leia também a segunda e a terceira parte dessa história.

Anúncios

2 Comentários so far
Deixe um comentário

[…] aqui para ler a primeira parte dessa […]

Pingback por Se ninguém falar de coisas interessantes (Parte II) « Domínio Público

[…] também a primeira e a  segunda parte dessa história. Explore posts in the same categories: Silvia Noara […]

Pingback por Se ninguém falar de coisas interessantes (parte III) « Domínio Público




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: